{"id":1116,"date":"2012-03-31T11:26:00","date_gmt":"2012-03-31T11:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=1116"},"modified":"2024-03-29T12:52:08","modified_gmt":"2024-03-29T12:52:08","slug":"educando-em-tempos-de-memoria-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/03\/31\/educando-em-tempos-de-memoria-digital\/","title":{"rendered":"EDUCANDO EM TEMPOS DE MEM\u00d3RIA DIGITAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\"><strong>EDUCANDO EM TEMPOS DE MEM\u00d3RIA DIGITAL: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>a enciclop\u00e9dia audiovisual Qwiki<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/digital-memory.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"1117\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/03\/31\/educando-em-tempos-de-memoria-digital\/digital-memory\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/digital-memory.jpg?fit=566%2C800&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"566,800\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"digital-memory\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/digital-memory.jpg?fit=566%2C800&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1117\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/digital-memory.jpg?resize=212%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"digital-memory\" width=\"212\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ednei de Genaro (2011)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align:justify\"><span style=\"text-decoration:underline\">Artigo apresentado no V Simp\u00f3sio Nacional ABCiber (2011):<\/span><\/li>\n<li style=\"text-align:justify\"><span style=\"text-decoration:underline\">Download do artigo em *.pdf:<\/span><strong>\u00a0<span style=\"color:#0000ff\"><a style=\"color:#0000ff\" href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/abciber_genaro-2011.pdf\">ABCIBER_Genaro (2011)<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<h1><\/h1>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u2018Nova revolu\u00e7\u00e3o nas ferramentas de busca\u2019, \u2018enciclop\u00e9dia narrada do futuro\u2019; \u2018ferramenta para ser t\u00e3o poderosa quanto o Youtube, Google, Wikip\u00e9dia\u2019; \u2018uma promessa de revolu\u00e7\u00e3o no ambiente de experi\u00eancia multim\u00eddia\u2019. Estas s\u00e3o apenas algumas das variadas descri\u00e7\u00f5es deslumbrantes e virais de blogs e sites comentando acerca da inova\u00e7\u00e3o da empresa de software <em>Qwiki<\/em>; descri\u00e7\u00f5es, na verdade, triviais, no corriqueiro mundo das novidades e imagin\u00e1rios da cultura digital.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A ferramenta Qwiki (<a href=\"http:\/\/www.qwiki.com\/\">www.qwiki.com\/<\/a>) \u00e9 uma nova ferramenta <em>search engines<\/em> dos inovadores de Palo Alto, em S\u00e3o Franscisco. Lan\u00e7ada ao p\u00fablico em janeiro de 2011, em vers\u00e3o \u201cAlpha\u201d, Qwiki se apresenta como uma esp\u00e9cie de enciclop\u00e9dia mult\u00edmidia, ganhando o pr\u00eamio da <em>TechCrunch Disrupt<\/em>, que seleciona anualmente os melhores <em>startups<\/em> da economia digital. Caso esta empresa venha a ter realmente sucesso comercial ou n\u00e3o, pouco importa. Qwiki pode ser caracterizada como a primeira empresa a tentar criar e disseminar <em>v\u00eddeos-robots<\/em>, a partir das informa\u00e7\u00f5es dispostas em sites comerciais e colaborativos da internet. Segundo o pr\u00f3prio \u201cbord\u00e3o\u201d disposto na entrada do site, \u201c<em>Qwiki&#8217;s goal is to forever improve the way people experience information<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup><\/a>. A novidade do site \u00e9 a seguinte: segundo seus desenvolvedores, a plataforma digital Qwiki trabalha com tecnologia de intelig\u00eancia artificial, de modo que, a partir de uma palavra-chave oferecida pelo usu\u00e1rio-humano, a plataforma cria sempre instantaneamente uma apresenta\u00e7\u00e3o audiovisual \u2013 sem dispor, portanto, de um banco de dados de v\u00eddeos como armazenamento pr\u00e9vio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No intuito de realizar uma breve an\u00e1lise desta inova\u00e7\u00e3o digital, iremos, em um primeiro momento, discursar sobre a expans\u00e3o da mem\u00f3ria digital na cultura contempor\u00e2nea, evidenciando algumas importantes consequ\u00eancias na cultura, como um todo, e no campo educacional, em particular. Seguiremos, ap\u00f3s, com uma perspectiva para pensar a quest\u00e3o a partir de Bernard Stiegler, uma vez que este nos oferece importantes articula\u00e7\u00f5es conceituais a respeito. Por fim, estabelecemos uma an\u00e1lise e debate da ferramenta Qwiki, tecendo ent\u00e3o algumas considera\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>MEM\u00d3RIA DIGITAL E CULTURA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O uso intensivo de plataformas digitais e o excesso de informa\u00e7\u00f5es alcan\u00e7am hoje novos h\u00e1bitos e agenciam, sobretudo, novas aberturas e problemas para pensar as individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas. A incid\u00eancia das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o na sociedade vem repercutindo na altera\u00e7\u00e3o das maneiras de viver, conhecer e comunicar, evidenciando, assim, a necessidade de encontrar novos modos de pronunciar sobre a pol\u00edtica e a cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os processos de digitaliza\u00e7\u00e3o abriram um leque de quest\u00f5es novas para as ci\u00eancias, artes, pedagogias, que, irremediavelmente, n\u00e3o podem ser bem esclarecida a partir do cl\u00e1ssico discurso que pensa a rela\u00e7\u00e3o homem e t\u00e9cnica como dualista e antropoc\u00eantrica \u2013 e, t\u00e3o logo, pouco aberta para um entendimento aprofundado da conting\u00eancia que liga as individua\u00e7\u00f5es t\u00e9cnica, ps\u00edquica e coletiva em um mesmo plano de reflex\u00e3o. Ora, esta atitude nos parece importante uma vez que foge das vis\u00f5es que acabam antecipando as explica\u00e7\u00f5es em termos de \u201cdeterminismos\u201d, \u201ctecnofilismos\u201d ou \u201ctecnofobismos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Pois bem. Nunca as formas de extrair, estocar e distribuir os conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es estiveram t\u00e3o complexas. Tal fato veio a movimentar intensamente as formas de pensar e constituir o universo s\u00f3cio-t\u00e9cnico. Com a informatiza\u00e7\u00e3o da sociedade, o mundo ficou solicito a um \u201cesp\u00edrito de performatividade generalizado\u201d (LYOTARD, 1989). A maquina\u00e7\u00e3o do saber acarretou importantes quest\u00f5es para Lyotard, no livro <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>: \u201cQue sujeito est\u00e1 com o saber?\u201d; \u201cQuem transmite?\u201d; \u201cCom que suporte se comunica?\u201d. Seu parecer foi alarmante: a informa\u00e7\u00e3o mudou o antigo princ\u00edpio de aquisi\u00e7\u00e3o do saber que predominava no s\u00e9culo XIX, baseado na unidade narrativa, da forma\u00e7\u00e3o cultural \u201cplena\u201d, em que os rom\u00e2nticos alem\u00e3es exprimiam com a palavra <em>Bildung<\/em>. \u201cSuportar o incomensur\u00e1vel\u201d na investiga\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o do saber seria a condi\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel dos indiv\u00edduos em meio ao predom\u00ednio de enunciados perform\u00e1ticos no mundo contempor\u00e2neo (<em>idem<\/em>, p.43).