{"id":162,"date":"2010-09-26T12:54:18","date_gmt":"2010-09-26T12:54:18","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=162"},"modified":"2025-09-07T02:02:20","modified_gmt":"2025-09-07T02:02:20","slug":"162","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/162\/","title":{"rendered":"INDIV\u00cdDUO E PADR\u00c3O EST\u00c9TICO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>INDIV\u00cdDUO E PADR\u00c3O EST\u00c9TICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/corpo-humano.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"163\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/162\/corpo-humano\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/corpo-humano.jpg?fit=300%2C257&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"300,257\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"corpo-humano\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/corpo-humano.jpg?fit=300%2C257&amp;ssl=1\" class=\"alignleft size-full wp-image-163\" title=\"corpo-humano\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/corpo-humano.jpg?resize=300%2C257\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"257\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ednei de Genaro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mestrando pela UFSC (2008)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u201cSe voc\u00ea compra o que \u00e9 sup\u00e9rfluo, logo vender\u00e1 o que \u00e9 necess\u00e1rio\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Benjamin Franklin.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Na sociedade contempor\u00e2nea, as estereotipa\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos por meio de imagens do corpo s\u00e3o cada vez mais difundidas. Tem-se um novo padr\u00e3o de consumo: o est\u00e9tico. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social nos enchem de propagandas, dia a dia, tentando convencer as pessoas a adotar um \u2018estilo de vida\u2019 consumista e hedonista, que n\u00e3o condiz \u2013 ao contr\u00e1rio, \u00e9 contradit\u00f3rio \u2013 com uma reflex\u00e3o sobre a vida saud\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como escreve o fil\u00f3sofo franc\u00eas Bernard Stiegler, ao contr\u00e1rio do que pensamos, n\u00e3o vivemos em um mundo dominado pelo \u2018individualismo\u2019. Na verdade, muito al\u00e9m do sentido pol\u00edtico-econ\u00f4mico que a no\u00e7\u00e3o de individualidade expressa, enfrentamos um problema mais profundo: a perda generalizada da individualidade. No atual capitalismo hiperindustrial, diz ele, estamos submetidos a uma voli\u00e7\u00e3o consumista desenfreada, que vai contra a constru\u00e7\u00e3o de nossas capacidades intelectuais, afetivas e est\u00e9ticas. Somos tomados por desejos e consci\u00eancias asfixiadas, controladas por atividades industriais que criam tecnologias para a apropria\u00e7\u00e3o, o controle e a homogeneiza\u00e7\u00e3o de nossos comportamentos ps\u00edquicos e coletivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os cidad\u00e3os \u2013 ou, na linguagem da efici\u00eancia econ\u00f4mica, \u2018os consumidores\u2019 \u2013 que buscam \u2018preencher\u2019 suas vidas com os padr\u00f5es est\u00e9ticos propagados, deveriam se perguntar: para que tipo de \u2018diviniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica\u2019 estou sonhando (ou exercitando) desesperadamente, tornando isso algo apenas fetichista e fugaz, tanto para o corpo quanto para a alma?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ocorre que o padr\u00e3o de beleza na modernidade, dizem os especialistas, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da acedia, isto \u00e9, \u201cda retra\u00e7\u00e3o da alma diante do objeto de desejo\u201d. Da\u00ed a perda da individualidade, pela condena\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e coletiva aos apegos materiais, e a fal\u00eancia espiritual e idiotia diante de desejos desmedidos e submissos. \u201cBronzeamento artificial, depila\u00e7\u00e3o, lipo, Botox, dieta, pl\u00e1stica, moda&#8230;\u201d, para citar as tecnologias est\u00e9ticas mais propagadas, substituem um verdadeiro exerc\u00edcio cont\u00ednuo de cuidar e gostar de si. O resultado disso: tornamo-nos med\u00edocres quanto \u00e0 vida em equil\u00edbrio, quanto \u00e0 felicidade n\u00e3o pueril e \u00e0 postura nobre diante do envelhecimento e da finitude da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A estiliza\u00e7\u00e3o condicionada dos modos de vida \u2013 produzida pelas atividades industriais e difundida pelo marketing via m\u00eddia \u2013 \u00e9, sem d\u00favida, formadora de nossa mis\u00e9ria simb\u00f3lica, como argumenta Stiegler. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os progressos tecnol\u00f3gicos propiciaram uma vida manipulada pelas ind\u00fastrias culturais. O resultado disso foi a frustra\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em refletir e criar suas pr\u00f3prias exist\u00eancias na modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nietzsche previu acertadamente: era necess\u00e1rio \u201ctornar-se aquilo que \u00e9s\u201d. Por\u00e9m, a civiliza\u00e7\u00e3o rebanhosa, da massa incapaz e submissa, apenas se intensificou. Somos incapazes de um narcisismo que n\u00e3o seja mero sin\u00f4nimo de ego\u00edsmo \u2013 que n\u00e3o se torne uma express\u00e3o negativa e patol\u00f3gica de uma falsa individualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por s\u00e9culos, a vida ativa e os desejos carnais foram condenados pela moralidade do mundo crist\u00e3o. O poder da Igreja sobre o corpo n\u00e3o foi \u00e0 toa, uma vez que era vital para a institui\u00e7\u00e3o criar o controle populacional, organizar politicamente a fam\u00edlia e valorizar a vida espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O \u2018desencantamento\u2019 do mundo e sua profana\u00e7\u00e3o tiveram consequ\u00eancias. Como uma crian\u00e7a que cai na libertinagem, o homem moderno absorveu sua laiciza\u00e7\u00e3o p\u00fablica e liberdade burguesa como um grande \u2018festim\u2019, regado \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e desenfreada de voli\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, de novos controles sobre os modos de vida e frui\u00e7\u00e3o destes. Diante desse eterno festejo, criamos mil extravag\u00e2ncias e puerilidades, mostrando-nos p\u00e9ssimos aprendizes das trag\u00e9dias e mitos gregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como Foucault nos provocou, n\u00e3o damos mais sentido racional e saud\u00e1vel \u00e0s t\u00e9cnicas do cuidar de si. De tal modo, n\u00e3o sobraram d\u00favidas: nossa beleza corporal e sa\u00fade n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos de vida e de bem-estar harmonizados com os deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se, desde os gregos, o significado da vida boa aristot\u00e9lica \u00e9 dado pela medida do equil\u00edbrio, no homem moderno n\u00e3o h\u00e1 nada mais distante disso. Nossa sociedade de consumo vive da abund\u00e2ncia e da frui\u00e7\u00e3o desmedida do corpo, onde mesmo a medicina \u2013 s\u00edmbolo da vida harmoniosa \u2013 torna-se progressivamente um mercado para a satisfa\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de consumo est\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Antes de tudo, os indiv\u00edduos devem poder pensar nas restri\u00e7\u00f5es que qualquer cultura imp\u00f5e sobre eles. Ou, em outras palavras, refletir sobre os \u2018comandos\u2019 que reproduzimos cotidianamente. Em toda cultura, pensava Foucault, h\u00e1 sempre um c\u00edrculo de restri\u00e7\u00f5es. O fundamental seria entender se existe realmente liberdade para os indiv\u00edduos transformarem os \u201cc\u00f3digos da cultura\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nossa sociedade exige que, a todo momento, dever\u00edamos \u2018agradar aos outros\u2019. \u201cTodos devem ser delgados, anor\u00e9xicos&#8230;\u201d: \u00e9 o que, por exemplo, se diz sobre os corpos. Ao mesmo tempo em que se vendem em larga escala fast-foods e modos de vida sedent\u00e1rios, necessitamos, sem d\u00favida, compartilhar e conviver para obter aceita\u00e7\u00e3o do outro \u2013 mas n\u00e3o simplesmente porque vivemos sob imposi\u00e7\u00f5es de condutas e mediocriza\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, nosso problema \u00e9 encontrar, assim como os antigos gregos, uma est\u00e9tica positiva do cuidar da alma e do corpo. E conv\u00e9m lembrar algo que se esquece com frequ\u00eancia: o corpo \u00e9, sem d\u00favida, belo ou feio, cheio de marcas ou jovial, produtivo ou improdutivo. Isso \u00e9 resultado da condi\u00e7\u00e3o humana no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, o que est\u00e1 em jogo entre n\u00f3s, modernos, \u00e9 se os indiv\u00edduos buscam conhecer o belo e o bom para si mesmos, ou se d\u00e3o por satisfeitos com tudo o que lhes dizem ser. A perda generalizada da individualidade, de que nos fala Stiegler, significa, por exemplo, a perda da autonomia dos indiv\u00edduos em discernir seus v\u00edcios e imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A consequ\u00eancia \u00e9 que, muitas vezes, dever\u00edamos refletir sobre quais agrados n\u00e3o s\u00e3o realmente mundanos: afinal, qual \u00e9 a finalidade desse padr\u00e3o de consumo est\u00e9tico? \u00c0s vezes, n\u00e3o agradar ao mundano \u00e9 a coragem mais dif\u00edcil que as pessoas devem ter.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>INDIV\u00cdDUO E PADR\u00c3O EST\u00c9TICO Ednei de Genaro Mestrando pela UFSC (2008) \u201cSe voc\u00ea compra o que \u00e9 sup\u00e9rfluo, logo vender\u00e1 o que \u00e9 necess\u00e1rio\u201d. Benjamin Franklin. Na sociedade contempor\u00e2nea, as estereotipa\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos por meio de imagens do corpo s\u00e3o cada vez mais difundidas. 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