{"id":1564,"date":"2017-05-28T01:51:34","date_gmt":"2017-05-28T01:51:34","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=1564"},"modified":"2025-09-07T00:46:43","modified_gmt":"2025-09-07T00:46:43","slug":"1564","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2017\/05\/28\/1564\/","title":{"rendered":"DEPOIS DE LATOUR? NOTAS SOBRE O DEBATE LEMOS &amp; R\u00dcDIGER"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>DEPOIS DE LATOUR?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>NOTAS SOBRE O DEBATE LEMOS &amp; R\u00dcDIGER<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"1568\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2017\/05\/28\/1564\/bruno-latour\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/bruno-latour.jpg?fit=960%2C720&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"960,720\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Bruno Latour\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/bruno-latour.jpg?fit=960%2C720&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-1568\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/bruno-latour.jpg?resize=960%2C720&#038;ssl=1\" alt=\"Bruno Latour\" width=\"960\" height=\"720\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><i>Ednei de Genaro (2017)<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As notas a seguir prop\u00f5em uma interpreta\u00e7\u00e3o do debate entre Andr\u00e9 Lemos e Francisco R\u00fcdiger a partir de textos publicados na revista <em>Matrizes<\/em> (Lemos: \u201cA cr\u00edtica da cr\u00edtica essencialista da cibercultura\u201d, vol. 9, n. 1, 2015: <a href=\"http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/100672\">http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/100672<\/a>; R\u00fcdiger: \u201cContra o conexionismo abstrato: r\u00e9plica\u201d, vol. 9, n. 2, 2015: <a href=\"http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/111719\">http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/111719<\/a>; Lemos: \u201cContra a cr\u00edtica abstrata: tr\u00e9plica\u201d, vol. 10, n. 1, 2016: <a href=\"http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/119470\/116875\">http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/119470\/116875<\/a>). Arrisca-se, primeiramente, uma leitura pragm\u00e1tica, evitando-se ao m\u00e1ximo o tom pol\u00eamico. O que, afinal, podemos extrair de produtivo desse debate? Em seguida, busca-se ponderar sobre as teorias, epistemologias e metodologias que nele se entrecruzam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O embate articula-se em torno de duas acusa\u00e7\u00f5es gerais: Lemos sustenta que a tradicional categoria dos Cr\u00edticos, sobretudo os chamados essencialistas, faz \u201cpouco emp\u00edrico\u201d e, por isso, produz frequentemente compreens\u00f5es, argumentos e julgamentos sobre pol\u00edtica, economia e cultura que se mostram normativos, idealistas ou abstratos. R\u00fcdiger, por sua vez, afirma que a nova categoria dos te\u00f3ricos da Teoria Ator-Rede (TAR) faz apenas \u201cmuito emp\u00edrico\u201d, incorrendo assim em um vazio de compreens\u00f5es, argumentos e julgamentos sobre pol\u00edtica, economia e cultura, que ele interpreta como uma forma de conexionismo formal e abstrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse contraste entre o \u201cmuito\u201d e o \u201cpouco\u201d empirismo, delineiam-se duas \u00eanfases ou posi\u00e7\u00f5es de pesquisa. A primeira busca uma integra\u00e7\u00e3o-e-isolamento discursivos (\u201cpurifica\u00e7\u00f5es\u201d, como veremos) ao tratar dos fen\u00f4menos ditos humanos e t\u00e9cnicos. A segunda prop\u00f5e uma inclus\u00e3o-e-simetria discursivas, analisando conjuntamente fen\u00f4menos humanos e n\u00e3o humanos (redes sociot\u00e9cnicas, fugindo