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A mem\u00f3ria oral e a escrita compreendiam espec\u00edficas fun\u00e7\u00f5es espa\u00e7o-temporal, cognitiva, nas quais estruturavam as informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos: a mem\u00f3ria oral, sinteticamente, dentro de um limitado espa\u00e7o <em>org\u00e2nico<\/em>, <em>geracional<\/em> e <em>m\u00edtico<\/em>; e a mem\u00f3ria escrita: dentro de um ilimitado espa\u00e7o <em>societal<\/em>, <em>racional<\/em> e <em>livresco<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a>. Contudo, com a ascens\u00e3o das mem\u00f3rias anal\u00f3gicas e, principalmente, da mem\u00f3ria digital, ter\u00edamos desenvolvido um novo \u201ccurto-circuito\u201d nessas fun\u00e7\u00f5es oral e escrita (STIEGLER, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No momento de ascens\u00e3o da mem\u00f3ria escrita, Plat\u00e3o, no livro <em>Fedro<\/em>, foi quem primeiro expressou o questionamento filos\u00f3fico \u201cnegativo\u201d para o que veio a ser o conhecimento e a verdade a partir desta mem\u00f3ria. Resgatando o pensamento socr\u00e1tico, ele alertou que o registro escrito conferiria a pr\u00f3pria \u201cexpropria\u00e7\u00e3o\u201d do <em>logos <\/em>humano. O of\u00edcio de transmiss\u00e3o do conhecimento e verdade pela <em>escrita <\/em>apartaria as inst\u00e2ncias do <em>di\u00e1logo<\/em> \u2013 este o verdadeiro horizonte de \u201cgesta\u00e7\u00e3o\u201d dos saberes; e, com isso, rebaixaria o <em>logos<\/em> aos problemas do esquecimento e da incapacidade de um verdadeiro pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No Ocidente, a quest\u00e3o socr\u00e1tica, obviamente, nunca foi tomada t\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio ao ponto de se \u201cabandonar os livros\u201d; nem Plat\u00e3o, no final das contas, a tomou. Contudo, este diagn\u00f3stico alarmante sempre assentou reflex\u00f5es nos momentos de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e, consequentemente, de novas formas de <em>produ\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>processamento<\/em>, <em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>divulga\u00e7\u00e3o <\/em>das informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos. Assim, como todo grande argumento filos\u00f3fico, o argumento de Plat\u00e3o \u00e9 continuamente retomado e, hoje, cria um ambiente para in\u00fameras reflex\u00f5es<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup><sup>[5]<\/sup><\/sup><\/a>. Compreende-se que, na \u00e9poca de Plat\u00e3o, o horizonte de transforma\u00e7\u00e3o cultural a partir da mem\u00f3ria escrita estava na mudan\u00e7a de uma sociedade baseada na transmiss\u00e3o <em>presencial<\/em> (oral) para uma transmis\u00e3o <em>material<\/em> (escrita). O nascimento do que viemos chamar de <em>humanismo<\/em> tem ra\u00edzes nesta transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A mem\u00f3ria anal\u00f3gica e, sobretudo, a mem\u00f3ria digital (ou eletr\u00f4nica), cada vez mais auto-produzidas pelos engenhos\u00a0 s\u00f3cio-t\u00e9cnicos perform\u00e1ticos, estabelecem, portanto, <em>maquina\u00e7\u00f5es inform\u00e1ticas<\/em> nas sociedades. Isto \u00e9 o estopim para novas experi\u00eancias culturais em meio \u00e0s muta\u00e7\u00f5es capitalistas; e um desafio enorme para reformula\u00e7\u00e3o de discursos tradicionais das ci\u00eancias humanas. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, Ferreira &amp; Amaral (2004, p.134) destacam uma problem\u00e1tica central: \u201cfalar da mem\u00f3ria \u00e9 falar de uma certa estrutura de arquivamento que nos permite <em>experi\u00eancias socialmente siginificativas<\/em> do passado, do nosso presente e de nossa percep\u00e7\u00e3o do futuro\u201d. A faceta contempor\u00e2nea perplexa da <em>performatividade<\/em> da mem\u00f3ria digital estaria na sua <em>hiper<\/em>-capacidade, in\u00e9dita, de engendrar (des)individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas, agenciando fortemente os ambientes e valores sociais, \u00e9ticas, culturais. Assim, o <em>debate pol\u00edtico<\/em> sobre as ferramentas digitais se torna, evidentemente, crucial: <em>Quem produz? Por que produz? Como produz? &#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No s\u00e9culo XX, in\u00fameros autores n\u00e3o deixaram de apontar as consequ\u00eancias diversas e espantosas para a vida moderna, ao relacionarem o car\u00e1ter das mem\u00f3rias anal\u00f3gica e digital e os \u201cvalores humanistas\u201d. O fil\u00f3sofo Ortega y Gasset foi, certamente, quem mais se importou com a \u201cdecad\u00eancia\u201d provocada pela eleva\u00e7\u00e3o do <em>especialista<\/em> dotado apenas de informa\u00e7\u00e3o e perfomatismos<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Walter Benjamin, o mais conhecido, apontou que as novas experi\u00eancias de mem\u00f3ria com a <em>reprodutividade t\u00e9cnica<\/em>, e os enormes volumes de est\u00edmulos entregues pelas \u201cinforma\u00e7\u00f5es\u201d urbanas, impediriam o recolhimento da rememora\u00e7\u00e3o, essencial \u00e0 vida coletiva: estar\u00edamos produtivos, informados, mas somente para \u201caguentar\u201d o sensorialismo da ind\u00fastria cultural. Impedidos, assim, da capacidade de plena experi\u00eancia e possibilidade de narrar os acontecimentos do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se as conjecturas \u201cnegativas\u201d de W. Benjamin podem ser melhor reconhecidas hoje, isto se deve \u00e0 ascens\u00e3o da mem\u00f3ria digital, que destacou, paradoxalmente, um <em>performatismo<\/em> engendrado pelo capitalismo contempor\u00e2neo no qual recai permanentemente em valorizar a <em>informa\u00e7\u00e3o<\/em> t\u00e3o logo que esta se desvaloriza rapidamente. O mundo da velocidade, do consumo, da \u201cpouca mem\u00f3ria\u201d poderiam revelar este paradoxo; e, n\u00e3o por menos, psicologiza\u00e7\u00f5es como <em>burnout<\/em>, <em>stress<\/em>, s\u00edndrome do p\u00e2nico est\u00e3o na ordem do dia em discuss\u00f5es midi\u00e1ticas e acad\u00eamicas, remontando, com isso, o problema <em>cogni\u00e7\u00e3o humana<\/em>, o qual estabelece reflex\u00f5es psicossociais acerca do indiv\u00edduo \u201capressado\u201d, apto apenas a \u201cdescartabilidade\u201d e \u00e0 \u201cobsolesc\u00eancia\u201d imediata de tudo; estando muito longe, assim, do sentido temporal da vida em uma dimens\u00e3o de <em>dura\u00e7\u00e3o<\/em> (bergsoniano) ou de <em>digest\u00e3o<\/em> (nietzschiano) (FERRAZ, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Acredito que Gumbrecht (1998) tenha lan\u00e7ado um argumento rico e um debate produtivo quando se dedicou aos estudos da <em>moderniza\u00e7\u00e3o dos sentidos<\/em> no Ocidente. A partir do modo de pensar foucaultiano, o autor buscou evidenciar que a atual \u201ccrise da representabilidade\u201d tem a ver com os <em>desarranjos<\/em> humanos diante das \u201csuperf\u00edcies materiais do mundo\u201d (<em>idem<\/em>, p.15); ou, em outras palavras, diante dos <em>dispositivos<\/em>. Diferente das outras \u00e9pocas, a \u00e9poca p\u00f3s-moderna teria gerado <em>um observador que \u00e9 incapaz de deixar de se observar ao mesmo tempo em que observa o mundo<\/em>. O \u201cproblema de Foucault\u201d seria encontrar um m\u00e9todo adequado para pensar o sentido do \u201ccron\u00f3tipo\u201d atual; se, de um lado, ter\u00edamos a \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o total\u201d, das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, das modas etc., do outro lado, haveria uma \u201camplitude [temporal] cada vez mais amorfa\u201d. Segundo Gumbrecht, as consequ\u00eancias culturais destacaram uma \u201ccrise da representabilidade\u201d, conferindo tr\u00eas \u201ctend\u00eancias epistemol\u00f3gicas\u201d: 1) a de <em>destemporaliza\u00e7\u00e3o<\/em>, em que \u201co tempo n\u00e3o mais aparece como agente absoluto de mudan\u00e7a\u201d; 2) a <em>desubjetiva\u00e7\u00e3o<\/em>, na qual \u201cse a a\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial a subjetividade, ent\u00e3o hoje h\u00e1 desubjetiva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que as narrativas sobressaem como \u2018varia\u00e7\u00e3o sem originais\u2019\u201d; 3) e a <em>desreferencializa\u00e7\u00e3o<\/em>, em que as m\u00eddias digitais inferem cada vez mais na captura de \u201colhos e mentes\u201d do que na representa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias que criam fen\u00f4menos, per\u00edodos, mudan\u00e7as hist\u00f3ricas (o autor pensa aqui nos espet\u00e1culos dos \u201cmundo dos esportes\u201d, do rock etc.) (GUMBRECHT, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em meio a isso, poder-se-ia perguntar: afinal, o que vem a ser a mem\u00f3ria digital para a individua\u00e7\u00e3o humana? H\u00e1 realmente um tra\u00e7o caracter\u00edstico que a diferencia? E quais implica\u00e7\u00f5es que propriamente tiveram na cultura e pol\u00edtica \u2013 e, especificamente, na educa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea? Venho notando que estas inescap\u00e1veis quest\u00f5es, de ordem macro, s\u00e3o profundamente encaradas pelo franc\u00eas Bernard Stiegler, pensador que avan\u00e7ou originalmente nos aqui avocados \u201cproblemas foucaultianos\u201d dos dispositivos t\u00e9cnicos, e da ordem de sua representa\u00e7\u00e3o no saber e na vida atuais. A explana\u00e7\u00e3o a seguir parece ser um bom caminho para falarmos, por fim, da inova\u00e7\u00e3o provocada pela ferramenta Qwiki.