{"id":158,"date":"2010-09-26T12:51:57","date_gmt":"2010-09-26T12:51:57","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=158"},"modified":"2025-09-07T02:10:20","modified_gmt":"2025-09-07T02:10:20","slug":"ideias-do-critico-radical-robert-kurz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/ideias-do-critico-radical-robert-kurz\/","title":{"rendered":"Ideias do &#8216;cr\u00edtico radical&#8217; Robert Kurz."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/robert-kurz-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5994\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/ideias-do-critico-radical-robert-kurz\/robert-kurz-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/robert-kurz-1.jpg?fit=191%2C264&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"191,264\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Robert Kurz\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/robert-kurz-1.jpg?fit=191%2C264&amp;ssl=1\" class=\"size-full wp-image-5994 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/robert-kurz-1.jpg?resize=191%2C264&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"191\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IDEIAS DO &#8216;CR\u00cdTICO RADICAL&#8217; ROBERT KURZ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ednei de Genaro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mestrando em Sociologia Pol\u00edtica (UFSC-2009)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O intelectual alem\u00e3o Robert Kurz pode ser visto como um dos raros pensadores a realizar uma revis\u00e3o bem articulada e, no m\u00ednimo, significativa do \u2018velho marxismo\u2019. \u00c9, por conseguinte, um dos poucos a pregar uma forma de pensar emancipat\u00f3ria em tempos de queda das \u201cgrandes narrativas\u201d ut\u00f3picas (seja em tempos de \u2018p\u00f3s-modernismos\u2019). Talvez outro pensador que tamb\u00e9m fa\u00e7a isso hoje, com consider\u00e1vel peso, seja o acad\u00eamico ingl\u00eas Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As ideias deste autor alem\u00e3o s\u00e3o marcadas, no Brasil, por uma produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica inteligente e mordaz. Seus textos, apesar de amplamente traduzidos para a l\u00edngua portuguesa, est\u00e3o dispersos em ensaios, manifestos, trechos de livros etc.[1] Penso aqui em elaborar um texto que possa oferecer ao leitor \u2013 que ainda n\u00e3o teve contato mais amplo com os textos de Kurz \u2013 uma apresenta\u00e7\u00e3o de suas ideias e questionamentos centrais. Tento, portanto, dar forma a algumas de suas ideias que considero fundamentais. Fico, obviamente, circunscrito \u00e0s limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de um \u2018texto introdut\u00f3rio\u2019[2].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 um parecer revolucion\u00e1rio para o s\u00e9culo XXI: um pensamento pr\u00e1tico-emancipat\u00f3rio \u201cp\u00f3s-marxista\u201d se funda na revis\u00e3o cr\u00edtica das teorias de emancipa\u00e7\u00e3o e demais constru\u00e7\u00f5es de cr\u00edticas categ\u00f3ricas ao capitalismo dos s\u00e9culos XIX e XX. A proposta constitui-se, sobretudo, sob o escopo da cria\u00e7\u00e3o de uma forma de \u2018liberta\u00e7\u00e3o\u2019 da raz\u00e3o iluminista (do \u201cprogressismo\u201d, principalmente), que perdura em toda a tradi\u00e7\u00e3o da filosofia pol\u00edtica e da teoria social cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Surpreende que Robert Kurz seja um intelectual com grande capacidade de trazer pontos de vista sui generis sobre diversos temas contempor\u00e2neos que geram intensos debates nas ci\u00eancias sociais e na filosofia, tais como: a \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d; a \u201cnatureza em ru\u00ednas\u201d e os \u201cmovimentos ambientalistas\u201d; a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o e as bolhas financeiras\u201d; as \u201ccrises pol\u00edtico-mundiais\u201d; a \u201cexpropria\u00e7\u00e3o do tempo pelo trabalho negativo\u201d; e o \u201cneoliberalismo\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m um pensador capaz de apimentar posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas interessantes a respeito dos pensamentos p\u00f3s-modernistas, discordando fundamentalmente da substitui\u00e7\u00e3o do paradigma da economia pol\u00edtica pelo do culturalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Veremos, portanto, como o pensamento de Kurz analisa as insufici\u00eancias contempor\u00e2neas das duas vis\u00f5es de marxismo que imperaram at\u00e9 ent\u00e3o. E como ele entende que uma verdadeira pr\u00e1xis pol\u00edtica deve expressar uma cr\u00edtica categ\u00f3rica \u00e0 \u201cordem geral do mundo do trabalho\u201d. Esses dois pontos cr\u00edticos nos levar\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o mais dif\u00edcil e capital para Kurz (e, sem d\u00favida, para qualquer pensador da pol\u00edtica contempor\u00e2nea): a necessidade de continuar a revis\u00e3o cr\u00edtica da raz\u00e3o iluminista iniciada no s\u00e9culo XX e a pretens\u00e3o, segundo a vis\u00e3o kurziana, de superar a forma coercitiva do fetiche da mercadoria e da dissocia\u00e7\u00e3o geral e sexual que o capitalismo contempor\u00e2neo reproduz.