das purifica\u00e7\u00f5es ou do essencialismo). Os Cr\u00edticos situam-se na tradi\u00e7\u00e3o moderna das ci\u00eancias humanas: em certo ponto, interrompe-se o trabalho emp\u00edrico e procede-se a um julgamento sociopol\u00edtico \u2014 sobre poderes dominantes e seus dispositivos, classes sociais e seus principais agentes, ideologias vigentes \u2014, frequentemente \u201csaltando\u201d hermeneuticamente para diagn\u00f3sticos da cultura mercadol\u00f3gica, do desencantamento ou da mis\u00e9ria do mundo, do niilismo. J\u00e1 os partid\u00e1rios da TAR alinham-se a uma vis\u00e3o amoderna, agn\u00f3stica e perspectivista das ci\u00eancias humanas: em determinado momento, quando o emp\u00edrico parece esgotar-se, descrevem sociotecnicamente as conex\u00f5es e reconex\u00f5es entre atores e ambientes, os modos de transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, as inova\u00e7\u00f5es nas materialidades e as mudan\u00e7as nos designs, com as consequentes muta\u00e7\u00f5es em procedimentos e controv\u00e9rsias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, os autores erigem duas acusa\u00e7\u00f5es amplas, com inevit\u00e1veis efeitos acusat\u00f3rios \u2014 pois, em alguma medida, torna-se necess\u00e1rio categorizar e julgar negativamente os modos epistemol\u00f3gicos do advers\u00e1rio. Desse gesto resulta um debate que envolve tamb\u00e9m, de modo inevit\u00e1vel, a defesa de fronteiras acad\u00eamicas: entre um paradigma \u201cvigente\u201d e um paradigma \u201cemergente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os convites parecem bons, pertinentes, corretos? Ora, quem poderia afirmar que, sendo cientista social, fazer \u201cbastante ci\u00eancia\u201d seria algo negativo? Contudo, desses convites surgem perguntas evidentes, complexificadoras e de diferentes matizes, \u00e0s quais o texto de R\u00fcdiger procura responder em forma de contra-argumento: a \u201csociologia compreensiva e cr\u00edtica\u201d \u2014 aquela que interpreta os fen\u00f4menos da linguagem, da hist\u00f3ria, dos signos, isto \u00e9, que vai al\u00e9m do dom\u00ednio dos fatos, observa\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es \u2014 deixou de fazer ci\u00eancia e de funcionar adequadamente, tanto epistemol\u00f3gica quanto politicamente (criticamente)? Por que algu\u00e9m que estuda a pr\u00f3pria sociedade deveria abandonar suas interpreta\u00e7\u00f5es (hermen\u00eauticas) hist\u00f3ricas, pol\u00edticas, econ\u00f4micas etc., para enfatizar apenas \u201cdescri\u00e7\u00f5es\u201d \u2014 como um viajante ou antrop\u00f3logo que chega a terras desconhecidas e registra suas observa\u00e7\u00f5es em um bloco de notas?<\/p>\n<p>Enfim, est\u00e1 contada a narrativa da pol\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tal como interpretamos, a resposta de Lemos \u00e9 que a \u201csociologia compreensiva\u201d e cr\u00edtica teria ficado excessivamente presa a paradigmas (\u201cframes explicativos\u201d) totalizadores \u2014 desencantamento, luta de classes, sistema t\u00e9cnico, raz\u00e3o instrumental, ideologia \u2014 que j\u00e1 n\u00e3o contribuem para compreender a sociedade contempor\u00e2nea. Isso se tornaria evidente, segundo ele, na forma como a t\u00e9cnica foi tradicionalmente percebida pelos Cr\u00edticos: de modo geral, como uma racionalidade negativa, oposta ao humano. A cr\u00edtica, nesse sentido, teria se tornado, em muitos casos, demasiadamente \u201cessencialista\u201d, assumindo mais o tom de uma \u201cfilosofia social moralista\u201d do que propriamente de ci\u00eancia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A conjuntura hist\u00f3rica, para Lemos, nunca foi t\u00e3o prop\u00edcia a tais argumentos. As posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, em