{"id":2980,"date":"2020-09-09T03:08:00","date_gmt":"2020-09-09T03:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=2980"},"modified":"2026-06-06T21:44:44","modified_gmt":"2026-06-06T21:44:44","slug":"traducao-galloway-a-miseria-da-filosofia-realismo-e-pos-fordismo-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/09\/09\/traducao-galloway-a-miseria-da-filosofia-realismo-e-pos-fordismo-2011\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] &#8211; GALLOWAY &#8211; &#8220;A MIS\u00c9RIA DA FILOSOFIA: REALISMO E P\u00d3S-FORDISMO&#8221; (2013)"},"content":{"rendered":"\r\n<p class=\"has-text-align-center has-light-green-cyan-background-color has-background has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Tradu\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cSoftware, Rede, Classe \u2013 Chun, Galloway, Wark\u201d<\/em>\u00a0<em>[Fins acad\u00eamicos]<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5450\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/03\/29\/traducoes-sofware-ideologia-chun-sobre-o-software-ou-a-persistencia-do-conhecimento-visual\/voltar\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"voltar\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-5450\" style=\"width: 60px; height: 60px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?resize=60%2C60&#038;ssl=1\" alt=\"voltar\" width=\"60\" height=\"60\" \/><\/a><\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em><strong><a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\">Voltar &#8211; Sum\u00e1rio<\/a><\/strong><\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>A MIS\u00c9RIA DA FILOSOFIA: REALISMO E P\u00d3S-FORDISMO<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">ALEXANDER R. GALLOWAY<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Originalmente publicado em:<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Critical Inquiry 2013, Winter, 347-366<\/em><\/p>\r\n\r\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"2990\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/09\/09\/traducao-galloway-a-miseria-da-filosofia-realismo-e-pos-fordismo-2011\/iniquiry\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iniquiry.jpg?fit=183%2C275&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"183,275\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"Iniquiry\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iniquiry.jpg?fit=183%2C275&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-2990 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iniquiry.jpg?resize=292%2C439&#038;ssl=1\" alt=\"Iniquiry\" width=\"292\" height=\"439\" \/><\/p>\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\r\n\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"367\" data-end=\"625\">Este ensaio principia de outro. Em um recente exame do atual conceito ideol\u00f3gico de c\u00e9rebro, Catherine Malabou pergunta-se: \u201cO que dever\u00edamos fazer para que a consci\u00eancia do c\u00e9rebro n\u00e3o seja pura e simplesmente coincidente com o esp\u00edrito do capitalismo?\u201d[1].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"627\" data-end=\"1740\">Tal quest\u00e3o de Malabou \u00e9, essencialmente, o enigma que eu desejo explorar. Embora seja centralmente sobre o c\u00e9rebro, a quest\u00e3o repercute mais longe porque vai direto ao ponto em que alguns pensamentos filos\u00f3ficos se apresentam hoje equivocados. Por que, no corrente renascimento investigativo da filosofia continental, h\u00e1 uma coincid\u00eancia entre a estrutura dos sistemas ontol\u00f3gicos e a estrutura das tecnologias mais evolu\u00eddas do capitalismo p\u00f3s-fordista? Estou pensando aqui, por um lado, sobre as redes de computadores, em geral, e sobre as linguagens de computadores orientadas a objetos, em particular (Java e C++, por exemplo), e, por outro, a respeito de certos fil\u00f3sofos realistas como Bruno Latour, mas tamb\u00e9m, de maneira mais destacada, a respeito de Quentin Meillassoux, Graham Harman e seus respectivos associados na escola denominada realismo especulativo. Por que esses fil\u00f3sofos, quando esteiam um espelho \u00e0 natureza, veem o modo de produ\u00e7\u00e3o reflexo de volta para si mesmos? Por que, em s\u00edntese, h\u00e1 uma coincid\u00eancia entre as ontologias contempor\u00e2neas e os softwares das grandes empresas?<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"1742\" data-end=\"2633\">Sem embargo, tal coincid\u00eancia ainda precisa ser demonstrada, e meu prop\u00f3sito ser\u00e1 por certo evidenciar a congruidade existente. Todavia, revelando-se plaus\u00edvel a sua exist\u00eancia, duas quest\u00f5es adicionais seguem, uma relacionada \u00e0 validade te\u00f3rica da escrita em pauta e a outra relacionada \u00e0 sua utilidade pol\u00edtica. (1) Se a atual filosofia realista imita a infraestrutura do capitalismo, n\u00e3o dever\u00edamos mostrar-lhe a porta apenas por esse fato, admitindo que qualquer mera reciclagem da ideologia contempor\u00e2nea \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, anticient\u00edfica e, portanto, suspeita em rela\u00e7\u00e3o aos seus fundamentos epistemol\u00f3gicos? E (2) mesmo que se ocultem as defici\u00eancias epistemol\u00f3gicas, n\u00e3o dever\u00edamos critic\u00e1-la por motivos puramente pol\u00edticos, argumentando que qualquer projeto filos\u00f3fico que campeie ventrilocar o atual arranjo industrial \u00e9, pela mesma raz\u00e3o, retr\u00f3grado politicamente?<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2635\" data-end=\"3381\">As quest\u00f5es abrem as comportas para uma segunda onda de indaga\u00e7\u00f5es, subsumidas \u00e0s primeiras. Tais quest\u00f5es dizem respeito \u00e0 natureza do pensamento cr\u00edtico, incluindo nelas uma an\u00e1lise das velhas distin\u00e7\u00f5es entre objeto e coisa, objeto e palavra, e objeto e ideia, sugerindo que dever\u00edamos retornar ao debate cl\u00e1ssico entre realismo e materialismo. A fenomenologia tamb\u00e9m ter\u00e1 um papel a desempenhar, uma vez que as quest\u00f5es necessariamente evocam o fantasma desta profiss\u00e3o empoeirada. Ao final, talvez possamos redescobrir um tipo especial de materialismo, que procura os fatos hist\u00f3ricos das coisas tais como elas s\u00e3o, dando total aten\u00e7\u00e3o para a gravidade \u00e9tica da presen\u00e7a no mundo e ao tipo de aten\u00e7\u00e3o que dever\u00edamos oferecer.<\/p>\r\n<ol>\r\n<li><strong>Badiou e Java<\/strong><\/li>\r\n<\/ol>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de trabalhar diretamente as provoca\u00e7\u00f5es acima, e de maneira a manter integralmente a instiga\u00e7\u00e3o de Malabou, precisamos recuar e investigar a natureza do mundo contempor\u00e2neo e o tipo de pesquisa filos\u00f3fica que vem sendo desempenhada em seu interior. De tal modo, qual o tipo de discurso que est\u00e1 em jogo aqui, qual \u00e9 o esp\u00edrito contempor\u00e2neo do capitalismo, e como os dois podem estar relacionados?