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\">AS INSUFICI\u00caNCIAS DAS INTERPRETA\u00c7\u00d5ES HIST\u00d3RICAS DO MARXISMO \u2013 O \u201cDUPLO MARX\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201c(&#8230;) Trata-se agora, inapelavelmente, de libertar a obra de Marx dos modos de interpreta\u00e7\u00e3o obl\u00edquos e impregnados de incenso, cujo momento quase-religioso remete a uma sombria faceta n\u00e3o redimida (e at\u00e9 hoje irredim\u00edvel) dessa teoria. O momento quase-religioso do marxismo procede certamente tamb\u00e9m do conte\u00fado religioso secularizado do pr\u00f3prio movimento da moderniza\u00e7\u00e3o, que nada mais \u00e9 que a liberta\u00e7\u00e3o de uma forma de fetiche (valor e dinheiro). Dentro deste movimento hist\u00f3rico como um todo, no entanto, a forma fenom\u00e9nica espec\u00edfica da adora\u00e7\u00e3o marxista do fetiche nutre-se do temor ante o imposs\u00edvel e irredim\u00edvel em geral na teoria de Marx, a saber, ante o princ\u00edpio de uma cr\u00edtica radical dessa pr\u00f3pria forma de fetiche objetivada e interiorizada.\u201d<\/p>\n<p>(Robert Kurz, no ensaio \u201cO p\u00f3s-marxismo e o fetiche do trabalho\u201d, 1995)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para Kurz, \u00e9 necess\u00e1ria a constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia p\u00f3s-marxista, na qual cabe firmar uma cr\u00edtica \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es dadas por um tal \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d \u2013 pois esta vis\u00e3o se desenvolveu e centrou apenas na \u2018cr\u00edtica do valor\u2019 do fetiche da mercadoria que domina a sociedade como um todo \u2013 e tamb\u00e9m criticar o seu reverso, o \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d, que buscou a express\u00e3o te\u00f3rico-emancipat\u00f3ria dos \u2018prolet\u00e1rios\u2019 por meio de uma vis\u00e3o de Marx como mero dissidente do liberalismo burgu\u00eas, centrando-se apenas na cr\u00edtica da explora\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As interpreta\u00e7\u00f5es do \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d e do \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d formaram, em linhas gerais, as duas interpreta\u00e7\u00f5es enviesadas que permaneceram no marxismo do s\u00e9culo XX e que, hoje, s\u00e3o insuficientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o exot\u00e9rica, prevaleceu a ideia de que os intelectuais marxistas pregaram uma teoria da modernidade\/revolu\u00e7\u00e3o (\u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d do mundo) baseando-se na categoria-chave da luta de classes. Referiam-se \u00e0 ascens\u00e3o de uma for\u00e7a interna de liberta\u00e7\u00e3o gerada pelo movimento hist\u00f3rico de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e consequente exacerba\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o entre as classes. Esta foi a vis\u00e3o do chamado \u201cmarxismo tradicional\u201d adotada pelo movimento oper\u00e1rio. O marxismo exot\u00e9rico, tal como pensa Kurz, entendeu corretamente que o capital \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social, mas visto apenas sob o foco sociologizante dos \u2018dominantes\u2019 e \u2018dominados\u2019. N\u00e3o percebeu, contudo, uma mudan\u00e7a fundamental (principalmente no s\u00e9culo XX): que o proletariado tamb\u00e9m \u00e9 e gera, de sua parte, o capital. Sua emancipa\u00e7\u00e3o, como mostraram as experi\u00eancias socialistas do s\u00e9culo XX, n\u00e3o aboliu a rela\u00e7\u00e3o fetichizada pela mercadoria, origin\u00e1ria do capitalismo e distintiva deste modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Reduzindo o marxismo a uma mera sociologia de classes, isto \u00e9, \u00e0 aporia pol\u00edtica entre burgueses e oper\u00e1rios, o marxismo na forma \u201cexot\u00e9rica\u201d reservou-se a criar um meta-sujeito (o proletariado) mistificado e cultuado religiosamente, que se mostrou insuficiente e, principalmente, ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A interpreta\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica, por sua vez, anunciou a ideia radical de mistifica\u00e7\u00e3o real da forma como tal da mercadoria e do dinheiro, mostrando a imposi\u00e7\u00e3o do capital como jurisdi\u00e7\u00e3o e reifica\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es. Tudo se consuma em um sistema din\u00e2mico e autodestrutivo. A emancipa\u00e7\u00e3o social do proletariado n\u00e3o pode ser efetivada, pois a base ontol\u00f3gica do capital continua a reinar. Conclus\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda poss\u00edvel sem o rompimento do valor fetichista por meio da