linhas gerais, procuraram compreender as estruturas de pensamento e de a\u00e7\u00e3o da sociedade como um todo, desvelando suas for\u00e7as dominantes para, ent\u00e3o, produzir uma cr\u00edtica dos processos vigentes e uma imagina\u00e7\u00e3o de \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d. Correntes diversas \u2014 marxistas, weberianas, fenomenol\u00f3gicas, existencialistas, estruturalistas, p\u00f3s-estruturalistas \u2014 constitu\u00edram, de diferentes formas, uma perspectiva cr\u00edtica. Todas, por\u00e9m, atravessam hoje crises. (Por motivos hist\u00f3ricos que n\u00e3o cabe desenvolver nestas notas, mas que t\u00eam muito a ver, como sabemos, com as experi\u00eancias fracassadas de emancipa\u00e7\u00f5es ditas \u201ccomunistas\u201d no s\u00e9culo XX. Lembremos Latour, em <em>Jamais fomos modernos<\/em>, afirmando que 1989 foi um ano \u201cmilagroso\u201d, pois trouxe acontecimentos que romperam definitivamente com os paradigmas prometeicos de \u201cprogresso cient\u00edfico\u201d e de \u201cemancipa\u00e7\u00e3o humana\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os textos de Lemos prop\u00f5em, assim, um \u201cnovo olhar\u201d para as coisas. N\u00e3o mais uma perspectiva cr\u00edtico-emancipat\u00f3ria, mas de responsabilidade, produzida a partir de uma pesquisa cuidadosa voltada \u00e0 compreens\u00e3o dos complexos la\u00e7os sociot\u00e9cnicos atuais \u2014 sobretudo na cultura digital, mote de sua an\u00e1lise, onde atuam \u201cengenheiros, criadores, produtores de informa\u00e7\u00e3o, empresas, distribuidores, usu\u00e1rios, leis, softwares e bancos de dados, servidores, redes&#8230;\u201d (p. 48, texto 1). A pesquisa deveria derivar fundamentalmente da an\u00e1lise das media\u00e7\u00f5es entre agentes (\u201cactantes\u201d), enfatizando n\u00e3o os agentes em si (epistemologicamente inexistentes), mas os processos que efetivamente est\u00e3o em curso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na posi\u00e7\u00e3o de um criador de responsabilidades, o pesquisador parece torna-se uma figura comedida, mas autossuficiente. Isto porque ele n\u00e3o desejaria \u201cabra\u00e7ar o mundo\u201d; n\u00e3o come\u00e7a a pesquisar sobre um ambiente espec\u00edfico, uma ag\u00eancia de telemarketing, por exemplo, e de repente est\u00e1 falando, com a \u201cajuda\u201d de Boltanski e Chiapello, sobre os tra\u00e7os macro do capitalismo contempor\u00e2neo. Caso seu acompanhando dos rastros n\u00e3o lhe tenha levado a isso, ele n\u00e3o faz \u201csaltos\u201d sobre os fen\u00f4menos. O uso de paradigmas tende a ser visto como \u201cmuleta\u201d. Ao descrever bem a composi\u00e7\u00e3o de um ambiente, o objetivo do pesquisador \u00e9 se tornar um intelectual capaz de ajudar a ver as posi\u00e7\u00f5es e encargos de cada agentes, para assim, de alguma maneira, auxili\u00e1-los na resolu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias, problemas de organiza\u00e7\u00e3o, fazendo modificar as formas como os agentes veem as coisas. Portanto, o pesquisador procura adotar uma posi\u00e7\u00e3o perspectivista e agn\u00f3stica, sendo que os temas e enfoques de pesquisa procuram tamb\u00e9m mudam. Buscam-se mais a descri\u00e7\u00e3o de ambientes do que de temas ou poderes, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cessencialismo\u201d dos cr\u00edticos que versam sobre a t\u00e9cnica, os textos de Lemos recuperam dois autores c\u00e9lebres: Heidegger e Ellul. Seus trabalhos pouco serviriam para a Teoria do Ator-Rede, pois, apesar de justificarem muito bem aos contextos hist\u00f3ricos ou sociol\u00f3gicos, os conceitos que tais autores trabalham acabam se fechando em macros \u201cesquemas\u201d cr\u00edtico-filos\u00f3ficos sobre a t\u00e9cnica\/tecnologia, sejam estes