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>A PERSPECTIVA CR\u00cdTICA DE BERNARD STIEGLER<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>\u00ab\u00a0Il n\u2019y a pas de pens\u00e9e hors de ses supports\u00a0\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup><strong><sup>[7]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a>,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>\u00a0Bernard Stiegler<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Fundamentalmente, para Stiegler, a rela\u00e7\u00e3o homem e t\u00e9cnica exige hoje uma (re)formula\u00e7\u00e3o de forma a revelar melhor a constitui\u00e7\u00e3o do <em>humano<\/em> e, derradeiramente, demarcar a condi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, social \u2013 e t\u00e9cnica \u2013 deste no mundo. Assim, a quest\u00e3o da <em>mem\u00f3ria t\u00e9cnica<\/em> estaria na constitui\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o do <em>devir<\/em> humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A t\u00e9cnica, escreveu Foucault em <em>A escrita de si <\/em>(1992), \u00e9 melhor entendida por meio do sentido grego da palavra <em>hyponemata<\/em>, enquanto <em>dispositivos<\/em> ou suporte da mem\u00f3ria e modalidade de constitui\u00e7\u00e3o do si. Aprofundando este entendimento, Stiegler (2009) sentenciou: n\u00e3o h\u00e1 interioridade que <em>preceda<\/em> a exterioridade; esta senten\u00e7a, que reporta aos trabalhos paleo-antropol\u00f3gico de Leroi-Gourhan, gesticula a tese de que os movimentos de inven\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria das t\u00e9cnicas s\u00e3o simult\u00e2neos aos de inven\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria do homem; ambos embalam a posi\u00e7\u00e3o de <em>sujeito<\/em> e de <em>objeto<\/em> na constitui\u00e7\u00e3o do humano, este visto de forma n\u00e3o-antropoc\u00eantrica e estudado a partir de sua individua\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e social (STIEGLER, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Exp\u00f5e-se um discurso que evita a separa\u00e7\u00e3o e a dicotomiza\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o que vincula o <em>quem<\/em> (o homem) e o <em>o qu\u00ea<\/em> (a t\u00e9cnica). Para Stiegler, a qualidade da \u201cmem\u00f3ria viva\u201d (<em>anamn\u00e8se<\/em>) \u00e9 a capacidade de <em>pro<\/em>-jetar para fora dela mesma (<em>hypomn\u00e8se<\/em>). A \u201cmem\u00f3ria viva\u201d humana se constitui pela mem\u00f3ria <em>gen\u00e9tica<\/em> (celular) e pela mem\u00f3ria <em>epigen\u00e9tica<\/em> (som\u00e1tica e nervosa), sendo as duas finitas e morrem quando morre o ser. No entanto, a mem\u00f3ria <em>epifilogen\u00e9tica<\/em> (t\u00e9cnica) \u00e9 capaz atuar sobre a finitude destas duas primeiras, de forma a <em>transpassar<\/em> e a <em>gerar<\/em> novos atributos \u00e0 vida humana. A t\u00e9cnica \u00e9, portanto, aquilo que prolonga a vida por outros meios que n\u00e3o a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O suporte da mem\u00f3ria epifilogen\u00e9tica \u00e9 reconhecido enquanto uma <em>reten\u00e7\u00e3o terce\u00e1ria<\/em> \u2013 apurando aqui o discurso fenomenol\u00f3gico husserliano sobre as \u201creten\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia\u201d. Para Stiegler, se quisermos entender o processo de <em>gramatiza\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 o \u201calfabeto\u201d que regula a <em>descri\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>formula\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>discri\u00e7\u00e3o<\/em> das falas e dos gestos humanos \u2013, \u00e9 fundamental captarmos os ajustamentos e conflitos entre o artificial <em>meio exterior<\/em> das reten\u00e7\u00f5es terce\u00e1rias e o <em>meio interior <\/em>da vida ps\u00edquica e coletiva (<em>idem<\/em>, p. 57). Assim, tal pensamento quer se atentar, concomitantemente, com as individua\u00e7\u00f5es t\u00e9cnica, ps\u00edquica e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ora, as conclus\u00f5es de Stiegler s\u00e3o de sumo valor, uma vez que o <em>suporte t\u00e9cnico<\/em> \u2013 entendido como \u201cexterioriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d \u2013, permite estudar a espacializa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e captar os processos cognitivos e pr\u00e1ticas sociais recorrentes. Como afirma STIEGLER (1998, p.13):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Hoje,\u00a0isto \u00e9, no momento\u00a0da industrializa\u00e7\u00e3o\u00a0da mem\u00f3ria e\u00a0que chamamos de\u00a0m\u00eddia (ao mesmo tempo anal\u00f3gica e\u00a0digital),\u00a0o <em>meio associado informacional<\/em> torna-se o espa\u00e7o p\u00fablico\u00a0mundial, por meio dos fen\u00f4menos\u00a0da velocidade de capta\u00e7\u00e3o, de transmiss\u00e3o,\u00a0de c\u00e1lculo e processamento\u00a0(de sinais anal\u00f3gicos ou num\u00e9ricos); e afeta de maneira radical a capacidade de\u00a0antecipa\u00e7\u00e3o humana em si mesmo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Esta \u201ccapacidade de antecipa\u00e7\u00e3o\u201d permite discorrer sobre as compet\u00eancias pr\u00f3prias dos indiv\u00edduos em realizar, em determinada cultura, a constitui\u00e7\u00e3o de si e de sua <em>maioridade<\/em>, como forma reflexiva e cr\u00edtica. Na vis\u00e3o de Stiegler (2004), a modernidade que herdamos, caracterizada pela <em>Bildung<\/em> alem\u00e3 do s\u00e9culo XIX, havia constru\u00eddo toda uma rede de <em>dispositivos<\/em> na qual evidenciou um modo pr\u00f3prio de gramatiza\u00e7\u00e3o da vida ps\u00edquica e coletiva. Por\u00e9m, a partir do s\u00e9culo XX, tivemos uma aguda transforma\u00e7\u00e3o deste modelo de gramatiza\u00e7\u00e3o, que corresponde, notadamente, ao per\u00edodo de pleno desenvolvimento e dissemina\u00e7\u00e3o dos <em>objetos temporais industriais<\/em>: fon\u00f3grafo, cinemat\u00f3grafo, fotograma, videograma etc. (STIEGLER, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ora, a forma\u00e7\u00e3o da <em>consci\u00eancia<\/em> (Husserl) humana \u00e9 indissoci\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o entre a temporalidade humana e t\u00e9cnica<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup><sup>[8]<\/sup><\/sup><\/a>. Para Stiegler, o sentido geral da palavra <em>cinema<\/em> como \u201cmontagem do tempo\u201d \u00e9 o paradigma do funcionamento da consci\u00eancia. Desde o s\u00e9culo XX, com o desenvolvimento dos objetos temporais de massa \u2013 televis\u00e3o, r\u00e1dio, cinema etc. \u2013, um novo fen\u00f4meno veio a aparecer na cultura ocidental devido \u00e0 intensa capacidade destes objetos temporais realizar a <em>sincroniza\u00e7\u00e3o <\/em>dos fen\u00f4menos culturais; e consequentemente, conforme sabemos, ocasionar o aparecimento das <em>ind\u00fastrias culturais<\/em> e da problem\u00e1tica da redu\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias dos indiv\u00edduos em torno de <em>governo<\/em> dos desejos para o \u201cconsumo capitalista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O s\u00e9culo XX foi, assim, o momento de estabelecimento do \u201cbaisse de la valeur esprit\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup><sup>[9]<\/sup><\/sup><\/a> (P. Val\u00e9ry). Ao inv\u00e9s de criar uma nova <em>Bildung<\/em>, as <em>exterioriza\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria<\/em> em