supera\u00e7\u00e3o da mercadoria e do dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Do mesmo modo, esta interpreta\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica teve suas insufici\u00eancias: o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d se prendeu a um conceito monista de capital, colocando a sociedade inteira dentro da forma-fetiche, sem exce\u00e7\u00f5es, sem \u201cv\u00e1lvulas de escape\u201d. Com raz\u00e3o, contudo, o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d respondeu que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel fixar-se nos conflitos de classes como existentes em si mesmos. A classe oper\u00e1ria \u00e9 um momento da rela\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 e n\u00e3o sua \u2018opositora predestinada\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, a conclus\u00e3o do pensador alem\u00e3o diante deste \u201cduplo Marx\u201d \u00e9: somente a interpreta\u00e7\u00e3o do \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d se voltou teoricamente para a cr\u00edtica categ\u00f3rica ao capitalismo, e isso ainda cont\u00e9m um germe positivo, mas fica presa a uma formula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que nivela tudo ao ego\u00edsmo da \u201cess\u00eancia humana\u201d e das rela\u00e7\u00f5es humanas, sem desenvolver novos conceitos e perspectivas emancipat\u00f3rias. Por outro lado, a interpreta\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica criou uma express\u00e3o te\u00f3rica err\u00f4nea que se voltou para o \u201cdesenvolvimento imanentemente positivo\u201d do capitalismo, com grandes consequ\u00eancias negativas no s\u00e9culo XX[3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma cr\u00edtica coerente do fetichismo precisa, portanto, revisitar o \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d, mas sob um novo olhar, irrompendo pela radicaliza\u00e7\u00e3o do conceito de trabalho abstrato, que retira as ilus\u00f5es rom\u00e2nticas a respeito do sujeito como ontologicamente determinado pelo \u201cmundo do trabalho\u201d, elevando a quest\u00e3o emancipat\u00f3ria a outro patamar.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\">A CR\u00cdTICA CATEGORIAL AO TRABALHO HUMANO<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cDesde a industrializa\u00e7\u00e3o, o moderno foi marcado pelo antagonismo de classes entre &#8216;trabalho assalariado&#8217; e &#8216;capital&#8217;, entre &#8216;proletariado&#8217; e &#8216;burguesia&#8217;. Essa oposi\u00e7\u00e3o parecia ontol\u00f3gica, porque o &#8216;trabalho abstrato&#8217; era entendido como uma necessidade natural e eterna e, apenas num sentido totalmente externo, como subst\u00e2ncia do capital. Na ideologia oficial burguesa, a forma capitalista era insepar\u00e1vel da necessidade do &#8216;trabalho&#8217; mesmo, e na ideologia socialista o &#8216;trabalho eterno&#8217; deveria supostamente libertar-se da forma capitalista.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">(Robert Kurz, entrevista a Jos\u00e9 Galisi Filho, Revista Tr\u00f3pico, setembro de 2006)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O per\u00edodo contempor\u00e2neo \u00e9 marcado pela chamada terceira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Dominado pelas revolu\u00e7\u00f5es maquin\u00e1rias e informatiza\u00e7\u00f5es, este per\u00edodo provoca uma mudan\u00e7a central: a desvaloriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a viva de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um sintoma disso \u00e9 o cen\u00e1rio das \u201cbolhas financeiras\u201d provocadas pelas concorr\u00eancias mundiais e suas media\u00e7\u00f5es. Isso levou \u00e0 revis\u00e3o da antiga vis\u00e3o de Marx de que o trabalho abstrato constitui \u201ca transfer\u00eancia de energia humana com a finalidade de valorizar a subst\u00e2ncia do capital\u201d. A f\u00f3rmula j\u00e1 n\u00e3o procede; n\u00e3o \u00e9 mais adequada. Kurz argumenta que, pela primeira vez, a radicaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista supera a expans\u00e3o dos mercados, e a quest\u00e3o do trabalho torna-se um grande engodo, sendo sua express\u00e3o pr\u00f3pria a crise do capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A concep\u00e7\u00e3o do que seja o trabalho humano fundamentou diferentes vis\u00f5es do marxismo. Segundo Kurz, os marxismos sempre ca\u00edram na antiga redu\u00e7\u00e3o \u201cexot\u00e9rica\u201d, que caracterizou o trabalho como eterna necessidade natural para mediar o metabolismo entre o homem e a natureza, e, por conseguinte, a vida humana. Esta foi, em suma, a express\u00e3o de uma categoria negativa do trabalho: como momento de sofrimento ps\u00edquico e social do \u201creino das necessidades\u201d. As novas senten\u00e7as seriam: a categoria de \u201cluta de classes\u201d, baseada na oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria prolet\u00e1rio\/burgu\u00eas (ou trabalho\/capital), n\u00e3o pode mais servir \u00e0 cr\u00edtica do capital; a categoriza\u00e7\u00e3o de classe social n\u00e3o \u00e9 mais uniforme; e a categoria libertadora do trabalho, via teorias \u201contologizadoras\u201d (como a de Luk\u00e1cs), estaria destinada ao fracasso. \u00c9, portanto, preciso formular uma cr\u00edtica categ\u00f3rica ao capital \u201cdesontologizada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo Kurz, o trabalho, na verdade, n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a forma ativa ou o estado \u2018vivo\u2019 (como escreveu Marx) do pr\u00f3prio capital. Assim, \u201co capital\u201d e \u201co trabalho\u201d guardam, em conjunto, uma identidade negativa de ordem superior. O conceito de trabalho constitui apenas um aspecto inerente ao conceito de capital. A forma\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 um est\u00e1gio transit\u00f3rio que deve ser superado. Essa supera\u00e7\u00e3o implica considerar ambos os momentos da abstra\u00e7\u00e3o: abstra\u00e7\u00e3o da forma e da esfera separada do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O marxismo incutiu um conceito ontol\u00f3gico de trabalho para legitimar a forma hist\u00f3rico-filos\u00f3fica que se libertaria pelo restabelecimento rom\u00e2ntico do valor de uso das coisas produzido no interior do pr\u00f3prio trabalho. Contudo, segundo Kurz, o conceito de trabalho n\u00e3o pode ser entendido como uma condi\u00e7\u00e3o existencial supra-hist\u00f3rica da humanidade. Conceb\u00ea-lo assim equivale a criar um conceito fetichista. Portanto, \u00e9 imprescind\u00edvel destruir a ideia de trabalho como uma ontologia todo-poderosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na verdade, o conceito de trabalho n\u00e3o tem (e n\u00e3o deve ter) ancoragem ontol\u00f3gica. Uma teoria cr\u00edtica da sociedade baseada na ontologia do trabalho \u00e9 redutora e limitada, pois desemboca na ontologia do \u201cvalor\u201d: o sujeito \u2013 tamb\u00e9m no sentido ontol\u00f3gico \u2013 permanece preso a um conjunto de conhecimentos e a\u00e7\u00f5es pautadas pela forma mercadoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na modernidade, a liberta\u00e7\u00e3o abstrata da forma-trabalho s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando o trabalho se diferencia como esfera separada e \u201crealmente abstrata\u201d, ou seja, quando ele \u00e9 separado do restante do processo vital \u2013 quando o homem produtor de mercadorias \u201cdesconsidera\u201d (abstrai) a qualidade sens\u00edvel de seus objetos realizados em vista do trabalho como um assunto perp\u00e9tuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O grande exemplo para Kurz \u00e9 a moderniza\u00e7\u00e3o e o colapso capitalista da \u201chist\u00f3ria socialista\u201d da URSS. Enquanto o consumo de for\u00e7a de trabalho preenchia o horizonte da reprodu\u00e7\u00e3o social, o gigantesco m\u00f3dulo contabil\u00edstico era absorvido pela burocracia, que se voltava para a forma do valor e da media\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O diagn\u00f3stico subsequente de Kurz \u00e9 que o capitalismo atual, ap\u00f3s as experi\u00eancias (pseudo)comunistas, torna-se cada vez mais \u201cincapaz de explorar\u201d o trabalho humano, na medida em que os padr\u00f5es de produtividade e rentabilidade produzidos pelo capital n\u00e3o ocorrem mais por uma reprodu\u00e7\u00e3o alargada em termos econ\u00f4micos reais. A tese sustenta que a crise do capitalismo contempor\u00e2neo \u00e9 conduzida pela constante \u201chiperacumula\u00e7\u00e3o estrutural\u201d ao n\u00edvel global: crise \u201cincapaz de explorar\u201d, mas que trouxe uma forma monet\u00e1ria do capital que radicaliza a contradi\u00e7\u00e3o entre a pobreza e a \u201criqueza abstrata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O resultado dessa hiperacumula\u00e7\u00e3o manifesta-se em constantes situa\u00e7\u00f5es de desemprego estrutural em metr\u00f3poles, em estruturas financeiras superinflacionadas que concentram o capital (as \u201cbolhas financeiras\u201d), no decl\u00ednio das classes m\u00e9dias e na decad\u00eancia geral do mundo social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A modernidade e a diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento da reprodu\u00e7\u00e3o social, proporcionada pelo potencial atual das for\u00e7as produtivas, n\u00e3o modificam em nada a forma direta e concreta do trabalho. Para Kurz, o problema decisivo \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o das formas humanas de relacionamento, ou seja, a supera\u00e7\u00e3o do modo como o trabalho foi historicamente empregado pelo sistema capitalista. Essa supera\u00e7\u00e3o deve ser mediada e refletida, e n\u00e3o apenas tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 esse problema que leva Kurz a repensar o conceito de sujeito, tal como utilizado pela tradi\u00e7\u00e3o iluminista. Uma nova figura meta-reflexiva \u2013 um novo sujeito \u2013 s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel caso compreendamos melhor a quest\u00e3o contempor\u00e2nea da \u201cdomina\u00e7\u00e3o social sem sujeito\u201d. A \u201cdomina\u00e7\u00e3o do homem pelo homem\u201d, diz Kurz, n\u00e3o pode ser entendida de modo externo ou subjetivo, mas como uma \u201cconstitui\u00e7\u00e3o abrangente de uma forma compuls\u00f3ria da pr\u00f3pria consci\u00eancia humana\u201d.