<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Alain Badiou, por exemplo, tem tido uma profunda influ\u00eancia na filosofia continental contempor\u00e2nea, particularmente na \u00faltima d\u00e9cada, ou depois que suas obras apareceram em ingl\u00eas. Ele orientou e influenciou v\u00e1rios dos envolvidos no realismo especulativo, incluindo Meillassoux. O \u201cretorno \u00e0 verdade\u201d de Badiou, embora n\u00e3o seja id\u00eantico ao retorno ao real de Meillassoux, \u00e9 certamente feito do mesmo tecido, ambos perseguindo sem pedir desculpas o absoluto enquanto abandonam o construtivismo social da p\u00f3s-modernidade. Na obra de Badiou, encontrei um paralelo entre a teoria dos conjuntos e o design de certas linguagens de computadores. Sua obra tem muito mais afinidade com o software e os sistemas algor\u00edtmicos do que ele possa imaginar. H\u00e1 uma misteriosa homologia entre os conceitos-chave da ontologia de Badiou, diretamente influenciada pela teoria dos conjuntos, e os conceitos-chave do design das linguagens de computador orientadas a objetos. Na verdade, tal como atestam os historiadores da computa\u00e7\u00e3o, as linguagens orientadas a objetos foram projetadas originalmente utilizando os princ\u00edpios vindos das teorias dos sistemas e dos conjuntos [2]. Isso n\u00e3o \u00e9 irrelevante, devido ao fato de que as linguagens de computador orientadas a objetos ocupam hoje um nicho importante na infraestrutura industrial do mundo: enquanto softwares, elas controlam as novas plantas rob\u00f3ticas automobil\u00edsticas, sincronizam tranquilamente suas sedes corporativas com os call centers de outros pa\u00edses e permitem que companhias como o Google e o Facebook processem eficientemente milh\u00f5es de solicita\u00e7\u00f5es. Haveria um n\u00facleo capitalista oculto sustentando o Ser e Evento de Badiou? Com certeza, n\u00e3o. Haveria uma similitude entre como Badiou e Java ou C++ discorrem acerca do mundo? Penso que sim, e quero come\u00e7ar este ensaio descrevendo tal homologia.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos a partir de dois conceitos-chave de Badiou, pertencimento e inclus\u00e3o, emprestados da teoria dos conjuntos. Em termos de defini\u00e7\u00e3o formal, Badiou assim esclarece: \u201cA teoria dos conjuntos distingue duas poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre m\u00faltiplos. Existe a rela\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, de pertencimento&#8230;, que indica que um m\u00faltiplo \u00e9 contado como elemento na apresenta\u00e7\u00e3o de outro. Mas existe tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o&#8230;, que indica que um m\u00faltiplo \u00e9 um subconjunto de outro\u201d [3]. Algo chamado x pertence a uma situa\u00e7\u00e3o y se \u00e9 apresentado dentro dessa situa\u00e7\u00e3o e \u00e9 contado dentro dela. Por outro lado, algo x est\u00e1 inclu\u00eddo em outro y se todos os elementos de x tamb\u00e9m s\u00e3o elementos de y. A inclus\u00e3o pode ent\u00e3o ser compreendida como uma rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho [parent-child relationship], em que todos os elementos da m\u00e3e est\u00e3o representados no filho. Como o filho pode exceder o que estava presente na m\u00e3e, esta \u00e9 referida como subconjunto daquele (apesar de ter preced\u00eancia l\u00f3gica anterior ou sobre o filho), de modo que os elementos da m\u00e3e representam um subconjunto (ou, alternativamente, um conjunto id\u00eantico) daqueles existentes no filho. Assim, o subconjunto \u00e9 logicamente anterior ao conjunto quando inclu\u00eddo nele.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Note que a linguagem de apresenta\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o oferecida aqui n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia. Badiou especifica que pertencimento \u00e9 uma quest\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o, enquanto inclus\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o [4]. Novamente: x \u00e9 apresentado em y quando lhe pertence; x \u00e9 representado em y quando nele est\u00e1 inclu\u00eddo. A raz\u00e3o para isso \u00e9 que o pertencimento \u00e9 uma quest\u00e3o de como as coisas aparecem nas situa\u00e7\u00f5es (isto \u00e9, como elas s\u00e3o apresentadas nas situa\u00e7\u00f5es), enquanto a inclus\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de como as entidades m\u00e3es se replicam enquanto subconjuntos das suas pr\u00f3prias entidades filhas (isto \u00e9, como elas s\u00e3o representadas em suas filhas).<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes dois conceitos b\u00e1sicos s\u00e3o o combust\u00edvel de grande parte do que Badiou expressa matematicamente em O Ser e o Evento. De fato, eles s\u00e3o a mat\u00e9ria-prima que define o axioma do conjunto das partes, o conceito de estado da situa\u00e7\u00e3o, o singleton e a lei do tornar-se-um [forming-into-one; mise-en-un], e, finalmente, os conceitos espec\u00edficos de Badiou de evento, fidelidade, o gen\u00e9rico e o for\u00e7amento [forcing; for\u00e7age].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 uma leitura minuciosa de O Ser e o Evento ou de L\u00f3gicas dos Mundos. Eu gostaria, contudo, de comparar os dois termos b\u00e1sicos de Badiou com um quadro de conceitos encontrados especificamente em Java, uma popular linguagem orientada a objetos, desenvolvida como uma das primeiras linguagens de programa\u00e7\u00e3o independentes de plataforma. Embora se deva reconhecer as muitas diferen\u00e7as entre os tipos de linguagens orientadas a objetos hoje em uso, tais como Ruby, C++, Objective-C ou Lisp, para o prop\u00f3sito de elucida\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, irei tomar a linguagem orientada a objetos Java como paradigm\u00e1tica.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">As especifica\u00e7\u00f5es de Java descrevem v\u00e1rios importantes aspectos da linguagem, dois dos quais s\u00e3o pertinentes \u00e0 presente discuss\u00e3o. A primeira \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o (membership). Linguagens orientadas a objetos s\u00e3o organizadas em torno do conceito de classe ou de uma descri\u00e7\u00e3o abstrata de um m\u00f3dulo de c\u00f3digo, que pode ser instanciada em uma inst\u00e2ncia de classe realmente existente, conhecida como objeto. Associa\u00e7\u00e3o refere-se \u00e0 estrutura de dados que comp\u00f5e o objeto. Os membros do objeto podem incluir vari\u00e1veis, m\u00e9todos e outras declara\u00e7\u00f5es. Os membros podem ser declarados diretamente na classe, ou podem vir a partir dos membros de uma classe-m\u00e3e da qual o objeto \u00e9 um filho [5].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais rela\u00e7\u00f5es m\u00e3e-filho nomeiam o segundo aspecto de Java relacionado \u00e0 discuss\u00e3o em pauta: a <em>heran\u00e7a<\/em>. Por meio de um processo conhecido como extens\u00e3o, classes podem ampliar outras classes, o que significa que elas herdam todas (ou algumas) as qualidades daquelas classes. Em linguagem comum, a classe herdada \u00e9 chamada de classe-m\u00e3e ou superclasse, e a classe que herda \u00e9 chamada de filha ou subclasse [6]. Assim, considere a seguinte rela\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica de classes e superclasses agrupadas: a classe definida como ma\u00e7\u00e3 vermelha tamb\u00e9m pode ser uma extens\u00e3o de uma superclasse de ma\u00e7\u00e3, herdando todas as qualidades da superclasse, e a superclasse, em si mesma, pode ser definida como uma extens\u00e3o de uma classe ainda mais abrangente, digamos, de um peda\u00e7o de fruta; ent\u00e3o, tanto a ma\u00e7\u00e3 quanto a ma\u00e7\u00e3 vermelha teriam herdado as qualidades do peda\u00e7o de fruta, ambas sendo derivadas dele.