curso teriam alterado, dissociado e <em>des<\/em>-gramatizado as individua\u00e7\u00f5es <em>ps\u00edquicas<\/em> e <em>coletivas<\/em>. De tal modo, as individua\u00e7\u00f5es <em>t\u00e9cnicas<\/em>, em velocidade vertiginosa de inova\u00e7\u00f5es e modas, entrariam de modo cada vez mais problem\u00e1tico nas sociedades, evidenciando, pois, a indispens\u00e1vel necessidade de cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cpol\u00edtica industrial das tecnologias do esp\u00edrito\u201d para alterar este quadro (STIEGLER, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para Stiegler, a informatiza\u00e7\u00e3o hiperindustrial \u2013 a \u201calta tecnologia\u201d \u2013, surgidas no fim do s\u00e9culo XX e in\u00edcio XXI, levantaram uma nova vig\u00eancia paradigm\u00e1tica. Sobressai ent\u00e3o uma tese: com a <em>mem\u00f3ria digital<\/em>, o paradigma anterior da <em>mem\u00f3ria escrita<\/em> entra em decl\u00ednio; e, de tal modo, os dispositivos de mem\u00f3ria digital no capitalismo contempor\u00e2neo, formado ao mesmo tempo por redes corporativas e colaborativas, lineares ou\u00a0 m\u00faltiplas, podem, em diferentes conjunturas, serem vistas em sinergias positivas ou negativas com as individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquica e coletiva. Assim, ter-se-ia uma ambival\u00eancia pr\u00f3pria aprontada nos dispositivos contempor\u00e2neo. As tecnologias digitais, em determinadas formas e ambientes, poderiam ser ve\u00edculos de intensifica\u00e7\u00e3o de <em>individua\u00e7\u00f5es<\/em>; ou, ao contr\u00e1rio, projetar a <em>desindividua\u00e7\u00e3o<\/em> ps\u00edquica e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em Stiegler, portanto, a dimens\u00e3o hiperindustrial e a gramatiza\u00e7\u00e3o digital provocada pelas <em>hypomnemata <\/em>anal\u00f3gicas e digitais lan\u00e7am novas quest\u00f5es pol\u00edticas (STIEGLER, 2009, p.39), seguindo um resgate do sentido plat\u00f4nico da palavra <em>pharmakon<\/em>, que designa tanto um <em>rem\u00e9dio<\/em> como um <em>veneno<\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup><sup>[10]<\/sup><\/sup><\/a>. Stiegler explica o quanto a tecnologia deve ser sempre analisada no sentido dessa farmacologia, isto \u00e9, dentro de uma ambival\u00eancia origin\u00e1ria (STIEGLER, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">De tal modo, a quest\u00e3o seria encarar o fato de que essa informatiza\u00e7\u00e3o hiperindustrial, em que ascenderam as tecnologias da virtual ou cognitivas, movimentou um amplo espectro de novos <em>objetos temporais digitais<\/em>, promovendo uma grande \u201cdesterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d dos eventos no pr\u00f3prio ato de sua recupera\u00e7\u00e3o informacional e confirmando o diagn\u00f3stico benjaminiano acerca da (in)capacidade de \u201cnarrar\u201d (FERREIRA &amp; AMARAL, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A resposta de Stiegler para a \u201ccrise da representabilidade\u201d \u00e9 clara: \u00e9 necess\u00e1rio uma <em>noo\u00e9tica<\/em> que seja <em>noot\u00e9cnica<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup><sup>[11]<\/sup><\/sup><\/a> para (re)constitui\u00e7\u00e3o de sentidos e usos dos dispositivos\/suporte da mem\u00f3ria \u2013 da escola, sistema financeiro, internet, das tecnologias m\u00f3veis, dos audiovisuais \u2013, de forma a constituir verdadeiras <em>gramatiza\u00e7\u00f5es<\/em> e <em>hyponnematas<\/em>; caso contr\u00e1rio, haver\u00e1 t\u00e3o-somente \u201cproletariza\u00e7\u00e3o cognitiva\u201d e \u201cdecl\u00ednio do <em>savoir-faire<\/em>\u201d (STIEGLER, 2009b).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em suma, o fil\u00f3sofo franc\u00eas nos abre uma perspectiva que realmente pensa e age diante da \u201cquest\u00e3o da t\u00e9cnica\u201d. Tal perspectiva seria, portanto, importanto, pois n\u00e3o apenas buscariam responder acerca de \u201ccomo dever\u00edamos agir?\u201d (quest\u00e3o central de H. Arendt) ou acerca de \u201ccomo devemos viver?\u201d (quest\u00e3o central de M. Heidegger), mas, acima de tudo, responder e politizar sobre a quest\u00e3o do <em>devir<\/em>: \u201co que estamos a nos tornar?\u201d \u2013 remetendo, por conseguinte, a estas compreens\u00f5es filos\u00f3ficas de<em> agir<\/em> e <em>viver<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup><sup>[12]<\/sup><\/sup><\/a>. Ora, aqui, neste artigo, a demanda indagativa poderia ent\u00e3o ser: o que o <em>Qwiki<\/em>, e tantas outros dispositivos, vem nos compelindo a se tornar? E quais as implica\u00e7\u00f5es disto?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>A ENCICLOP\u00c9DIA AUDIOVISUAL QWIKI <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>\u00ab\u00a0Il y a beaucoup d\u2019inventions qui ne produisent aucune innovation\u00a0\u00bb <\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup><sup>[13]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Bernard Stiegler<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Uma distin\u00e7\u00e3o entre <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>inova\u00e7\u00e3o<\/em> vem a ser interessante para pensar a forma como podemos conceber as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas em um certo ambiente cultural e pol\u00edtico. <em>Inven\u00e7\u00e3o<\/em>, enquanto um <em>momento<\/em> tecnocient\u00edfico de cria\u00e7\u00e3o de um novo m\u00e9todo, objeto, mecanismo (ex: inven\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica de circuito integrado), seria diferente de <em>inova\u00e7\u00e3o<\/em>, caracterizada como um momento em que aquela inven\u00e7\u00e3o sai dos \u201claborat\u00f3rios\u201d e um novo produto se insere na vida p\u00fablica (ex: laptops, sendo uma inova\u00e7\u00e3o nos modelos de computadores). Assim, n\u00e3o pode haver inova\u00e7\u00e3o sem inven\u00e7\u00e3o, e seria exatamente na an\u00e1lise de um \u201cnovo produto\u201d (inova\u00e7\u00e3o) que poder\u00edamos examinar os potenciais (ou n\u00e3o) de modifica\u00e7\u00f5es positivas ou negativas em um determinado ambiente (STIEGLER, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Cotidianamente milhares de novas inven\u00e7\u00f5es s\u00e3o hoje posta no \u201cmercado de consumo\u201d (uma empresa como a <em>Sony <\/em>\u00e9 capaz lan\u00e7ar milhares inven\u00e7\u00f5es anualmente!); no entanto, do mesmo modo, milhares saem t\u00e3o logo de produ\u00e7\u00e3o, \u201cmorrem\u201d, comprovando-se ent\u00e3o sem nenhum potencial de inova\u00e7\u00e3o. Sintomaticamente, no que diz respeito ao imagin\u00e1rio tecnol\u00f3gico e de sucesso de marketing, o potencial de <em>inova\u00e7\u00e3o<\/em> da ferramenta Qwiki se afirmou de modo muito r\u00e1pido: na primeira semana de lan\u00e7amento, a empresa j\u00e1 tinha recebido mais de 500 mil visitas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>Qwiki Incorporation <\/em>\u00e9 uma empresa privada que se instalou em Palo Alto, S\u00e3o Franscisco (EUA), dedicando-se no ramo de servi\u00e7os de tratamento de informa\u00e7\u00f5es e conectividade em ambientes de internet. Atualmente tem um time de n\u00e3o mais do que 30 pessoas, em sua maioria jovens ligados a engenharia de computa\u00e7\u00e3o, design e marketing. Os chefes executivos e fundadores Doug Imbruce e Louis Monier, este conhecido como co-fundador do AltaVista, v\u00eam recebendo poderosos aliados para as suas <em>propostas<\/em> de inova\u00e7\u00e3o. Em janeiro, acrescentaram ao bolso mais de 8 milh\u00f5es de d\u00f3lares a partir de investidores individuais<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup><sup>[14]<\/sup><\/sup><\/a>, entrando para a empresa nomes de peso, tais como o brasileiro Eduardo Saverin (co-fundador do Facebook), Jawed Karim (co-fundador do Youtube) e Pradeep Sindhu (co-fundador da Juniper Networks). Isto deixou claro um interesse \u201centusiasmo\u201d com a pretendida inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em rela\u00e7\u00e3o ao estado atual, Qwiki \u00e9 ainda uma plataforma de gera\u00e7\u00e3o rob\u00f3tica de audiovisual em vers\u00e3o \u201calpha\u201d (de teste): o visual \u00e9 ainda \u201cfotogr\u00e1fico\u201d; o \u00e1udio rob\u00f3tico, ainda com voz maqu\u00ednica esteriotipada; sua disponibilidade se limita a l\u00edngua inglesa, e o banco de dados acessado pelo robo-algor\u00edtmo ainda n\u00e3o foi estendido at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Pouco importa esta situa\u00e7\u00e3o elementar. A ideia de Qwiki \u00e9 a de dispor sua tecnologia de gera\u00e7\u00e3o de produtos audiovisuais para os dispositivos m\u00f3vel, interfaces para Ipads; sendo que, provavelmente, \u00e9 este seu lugar no futuro. O projeto Qwiki \u00e9 cheio de interesses inovativos e, realmente, as potencialidades s\u00e3o muitas \u2013 de modo que \u00e9 isto que cabe refletir neste artigo. A empresa n\u00e3o mede palavras sobre a vers\u00e1til da <em>m\u00e1quina<\/em> Qwiki:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Se voc\u00ea est\u00e1 planejando f\u00e9rias na web, avaliando restaurantes pelo seu celular, ou procurando ajuda para seu trabalho de casa com sua fam\u00edlia em frente da Google TV, Qwiki est\u00e1 trabalhando para voc\u00ea enviar informa\u00e7\u00f5es em um formato que \u00e9 a quintess\u00eancia humana \u2013 via narrativas ao inv\u00e9s de pesquisas<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup><sup>[15]<\/sup><\/sup><\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">O termo \u201cquintess\u00eancia humana\u201d \u00e9 um interessante e sintom\u00e1tico pedantismo \u2013 pois a individua\u00e7\u00e3o <em>maqu\u00ednica<\/em> seria capaz de garantir o \u201cato de narrar\u201d, no mesmo instante em que a individua\u00e7\u00e3o humana vem a entrar em um lugar de \u201ccrise\u201d. A partir de m\u00eddias digitais como o Qwiki, as possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o do \u201carquivamento eletr\u00f4nico da mem\u00f3ria\u201d em <em>objetos temporais<\/em> cinem\u00e1ticos movimentam os processos que est\u00e3o invocando novas formas cognitivos e sociais \u2013 e, por conseguinte, alterando a maneira como as pessoam falam, categorizam, lembram as atividades da vida cotidiana. Altera-se, pois, as formas de agir com as informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos; as mudan\u00e7as s\u00e3o lentas, mas os processos s\u00e3o amplos: atingem a vida social como um todo, notadamente aos aspectos educacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ora, a m\u00e1quina Qwiki nasce dentro de uma tecnocultura problem\u00e1tica. O problema aqui, dentro do ambiente de \u201ccrise de representabilidade\u201d, \u00e9 aquele que invoca cada vez mais a palavra <em>lembrar<\/em> como sin\u00f4nimo de \u201carmazenar\u201d e \u201cse exaurir\u201d em informa\u00e7\u00f5es, enquanto que os sentidos de valorizar, recuperar, preservar \u2013 mas tamb\u00e9m esquecer, dividir, abstrair \u2013 v\u00eam a ser perdidos; sendo evidente que lembrar\/esquecer n\u00e3o poderiam ser reduzidos a uma <em>maximiza\u00e7\u00e3o produtiv<\/em>a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Deve-se entender que, obviamente, os agenciamentos t\u00e9cnicos do Qwiki n\u00e3o s\u00e3o diametralmente \u201cfechados\u201d \u00e0s possibilidades de experimentar e aprender das pessoas. Bem entendido, contudo, a quest\u00e3o recai, em primeiro lugar, em um olhar para o ambiente em que se inserem estas ferramentas digitais: um mundo cada vez mais satisfeito por <em>intelig\u00eancias artificiais<\/em> que anseiam os <em>performatismos<\/em>, a automatiza\u00e7\u00e3o de gestos e pensamentos. A inova\u00e7\u00e3o na \u201cexperimenta\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o\u201d proposta pelo Qwiki se encontra dentro deste mundo, algo que vem provocando investiga\u00e7\u00f5es acerca dos processos de destrui\u00e7\u00e3o da <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> e de <em>desindividua\u00e7\u00e3o<\/em> coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Contudo, seria parcial se fech\u00e1ssemos argumento no qual Qwiki surge apenas para suprir o atual estado da tecnocultura de \u201ccolecionismo\u201d, \u201cenciclopedismo\u201d, \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o\u201d, e de transforma\u00e7\u00e3o da cultura como \u201crecurso econ\u00f4mico e perform\u00e1tico\u201d. Certamente, a quest\u00e3o tem desdobramentos m\u00faltiplos, que n\u00e3o s\u00f3 nestes aspectos. Em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 quest\u00e3o das novas rela\u00e7\u00f5es entre <em>c\u00e9rebro humano<\/em> e <em>m\u00e1quina<\/em>, Ferraz (<em>apud<\/em> INGUI, 2011, p.13) escreve que:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">[Pierre] L\u00e9vy tem certa raz\u00e3o ao ressaltar o aspecto problem\u00e1tico da utiliza\u00e7\u00e3o do mesmo termo (mem\u00f3ria) tanto para o complexo fen\u00f4meno humano quanto para as m\u00e1quinas cibern\u00e9ticas. O uso comum pode se prestar \u00e0 equivocidade, na medida em que a mem\u00f3ria humana, quer no plano individual quer no coletivo, diz respeito \u00e0 viv\u00eancia num tempo e espa\u00e7o, ao contr\u00e1rio da inform\u00e1tica que apenas armazena informa\u00e7\u00f5es (&#8230;) no caso da inform\u00e1tica, a mem\u00f3ria se encontra t\u00e3o objetivada em dispositivos autom\u00e1ticos, t\u00e3o separada do corpo dos indiv\u00edduos ou dos h\u00e1bitos coletivos que nos perguntamos se a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria ainda \u00e9 pertinente.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Como explicou Stiegler, a <em>reten\u00e7\u00e3o terce\u00e1ria<\/em>, a mem\u00f3ria epifilogen\u00e9tica, t\u00e9cnica, teria suas particularidades, e ela se encontraria intimimente ligada \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da cogni\u00e7\u00e3o, dos gestos e pensamentos humanos. O questionamento do tipo de reten\u00e7\u00e3o proporcionada pelas novas ferramentas digitais v\u00e3o no sentido de tentar entender os \u201ccurto-circuitos\u201d que estas vem a produzir nos <em>modos de exist\u00eancia<\/em>. O funcionamento da m\u00e1quina Qwiki \u00e9, sem d\u00favida, mais um cap\u00edtulo da \u201cperda do corpo\u201d (da cogni\u00e7\u00e3o) que as tecnologias digitais est\u00e3o desencadeando. Por\u00e9m, com esta \u201cperda\u201d, pode-se abrir (ou n\u00e3o) novas formas de vida. Ocorre que os agenciamentos, as midiatiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias das linguagens tecnol\u00f3gicas avan\u00e7adas, levam-nos a outras formas de pensar o <em>humano<\/em> e as coletividades. Assim, de certa forma, automa\u00e7\u00f5es como as da plataforma audiovisual Qwiki se encontram imersas nisto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Mas, contudo, qual o valor colaborativo, de uso da \u201cintelig\u00eancia coletiva\u201d da plataforma Qwiki? A quest\u00e3o vem a ser pertinente e pode-se questionar acerca do significado da maquina\u00e7\u00e3o corporativa do Qwiki na tecnocultura contempor\u00e2nea. Ora, no momento em que se sai dos ambiente de <em>transmiss\u00e3o<\/em> \u201cum-todos\u201d e se abre para os de <em>intera\u00e7\u00e3o<\/em> \u201ctodos-todos\u201d (SILVA, 2008), os agenciamentos centralizadores que o Qwiki provocam poderiam (e devem) ser politizados. As \u201ceconomias contributivas\u201d (Stiegler) propiciam oportunidades de m\u00faltiplas experimenta\u00e7\u00f5es, express\u00f5es, e est\u00e3o mobilizando novas experi\u00eancias de conhecimentos (culturais, sociais, econ\u00f4micos). A enciclop\u00e9dia audiovisual Qwiki se encontraria longe deste universo. Na verdade, caminha na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Assim, de modo algum a empresa estaria fazendo jus o uso <em>wiki<\/em> em <em>Q-wiki<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A partir dos estudos de BURGESS &amp; GREEN (2009), sobre o <em>Youtube e a revolu\u00e7\u00e3o digital<\/em>, podemos realizar uma abreviada compara\u00e7\u00e3o entre as plataformas Qwiki, Youtube e Wikip\u00e9dia:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6><strong>Qwiki<\/strong><\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6><strong>Youtube<\/strong><\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6><strong>Wikipedia<\/strong><\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>defini\u00e7\u00e3o<\/em>: plataforma enciclop\u00e9dica audiovisual, agregadora autom\u00e1tica de conte\u00fados, com experi\u00eancia e tipo de conte\u00fado pr\u00e9-definido.