{"id":124,"date":"2010-09-26T12:02:00","date_gmt":"2010-09-26T12:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=124"},"modified":"2025-12-08T01:50:58","modified_gmt":"2025-12-08T01:50:58","slug":"angustia-e-miseria-humanas-em-sao-bernardo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/angustia-e-miseria-humanas-em-sao-bernardo\/","title":{"rendered":"Ang\u00fastia e mis\u00e9ria humanas em &#8220;S\u00e3o Bernardo&#8221;."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/sao-bernado-poster01.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"125\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/angustia-e-miseria-humanas-em-sao-bernardo\/sao-bernado-poster01\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/sao-bernado-poster01.jpg?fit=197%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"197,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"sao-bernado-poster01\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/sao-bernado-poster01.jpg?fit=197%2C300&amp;ssl=1\" class=\"alignleft size-full wp-image-125\" title=\"sao-bernado-poster01\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/sao-bernado-poster01.jpg?resize=197%2C300\" alt=\"\" width=\"197\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<h5><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><strong>A ANG\u00daSTIA E A MIS\u00c9RIA HUMANAS NO PERSONAGEM PAULO HON\u00d3RIO, EM <em>S\u00c3O BERNARDO<\/em><\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><strong>Ednei de Genaro<\/strong><br \/>Mestrando pela UFSC (2008)<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">A escrita de Graciliano Ramos cativa e faz pensar. Ele teve o dom de colocar em palavras os sentimentos arraigados de tipos humanos quase mudos, embrutecidos pelo destino indigente e desencorajados pela vida. N\u00e3o por acaso, pode-se t\u00ea-lo como um dos mais aut\u00eanticos escritores do pa\u00eds e como um dos que mais projetou o Brasil \u201cprofundo\u201d na prosa do s\u00e9culo XX.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Neste texto, daremos algumas notas cr\u00edticas acerca do personagem Paulo Hon\u00f3rio, em torno do qual se organiza o drama da obra <em>S\u00e3o Bernardo<\/em>.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><em>S\u00e3o Bernardo<\/em> \u00e9 uma de suas obras-primas. Foi escrita em 1934. O livro retrata aspectos da sociedade nordestina do final da d\u00e9cada de 1920, que, no seio da pol\u00edtica e da economia, misturava o arcaico sistema coronelista com um capitalismo ainda atravancado. Graciliano finca sua fic\u00e7\u00e3o nas ra\u00edzes dessa realidade. As mudan\u00e7as hist\u00f3ricas e suas consequ\u00eancias aparecem por meio de v\u00e1rios elementos. Sobressai, por\u00e9m, a descri\u00e7\u00e3o das \u201cmarcas\u201d do uso do poder e da ideologia da classe dominante sobre a popula\u00e7\u00e3o rural, pobre e ignorante.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Uma das capacidades liter\u00e1rias de Graciliano foi amplamente admirada: a de criar a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica das personagens atrelada ao contexto social vivido. O cr\u00edtico liter\u00e1rio Antonio Candido n\u00e3o deixou de notar isso, lembrando que, em romances como os de Graciliano, \u201cn\u00e3o se trata mais de situar um personagem no contexto social, mas de submeter o contexto ao seu drama \u00edntimo\u201d.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">O romance conta a vida de Paulo Hon\u00f3rio, um homem rude, dominado pela aspira\u00e7\u00e3o imoderada de ascens\u00e3o social e econ\u00f4mica. Seus desejos o tornam cego pela arrog\u00e2ncia e brutalidade de seu esp\u00edrito. Tendo convivido com as mesmas tradi\u00e7\u00f5es das pessoas que o rodeavam e o acolhiam, o progressista Hon\u00f3rio passa a se tornar alheio aos costumes, ao amor e \u00e0s dores do povo ao seu redor. Dois exemplos: quando busca a \u201cvelha\u201d Margarida, demonstra algum afeto por ela, mas, em seguida, resume a racionalidade que o move: \u201cCusta-me dez mil-r\u00e9is por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu\u201d; ou quando manda construir a escola e a igreja em sua fazenda, demonstrando, ao final, que n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de educar as crian\u00e7as nem possu\u00eda religiosidade.