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">A semelhan\u00e7a entre Badiou e Java \u00e9 clara. O que Badiou chama de pertencimento, Java chama de associa\u00e7\u00e3o. O que Badiou chama de inclus\u00e3o, Java chama de heran\u00e7a. Quando Badiou discute como os m\u00faltiplos podem pertencer a outro m\u00faltiplo, ele est\u00e1 usando a mesma l\u00f3gica usada por um programador de computador que discute como a vari\u00e1vel de um membro pode ser definida dentro da associa\u00e7\u00e3o de uma classe. De outro modo, quando Badiou discute como um m\u00faltiplo pode ser um subm\u00faltiplo de outro m\u00faltiplo, incluindo todos os elementos da m\u00e3e dentro do filho, ele est\u00e1 usando a mesma l\u00f3gica usada por um programador de computador que discute como uma nova defini\u00e7\u00e3o de classe pode estender uma classe preexistente e, com isso, herdar todas (ou algumas, dependendo de como a classe-m\u00e3e \u00e9 definida) as suas propriedades. Em resumo, as l\u00f3gicas de pertencimento e inclus\u00e3o que estruturam a ontologia de Badiou s\u00e3o id\u00eanticas \u00e0s l\u00f3gicas de associa\u00e7\u00e3o e heran\u00e7a que estruturam hoje as linguagens orientadas a objetos.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu j\u00e1 apontei, as conclus\u00f5es a serem tiradas de tudo isso s\u00e3o um tanto desconcertantes. Tais linguagens orientadas a objetos s\u00e3o em si mesmas o cora\u00e7\u00e3o e a alma da economia da informa\u00e7\u00e3o, de modo que, se n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimas do modo de produ\u00e7\u00e3o atual, est\u00e3o certamente intimamente entrela\u00e7adas com ele. Muitas das empresas mais capitalizadas do planeta s\u00e3o empresas de software dependentes da infraestrutura orientada a objetos (Google, Cisco Systems, IBM, Facebook); muitas das pessoas mais ricas s\u00e3o magnatas da \u00e1rea de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o (a quantia estimada de Michael Bloomberg \u00e9 de US$ 22 bilh\u00f5es, a de Bill Gates, US$ 56 bilh\u00f5es); quase todos os campos da ind\u00fastria hoje t\u00eam sido reestruturados para acomodar as possibilidades e vicissitudes dos softwares (algoritmos em mercados financeiros, bioinform\u00e1tica); e a vasta maioria dos softwares \u00e9 escrita em linguagens orientadas a objetos, sejam elas C++, Ruby ou Java. Al\u00e9m do mais, as linguagens orientadas a objetos n\u00e3o apenas estruturam os neg\u00f3cios como tamb\u00e9m influenciam, de maneira geral, as l\u00f3gicas de identifica\u00e7\u00e3o, captura e media\u00e7\u00e3o de corpos e objetos. A obra de Phil Agre \u00e9 fundamental neste sentido, particularmente suas an\u00e1lises da l\u00f3gica de captura e de v\u00e1rias gram\u00e1ticas da a\u00e7\u00e3o articuladas entre corpos e objetos a partir de redes de informa\u00e7\u00e3o [7]. Assim, n\u00e3o \u00e9 demais argumentar que o modo de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neo tem uma rela\u00e7\u00e3o especial com as linguagens orientadas a objetos, tal como se podia dizer cinquenta anos atr\u00e1s sobre sua especial rela\u00e7\u00e3o com as linhas de montagem manufatureiras e, cem anos antes, com a m\u00e1quina a vapor. Em resumo, Java e outras linguagens s\u00e3o ferramentas por excel\u00eancia da infraestrutura p\u00f3s-industrial contempor\u00e2nea. Acerca disso, n\u00e3o h\u00e1 ilus\u00f5es.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma desconcertante conclus\u00e3o fica evidente: a congru\u00eancia entre como Badiou discursa sobre ontologia e como o capitalismo estrutura o seu mundo de objetos de neg\u00f3cios [8]. \u00c9 claro que somente a identifica\u00e7\u00e3o formal da congru\u00eancia n\u00e3o \u00e9 reprov\u00e1vel em si mesma. Existem muitas estruturas que \u201cse parecem\u201d com outras. E dever\u00edamos estar vigilantes para n\u00e3o fetichizar a forma como algo divino \u2013 tal como a numerologia diviniza o n\u00famero. Contudo, n\u00e3o somos obrigados a nos interrogar sobre essa congru\u00eancia? Essa rela\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o? Meillassoux e outros armaram uma poderosa cr\u00edtica do correlacionismo, ent\u00e3o por que uma cegueira em rela\u00e7\u00e3o a esta correla\u00e7\u00e3o mais elementar? \u00c9 evidente que a correla\u00e7\u00e3o entre Badiou e Java n\u00e3o pode ser explicada como mera coincid\u00eancia.<em> O que dever\u00edamos fazer para que a nossa compreens\u00e3o do mundo n\u00e3o seja pura e simplesmente coincidente com o esp\u00edrito do capitalismo?<\/em><\/p>\r\n<ol start=\"2\">\r\n<li><strong>O Retorno do Realismo<\/strong><\/li>\r\n<\/ol>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma a dirigir-me a essas importantes quest\u00f5es, irei expandir o campo de vis\u00e3o e fazer algumas observa\u00e7\u00f5es sobre o realismo filos\u00f3fico[9]. Em tal contexto, realismo significa simplesmente que o mundo externo existe independentemente de n\u00f3s mesmos e de nossa linguagem, pensamentos e cren\u00e7as \u2013 embora tamb\u00e9m seja comum considerar a tese menos simples de que n\u00f3s temos acesso direto e verific\u00e1vel ao conhecimento acerca do mundo externo. Na trilha do kantismo e da fenomenologia, e do estruturalismo subsequentes, o realismo praticamente se extinguiu na tradi\u00e7\u00e3o continental, apesar de ter ramifica\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis na filosofia anal\u00edtica anglo-americana, especialmente na filosofia da ci\u00eancia. Mas as coisas come\u00e7aram a mudar em 2002. Neste ano, Manuel De Landa publica um livro sobre Deleuze, <em>Intensive Science and Virtual Philosophy<\/em>, afirmando em termos inequ\u00edvocos: \u201cEu sou realista\u201d; no mesmo ano, Harman publica seu primeiro livro, no qual prop\u00f5e um realismo em torno da chamada filosofia orientada a objetos [10].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o mais influente dos recentes textos realistas seja o livro <em>After Finitude<\/em> [<em>Depois da Finitude<\/em>], no qual Meillassoux defende que devemos ir al\u00e9m do que ele denomina correlacionismo, e reconciliar o pensamento com o absoluto. Para Meillassoux, correlacionismo significa que o conhecimento do mundo \u00e9 sempre resultado de uma rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto. \u201cEntendemos \u2018correlacionismo\u2019 como a ideia segundo a qual n\u00f3s s\u00f3 temos acesso \u00e0 correla\u00e7\u00e3o entre pensamento e ser, e nunca a um termo considerado separado do outro\u201d, escreve Meillassoux [11]. Sob o sistema correlacionista, subjetividade e objetividade permanecem para todo sempre unidas. Aqui, naturalmente, poder-se-ia destacar figuras como Kant, com seu altamente mediado modelo de sujeito e objeto. A fenomenologia \u00e9 tamb\u00e9m fundamental para compreender a hist\u00f3ria do correlacionismo, assim como o movimento filos\u00f3fico franc\u00eas dos anos 1960 e 1970, cujos representantes eram obcecados com a inabilidade do homem de ir para al\u00e9m da casa da linguagem. O p\u00f3s-modernismo \u00e9 considerado um importante divisor de \u00e1guas para o correlacionismo, particularmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e0s vezes atribu\u00edda corretamente ou n\u00e3o aos pensadores p\u00f3s-modernos \u2013 de que o sujeito est\u00e1 derradeiramente \u00e0 merc\u00ea da ideologia e do espet\u00e1culo, por meio dos quais n\u00e3o existe verdade ou realidade absoluta. Para o correlacionismo, a subjetividade humana sempre tem um papel crucial a desempenhar; o mundo real n\u00e3o existe ou, se existe, n\u00f3s n\u00e3o podemos acess\u00e1-lo diretamente.