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>defini\u00e7\u00e3o<\/em>: plataforma e agregador de conte\u00fado, n\u00e3o sendo produtora de conte\u00fado em si mesma.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6>&#8211; <em>defini\u00e7\u00e3o<\/em>: enciclop\u00e9dia multil\u00edngue online, livre e colaborativa.<\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>ambiente<\/em>: audiovisual, de estabilidade \u201cmaqu\u00ednica\u201d (centralizador)<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>ambiente<\/em>: audiovisual, de instabilidade \u201chumana\u201d e \u201cmaqu\u00ednica\u201d (centralizador\/descentralizador)<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6>&#8211; <em>ambiente<\/em>: baseado em linguagem hipertextual, de instabilidade \u201chumana\u201d, com possibilidade de agrega\u00e7\u00e3o de \u00e1udios e fotografia (descentralizador)<\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>conte\u00fado<\/em>: cultura audiovisual enciclop\u00e9dica e conceitual.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>conte\u00fado<\/em>: cultura audiovisual indefinida, ilimitada.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6>&#8211; <em>conte\u00fado<\/em>: cultura hipertextual, de conte\u00fado enciclop\u00e9dico, alman\u00e1quico e conceituais, sem defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.<\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>interatividade<\/em>: satisfeito por conectividade autom\u00e1tica com conte\u00fados dispostos na internet.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>interatividade<\/em>: inser\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos, com espa\u00e7os para coment\u00e1rios, discuss\u00f5es, canais, respostas.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6>&#8211; <em>interatividade<\/em>: inser\u00e7\u00e3o de novos termos, discuss\u00e3o, revis\u00e3o etc.: abertos ao p\u00fablico em geral.<\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>marketing<\/em>: ainda n\u00e3o definido.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<h6>&#8211; <em>marketing<\/em>: diversa e personalizada, com propaganda visual na p\u00e1gina e nos v\u00eddeos.<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"187\">\n<h6>&#8211; <em>marketing<\/em>: plataforma digital sem fins lucrativos.<\/h6>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>Aos poucos nos tornamos consumidores passivos de arte.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Bernard Stiegler.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Uma das centrais movimenta\u00e7\u00f5es cr\u00edticas do pensamento de Bernard Stiegler adv\u00e9m do fato de que o modelo pol\u00edtico-econ\u00f4mico na tecnocultura assentou uma <em>energia libinal<\/em>, os desejos, em torno do consumismo e, por conseguinte, da fal\u00eancia de um projeto que gere a <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> para a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da vida \u00edntima e p\u00fablica. O pr\u00f3prio campo da arte e da educa\u00e7\u00e3o estariam especialmente afetados neste cen\u00e1rio de maior \u201csensorialismo\u201d audiovisual, performatismo e consumo de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As maquina\u00e7\u00f5es inform\u00e1ticas como as que satisfazem Qwiki n\u00e3o podem ser satisfeitas apenas por uma hipoteca de mais \u201cintelig\u00eancia\u201d, e menos individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquica e coletiva; exaurindo as formas de <em>criar<\/em>, <em>produzir<\/em>, <em>apreciar<\/em>. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a <em>forma\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o<\/em>. <em>Aten\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 fluxo de consci\u00eancia, ato de pensar, discernir, criar, apreciar, capacidade de <em>antecipa\u00e7\u00e3o<\/em>, em que se propicia e se efetiva as <em>reten\u00e7\u00f5es<\/em>. A partir do s\u00e9culo XX, as tecnologias de gramatiza\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o audiovisual apareceram como discretiza\u00e7\u00e3o dos fluxos de \u00f3rg\u00e3os dos sentidos, de modo que a nova cr\u00edtica da <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> deve passar por estes objetos temporais. A rela\u00e7\u00e3o entre os objetos temporais e a educa\u00e7\u00e3o devem ajudar, simultaneamente, a <em>capturar <\/em>e a <em>formar<\/em> a aten\u00e7\u00e3o, sendo preciso, urgentemente, procurar valorizar as <em>hyponnemata digitais<\/em>, que ajudam na funda\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova economia pol\u00edtica da mem\u00f3ria e do desejo\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Em se tratando de filosofia pol\u00edtica, importa saber quem se apropria e quem controla os processos de transindividua\u00e7\u00e3o denominados metatransindividuantes e que permitem controlar as metatransforma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas e sociopol\u00edticas, atrav\u00e9s das hipomn\u00e9sias pr\u00f3prias a cada \u00e9poca da gramatiza\u00e7\u00e3o &#8211; as metatransindividua\u00e7\u00f5es sendo determinadas pelas caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas ou tecnol\u00f3gicas das reten\u00e7\u00f5es terci\u00e1rias (STIEGLER, 2009b, p.37).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Aqui, o problema pol\u00edtico \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um problema est\u00e9tico. E, contrariamente a muitas perspectivas em cibercultura, a quest\u00e3o do <em>controle do poder<\/em> permanece central. Se temos hoje um \u201ccurto-circuito\u201d a partir do desenvolvimento de uma temporalidade de individua\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que \u201canda mais r\u00e1pido\u201d que a temporalidade das (des)individua\u00e7\u00f5es individual e coletiva, isto \u00e9 certamente devido ao modo como as popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o sol\u00edcitas a variados grupos sociais que <em>desenham<\/em> t\u00e3o-somente dispositivos de inova\u00e7\u00e3o para o consumo. Afinal, em meio \u00e0 velocidade que anima muitas das intera\u00e7\u00f5es digitais, \u00e9 imprescind\u00edvel saber qual \u00e9 a pol\u00edtica de <em>industrializa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria<\/em>, de cria\u00e7\u00e3o, utiliza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o dela, que vem sendo arquitetada na Internet, pelas corpora\u00e7\u00f5es de m\u00eddias digitais<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup><sup>[16]<\/sup><\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O futuro do ensino via m\u00e1quina digitais \u00e9 promissor. Um artigo da Folha de S. Paulo (10\/10\/2010), <em>Avatar pode dar aulas em 2015<\/em>, d\u00e1 um exemplo do imagin\u00e1rio que j\u00e1 est\u00e1 sendo constru\u00eddo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Para a <em>Fast Future<\/em> [organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica], ele [o Avatar] tamb\u00e9m substituir\u00e1 professores de n\u00edvel fundamental. Com ele, surge a fun\u00e7\u00e3o de gestor do avatar. Seu foco ser\u00e1 acompanhar o aluno, refor\u00e7ar conte\u00fados e mapear intera\u00e7\u00f5es para planejar o curso, diz Jos\u00e9 Moran, diretor do centro de educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia da Anhanguera Educacional e professor aposentado de novas tecnologias da ECA-USP (Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes). \u2018A educa\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 muito aqu\u00e9m da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u2019, ressalva\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Sob a express\u00e3o do Qwiki, pensar o <em>devir algor\u00edtimo<\/em> \u00e9 um caminho discursar