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Hon\u00f3rio torna-se, assim, o fazendeiro a quem somente interessa o mundo para cumprir e receber os apoios do governo. As institui\u00e7\u00f5es sociais convertem-se em partes de sua fazenda. O mundo p\u00fablico \u00e9, na verdade, apenas mais um componente de sua propriedade: tanto a escola quanto a igreja eram investimentos, capital.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Hon\u00f3rio \u00e9 o arqu\u00e9tipo do homem que passa a reificar as coisas e a coisificar as pessoas. Seu mundo rude contamina toda a sua fam\u00edlia e vida social. Do mesmo modo que tomou posse da fazenda, quer tomar posse tamb\u00e9m de Madalena, torn\u00e1-la sua mulher, mesmo que isso signifique transform\u00e1-la em algu\u00e9m de autonomia nula, um objeto. Para Madalena, dir\u00e1 o pragm\u00e1tico Paulo Hon\u00f3rio: \u201cA senhora, pelo que mostra e pelas informa\u00e7\u00f5es que peguei, \u00e9 sisuda, econ\u00f4mica, sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa m\u00e3e de fam\u00edlia (&#8230;) Se chegarmos a ac\u00f4rdo, quem faz um neg\u00f3cio supimpa sou eu\u201d.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Graciliano nos mostra que os sentimentos de posse e de poder transformam Paulo Hon\u00f3rio em um homem dotado de intoler\u00e2ncia e ci\u00fame. S\u00e3o esses sentimentos que o fazem indignar-se e esquivar-se da maior educa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia de Madalena. \u201cN\u00e3o gosto de mulheres sabidas\u201d, ele diz a ela. Ela, por\u00e9m, para desgosto do marido, passa a se preocupar com os trabalhadores e a cultivar ideais de comunitarismo e socialismo. As diferentes formas de ver o mundo entre Paulo Hon\u00f3rio e Madalena abrem um abismo entre ambos. Os desencontros tornam-se constantes.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Entre eles, podemos dizer, h\u00e1 um divisor de \u00e1guas que separa uma vida governada pela liberta\u00e7\u00e3o do ser e outra pela necessidade do ter. E havia ainda um mundo que o realismo de Graciliano expunha em sua raiz hist\u00f3rico-social: o retrato da sofrida e impratic\u00e1vel inclus\u00e3o do Brasil agr\u00e1rio e arcaico no Brasil capitalista que avan\u00e7ava para os lugares mais rec\u00f4nditos.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\">O humanismo de Graciliano constr\u00f3i um livro que pode ser, portanto, uma aguda vis\u00e3o cr\u00edtica da sociedade pr\u00e9-capitalista em processo de transforma\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Vis\u00e3o esta produzida a partir do retrato de Paulo Hon\u00f3rio, o homem que se desumaniza, degrada-se no individualismo e na cegueira diante das injusti\u00e7as sociais. Ser que vive, assim, toda a ang\u00fastia e a mis\u00e9ria humanas de ser um homem burgu\u00eas em \u201cterras brasileiras\u201d. Sua brutalidade \u00e9 suavizada \u2014 e ganha lampejos de esperan\u00e7a \u2014 apenas quando escreve seu \u201ctestamento\u201d: \u201cCreio que nem sempre fui ego\u00edsta e brutal. A profiss\u00e3o \u00e9 que me deu qualidades t\u00e3o ruins (&#8230;) Foi \u00easte modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um cora\u00e7\u00e3o mi\u00fado, lacunas no c\u00e9rebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma b\u00f4ca enorme, dedos enormes. (&#8230;) Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que mis\u00e9ria!\u201d.<\/h5>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ANG\u00daSTIA E A MIS\u00c9RIA HUMANAS NO PERSONAGEM PAULO HON\u00d3RIO, EM S\u00c3O BERNARDO Ednei de GenaroMestrando pela UFSC (2008) A escrita de Graciliano Ramos cativa e faz pensar. 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