pessimistas ou otimistas. Virilio, Baudrillard, Debord e autores da primeira e segunda gera\u00e7\u00f5es da Escola de Frankfurt, e seus partid\u00e1rios ainda hoje, seriam os \u00faltimos a abusarem de senten\u00e7as \u201cessencialistas\u201d. A quest\u00e3o dif\u00edcil vem a ser a respeito do diagn\u00f3stico de \u201cessencialista\u201d para os mais contempor\u00e2neos. Esses realmente produzem aqueles \u201cesquemas\u201d? Morozov, Janier, Keen, ou ent\u00e3o Stiegler, s\u00e3o cr\u00edticos e essencialistas, ou somente cr\u00edticos? Aqui, podemos dizer que, at\u00e9 onde o presente autor leu os supracitados, nenhum estaria fazendo argumentos essencialistas, e todos s\u00e3o \u201csucessos\u201d em suas pesquisas emp\u00edricas. (E fa\u00e7amos jus, em rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo quesito, tamb\u00e9m s\u00e3o \u201csucessos emp\u00edricos\u201d, o arque\u00f3logo de m\u00eddias Virilio e o pesquisador-observador-viajante Baudrillard, citados por Lemos). Tanto que se pode perguntar \u2013 e o texto de R\u00fcdiger faz isso \u2013 se a quest\u00e3o realmente pertinente hoje \u00e9 a quest\u00e3o da cr\u00edtica, e n\u00e3o a do velho argumento de condena\u00e7\u00e3o do \u201cessencialismo\u201d &#8230; Certamente, para a maior parte dos cr\u00edticos contempor\u00e2neos que versam sobre a cibercultura, o horizonte \u00e9 desvendar um pouco as \u201cordens intr\u00ednsecas\u201d da t\u00e9cnica, contudo evitando o erro de trat\u00e1-las como isoladas, o que seria o pecado dos \u201cessencialistas\u201d. Isso parece ser evidente \u2013 e talvez defina uma discuss\u00e3o pertinente hoje \u2013 quanto \u00e0queles que se ligaram, uns mais fortemente outros menos, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de Simondon, por exemplo, Deleuze-Guattari, Stiegler, Lazzarato e outros. Em rela\u00e7\u00e3o a essa tradi\u00e7\u00e3o, cabe aqui explicitar uma diferen\u00e7a crucial com Latour. Para Simondon, autor que pensa em termos de \u201ctransdu\u00e7\u00e3o\u201d, o olhar para a quest\u00e3o da individua\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 uma forma pens\u00e1-la enquanto fixa\u00e7\u00e3o dos gestos humanos, \u201ccristaliza\u00e7\u00e3o\u201d, mesmo que tempor\u00e1ria, tendo isso efeitos diversos nos ambientes (\u201ctecnicidade\u201d) \u2013 sendo \u201cmelhor ou pior\u201d para as individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas, dependendo dos tipos de entropias e neguentropias vigentes. Para Latour, no entanto, autor pensa em termos de \u201ctradu\u00e7\u00e3o\u201d, o olhar recai para os actantes n\u00e3o-humanos, que tende sempre \u00e0 media\u00e7\u00e3o, ao movimentos, criticando Simondon por ainda compreender a t\u00e9cnica como \u201cobjeto\u201d, \u201ccoisa\u201d, \u201csujeito\u201d, e n\u00e3o como \u201cadv\u00e9rbio\u201d ou \u201cverbo\u201d \u2013 considera\u00e7\u00e3o esta que faz Latour eliminar de uma vez por todas os discursos cr\u00edticos (\u201cpurificadores\u201d) sobre dispositivos, objetos t\u00e9cnicos, m\u00e1quinas, sistemas t\u00e9cnicos. Deixemos claro: ambos os autores, contudo, est\u00e3o abertos aos contextos a partir dos modos de exist\u00eancia dos seres ou objetos, criticando, ambos, o \u201csubstancialismo\u201d. Mas podemos desvelar agora algo crucial: um adotando uma posi\u00e7\u00e3o muito mais perspectivista (Latour). Assim, parece haver uma consequ\u00eancia importante na forma como os textos de Lemos, a partir de Latour, observa a \u201cpurifica\u00e7\u00e3o\u201d (compreendida como o gesto de dar algum tipo de \u201csubstancialismo\u201d aos fen\u00f4menos). As \u201cpurifica\u00e7\u00f5es\u201d dos cr\u00edticos pessimistas Morozov, Keen e Lanier, autores que estariam na linhagem mais t\u00edpica dos