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Meillassoux se coloca firmemente contra a longa tradi\u00e7\u00e3o do correlacionismo na filosofia ocidental. Para ele, o mundo real existe e pode ser conhecido. O antropocentrismo correlacionista, famosamente intitulado \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Copernicana\u201d, \u00e9 abandonado em favor de um sistema no qual a realidade est\u00e1 no centro, e o humano \u00e9 somente um elemento na rede do real. Levi Bryant e outros t\u00eam denominado isso de ontologia plana [<em>flat ontology<\/em>], compreendendo um \u00fanico plano, o real, do qual o pensamento humano e a cultura fazem parte como elementos da rede mais ampla do real [12].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">No cap\u00edtulo inaugural de <em>After Finitude<\/em>, intitulado \u201cAncestralidade\u201d, Meillassoux exp\u00f5e os termos pelos quais uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o correlacionista se apresenta, fazendo refer\u00eancia \u00e0 armadilha kantiana que dominou a filosofia ocidental por algum tempo: \u201cO pensamento n\u00e3o pode sair de si mesmo de modo a comparar o mundo \u2018em si\u2019 e o mundo \u2018para n\u00f3s\u2019 [&#8230;]. N\u00e3o podemos representar o \u2018em si\u2019 sem que ele se torne um \u2018para n\u00f3s\u2019; ou, como diz divertidamente Hegel, n\u00e3o podemos \u2018surpreender\u2019 o objeto \u2018por tr\u00e1s\u2019 de forma a descobrir o que ele seria em si mesmo\u201d.[13] Meillassoux n\u00e3o tanto surpreende o objeto, mas o postula em uma escala de tempo hist\u00f3rico fora da cogni\u00e7\u00e3o humana, um tempo hist\u00f3rico anterior \u00e0 humanidade. Assim, ele discursa acerca do \u201creino ancestral\u201d e do \u201carque-f\u00f3ssil\u201d: demandas \u201cancestrais\u201d s\u00e3o demandas sobre coisas anteriores \u00e0 exist\u00eancia do homem e, pois, anteriores ao que os fenomen\u00f3logos chamam de \u201cdoa\u00e7\u00e3o\u201d da experi\u00eancia humana; o \u201carque-f\u00f3ssil\u201d \u00e9 o tra\u00e7o que permite a algu\u00e9m fazer demandas ancestrais. Por exemplo, o decaimento radiol\u00f3gico \u00e9 um \u201carque-f\u00f3ssil\u201d que permite a um cientista datar um f\u00f3ssil pr\u00e9-hist\u00f3rico. Meillassoux completa essas provoca\u00e7\u00f5es perguntando se algum correlacionismo poderia responder por tais demandas \u201cancestrais\u201d; tecnicamente, os fatos em quest\u00e3o precederiam a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto e, portanto, seriam anteriores ao dom\u00ednio do modelo proposto pelo correlacionismo. Se o conhecimento humano teve um in\u00edcio, o que pensar da hist\u00f3ria anterior ao pensamento humano? A ci\u00eancia emerge como uma esp\u00e9cie de trunfo, de modo que Meillassoux dirige a seguinte pergunta aos seus oponentes correlacionistas: \u201ccomo conceber\u00edamos a capacidade das ci\u00eancias emp\u00edricas de produzir conhecimentos no dom\u00ednio ancestral?\u201d (<em>AF<\/em>, p. 26; \u00eanfase removida).<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A se\u00e7\u00e3o de abertura do livro tamb\u00e9m ressalta a import\u00e2ncia da matem\u00e1tica. Meillassoux descreve um enigma no qual a matem\u00e1tica tem a capacidade de falar sobre o passado hist\u00f3rico em que a humanidade estava ausente: \u201co que faz o discurso matem\u00e1tico ser capaz de descrever um mundo deserto para o humano <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. Esse \u00e9 o enigma que precisamos confrontar: a habilidade da matem\u00e1tica de discursar acerca do Grande Fora; de discursar sobre um passado deserto tanto do homem quanto da vida\u201d<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[14]<\/span>; n\u00e3o obstante, anteriormente, Meillassoux apresenta a matem\u00e1tica durante sua discuss\u00e3o a respeito das qualidades prim\u00e1rias: \u201ctodos aqueles aspectos do objeto que podem ser formulados em termos matem\u00e1ticos podem ser concebidos enquanto propriedades do objeto em si mesmo\u201d (<em>AF<\/em>, p. 3; \u00eanfase removida). (Logo retornarei \u00e0 quest\u00e3o da matem\u00e1tica, mas aqui vale a pena identific\u00e1-la explicitamente).<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O emprego de \u201creino ancestral\u201d permite, pois, que Meillassoux abra espa\u00e7o para um mundo puramente real, um mundo sobre o qual jamais incidiu o olhar humano, ou sobre o qual a mente humana nunca pensou. \u201cPensar a ancestralidade \u00e9 pensar um mundo sem pensamento\u201d, escreve, \u201cum mundo sem a doa\u00e7\u00e3o do mundo\u201d (<em>AF<\/em>, p. 28).<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O termo \u201cdoa\u00e7\u00e3o do mundo\u201d [<em>givenness of the world<\/em>] \u00e9 uma refer\u00eancia ao modo como os fenomen\u00f3logos falam sobre presen\u00e7a. Refere-se \u00e0 maneira pela qual o mundo entra em percep\u00e7\u00e3o por um ser pensante. \u201cNossa tarefa, por contraste\u201d, escreve Meillassoux, \u201cconsiste em tentar compreender como o pensamento \u00e9 capaz de acessar o n\u00e3o correlacionado, ou seja, um mundo capaz de subsistir sem determinado ser\u201d. O Santo Graal de Meillassoux \u00e9, pois, a exist\u00eancia sem doa\u00e7\u00e3o. Ele compreende o absoluto enquanto algo \u201ccapaz de existir, existamos ou n\u00e3o\u201d (<em>AF<\/em>, p. 28).<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Como dever\u00edamos avaliar Meillassoux e sua interven\u00e7\u00e3o na filosofia contempor\u00e2nea?<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[15]<\/span> Algumas quest\u00f5es v\u00eam \u00e0 mente, todas relacionadas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de Meillassoux com a pol\u00edtica e a hist\u00f3ria. Abordarei duas cr\u00edticas, primeiro em termos relativamente vagos, depois passarei para uma terceira cr\u00edtica, mais pontual.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A primeira \u00e9 a respeito da quest\u00e3o da necessidade da metaf\u00edsica em si mesma, seja ela na forma essencialista, absoluta, de uma realidade natural, ou de verdades universais. Todas essas coisas foram, em um momento ou outro, antag\u00f4nicas \u00e0 chamada teoria cr\u00edtica, isto \u00e9, \u00e0 pr\u00e1tica inventada pela obra de Karl Marx na metade do s\u00e9culo XIX e praticada de diferentes maneiras pela Escola de Frankfurt, pelo estruturalismo, pela semi\u00f3tica, pelos estudos culturais e por certos tipos de teoria <em>queer<\/em>, feminismo e teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a, at\u00e9 o final do s\u00e9culo XX. Em grande parte da obra de Marx, ess\u00eancia e verdade s\u00e3o antagonistas, sendo substitu\u00eddas por identidades constru\u00eddas e mundos contingentes. (Lembre-se de como Marx e Friedrich Engels, na segunda parte do Manifesto Comunista, prometeram acabar com a verdade!). Com o novo realismo especulativo, e talvez tamb\u00e9m de maneira diversa com a filosofia orientada a objetos de Harman, arrisca-se a passar de um sistema essencialista subjetivo (patriarcal, logoc\u00eantrico, ideologicamente aparatado) para um sistema essencialista \u201cobjetivo\u201d (um real n\u00e3o mediado, infinito, an\u00e1logo \u00e0 matem\u00e1tica, o absoluto, borbulhante em caos). N\u00e3o \u00e9 hora de reavivar os argumentos antiessencialistas de nossos antepassados marxistas, feministas e p\u00f3s-coloniais? N\u00e3o \u00e9 o essencialismo metaf\u00edsico de Meillassoux \u2013 seu apego \u00e0 universalidade da conting\u00eancia (que torna sem sentido essa universalidade impotente), sua procura pelo absoluto, seu endossamento do real puro \u2013 t\u00e3o repugnante quanto os outros tipos de essencialismos metaf\u00edsicos?