<\/p>\n<p>No ensaio \u201cA domina\u00e7\u00e3o sem sujeito\u201d, Kurz explica:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cRepress\u00e3o interna e externa se acham no mesmo plano de codifica\u00e7\u00e3o inconsciente. Domina\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, poder militar e policial, repress\u00e3o burocr\u00e1tica, &#8216;coer\u00e7\u00e3o muda das rela\u00e7\u00f5es&#8217;, reifica\u00e7\u00e3o, auto-reifica\u00e7\u00e3o, autoviola\u00e7\u00e3o e autodisciplina, opress\u00e3o sexual e racial, auto-opress\u00e3o, etc., s\u00e3o apenas formas fenom\u00eanicas de uma \u00fanica constitui\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia fetichista, que lan\u00e7a uma rede de poder e, portanto, de domina\u00e7\u00e3o sobre a sociedade. O poder nada mais \u00e9 do que o fluido universal e penetrante da constitui\u00e7\u00e3o do fetiche, forma fenom\u00eanica tanto interna quanto externa \u2013 presente desde sempre \u2013 da pr\u00f3pria inconsci\u00eancia formal.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Todos, trabalhador e capitalista, tornam-se personas do capital \u2013 submetidos ao processo de \u201cdomina\u00e7\u00e3o sem sujeito\u201d. O car\u00e1ter do sujeito \u00e9 sempre entendido como submisso \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do fetiche. Nesta constitui\u00e7\u00e3o, prevalece o \u201cautomatismo\u201d que rege o sujeito e retira por completo sua subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A vis\u00e3o de Kurz sobre o sujeito \u00e9 hist\u00f3rica: a imposi\u00e7\u00e3o exercida pela forma-mercadoria \u00e9 produzida historicamente (n\u00e3o antropologicamente). Assim, ela \u00e9 super\u00e1vel historicamente: n\u00e3o \u00e9 o sujeito (o homem) em si que est\u00e1 corrompido, mas a constru\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria moldou nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para Kurz, a supera\u00e7\u00e3o do \u201ctodo-poderoso\u201d conceito ontologizado de trabalho humano exige continuar a realizar a \u2018tabula rasa\u2019 da raz\u00e3o iluminista e, consequentemente, da condi\u00e7\u00e3o moderna. S\u00f3 assim a consci\u00eancia p\u00f3s-marxista poder\u00e1 ser conquistada, abrindo espa\u00e7o para as quest\u00f5es mais dif\u00edceis e pol\u00eamicas.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\">A CR\u00cdTICA \u00c0 RAZ\u00c3O ILUMINISTA E \u00c0 CONDI\u00c7\u00c3O MODERNA<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO fundamento de todas as teorias e ideologias modernas \u00e9 a filosofia do Iluminismo, que, como \u2018m\u00e3e de toda reflex\u00e3o afirmativa\u2019 (at\u00e9 no marxismo tradicional), contribuiu substancialmente para a forma\u00e7\u00e3o do sistema produtor de mercadorias global. Por isso, a cr\u00edtica radical do valor e da dissocia\u00e7\u00e3o precisa incluir tamb\u00e9m uma cr\u00edtica radical do Iluminismo. N\u00e3o se trata, contudo, de uma cr\u00edtica no sentido do contra-iluminismo conservador ou da antimodernidade irracional, mas de uma cr\u00edtica \u00e0s ra\u00edzes do pensamento moderno, fixado na metaf\u00edsica real do valor.\u201d<\/p>\n<p>(Robert Kurz, entrevista a Sonia Monta\u00f1o, 10\/06\/2006)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pensamento iluminista sempre enalteceu a \u201cautonomia\u201d e a \u201cliberdade\u201d dos indiv\u00edduos, promovendo a diviniza\u00e7\u00e3o do individualismo. Segundo Kurz, uma aut\u00eantica ideologia do Iluminismo se produziu quando formulou um conceito \u00fanico do indiv\u00edduo, no qual o \u201cEu\u201d abstrato se tornou o signo de uma sociedade atomizada, aplicada na teoria do valor e nas moderniza\u00e7\u00f5es liberais capitalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse modelo, a originalidade dos indiv\u00edduos \u00e9 destitu\u00edda. O Iluminismo, ao equiparar idealmente sujeito e indiv\u00edduo, ignorou a dimens\u00e3o do \u201cEu\u201d abstrato da modernidade, que se manifesta na viol\u00eancia do valor, das dissocia\u00e7\u00f5es gerais e sexuais e do fetichismo da mercadoria exercido pela sociedade produtora de mercadorias. Esta \u00e9, segundo Kurz, a \u201cilus\u00e3o\u201d do pensamento iluminista burgu\u00eas. A modernidade caracteriza-se pela aniquila\u00e7\u00e3o da capacidade do sujeito de possuir uma \u201cindividualidade organizada\u201d, ou seja, consciente da coisifica\u00e7\u00e3o presente no mundo fetichizado. Marx foi o primeiro a compreender essa situa\u00e7\u00e3o ao descrever a forma\u00e7\u00e3o de \u201csujeitos autom\u00e1ticos\u201d na modernidade capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Iluminismo est\u00e1 imerso em antinomias e aporias imposs\u00edveis de superar dentro de seu pr\u00f3prio \u00e2mbito, perpetuando contradi\u00e7\u00f5es sociais. Seu pensamento baseia-se em um processo de polariza\u00e7\u00e3o que sustenta a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o imanente: conceitos opostos como progresso\/rea\u00e7\u00e3o, racionalidade\/irracionalismo, civiliza\u00e7\u00e3o\/barb\u00e1rie, cultura\/natureza, liberdade\/servid\u00e3o, democracia\/ditadura, indiv\u00edduo\/sociedade, igualdade\/diferen\u00e7a e sociedade\/comunidade coexistem sem resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nunca h\u00e1 resolu\u00e7\u00e3o desses \u201ccontr\u00e1rios inimigos\u201d. Para Kurz, essa polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 o eixo da vida capitalista, sustentando a din\u00e2mica interna da socializa\u00e7\u00e3o do valor e da dissocia\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, Kurz oferece uma meta-cr\u00edtica que mostra como a polaridade aprisiona a modernidade, produzindo socializa\u00e7\u00f5es sempre cindidas e negativas, e garantindo a \u201cestrutura esquiz\u00f3ide\u201d do Iluminismo. No ensaio \u201cOntologia Negativa\u201d (jan., 2003), ele observa:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO mercado, sob a forma de gigantescas organiza\u00e7\u00f5es empresariais, adota cada vez mais fun\u00e7\u00f5es do Estado; os aparelhos estatais, por seu lado, v\u00e3o-se transformando em empresas quase comerciais, cada vez mais adaptadas \u00e0 economia de mercado. O p\u00fablico \u00e9 privatizado sob a forma dos media capitalistas; o privado \u00e9 tornado p\u00fablico de modo voyerista no conte\u00fado ordin\u00e1rio desses mesmos media (desde a mis\u00e9ria pessoal das v\u00edtimas at\u00e9 \u00e0 vida sexual dos pol\u00edticos).\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Para escapar a essa l\u00f3gica polarizadora, seria necess\u00e1rio pensar em uma negatividade cr\u00edtica capaz de mediar teoricamente a Hist\u00f3ria, coincidindo com uma cr\u00edtica emancipat\u00f3ria do poder. A formula\u00e7\u00e3o kurziana enfatiza o car\u00e1ter positivo de uma anti-modernidade emancipat\u00f3ria \u2013 n\u00e3o irracional, n\u00e3o destrutiva \u2013 que supera as perspectivas de \u201cfilosofias burguesas\u201d, as quais redefinem continuamente a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista e alienam a atua\u00e7\u00e3o dos sujeitos em rela\u00e7\u00e3o a seu mundo interior e exterior, subordinando-os \u00e0 auto-regula\u00e7\u00e3o do mundo fetichizado.<\/p>\n<p>Duas aspira\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-pol\u00edticas s\u00e3o apresentadas:<\/p>\n<ol>\n<li>\n<p style=\"text-align: justify\">A compreens\u00e3o hist\u00f3rica \u201cantimoderna\u201d, emancipat\u00f3ria, que rejeita a ideia de progresso inevit\u00e1vel e a glorifica\u00e7\u00e3o ou romantiza\u00e7\u00e3o de quaisquer rela\u00e7\u00f5es de fetiche pr\u00e9-modernas.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma cr\u00edtica ao materialismo hist\u00f3rico, considerado insuficiente e super\u00e1vel, visto que se revelou mero ap\u00eandice da metaf\u00edsica hist\u00f3rica iluminista.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\">Kurz mostra que formula\u00e7\u00f5es cr\u00edticas sobre materialismo hist\u00f3rico e o sujeito no Iluminismo foram realizadas, de modo acabado, por T. Adorno e M. Horkheimer na \u201cDial\u00e9tica do Esclarecimento\u201d. Contudo, ele considera essa cr\u00edtica da metaf\u00edsica subjetiva do Iluminismo incompleta. Adorno inverteu o otimismo iluminista em pessimismo hist\u00f3rico, expondo apenas a estrutura do valor presente e deixando vest\u00edgios irrecuper\u00e1veis de um sujeito emancipado do passado, bem como quest\u00f5es de um presente potencialmente destrutivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o\u201d crescente do mundo \u00e9 resultado do processo hist\u00f3rico de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e da \u201cmetaf\u00edsica do valor iluminista\u201d, \u00e0 qual o pr\u00f3prio marxismo esteve sujeito. Uma ruptura s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ao confrontar o fetiche moderno que move os \u201copostos polares\u201d: a l\u00f3gica identit\u00e1ria destrutiva do capitalismo que coisifica o pensamento e a a\u00e7\u00e3o, absorvendo o mundo, a natureza, a sociedade e todos os objetos \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o do valor capitalista.