modernos, de \u201cpouco empirismo\u201d, presumiriam exacerbadas e antecipadas distin\u00e7\u00f5es e nivela\u00e7\u00f5es de poderes, institui\u00e7\u00f5es e valores, concluindo sobre um \u201ctodo assim\u00e9trico\u201d; enquanto que, por exemplo, os modernos cr\u00edticos otimistas L\u00e9vy, Jenkins e Johnson, tamb\u00e9m de \u201cpouco empirismo\u201d, presumiriam exacerbados e antecipados acordos, media\u00e7\u00f5es, horizontalidade de poderes, institui\u00e7\u00f5es e valores, concluindo sobre um \u201ctodo sim\u00e9trico\u201d. Latour, por sua vez, estaria \u201cno meio\u201d, no espa\u00e7o do antrop\u00f3logo que observa, perspectiva e agnosticamente, tais roteiros emp\u00edricos \u201cfracos\u201d dos cr\u00edticos pessimistas e otimistas, com suas marcas e diagn\u00f3sticos apressados, abusando de palavras de ordem, chav\u00f5es e enunciados pol\u00edticos \u201cmobilizadores\u201d. O erro destes cr\u00edticos estaria em sempre querer enxergar um \u201caqu\u00e9m\u201d ou um \u201cal\u00e9m\u201d dos limites das redes sociot\u00e9cnicas presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Caso se entenda qualquer tipo de \u201cpurifica\u00e7\u00e3o\u201d como sin\u00f4nimo de \u201cessencialismo\u201d, ent\u00e3o as coisas realmente se complicariam para os cr\u00edticos. Ora, cr\u00edticos \u2014 pessimistas e otimistas \u2014 sempre buscaram esclarecer formas de estabiliza\u00e7\u00e3o, automatismos, cristaliza\u00e7\u00f5es ou delega\u00e7\u00f5es nas redes sociot\u00e9cnicas que duram mais tempo do que o \u201cnormal\u201d. O cr\u00edtico, afinal, n\u00e3o se abst\u00e9m do julgamento \u00e9tico-pol\u00edtico, expondo, conforme o caso, um mundo de viol\u00eancia ou de justi\u00e7a, de domina\u00e7\u00e3o ou de liberdade etc. (Mesmo cr\u00edticos simondonianos ou deleuzianos, com suas sofistica\u00e7\u00f5es para tratar dos \u201cdispositivos\u201d, \u201csistemas t\u00e9cnicos\u201d, \u201cdom\u00ednios sociais\u201d e \u201cdom\u00ednios t\u00e9cnicos\u201d, n\u00e3o escapariam: para Latour, que hipervaloriza media\u00e7\u00f5es e hibridismos, o cr\u00edtico seria sempre um \u201cdem\u00f4nio simplificador da modernidade\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas cabe perguntar: n\u00e3o teria sido o \u201chibridismo total\u201d, entendido como \u201cdesterritorializa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua\u201d, o sonho de Deleuze-Guattari? Os reajustes, reformula\u00e7\u00f5es, desvios, dobras, desacoplamentos, o fim de um tempo que dura demais, produzindo hierarquiza\u00e7\u00f5es, rigidez, vida arborescente? Se, para Deleuze-Guattari, o fim desse tempo seria o sonho de emancipa\u00e7\u00e3o pela multiplicidade, para Latour isso \u00e9 pura realidade \u2014 e at\u00e9 banalidade \u2014 no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Latour teria formulado a defini\u00e7\u00e3o cr\u00edtica mais sucinta do que significa ser moderno: aquele que est\u00e1 sempre produzindo e negando h\u00edbridos (purifica\u00e7\u00e3o). Para escapar disso, buscou investir, como lembra Lemos, em \u201cultrapassar as fronteiras do senso comum entre signos e coisas\u201d (p. 44, texto 1), entre representa\u00e7\u00e3o e realidade emp\u00edrico-material, entre ideologia e infraestrutura&#8230; O objetivo era n\u00e3o alimentar qualquer hip\u00f3stase de significados para as coisas; caso contr\u00e1rio, recair-se-ia em alguma forma de nega\u00e7\u00e3o dos h\u00edbridos, os \u201cquasi-x\u201d, \u201cquasi-y\u201d. Influenciado por Latour, Lemos formula: \u201cAs infraestruturas t\u00e9cnicas s\u00e3o sempre pontuais, provis\u00f3rias, sendo que as controv\u00e9rsias ajudam a revelar o imbr\u00f3glio que as constitui, ou seja, abrir as caixas-pretas e desnudar as redes at\u00e9 ent\u00e3o estabilizadas\u201d (p. 41, texto 1). A disposi\u00e7\u00e3o intelectual pelo hibridismo seria, portanto, a meta mais importante da TAR (R\u00fcdiger, provocativamente, afirma que isso evidenciaria uma \u201cnova metaf\u00edsica\u201d&#8230; E n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Ver, por exemplo, a entrevista de Latour a Carolina Marinda: \u201c\u00c0 m\u00e9taphysique, m\u00e9taphysique et demie: L\u2019Enqu\u00eate sur les modes d\u2019existence forme-t-elle un syst\u00e8me ?