<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">De tal modo, precisamos confrontar diretamente a provoca\u00e7\u00e3o fundamental do novo realismo filos\u00f3fico. Ora, contra a tradi\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica materialista desde Marx, muitos dos realismos hoje sustentam que a ontologia n\u00e3o deveria ser pol\u00edtica; sustentam que as especula\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas devem permanecer separadas da pol\u00edtica. Tais coros est\u00e3o sendo ouvidos com cada vez mais frequ\u00eancia hoje. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida de que muitas das figuras associadas ao realismo filos\u00f3fico se consideram almas politizadas de certo calibre. E frequentemente se ouve o argumento de que o desacoplamento entre o ontol\u00f3gico e o pol\u00edtico \u00e9 um ato neutro por si mesmo e, ao faz\u00ea-lo, n\u00e3o lan\u00e7a nenhuma difama\u00e7\u00e3o como tal sobre o projeto pol\u00edtico. Poder-se-ia querer fazer somente metaf\u00edsica aqui, e pol\u00edtica acol\u00e1. Ademais, os promotores de tais argumentos frequentemente louvam o desacoplamento enquanto uma caracter\u00edstica do realismo, uma n\u00e3o responsabilidade, porque isso permite que o pol\u00edtico persista em sua pr\u00f3pria esfera aut\u00f4noma, imaculado pelas argutas quest\u00f5es do Ser e da apar\u00eancia.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, o desacoplamento do reino ontol\u00f3gico do reino pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 totalmente neutro, uma vez que surge menos como uma tentativa in\u00f3cua de arrumar a desordenada paisagem do discurso filos\u00f3fico (uma fala do Ser n\u00e3o estaria eivada de uma fala da pol\u00edtica) e mais como uma estrat\u00e9gia ideol\u00f3gica voltada, inconscientemente ou n\u00e3o, para a elimina\u00e7\u00e3o de discursos concorrentes. Lembre-se do que precisa ser descartado ao abolir o correlacionismo. Certamente poder-se-ia descartar a fenomenologia, mas do mesmo modo o construtivismo social e os v\u00e1rios campos amparados por uma metodologia construtivista social, incluindo aqui grande parte do feminismo das segunda e terceira ondas, certos tipos de teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a, o projeto de identidade pol\u00edtica em geral, teorias da p\u00f3s-modernidade e muitos dos estudos culturais. Deixando claro, a fenomenologia tem uma pol\u00edtica: para al\u00e9m da assola\u00e7\u00e3o da vida moderna, o retorno a um estado mais po\u00e9tico do ser, guiado pelo cuidado e pela solicitude. O construtivismo social tamb\u00e9m tem uma: eliminar a viol\u00eancia do patriarcado, do logocentrismo e tudo o mais. N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00f5es, \u00e9 isso que est\u00e1 em jogo com o retorno recente ao absoluto, evidente nos discursos te\u00f3ricos de Meillassoux e Badiou, e ainda mais evidente em autores como o \u017di\u017eek e Susan Buck-Morss <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[16].<\/span> Deixando claro, esses te\u00f3ricos compreendem o que est\u00e1 em jogo e, portanto, armam seus renovados universalismos a partir de robustas, e muitas vezes militantes, teorias pol\u00edticas \u2013 Badiou e \u017di\u017eek, n\u00e3o custa lembrar, advogam categoricamente o comunismo, e Buck-Morss tem uma robusta consci\u00eancia pol\u00edtica. Violetas desbotadas que n\u00e3o s\u00e3o. A quest\u00e3o se torna mais premente, contudo, quando um fil\u00f3sofo desacopla o Ser da pol\u00edtica, de forma a afastar-se completamente de um projeto de cr\u00edtica pol\u00edtica.<\/p>\r\n<ol start=\"3\">\r\n<li><strong>A Matem\u00e1tica da Hist\u00f3ria<\/strong><\/li>\r\n<\/ol>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Considere agora um ponto mais cr\u00edtico da posi\u00e7\u00e3o de Meillassoux, ligado \u00e0 quest\u00e3o da matem\u00e1tica e do problema da hist\u00f3ria.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordemos precisamente as extensas avalia\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas das gera\u00e7\u00f5es passadas. Na era do rel\u00f3gio, Deus \u00e9 um relojoeiro e o universo gira de acordo com a m\u00fasica das esferas. Na era da m\u00e1quina a vapor, o homem \u00e9 um d\u00ednamo e a sociedade uma vasta m\u00e1quina que pode ser domada e explorada. E agora, na era do algoritmo, a matem\u00e1tica pura reivindica o mundo e extrai valor dele [17].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a infraestrutura do modo de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neo? Ela inclui todas as categorias cl\u00e1ssicas, como os capitais fixo e vari\u00e1vel. N\u00e3o obstante, existe algo que distingue o modo de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neo de todos os outros: a preval\u00eancia do software. A economia hoje n\u00e3o \u00e9 somente dirigida pelo software (m\u00e1quinas simb\u00f3licas); em muitos casos, a economia \u00e9 o software, consistindo em extra\u00e7\u00e3o de valor baseada em codifica\u00e7\u00e3o e processamento de informa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. Monsanto, Equifax e Google \u2013 todas elas s\u00e3o companhias de software em determinado n\u00edvel basal. Enquanto uma das gigantes industriais, o Google usa a matem\u00e1tica pura da teoria dos grafos para valoriza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. A Monsanto traduz organismos vivos em sequ\u00eancias bioinform\u00e1ticas de genes, a partir de processamentos de informa\u00e7\u00f5es. A Equifax, na esfera do cr\u00e9dito ao consumidor, utiliza algoritmos complexos a fim de extrair valor dos bancos de dados. Mas o que \u00e9 software? Software consiste em tokens simb\u00f3licos que s\u00e3o combinados utilizando fun\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas (adi\u00e7\u00e3o, subtra\u00e7\u00e3o e l\u00f3gica verdadeiro-falso, por exemplo) e estruturas l\u00f3gicas de controle (\u201cse x ent\u00e3o y\u201d, por exemplo). Em resumo, software \u00e9 matem\u00e1tica. A ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o \u00e9 um campo da matem\u00e1tica.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a experi\u00eancia da vida real hoje nas sociedades p\u00f3s-industriais? De novo, isto n\u00e3o \u00e9 segredo: a experi\u00eancia contempor\u00e2nea \u00e9 a da rotina matem\u00e1tica, da tayloriza\u00e7\u00e3o do comportamento via planos de efici\u00eancia matem\u00e1tica, dos softwares de minera\u00e7\u00e3o de dados projetados para extra\u00e7\u00e3o de valor em redes, da monetiza\u00e7\u00e3o da rede social usando teoria dos grafos (originalmente um ramo da geometria) e da introdu\u00e7\u00e3o de protocolos de seguran\u00e7a baseados em an\u00e1lises topol\u00f3gicas de <em>exploits<\/em> e <em>threats <\/em>[18].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode deixar de lado o fato de que o modo de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neo valoriza imensamente os softwares e que software \u00e9 matem\u00e1tica. Um silogismo simples destaca a conclus\u00e3o de que o atual modo de produ\u00e7\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o especial com a matem\u00e1tica. O software \u00e9, pois, o espinho ao lado da filosofia contempor\u00e2nea.