{"id":142,"date":"2010-09-26T12:25:14","date_gmt":"2010-09-26T12:25:14","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=142"},"modified":"2025-09-07T02:32:15","modified_gmt":"2025-09-07T02:32:15","slug":"ato-de-conhecer-e-professar-na-inspiracao-nietzschiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/ato-de-conhecer-e-professar-na-inspiracao-nietzschiana\/","title":{"rendered":"Ato de conhecer e professar na inspira\u00e7\u00e3o nietzschiana."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>O ATO DE\u00a0CONHECER E\u00a0PROFESSAR NA INSPIRA\u00c7\u00c3O NIETZSCHIANA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Ednei de Genaro<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Mestrando pela UFSC (2008)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/friedrich-nietzsche.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"143\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/ato-de-conhecer-e-professar-na-inspiracao-nietzschiana\/friedrich-nietzsche\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/friedrich-nietzsche.jpg?fit=240%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"240,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"friedrich-nietzsche\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/friedrich-nietzsche.jpg?fit=240%2C300&amp;ssl=1\" class=\"alignleft size-full wp-image-143\" title=\"friedrich-nietzsche\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/friedrich-nietzsche.jpg?resize=240%2C300\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Reflete-se aqui sobre o significado que valida o ato de professar e sua rela\u00e7\u00e3o com o ato de conhecer, bem como sobre a import\u00e2ncia de repensar o papel tradicional exercido pelos mestres. O texto a seguir atende a essa vontade de reflex\u00e3o, inspirado nos \u201cescritos pedag\u00f3gicos\u201d de Nietzsche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Certamente, o caminho de pensamento mais evidente para abordar esses temas parte da ideia de que os indiv\u00edduos t\u00eam certo dever moral de educar, assim como \u00e9 um direito p\u00fablico que existam profissionais na sociedade que transmitam virtudes, intelig\u00eancias e costumes encontrados em livros, disciplinas e demais conte\u00fados consagrados no quadro chamado de \u201chumanidades\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seja para pensar essas humanidades de forma cr\u00edtica ou n\u00e3o, educamos crian\u00e7as e adolescentes confiantes na positividade desse caminho de pensamento. No entanto, ao aprofundarmos a reflex\u00e3o sobre o ato do mestre em professar, buscamos compreender a finalidade \u00faltima dessa a\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, a possibilidade de interagir com algu\u00e9m sobre algo, de modo que essa intera\u00e7\u00e3o tenha valor positivo tanto para quem ensina quanto para quem aprende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ato de professar, por si s\u00f3, n\u00e3o se valida. Deve haver um sentido que o defina, algo que o torne aut\u00eantico para ambos os lados da rela\u00e7\u00e3o \u2013 mestre e aluno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao consultar a palavra \u201censinar\u201d no dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, encontramos a seguinte defini\u00e7\u00e3o: 1. Instruir sobre; 2. Transmitir conhecimento a; 3. Dar aulas. Quanto \u00e0 palavra \u201cprofessar\u201d, lemos: 1. Reconhecer ou confessar publicamente; 2. P\u00f4r em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ensinar equivale aos verbos instruir ou transmitir conhecimentos, termos que validam sentidos distantes da ideia de rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua e positiva que gostar\u00edamos de observar nesse ato. Professar, por\u00e9m, revela-se mais adequado, remetendo aos conceitos de reconhecer e confessar publicamente, conferindo valor pr\u00e1tico \u00e0 rela\u00e7\u00e3o mestre-aluno, e n\u00e3o isoladamente. Assim, permanecemos partid\u00e1rios da palavra \u201cprofessar\u201d em vez de \u201censinar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ato de professar deve, certamente, envolver \u201cinstruir\u201d e \u201ctransmitir\u201d conhecimentos, mas n\u00e3o se limita a isso. \u00c9 fundamental considerar a atitude humana do reconhecimento, ou seja, o sentido do \u201ceu\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 poss\u00edvel \u00e9tica em sala de aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sem nos alongar na exposi\u00e7\u00e3o dos termos, devemos concentrar nossa aten\u00e7\u00e3o na ideia de \u201cpossibilidade de interagir com algu\u00e9m sobre algo e o valor positivo disso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ato de professar pressup\u00f5e a capacidade dos seres humanos de conhecer. De igual modo, o sentido do ato de conhecer est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 nossa concep\u00e7\u00e3o de professar. Toda pedagogia que se preze baseia-se em uma determinada concep\u00e7\u00e3o do ato de conhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 por acaso que Tom\u00e1s de Aquino se perguntou: \u201cPode o homem ensinar o homem?\u201d. Essa quest\u00e3o talvez seja a mais severa no que se refere \u00e0 possibilidade de pensar filosoficamente o ato de professar \u2013 e nos leva a refletir sobre como nossas pr\u00e1ticas em sala de aula, conscientes ou n\u00e3o, revelam os sentidos das ideias de professar e conhecer que internalizamos como mestres. Seguiremos, aqui, uma inspira\u00e7\u00e3o nietzschiana para dar sentido a essas ideias.<\/p>\n<h3>Sobre o ato de conhecer<\/h3>\n<blockquote>\n<p>\u201cA verdade n\u00e3o se ensina; se vive.\u201d<br \/>Herman Hesse<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda n\u00e3o compreendemos plenamente o alcance de uma frase como essa. No entanto, podemos afirmar que, nos s\u00e9culos XIX e XX, h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica significativa que considera o ato de conhecer como fundante na e pela \u201cexperi\u00eancia de vida\u201d. Afinal, qual \u00e9 o caminho para conhecer as coisas e a si mesmo? Ou, dentro do tema aqui abordado: qual o benef\u00edcio aos alunos do que \u00e9 ensinado pelo professor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para os alunos, o ensino sem experi\u00eancia, sem conviv\u00eancia pr\u00e1tica com ideias, conceitos e pr\u00e1ticas, \u00e9 \u00e1rido, inv\u00e1lido, \u201csem vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sem reivindicar autonomia terminol\u00f3gica ou rigor explicativo absoluto, podemos ampliar nossa consci\u00eancia como professores ao considerarmos que, quando o mestre age como tal, ele deve buscar ensinar participando \u2013 mesmo que criticamente \u2013 da realidade viva e pr\u00f3xima de seus alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O conhecimento transmitido pelo professor nunca ocorre de forma puramente objetiva. Tudo que \u00e9 dito ou escrito n\u00e3o pode ser considerado \u201censinado\u201d apenas pelo acontecimento da aula. Conhecer e professar est\u00e3o pr\u00f3ximos, mas n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos: o primeiro refere-se ao sujeito; o segundo, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa compreens\u00e3o valoriza n\u00e3o apenas o conte\u00fado, mas a riqueza da inter-rela\u00e7\u00e3o, do reconhecimento e da possibilidade pedag\u00f3gica de vivenciar as dimens\u00f5es de liberdade, cria\u00e7\u00e3o e express\u00e3o dos alunos em sala de aula.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA verdade n\u00e3o se ensina; se vive.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Para n\u00f3s, essa frase \u00e9 particularmente significativa \u2013 um ensinamento frequentemente esquecido hoje. A \u201csenhora verdade\u201d (\u00fanica e singular) n\u00e3o deve ser imposta como m\u00e1quina avassaladora que destr\u00f3i a busca por harmonia na rela\u00e7\u00e3o mestre-aluno, ativando interesses m\u00fatuos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nietzsche argumentava que o ensino poderia liberar a criatividade onde ela j\u00e1 existisse, mas nunca criar criadores como se houvesse uma f\u00f3rmula secreta para a pedagogia alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ponto desconcertante dessas reflex\u00f5es reside na dimens\u00e3o atual dos problemas educacionais, em que apostilas, livros e roteiros s\u00e3o seguidos quase que mecanicamente, e a escola corre o risco de se tornar o templo da decad\u00eancia da cultura ocidental.