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\">A CR\u00cdTICA DO VALOR E DA DISSOCIA\u00c7\u00c3O COMO FORMA DE SUPERA\u00c7\u00c3O TOTAL DO CAPITALISMO<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO objetivo da cr\u00edtica radical do valor \u00e9, portanto, uma sociedade para l\u00e1 do &#8216;trabalho abstrato&#8217;, do valor, do mercado, do Estado e da dissocia\u00e7\u00e3o entre os sexos. Naturalmente, isso levanta problemas enormes, pois h\u00e1 s\u00e9culos os seres humanos t\u00eam sido &#8216;socializados dentro&#8217; destas categorias e as internalizaram. Por isso, n\u00e3o existe um caminho direto para fora da ordem existente, mas h\u00e1 necessidade de um processo de media\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Media\u00e7\u00e3o significa encontrar uma nova rela\u00e7\u00e3o entre lutas imanentes por dinheiro, servi\u00e7os estatais etc., resist\u00eancia social contra a administra\u00e7\u00e3o capitalista da crise, por um lado, e os objetivos da cr\u00edtica categorial, por outro. Trata-se, de certa maneira, do antigo problema da rela\u00e7\u00e3o entre &#8216;caminho e destino&#8217;, mas sob condi\u00e7\u00f5es novas e com um modus de cr\u00edtica inteiramente diferente, mais profundo.\u201d<\/p>\n<p>(Robert Kurz, entrevista a Sonia Monta\u00f1o, 10\/06\/2006)<\/p>\n<p>Para Kurz, \u201cp\u00f3s-moderno\u201d \u00e9, na verdade, a crise do moderno \u2013 o colapso da moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante a terceira revolu\u00e7\u00e3o industrial, o indiv\u00edduo preso \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de valor e dissocia\u00e7\u00e3o tornou-se ref\u00e9m de um mundo iluminista que destituiu sua originalidade, reduzindo-o \u00e0 a\u00e7\u00e3o irracional e destrutiva de suas pr\u00f3prias necessidades e possibilidades. Uma cr\u00edtica do valor \u201cal\u00e9m do marxismo\u201d visa compreender o processo de desvaloriza\u00e7\u00e3o e aboli\u00e7\u00e3o do valor do trabalho abstrato como forma b\u00e1sica do sistema produtor de mercadorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria contempor\u00e2nea \u00e9, efetivamente, a \u201chist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o de fetiche\u201d, e n\u00e3o mais a \u201chist\u00f3ria da luta de classes\u201d. O princ\u00edpio motor da cr\u00edtica radical \u00e9 a ideia de que o capital deve ser criticado e superado n\u00e3o como categoria isolada, mas como forma sist\u00eamica do valor e da dissocia\u00e7\u00e3o. Assim, os marxismos baseados na emancipa\u00e7\u00e3o do proletariado tamb\u00e9m s\u00e3o alvos, pois se reduziram \u00e0 raz\u00e3o iluminista e \u00e0 categoria do trabalho como modo positivo e ontol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O mundo entendido pela ontologiza\u00e7\u00e3o do valor tornou-se um mundo no qual categorias como Estado, pol\u00edtica, democracia e na\u00e7\u00e3o s\u00e3o vistas \u201cde dentro\u201d do processo de socializa\u00e7\u00e3o e internaliza\u00e7\u00e3o do capital. Logo, s\u00e3o categorias pol\u00edticas que apenas refletem a socializa\u00e7\u00e3o negativa do valor. \u201cO homo politicus \u00e9 apenas o alter ego do homo economicus\u201d, sentencia Kurz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A posi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de Kurz prop\u00f5e um pensar pr\u00e1tico-emancipat\u00f3rio voltado \u00e0 luta pela exaust\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o final dos \u201ccontr\u00e1rios inimigos\u201d produzidos pelas rela\u00e7\u00f5es de valor e dissocia\u00e7\u00e3o. Ao fim da moderniza\u00e7\u00e3o, a identidade destrutiva desses contr\u00e1rios ser\u00e1 efetivamente superada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A dimens\u00e3o pol\u00edtica da bandeira feminista \u00e9 central na cr\u00edtica radical de Kurz. A luta pela igualdade entre os sexos aborda uma das aporias do iluminismo. As rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o decisivas para compreender a reprodu\u00e7\u00e3o da vida capitalista, visto que o sistema de polaridades imanentes se mant\u00e9m estruturado por rela\u00e7\u00f5es masculinas: pol\u00edtica e economia, Estado e mercado, poder e dinheiro, planejamento e concorr\u00eancia, trabalho e capital. Assim, teoria e pr\u00e1tica se situam na rela\u00e7\u00e3o de dissocia\u00e7\u00e3o geral e sexual: masculinidade (dissociadora) e feminilidade (dissociada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A sociedade inconsciente de si pr\u00f3pria permanece imersa no conjunto de polaridades. A cr\u00edtica de Kurz vai al\u00e9m das disputas eternas entre trabalho-capital ou mercado-Estado, mostrando que uma oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dual \u00e9 apenas um manique\u00edsmo interno ao pr\u00f3prio capitalismo. Estado e mercado s\u00e3o polos da socializa\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o opostos absolutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A leitura de Kurz indica que a \u201csociedade do trabalho\u201d entra em processo de \u201ceconomia das horas de trabalho\u201d. A grande \u201cm\u00e1quina do mundo\u201d \u00e9 a for\u00e7a produtiva da tecnoci\u00eancia, gerada pelo pr\u00f3prio capitalismo. Nunca o controle social esteve t\u00e3o assegurado pela autonomiza\u00e7\u00e3o do emprego cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, em detrimento da