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Como esclareceram as observa\u00e7\u00f5es iniciais sobre Badiou e Java, existe hoje uma converg\u00eancia entre a l\u00f3gica das disciplinas matem\u00e1ticas (ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, por exemplo) e a l\u00f3gica do modo de produ\u00e7\u00e3o[19]. Isso serve como uma grande linha divis\u00f3ria entre duas escolas de pensamento: uma que destaca hoje a l\u00f3gica simb\u00f3lica, a geometria, as an\u00e1lises lineares, a teoria dos conjuntos, os algoritmos, o processamento de dados e assim por diante como inst\u00e2ncias situadas fora da hist\u00f3ria \u00f4ntica, isto \u00e9, fora da inst\u00e2ncia da hist\u00f3ria (mas n\u00e3o necessariamente da hist\u00f3ria das ess\u00eancias); e outra que reconhece a exist\u00eancia de tal matematiza\u00e7\u00e3o hoje no cerne do modo de produ\u00e7\u00e3o e, pois, reconhece que ela n\u00e3o apenas rege a hist\u00f3ria, mas, de uma maneira geral, constitui a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A primeira aproxima\u00e7\u00e3o responder\u00e1 ao nome de realismo; a segunda, de materialismo [20].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que h\u00e1 um longo debate na filosofia acerca da origem da matem\u00e1tica. O n\u00famero vem do mundo, como no caso dos dez dedos, ou \u00e9 um conceito puro, como no caso da no\u00e7\u00e3o de tri\u00e2ngulo? Immanuel Kant argumentou que todo julgamento matem\u00e1tico \u00e9 sint\u00e9tico (enquanto ainda \u00e9 <em>a priori<\/em>). De acordo com Kant, ao afirmar que cinco mais sete \u00e9 doze, adiciona-se algo em doze que ainda n\u00e3o estava presente em cinco-mais-sete. Essa \u00e9 uma bem-vinda provoca\u00e7\u00e3o para demonstrar, tal como faz Kant na sua primeira <em>Cr\u00edtica<\/em> e nos <em>Proleg\u00f4menos<\/em>, que o julgamento matem\u00e1tico requer a entrada de \u201calguma imagem concreta\u201d e n\u00e3o meramente uma express\u00e3o derivada do \u201cEntendimento puro e Raz\u00e3o pura\u201d [21]. Eu n\u00e3o gostaria de entrar neste debate sofisticado. Ao contr\u00e1rio, gostaria de fazer uma afirma\u00e7\u00e3o de escopo menos ambicioso, por\u00e9m mais bem ajustada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual: os julgamentos matem\u00e1ticos hoje n\u00e3o s\u00e3o simplesmente sint\u00e9ticos, mas tamb\u00e9m hist\u00f3ricos. Em vez de analisar a possibilidade de realizar julgamentos matem\u00e1ticos (como faz Kant), gostaria de analisar o que implica fazer tal julgamento \u2013 e industrializ\u00e1-lo, e implant\u00e1-lo, e monetiz\u00e1-lo. Poder-se-ia chamar isso, pois, de resposta p\u00f3s-fordista para o realismo filos\u00f3fico em geral e para Meillassoux, em particular: depois que o software entrou na hist\u00f3ria, a matem\u00e1tica n\u00e3o pode ou n\u00e3o deveria ser compreendida aistoricamente. Isso \u00e9 verdade para a modernidade industrial em sentido lato, mas \u00e9 especialmente verdade sob o p\u00f3s-fordismo, devido \u00e0 maior intimidade entre software e modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, quando Meillassoux sugere que a matem\u00e1tica est\u00e1 fora da hist\u00f3ria, n\u00e3o convence. De novo, lembre-se da descri\u00e7\u00e3o dele das chamadas qualidades prim\u00e1rias dos objetos, ou seja, daquelas propriedades que pertencem a uma coisa fora de nossa capacidade de apreend\u00ea-las: \u201ctudo aquilo do objeto que pode ser formulado em termos matem\u00e1ticos pode ser pensado enquanto propriedade do objeto em si mesmo\u201d. Formula\u00e7\u00f5es como essas n\u00e3o devem ser historicizadas? N\u00e3o haveria uma especificidade hist\u00f3rica em \u201cos aspectos do objeto em termos matem\u00e1ticos\u201d? N\u00e3o haveria uma especificidade hist\u00f3rica na \u201ccapacidade da matem\u00e1tica de discursar sobre o Grande Fora\u201d? A resposta \u00e9 um enf\u00e1tico sim; poder-se-ia denominar essa especificidade industrial hist\u00f3rica de modernidade, em geral, e modernidade p\u00f3s-industrial (isto \u00e9, baseada em software), em espec\u00edfico. Sim, talvez tenha havido um tempo em que a matem\u00e1tica esteve fora da sensa\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia humanas, permitindo uma janela para o absoluto, ou um reino das qualidades prim\u00e1rias, como Meillassoux gostaria. Contudo, a computa\u00e7\u00e3o, a matem\u00e1tica, os algoritmos e a programa\u00e7\u00e3o atuais coincidem diretamente com a experi\u00eancia humana cotidiana. (Na verdade, eu estou meramente vocalizando a posi\u00e7\u00e3o suave. A posi\u00e7\u00e3o forte, a derridiana, teria sugerido que, nesse aspecto, o <em>logos<\/em> sempre esteve no cora\u00e7\u00e3o do homem.) De tal modo, se formos impelidos a manter a terminologia prim\u00e1ria\/secund\u00e1ria \u2013 e n\u00e3o est\u00e1 claro que dever\u00edamos \u2013, sob o p\u00f3s-fordismo, as qualidades derivadas da matem\u00e1tica seriam certamente determinadas social e subjetivamente, colocando em quest\u00e3o o seu estatuto fundamental.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto n\u00e3o \u00e9, pois, repreender Meillassoux por esquecer a regra b\u00e1sica de que sempre \u00e9 preciso historicizar. Consequentemente, a queixa contra o realismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente reencenar o antigo maneirismo da esquerda: historicizar x, onde x \u00e9 igual a qualquer coisa que seja. (E, de tal maneira, minha retic\u00eancia n\u00e3o diz tanto respeito \u00e0 hist\u00f3ria da matem\u00e1tica.) Em vez disso, o ponto aqui \u00e9 identificar corretamente o que conta como material para historiciza\u00e7\u00e3o hoje. A quest\u00e3o \u00e9 mostrar que a matem\u00e1tica n\u00e3o pode mais existir de modo neutro, como mera ferramenta explorat\u00f3ria para o entendimento de nossa exist\u00eancia, uma vez que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria foi, se quiserem, infectada pelos processos matem\u00e1tico-industriais [22].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Edmund Husserl era sens\u00edvel a tal mudan\u00e7a do mundo hist\u00f3rico durante o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando escreveu sobre a \u201ccrise das ci\u00eancias europeias\u201d e sobre o modo como o mundo-da-vida \u00e9 rebaixado nas m\u00e3os das ci\u00eancias positivistas da modernidade: \u201cPrecisamos notar que algo da mais alta import\u00e2ncia ocorreu ainda em Galileu: a oculta substitui\u00e7\u00e3o do matematicamente [constru\u00eddo mundo ideal] por um mero mundo real, [isto \u00e9,] aquele que \u00e9, na verdade, oferecido pela percep\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sempre experimentado e experiment\u00e1vel \u2013 o nosso mundo-da-vida cotidiano\u201d[23]. Da mesma maneira, Martin Heidegger perfaz um argumento similar, quando lamenta o advento da \u201c\u00e9poca da imagem do mundo\u201d: \u201cImagem do mundo, compreendida essencialmente, n\u00e3o quer, por isso, dizer uma imagem que se faz do mundo, mas o mundo concebido como imagem. O ente na totalidade \u00e9 agora tomado de tal modo que apenas e s\u00f3 \u00e9 algo que \u00e9, na medida em que \u00e9 posto pelo homem representador-elaborador\u201d [24]. Poder-se-ia lembrar que a fenomenologia surge como rea\u00e7\u00e3o ao modo como as ci\u00eancias positivistas estavam redefinindo a configura\u00e7\u00e3o humana. As apostas de Husserl e de Heidegger eram bem altas, e sempre articuladas em termos normativos, ou mesmo morais; as ci\u00eancias positivas cognitivistas amea\u00e7am o sujeito fenomenol\u00f3gico. A fenomenologia, afinal de contas, \u00e9 uma subesp\u00e9cie de romantismo e, portanto, desconfia profundamente dos prop\u00f3sitos do positivismo, sejam eles originados da ci\u00eancia ou da filosofia. Para a fenomenologia, a solu\u00e7\u00e3o para qualquer problema \u00e9 sempre encontrada na irredut\u00edvel autenticidade do sujeito sens\u00edvel, nunca nos c\u00e1lculos secos da matem\u00e1tica e da ci\u00eancia.