<\/p>\n<h3>Sobre o ato de professar<\/h3>\n<blockquote>\n<p>\u201cUsur magister est optimus\u201d<br \/>[\u201cA experi\u00eancia \u00e9 a que melhor professa\u201d]<br \/>C\u00edcero<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim como a frase de Hesse, a de C\u00edcero \u00e9 provocativa. Se encararmos o professar como mero cumprimento de normas de forma\u00e7\u00e3o educacional, a pedagogia torna-se excessivamente prescritiva, normativa e distante da forma viva e criativa anteriormente discutida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No ato de professar, n\u00e3o se pode esquecer que o ensino \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social, na qual mestre e aluno possuem poderes, dom\u00ednios e condi\u00e7\u00f5es humanas diferentes. Uma proposta pedag\u00f3gica aut\u00eantica baseia-se nessa rela\u00e7\u00e3o, buscando conferir valor positivo \u00e0 a\u00e7\u00e3o do professor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O mestre deve compreender que aquilo que o aluno \u00e9 e pode se tornar resulta das experi\u00eancias e transforma\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de sua personalidade. A tarefa do mestre vai al\u00e9m de m\u00e9todos e objetivos que n\u00e3o visam provocar, primeiro, desejo, tens\u00e3o ou experi\u00eancia viva acerca do conte\u00fado abordado. Assim, o professor n\u00e3o precisa se apropriar de uma verdade absoluta e transmiti-la rigidamente, colonizando a sala de aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Professar n\u00e3o se reduz \u00e0 produ\u00e7\u00e3o ou uso de tecnologias; tampouco \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o do grupo escolar pelo \u201cgrau de efici\u00eancia e evolu\u00e7\u00e3o\u201d. O objetivo maior \u00e9 ajudar crian\u00e7as e adolescentes a ler e interpretar o mundo, valorizando n\u00e3o apenas sua forma\u00e7\u00e3o, mas sua capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o, desenvolvimento de paix\u00f5es e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 grande diferen\u00e7a entre a rigidez mec\u00e2nica, na qual explica\u00e7\u00f5es enquadram o saber sobre o aluno, e a flexibilidade que provoca reflex\u00e3o e n\u00e3o imp\u00f5e um objetivo for\u00e7ado. Tradicionalmente, o mestre permanece preso \u00e0 sua pr\u00f3pria autoridade e vaidade, limitando-se \u00e0 polidez e firmeza na exposi\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos explicativos. Essa estagna\u00e7\u00e3o empobrece a vida e a experi\u00eancia em sala de aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Percebe-se, portanto, a import\u00e2ncia da provoca\u00e7\u00e3o nietzschiana, da prepara\u00e7\u00e3o ativa de di\u00e1logos e da busca por sentido positivo na aula. A mecaniza\u00e7\u00e3o das atitudes e conte\u00fados de ensino \u00e9 sempre prejudicial, e a percep\u00e7\u00e3o desse problema \u00e9, por si s\u00f3, alarmante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas ent\u00e3o surge a pergunta: como conduzir as aulas de modo que se concretize o ato de professar? Como pensar uma sala de aula que n\u00e3o se limite ao espa\u00e7o material \u2013 edif\u00edcios, mobili\u00e1rio, roupas, linguagem ou conte\u00fados \u2013, mas que v\u00e1 al\u00e9m do mestre tradicional que simplesmente ocupa o espa\u00e7o e limita o aluno? A alternativa parece ser desenvolver m\u00e9todos e formas de intelig\u00eancias que extrapolem a desgastante f\u00f3rmula \u201cexplicativa\u201d. A quest\u00e3o permanece: como?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ATO DE\u00a0CONHECER E\u00a0PROFESSAR NA INSPIRA\u00c7\u00c3O NIETZSCHIANA Ednei de Genaro Mestrando pela UFSC (2008) Reflete-se aqui sobre o significado que valida o ato de professar e sua rela\u00e7\u00e3o com o ato de conhecer, bem como sobre a import\u00e2ncia de repensar o papel tradicional exercido pelos mestres. 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