\u201d [<a href=\"http:\/\/www.bruno-latour.fr\/sites\/default\/files\/140-TEMPs-MODERNES-SYSTEME.pdf\">http:\/\/www.bruno-latour.fr\/sites\/default\/files\/140-TEMPs-MODERNES-SYSTEME.pdf<\/a>]).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Abrem-se, enfim, entre os cr\u00edticos e o perspectivismo latouriano, diferentes olhares e \u00eanfases, com consequ\u00eancias epistemol\u00f3gicas e pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Poder-se-ia, em primeiro lugar, ressalvar que a raz\u00e3o cr\u00edtica, na maior parte dos autores contempor\u00e2neos citados por Lemos, n\u00e3o busca exatamente \u201cnegar as media\u00e7\u00f5es\u201d, mas, ao realizar o julgamento \u00e9tico-pol\u00edtico, identificar onde elas n\u00e3o ocorrem de forma democr\u00e1tica. Quest\u00e3o: explicitar a realidade que nega as media\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o seria diferente de negar as media\u00e7\u00f5es em si? E, nesse caso, o problema estaria em um \u201cfracasso emp\u00edrico\u201d ou na constata\u00e7\u00e3o de sua aus\u00eancia (isto \u00e9, da media\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bachelard observava que um conhecimento \u201cnovo\u201d \u00e9 sempre produzido contra um anterior. Isso talvez ajude a compreender por que, na disputa entre dois \u201cprogramas de pesquisa\u201d e na luta pela identifica\u00e7\u00e3o das \u201canomalias\u201d desses programas, o leitor se v\u00ea encurralado entre duas acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os cr\u00edticos modernos diriam: apenas uma purifica\u00e7\u00e3o radical, instrumental e essencialista, pode nos levar a acreditar que h\u00e1 humanos de um lado e instrumentos de outro. J\u00e1 os acr\u00edticos amodernos inverteriam a ordem: apenas uma hibridiza\u00e7\u00e3o radical, abstrata e anti-essencialista, pode nos levar a acreditar que n\u00e3o h\u00e1 humanos de um lado e instrumentos de outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lemos e R\u00fcdiger n\u00e3o estariam, assim, for\u00e7ando uma dicotomia, cada qual com seu anseio metaf\u00edsico \u201cpurificador\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 poss\u00edvel fazer algumas considera\u00e7\u00f5es finais, aproveitando elementos de ambos os lados. Diferentemente de R\u00fcdiger, poder\u00edamos argumentar que a quest\u00e3o dos h\u00edbridos em Latour cumpre, na verdade, um papel altamente material e real \u2014 e n\u00e3o abstrato por antecipar princ\u00edpios epistemol\u00f3gicos. Diferentemente de Lemos, poder\u00edamos notar duas problem\u00e1ticas: (1) as acusa\u00e7\u00f5es de \u201cessencialismo\u201d, \u201cdeterminismo tecnol\u00f3gico\u201d e \u201cfracassos emp\u00edricos\u201d pareceram mais pertinentes nos anos 1980, e n\u00e3o hoje; (2) \u00e9 poss\u00edvel divergir de uma posi\u00e7\u00e3o central de Latour, expressa em v\u00e1rios livros e sintetizada por R\u00fcdiger: \u201ca cr\u00edtica nos p\u00f5e no mau caminho ao nos afastar dos fatos em vez de nos fazer chegar mais perto deles; ela nos impede de dar nova vida a um empirismo com o qual poder\u00edamos nos libertar da epistemologia moderna e suas dicotomias\u201d (p. 128). Quanto ao \u201cafastar dos fatos\u201d ou ao \u201cp\u00f4r no mau caminho\u201d, j\u00e1 respondemos: isso n\u00e3o se deve \u00e0 cr\u00edtica em si, mas ao n\u00edvel de compromisso cient\u00edfico dos pesquisadores. Quanto \u00e0 cr\u00edtica propriamente dita, sejamos diretos: ela \u00e9 essencialmente dissensual, demanda a radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica (as verdadeiras media\u00e7\u00f5es!) em um modo de vida capitalista que, paradoxalmente, gera a legitimidade pol\u00edtica para tais lit\u00edgios. (Sobre o assunto, ver <em>O desentendimento<\/em>, de Jacques Ranci\u00e8re).