acerca daquilo que estamos nos transformando, sabendo que, neste contexto de proemin\u00eancia da digitaliza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, torna-se fundamental pol\u00edticas de cria\u00e7\u00e3o de \u201ctecnologias colaborativas do esp\u00edrito\u201d (Stielger), que seriam capazes de combater o modelo produtor\/consumidor e \u201cmodificar profundamente a sequ\u00eancia linear de pesquisa \/ concep\u00e7\u00e3o \/ marketing \/ distribui\u00e7\u00e3o \/ consumo\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup><sup>[17]<\/sup><\/sup><\/a>. A possibilidade aqui \u00e9 de discursar sobre o design cont\u00ednuo de \u201ctecnologias de si\u201d, \u201ctecnologias relacionais\u201d e \u201ceconomias de contribui\u00e7\u00e3o\u201d como caminho para um novo modelo de inova\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00f5es educacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Um novo modelo de inova\u00e7\u00e3o\u00a0est\u00e1 em processo de se inventar:\u00a0pass\u00e1mos de\u00a0um processo hier\u00e1rquico, produzido pela forma de cima para baixo para as de aplica\u00e7\u00f5es em \u2018inova\u00e7\u00e3o\u00a0bottom-up\u2019. As tecnologias digitais\u00a0trouxeram\u00a0essa invers\u00e3o.\u00a0Uma verdadeira infra-estrutura vem sendo desenvolvida nos \u00faltimos vinte anos via Internet, onde n\u00e3o h\u00e1 um produtor de um lado e o consumidor de outro, mas sim um lugar onde todos s\u00e3o de algum modo \u2018colaboradores\u2019 (STIEGLER, 2009b).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Uma dimens\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica contempor\u00e2nea n\u00e3o pode se pronunciar bem sem se situar na condi\u00e7\u00e3o tecnocultural vigente. Os dispositivos t\u00e9cnicos que produzimos, al\u00e9m de gerar fenomenologicamente a quest\u00e3o de sua <em>objetualidade<\/em> (coisa), gera tamb\u00e9m <em>atitudes <\/em>(\u201csavoir-faire\u201d), <em>conhecimentos<\/em> e <em>voli\u00e7\u00f5es<\/em> (desejos ou puls\u00f5es) (MITCHAM, 1994). Se a \u00e9tica, desde Arist\u00f3teles, havia pensado os meios para se alcan\u00e7ar a \u201cfelicidade\u201d ainda demovidas de uma condi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, hoje isto \u00e9 impratic\u00e1vel. \u00c9 urgente a constru\u00e7\u00e3o de discuros \u00e9tico-pol\u00edticos que busquem situar-se no mundo atual. Ora, dever\u00edamos saber como agir com as tecnologias; saber as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica; e agir de forma que a voli\u00e7\u00e3o (desejo) e a intelig\u00eancia empenha a realizar singularidades pol\u00edticas e culturais. O artigo n\u00e3o procurou, de modo algum, dar um \u201csaldo final\u201d a respeito \u2013 mas sim tentou localizar os atuais contextos atuais e as quest\u00f5es pertinentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">BURGESS, Jean &amp; GREEN, Joshua, <strong><em>Youtube e a revolu\u00e7\u00e3o digital<\/em><\/strong>, Aleph, S\u00e3o Paulo, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">CARELLI, A.E., &amp; MONTEIRO, S.D. \u201cCiberespa\u00e7o, mem\u00f3ria e esquecimento\u201d. <em>In:<\/em> <strong><em>Semin\u00e1rio em Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> [online], UEL, Londrina, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">DERRIDA. Jacques. <strong>A farm\u00e1cia de Plat\u00e3o<\/strong>. Iluminuras, S\u00e3o Paulo, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">FERRAZ, Maria do C. Franco, <strong><em>Homo deletabilis. Corpo, percep\u00e7\u00e3o, esquecimento do s\u00e9culo XIX ao XXI<\/em><\/strong>. Garamond, Rio de Janeiro, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">FERREIRA, J. &amp; AMARAL, A., <em>\u201cMem\u00f3ria Eletr\u00f4nica e Desterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. <em>In:<\/em> <strong><em>Revista Pol\u00edtica &amp; Sociedade<\/em><\/strong>, Florian\u00f3polis, v. 4, p. 137-165, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">FOLHA DE S. Paulo [jornal], \u201cPara Bernard Stiegler, \u2018\u00e9 preciso parar de consumir arte\u2019\u201d. <strong><em>Folha de S. Paulo<\/em><\/strong>, sexta-feira, 27 de maio de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">FOUCAULT, Michel. \u201cA escrita de si\u201d. <em>In:<\/em> <strong><em>O que \u00e9 um autor?<\/em><\/strong> Lisboa: Passagens, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">GENARO, Ednei de, <strong><em>O tempo da t\u00e9cnica: a crise da experi\u00eancia temporal na modernidade t\u00e9cnica<\/em><\/strong>. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia Pol\u00edtica-Ufsc, Florian\u00f3polis, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">GUMBRECHT, Hans Ulrich, <strong><em>Moderniza\u00e7\u00e3o dos sentidos<\/em><\/strong>. Editora 34, 1998<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">IHDE, Don, <strong><em>Technology and lifeworld: from garden to earth<\/em><\/strong>. Indiana University, Bloomington, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">INGUI, Daniela. \u201cExcesso de informa\u00e7\u00e3o e as (des)mem\u00f3rias no mundo contempor\u00e2neo\u201d. <em>IN:<\/em> <strong><em>Revista Ci\u00eancia e Cultura<\/em><\/strong> [online]. Vol. 63, no. 2, pp. 12-14, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">L\u00c9VY, Pierre, <strong>As tecnologias da intelig\u00eancia: o futuro do pensamento na era da inform\u00e1tica<\/strong>. Editora 34, S\u00e3o Paulo, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LYOTARD, Jean, <strong><em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em><\/strong>. Gradiva, Lisboa, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">MITCHAM, Carl, <strong><em>Thinking through technology: The path between engineering and philosophy<\/em><\/strong>. University of Chicago Press, Chicago, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">ORTEGA Y GASSET, <strong><em>A rebeli\u00e3o das massas<\/em><\/strong>. Libero-Americano, S\u00e3o Paulo, 1959.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">SERRES, Michel, <em>\u00ab\u00a0Les nouvelles technologies : r\u00e9volution culturelle et cognitive\u00a0\u00bb<\/em>. <em>In:<\/em> <strong><em>Conf\u00e9rence prospective. L\u2019INRIA a quarante ans<\/em> <\/strong>[online]. Lille, les 10 et 11 d\u00e9cembre 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">SILVA, Marco, \u201cCibercultura e educa\u00e7\u00e3o: a comunica\u00e7\u00e3o na sala de aula presencial e online\u201d. <em>In:<\/em> <strong><em>Revista Famecos: m\u00eddia, cultura e tecnologia<\/em><\/strong>. Vol. 3, n\u00b0 37, p.69-74, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, Bernard, \u201cIl y a beaucoup d\u2019inventions qui ne produisent aucune innovation\u201d. <em>In:<\/em> <strong><em>Nouvelles technos &#8211; T\u00e9l\u00e9rama.fr<\/em><\/strong> [online], 9 de junho de 2009a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________, \u201cTemps et individuation technique, psychique, et collective dans l\u2019ouvre de Simondon\u201d. <em>In:<\/em><strong> <em>Intellectica<\/em>, <\/strong>1998\/1-2, 26-27, pp. 241-256, 1998b.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________, \u201cThe age of de-proletarianisation: art and teaching art in post-consumerist culture\u201d. <em>In:\u00a0 <strong>ArtFutures: Current issues in higher arts education<\/strong><\/em>, Amsterdam, Dec., 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________,\u00a0 \u00ab Questions de pharmacologie g\u00e9n\u00e9rale. Il n&#8217;y a pas de simple pharmakon \u00bb. <em>In:<\/em> <strong><em>Psychotropes<\/em><\/strong>, 2007\/3, Vol. 13, p. 27-54, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________,\u00a0 \u00ab\u00a0Le d\u00e9sir asphyxi\u00e9, ou comment l\u2019industrie culturelle d\u00e9truit l\u2019individu \u00bb. <em>In:<\/em> <strong><em>Le Monde diplomatique<\/em><\/strong>, Juin, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________,\u00a0 <strong><em>La technique et le temps. Vol 2: La d\u00e9sorientation<\/em><\/strong>. Paris: Galilee, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________,\u00a0 <strong><em>Technics and Time. Vol. 1: The Fault of Epimetheus<\/em><\/strong>. Stanford University Press, Stanford, 1998a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">________________,\u00a0 \u201cAnamn\u00e9sia e hipomn\u00e9sia: Plat\u00e3o, primeiro pensador do proletariado\u201d. <em>In:<\/em> <strong><em>Revista ARS<\/em><\/strong>. Vol.7, n.13, pp. 22-41, S\u00e3o Paulo, 2009b.