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto n\u00e3o \u00e9 que a matem\u00e1tica seja incapaz de discursar acerca da realidade. Claro que \u00e9. Antes, o ponto \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 como ser neutro a respeito da capacidade da matem\u00e1tica de discursar sobre a realidade, precisamente porque, na era do capitalismo computadorizado, a pr\u00f3pria matem\u00e1tica, enquanto algoritmo, tornou-se um agente hist\u00f3rico.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Cito novamente o dilema de Meillassoux: \u201cEsse \u00e9 o enigma que precisamos confrontar: a habilidade da matem\u00e1tica de discursar acerca do Grande Fora; de discursar sobre um passado deserto tanto do homem quanto da vida\u201d. Contudo, depois da cibern\u00e9tica, depois da matematiza\u00e7\u00e3o do genoma, depois do algoritmo PageRank do Google, depois da industrializa\u00e7\u00e3o dos grafos sociais, depois do crescente abismo digital, qualquer discurso sobre a n\u00e3o media\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica com a realidade soa falso ou de mau gosto.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia e a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o desconectadas. Na verdade, elas compartilham uma conex\u00e3o \u00edntima, e j\u00e1 por algum tempo. A teoria dos conjuntos, a topologia, a teoria dos grafos, a cibern\u00e9tica e a teoria geral dos sistemas, por exemplo, s\u00e3o partes das linguagens intelectuais orientadas a objetos, herdando os princ\u00edpios desses campos cient\u00edficos com grande fidelidade; e tamb\u00e9m informam a recente filosofia continental, incluindo figuras como Deleuze, Badiou, Niklas Luhmann e Latour. De onde surge a sociedade de controle de Deleuze sen\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o de Norbert Wiener da cibern\u00e9tica? [25]. De onde surge o actante de Latour sen\u00e3o da teoria dos sistemas? De onde surge a \u201cdiferen\u00e7a que faz a diferen\u00e7a\u201d de Bryant sen\u00e3o da teoria da informa\u00e7\u00e3o de Gregory Bateson?<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo tal correla\u00e7\u00e3o, posso agora reiterar dois pontos de desacordo destacados no in\u00edcio. Primeiro, o problema da cr\u00edtica da ideologia: se o novo realismo espelha o capitalismo contempor\u00e2neo, n\u00e3o seria meramente uma reciclagem da ideologia contempor\u00e2nea e, portanto, suspeito em virtude de ser anticient\u00edfico? Segundo, o problema do pol\u00edtico: abrangendo diametralmente a ideologia, n\u00e3o se deveria permanecer puramente c\u00e9tico acerca dos seus fundamentos pol\u00edticos, levando em conta que qualquer projeto que ventriloque o atual arranjo capitalista \u00e9, por essa mesma raz\u00e3o, retr\u00f3grado politicamente?<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComo seria uma democracia orientada a objeto?\u201d. Essa \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o realista de Latour, uma quest\u00e3o posta no gigantesco cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o \u201cMaking Things Public\u201d, ocorrida em 2005, no <em>Zentrum f\u00fcr Kunst und Medientechnologie<\/em> (ZKM), em Karlsruhe [26]. Contudo, tais democracias j\u00e1 existem. O brilho feio delas cobre nossas praias e deltas. Sua infraestrutura orientada a objetos decomp\u00f5e a mais-valia n\u00e3o paga a partir das redes vivas e fornece os canais de comunica\u00e7\u00e3o dentro e fora das maquiladoras. Tais democracias t\u00eam pouca rela\u00e7\u00e3o com a soberania do povo, somente com as regras do mercado. O denominado realismo delas n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o real da hist\u00f3ria material, mas somente com a l\u00f3gica de exclus\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o. Como Nina Power bem asseverou, em sua rejei\u00e7\u00e3o do realismo filos\u00f3fico: \u201cqual utilidade tem isso se simplesmente converte-se em uma corrida ao abismo a fim de provar que qualquer entidade \u00e9 t\u00e3o sem sentido quanto qualquer outra (al\u00e9m do mais, os atomistas fizeram isso melhor)\u201d [27].<\/p>\r\n<ol start=\"4\">\r\n<li><strong>Uma Pol\u00edtica Alinhada<\/strong><\/li>\r\n<\/ol>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Vale recordar o encontro de 1946-47 entre Jean-Paul Sartre e Heidegger, em torno da quest\u00e3o do engajamento e da natureza da exist\u00eancia humana. Sartre deixou clara sua posi\u00e7\u00e3o: o engajamento pol\u00edtico significa engajamento pelo e para os seres humanos.<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O homem t\u00e3o-somente \u00e9 <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. O homem nada mais \u00e9 do que aquilo que ele faz de si mesmo: \u00e9 esse o primeiro princ\u00edpio do existencialismo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. N\u00e3o sei qual ser\u00e1 o futuro da revolu\u00e7\u00e3o russa; posso admir\u00e1-la e tom\u00e1-la como exemplo, na medida em que tenho provas, hoje, de que o proletariado desempenha, na R\u00fassia, um papel que ele n\u00e3o desempenha em nenhuma outra na\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o posso afirmar que tal situa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 for\u00e7osamente conduzir ao triunfo do proletariado; devo ater-me ao que vejo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. N\u00e3o \u00e9 por nosso pessimismo que nos acusam, mas, no fundo, pela dureza de nosso otimismo.<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[28]<\/span><\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Em sua resposta, Heidegger modifica ligeiramente a linguagem de Sartre; engajamento significa engajamento pelo e para a verdade do Ser. N\u00e3o s\u00e3o apenas entidades enquanto tais que devem ser notadas durante a constitui\u00e7\u00e3o de alguma pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m a verdade mais ampla de sua presen\u00e7a. Ainda que por meio de sua indefini\u00e7\u00e3o, o Ser deve ser procurado para que o homem possa ter algum tipo de orienta\u00e7\u00e3o desvelada em dire\u00e7\u00e3o a ele. A mais impressionante passagem da correspond\u00eancia \u00e9 provavelmente a descri\u00e7\u00e3o de Heidegger do Ser enquanto sendo tanto o mais pr\u00f3ximo quanto o mais distante do homem:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O \u201cSer\u201d n\u00e3o \u00e9 nem Deus nem um fundamento do mundo. O Ser est\u00e1 mais distante do que todo ente e, n\u00e3o obstante, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do homem do que qualquer ente, seja um rochedo, um animal, uma obra d&#8217;arte, uma m\u00e1quina, seja um anjo ou Deus. O Ser \u00e9 o mais pr\u00f3ximo. E, todavia, para o homem \u00e9 a proximidade o que lhe est\u00e1 mais distante <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[29].