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ponto inicial de diverg\u00eancia entre Lemos e R\u00fcdiger, acreditamos, est\u00e1 em duas posi\u00e7\u00f5es \u00e9tico-pol\u00edticas distintas no contempor\u00e2neo: a de responsabilidade e a de cr\u00edtica. (A primeira, pouco esclarecida nos textos de Lemos; a segunda, insuficientemente tratada nos de R\u00fcdiger). A partir da\u00ed, cada um acusa o fetichismo do outro: o abuso de empirismo e a mis\u00e9ria do iluminismo cr\u00edtico (no caso do latourniano Lemos); a mis\u00e9ria do empirismo e o abuso do iluminismo cr\u00edtico (no caso do te\u00f3rico cr\u00edtico R\u00fcdiger).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1, por exemplo, quem leia muito \u2014 o presente autor inclu\u00eddo \u2014 Deleuze-Guattari, Lazzarato, Stiegler e tamb\u00e9m Latour, levantando a pergunta: \u00e9 poss\u00edvel trabalhar com redes sociot\u00e9cnicas, adotar muitas posturas epist\u00eamicas latourianas e, ao mesmo tempo, assumir uma atitude cr\u00edtica? Cremos que sim, e sugerimos nestas notas que a tradi\u00e7\u00e3o aberta pela epistemologia de Simondon pode constituir um caminho cr\u00edtico \u201cn\u00e3o-substancialista\u201d hoje retomado por alguns autores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que parece certo \u2014 e vem sendo apontado enfaticamente por muitos intelectuais \u2014 \u00e9 que a cr\u00edtica contempor\u00e2nea n\u00e3o pode pretender ressuscitar a \u201cvelha cr\u00edtica\u201d, onde ela ainda se encontra melancolicamente depositada. Ela deve, antes, encontrar \u201cnovas armas\u201d, capazes de explicitar as realidades que negam as media\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e, ao mesmo tempo, alimentar novas est\u00e9ticas de vida e de mundo poss\u00edveis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; DEPOIS DE LATOUR? NOTAS SOBRE O DEBATE LEMOS &amp; R\u00dcDIGER Ednei de Genaro (2017) As notas a seguir prop\u00f5em uma interpreta\u00e7\u00e3o do debate entre Andr\u00e9 Lemos e Francisco R\u00fcdiger a partir de textos publicados na revista Matrizes (Lemos: \u201cA cr\u00edtica da cr\u00edtica essencialista da cibercultura\u201d, vol. 9, n. 1, 2015: <a href=\"http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/100672\" rel=\"nofollow\">http:\/\/www.revistas.usp.br\/matrizes\/article\/view\/100672<\/a>; R\u00fcdiger: \u201cContra o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_seo_schema_type":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[962991,8714,2983511,43757462,82549,477288,949438,82550,1780953,1155576,22217444],"class_list":["post-1564","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-andre-lemos","tag-critica","tag-essencialismo","tag-francisco-rudiger","tag-latour","tag-mediacao","tag-modernos","tag-perspectivismo","tag-purificacao","tag-simondon","tag-teoria-ator-rede"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s14Xsm-1564","jetpack-related-posts":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1564"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1564\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6395,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1564\/revisions\/6395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}