produ\u00e7\u00e3o e responsabilidade individual ou empresarial. Isso cria pot\u00eancias substancialmente incompat\u00edveis com as formas b\u00e1sicas de reprodu\u00e7\u00e3o capitalista, constituindo um \u201cengate\u201d para novas lutas populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A crise do trabalho \u00e9 consequ\u00eancia da crise do Estado e, portanto, da inst\u00e2ncia pol\u00edtica como um todo. A pol\u00edtica, at\u00e9 ent\u00e3o vinculada ao Estado, perde for\u00e7a com a desestatiza\u00e7\u00e3o. As pessoas somente se insubordinariam mediante movimentos sociais de magnitude desvinculada da forma pol\u00edtica estatal. Kurz enfatiza a \u201cfilosofia da conscientiza\u00e7\u00e3o\u201d: a resist\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel apenas via consci\u00eancia, restaurando o contexto perdido e criticando os fen\u00f4menos apocal\u00edpticos do mundo atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para superar a crise e a subordina\u00e7\u00e3o social ao valor, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho: \u00e9 preciso absorver a cr\u00edtica social, por meio da \u201cfor\u00e7a de nega\u00e7\u00e3o anti-valor\u201d e de movimentos de conscientiza\u00e7\u00e3o, sem modelos revolucion\u00e1rios pr\u00e9-definidos ou constitui\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica. O resultado seria a desfetichiza\u00e7\u00e3o: uma sociedade al\u00e9m do valor, do mercado, do Estado e da dissocia\u00e7\u00e3o entre os sexos.<\/p>\n<p>Robert Kurz, em \u201cTabula Rasa\u201d (nov., 2003), afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA consci\u00eancia social desprincipializada \u00e9 a consci\u00eancia, o saber e a sensibilidade do homo sapiens existente, mas sem o anel de ferro de uma rela\u00e7\u00e3o de coa\u00e7\u00e3o que o oprime. As institui\u00e7\u00f5es de uma sociedade desfetichizada, os &#8216;conselhos&#8217;, j\u00e1 n\u00e3o executam um princ\u00edpio formal (a autogest\u00e3o com base na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias seria uma contradi\u00e7\u00e3o em si), mas negoceiam livremente sobre a diversidade qualitativa dos objetos de sua reprodu\u00e7\u00e3o. A inst\u00e2ncia da forma organizada de estar em sociedade dos indiv\u00edduos, e com ela a s\u00edntese da reprodu\u00e7\u00e3o, apresenta-se como consci\u00eancia viva, aberta e inconclu\u00edda, com refer\u00eancia livre aos objetos; n\u00e3o como forma fechada e morta que pesa sobre a consci\u00eancia como pesadelo. Este \u00e9 o sentido radical de toda cr\u00edtica do valor.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/osertanejo.multiply.com\/journal\/compose\/18?xurl=%2Fjournal%2Fitem%2F18%2F18#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0A melhor rela\u00e7\u00e3o de artigos, ensaios e cap\u00edtulos de livros de Robert Kurz que encontrei na Internet foi na p\u00e1gina portuguesa:\u00a0<em><a href=\"http:\/\/obeco.planetaclix.pt\/robertkurz.htm\">http:\/\/obeco.planetaclix.pt\/robertkurz.htm<\/a><\/em>\u00a0(\u00faltimo acesso em: 21\/06\/2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/osertanejo.multiply.com\/journal\/compose\/18?xurl=%2Fjournal%2Fitem%2F18%2F18#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Para a constru\u00e7\u00e3o de um texto mais \u00e1gil, fujo \u00e0 regra acad\u00eamica, abstendo-me de me alongar detalhadamente em refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es. Para uma rela\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica do autor, ver a p\u00e1gina de internet da nota acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/osertanejo.multiply.com\/journal\/compose\/18?xurl=%2Fjournal%2Fitem%2F18%2F18#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0No livro intitulado \u201cO Colapso da Moderniza\u00e7\u00e3o\u201d, Robert Kurz analisa atentamente os destinos (terr\u00edveis e fadados ao fracasso) que tiveram as rep\u00fablicas socialistas, lideradas pelas ideias do marxismo \u201cexot\u00e9rico\u201d da antiga URSS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IDEIAS DO &#8216;CR\u00cdTICO RADICAL&#8217; ROBERT KURZ Ednei de Genaro Mestrando em Sociologia Pol\u00edtica (UFSC-2009) O intelectual alem\u00e3o Robert Kurz pode ser visto como um dos raros pensadores a realizar uma revis\u00e3o bem articulada e, no m\u00ednimo, significativa do \u2018velho marxismo\u2019. \u00c9, por conseguinte, um dos poucos a pregar uma forma de pensar emancipat\u00f3ria em tempos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[48907218,48907217,1945970],"class_list":["post-158","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-mundo-pos-guerra-fria","tag-revisao-teoria-critica","tag-robert-kurz"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-2y","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=158"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6410,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions\/6410"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}