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Artigo cient\u00edfico apresentado ao eixo tem\u00e1tico \u201cEduca\u00e7\u00e3o, Processos de Aprendizagem e Cogni\u00e7\u00e3o\u201d, do IV Simp\u00f3sio Nacional da ABCiber (2011).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Doutorando em Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; UFF (bolsista CAPES-REUNI). Mestre em Sociologia Pol\u00edtica &#8211; UFSC. Desde a gradua\u00e7\u00e3o se interessa pelos contextos das tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o e a sociedade. Atualmente concentra-se em dois eixos principais de pesquisa em Comunica\u00e7\u00e3o: Cibercultura e Filosofia e Pol\u00edtica da T\u00e9cnica\/Imagem contempor\u00e2nea. Desenvolve tese de doutorado sobre a obra do cineasta Harun Farocki, com foco especial nesses dois eixos de pesquisa. \u00c9 integrante do Grupo Kum\u00e3 (Laborat\u00f3rio de an\u00e1lise e experimenta\u00e7\u00e3o de imagem e som). Email: ednei.genaro@yahoo.com.br.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u201cO objetivo do Qwiki \u00e9\u00a0sempre\u00a0melhorar a\u00a0forma como as pessoas experimentam a informa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver, por exemplo: SERRES (2007); CARELLI &amp; MONTEIRO (2007).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u00a0Em um entendimento positivo das mudan\u00e7as, Michel Serres, por exemplo, enfatiza uma antropot\u00e9cnica na qual exp\u00f5e o quanto o c\u00e9rebro e o corpo v\u00e3o deixando de ser suporte da mem\u00f3ria a cada vez mais que se inventa instrumento e organismo novos, e a partir do qual o humano vai se \u2018reinventando\u2019 (SERRES, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u201cA especializa\u00e7\u00e3o come\u00e7a, precisamente, num tempo que chama homem civilizado ao homem \u2018enciclop\u00e9dico\u2019. O s\u00e9culo XIX inicia seus destinos sob a dire\u00e7\u00e3o de criaturas que vivem enciclopedicamente, embora sua produ\u00e7\u00e3o tenha j\u00e1 um car\u00e1ter de especialismo [&#8230;]. Eu disse que era [a especializa\u00e7\u00e3o] uma configura\u00e7\u00e3o humana sem igual em toda a hist\u00f3ria. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a esp\u00e9cie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em s\u00e1bios e ignorantes, em mais ou menos s\u00e1bios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista n\u00e3o pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. N\u00e3o \u00e9 um s\u00e1bio, porque ignora formalmente o que n\u00e3o entra na sua especialidade; mas tampouco \u00e9 um ignorante, porque \u00e9 \u2018um homem de ci\u00eancia\u2019 e conhece muito bem sua porci\u00fancula de universo. Devemos dizer que \u00e9 um s\u00e1bio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que \u00e9 um senhor que se comportar\u00e1 em todas as quest\u00f5es que ignora, n\u00e3o como um ignorante, mas com toda a petul\u00e2ncia de quem na sua quest\u00e3o especial \u00e9 um s\u00e1bio\u201d (ORTEGA Y GASSET, 1959, p.156).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u201cN\u00e3o h\u00e1 pensamento fora dos suportes [t\u00e9cnicos]\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ver disserta\u00e7\u00e3o de mestrado: Genaro (2010).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u201cDecl\u00ednio do valor espiritual\u201d, em franc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ver a obra \u201cA farm\u00e1cia de Plat\u00e3o\u201d, Derrida (2005), influ\u00eancia fundamental aqui, em Stiegler.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> <em>Nootechniques<\/em>: <em>nous<\/em> (em grego) = \u201cintelecto\u201d ou \u201cpensamento\u201d. Para Stiegler, o meio noo\u00e9tico seria capaz de abrir o indiv\u00edduo ao espa\u00e7o p\u00fablico e, t\u00e3o logo, possibilitar um <em>meio simb\u00f3lico associado<\/em> a favor das coletividades, das individua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> A articula\u00e7\u00e3o conceitual de Stiegler parece ser bastante motivadora para estudar de forma emp\u00edrica e cr\u00edtica, fugindo de vis\u00f5es \u201cotimistas\u201d ou pessimistas\u201d, ou de equa\u00e7\u00f5es perempt\u00f3rias acerca das tecnologias contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> \u201cH\u00e1 muitas inven\u00e7\u00f5es que n\u00e3o produzem nenhuma inova\u00e7\u00e3o\u201d. Entrevista \u00e0 revista <em>Telerama.fr<\/em>, em 09 de junho de 2009. Acess\u00edvel em: <em><a href=\"http:\/\/www.telerama.fr\/techno\/bernard-stiegler-il-existe-beaucoup-d-inventions-qui-ne-produisent-aucune-innovation,43551.php\" rel=\"nofollow\">http:\/\/www.telerama.fr\/techno\/bernard-stiegler-il-existe-beaucoup-d-inventions-qui-ne-produisent-aucune-innovation,43551.php<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ver site <em>Bussiness Journal<\/em>, em: <a href=\"http:\/\/www.bizjournals.com\/sanjose\/news\/2011\/01\/20\/qwiki-raises-8m-in-first-round.html\">http:\/\/www.bizjournals.com\/sanjose\/news\/2011\/01\/20\/qwiki-raises-8m-in-first-round.html<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Consultar em: <a href=\"http:\/\/www.qwiki.com\/about-us\">http:\/\/www.qwiki.com\/about-us<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Como bem salientam CARELLI &amp; MONTEIRO (2007, p.11), \u201co Google, hoje, \u00e9 uma das maiores plataformas de processamento de dados do mundo, entretanto, seu objetivo \u00e9 a busca e n\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria. Atua gerando \u00edndices dos conte\u00fados existentes na rede, atualizando-os constantemente. Outro aspecto importante, que tem rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria natureza do Ciberespa\u00e7o, \u00e9 a desterritorializa\u00e7\u00e3o dos itens, pois cada vez que uma p\u00e1gina da Web muda ou sai de linha a vers\u00e3o original se perde, de modo que para Battelle (2006 p. 239) a \u201cWeb n\u00e3o tem mem\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Consultar o site <em>Ars Industrialis<\/em> (<a href=\"http:\/\/arsindustrialis.org\/\">http:\/\/arsindustrialis.org\/<\/a>), portal da \u201cAssocia\u00e7\u00e3o Internacional por uma Pol\u00edtica Industrial de Tecnologias do Esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EDUCANDO EM TEMPOS DE MEM\u00d3RIA DIGITAL: a enciclop\u00e9dia audiovisual Qwiki[1] Ednei de Genaro (2011)[2] Artigo apresentado no V Simp\u00f3sio Nacional ABCiber (2011): Download do artigo em *.pdf:\u00a0ABCIBER_Genaro (2011) INTRODU\u00c7\u00c3O \u2018Nova revolu\u00e7\u00e3o nas ferramentas de busca\u2019, \u2018enciclop\u00e9dia narrada do futuro\u2019; \u2018ferramenta para ser t\u00e3o poderosa quanto o Youtube, Google, Wikip\u00e9dia\u2019; \u2018uma promessa de revolu\u00e7\u00e3o no ambiente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_seo_schema_type":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[178340,1135699,4239363,7978,5439222,393712196,17964,49113931,630582,14251,1311628,24663018,798,43135954],"class_list":["post-1116","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-audiovisual","tag-automacao","tag-bernard-stiegler","tag-bildung","tag-cultura-material","tag-ednei-de-genaro","tag-educacao","tag-inovacao-imperativo-midias","tag-invencao","tag-memoria","tag-memoria-digital","tag-plataforma-digital","tag-politica","tag-qwiki"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":false,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-i0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1116"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1116\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5718,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1116\/revisions\/5718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}