\u00a0<\/span><\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">De um lado, Heidegger; do outro, Sartre. Por um lado, o Ser (o absoluto onto-teol\u00f3gico); do outro, os seres (entidades materiais com hist\u00f3rias constru\u00eddas). E isso constitui um tipo de avalia\u00e7\u00e3o incisiva: trata-se de um fil\u00f3sofo que segue uma ontologia absoluta ou que segue uma hist\u00f3ria material? As redes reais de rela\u00e7\u00f5es entre objetos produzem a hist\u00f3ria, ou a hist\u00f3ria produz redes reais de rela\u00e7\u00f5es entre objetos? A resposta a essa pergunta indicar\u00e1 como certa pessoa entra no debate contempor\u00e2neo. Alguns valorizam a ontologia pura na forma do absoluto, do Uno, do infinito, daquilo que chamavam de Deus. Outros valorizam a historicidade dos mundos, saturados como est\u00e3o de todos os detalhes da vida material. Em resumo, o \u201creal\u201d no realismo filos\u00f3fico significa o absoluto. Enquanto para o materialista, o \u201creal\u201d significa a hist\u00f3ria <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[30]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, a quest\u00e3o maior ainda precisa ser respondida: movimentos como a filosofia orientada a objetos e o realismo especulativo t\u00eam uma pol\u00edtica e, caso afirmativo, qual seria? E, ainda mais importante, retomando o lit\u00edgio inicial de Malabou, com uma pequena reformula\u00e7\u00e3o: o que dever\u00edamos fazer para que o pensamento n\u00e3o coincida pura e simplesmente com o esp\u00edrito do capitalismo?<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">De repente, h\u00e1 pouca diferen\u00e7a entre o realismo filos\u00f3fico e a mais austera forma de realismo capitalista <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[31]<\/span>. Que tipo de mundo \u00e9 esse no qual os humanos est\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com o lixo? <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[32]<\/span> Que tipo de mundo \u00e9 esse no qual a paisagem \u00e9 um mundo ca\u00f3tico, sem fundamento e determinado por uma l\u00f3gica n\u00e3o necess\u00e1ria (Meillassoux) ou por uma l\u00f3gica de mercado (Latour)? Que tipo de mundo \u00e9 esse no qual a \u00fanica lei absoluta que se mant\u00e9m \u00e9 a lei absoluta de um niilismo est\u00e9ril e totalizante?<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas quando lidamos com a tarefa do pol\u00edtico: uma pol\u00edtica alinhada e outra desalinhada. A pol\u00edtica alinhada \u00e9 aquela ligada a um referencial moral e equipada com um mecanismo \u00e9tico capaz de segui-lo. A esfera moral refere-se a uma lei ou a um objetivo que precisa ser alcan\u00e7ado, enquanto a esfera da \u00e9tica refere-se a um conjunto de pr\u00e1ticas que orientam a a\u00e7\u00e3o e que, quando observadas e colocadas em jogo, podem tender a certos fins (morais ou n\u00e3o). Algu\u00e9m pode, pois, habitar um <em>ethos<\/em> sem ter uma moralidade; da mesma maneira, algu\u00e9m pode estar ligado a uma moralidade, mas falhar na pr\u00e1tica \u00e9tica. Assim, pol\u00edtica alinhada \u00e9 o nome dado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que os vetores da a\u00e7\u00e3o \u00e9tica miram abertamente um resultado moral espec\u00edfico. A pol\u00edtica desalinhada, por sua vez, \u00e9 o nome dado \u00e0queles projetos n\u00e3o vinculados por uma lei moral. Guiados somente pelos vetores da esfera \u00e9tica, os projetos pol\u00edticos n\u00e3o alinhados podem ainda ganhar uma formid\u00e1vel in\u00e9rcia, territorializando e desterritorializando dom\u00ednios inteiros. Desalinhados, eles existem enquanto mercen\u00e1rios, \u00e0s vezes saltitando de amigo a inimigo. Se o projeto de Badiou \u00e9 a quintess\u00eancia do projeto pol\u00edtico alinhado, de verdades morais amparadas por uma mec\u00e2nica \u00e9tica precisa, o de Deleuze \u00e9 a quintess\u00eancia do projeto pol\u00edtico desalinhado, com uma superestrutura moral ausente, ofuscada por um enorme campo vetorial de for\u00e7as f\u00edsicas <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[33]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\">O realismo \u00e9 uma pol\u00edtica desalinhada. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, pois, se o realismo \u00e9 bom ou ruim, mas sim que o realismo \u00e9 perigoso. Em seu pr\u00f3prio desalinhamento, o realismo carece de um relacionamento verdadeiro com o absoluto, uma vez que abdica da decis\u00e3o pol\u00edtica <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[34]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Contrariamente, o materialismo \u00e9 uma pol\u00edtica alinhada porque identifica algo como uma esfera moral absoluta (hist\u00f3ria, a totalidade social) e sust\u00e9m tal absoluto com as indispens\u00e1veis t\u00e1ticas que governam a pr\u00e1tica (desmistifica\u00e7\u00e3o da mercadoria, cr\u00edtica da ideologia, a dial\u00e9tica e assim por diante).<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, o que o materialismo defende? Que tudo deve estar enraizado na vida material e na hist\u00f3ria, n\u00e3o na abstra\u00e7\u00e3o, na l\u00f3gica necess\u00e1ria, na universalidade, na ess\u00eancia, na forma pura, no esp\u00edrito ou na ideia. Assim, a mis\u00e9ria do novo realismo n\u00e3o \u00e9 tanto a sua ing\u00eanua confian\u00e7a no racioc\u00ednio matem\u00e1tico ou nas arquiteturas orientadas a objetos, mas a sua inaptid\u00e3o para reconhecer que a ordem mais alta do absoluto, a totalidade em si, \u00e9 fundada na hist\u00f3ria material da humanidade. Tocar o absoluto \u00e9 precisamente pensar nesta correla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tanto para explic\u00e1-la, mas para mostrar que o pensamento em si mesmo \u00e9 a correla\u00e7\u00e3o como tal e, portanto, pensar o material \u00e9 difundir pensamentos pela mente da hist\u00f3ria.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: center;\"><em>Ensaio escrito para uma palestra no programa de literatura da Universidade Duke, em 27 de abril de 2011. Agrade\u00e7o os coment\u00e1rios que recebi na ocasi\u00e3o, particularmente os de Katherine Hayles, Barbara Herrnstein Smith e Michael Hardt. David Golumbia tamb\u00e9m leu o ensaio, fazendo importantes coment\u00e1rios.<\/em><\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[1]<\/span> Malabou, Catherine. <em>What Should We Do with Our Brain?<\/em> Trad. Sebastian Rand. New York, 2009, p. 12.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[2]<\/span> Ver, por exemplo: Kirkerud, Bj\u00f8rn. <em>Programming Language Semantics: Imperative and Object Oriented Languages<\/em>. Boston: Cengage, 1997. David Golumbia tamb\u00e9m fornece alguns antecedentes hist\u00f3ricos sobre a programa\u00e7\u00e3o orientada a objetos; ver: Golumbia, David. <em>The Cultural Logic of Computation<\/em>. Cambridge, Massachusetts: HUP, 2009, pp. 209-11.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[3]<\/span> Badiou, Alain. <em>Being and Event<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Oliver Feltham. London: Continuum, 2005, p. 81; ver tamb\u00e9m pp. 44, 501 e 511. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: segue o trecho citado, no original: \u201c<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> la th\u00e9orie distingue deux relations possibles entre multiples. Il y a la relation originaire d\u2019appartenance, marqu\u00e9e \u20ac, qui indique qu\u2019un multiple est compt\u00e9 comme \u00e9l\u00e9ment dans la pr\u00e9sentation d\u2019un autre. Mais il y a aussi la relation d\u2019inclusion, marqu\u00e9e \u2282, qui indique qu\u2019un multiple est sous-ensemble d\u2019un autre <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>\u201d. Badiou, Alain. <em>L\u2019\u00eatre et l\u2019\u00e9v\u00e9nement<\/em>. Paris: Seuil, 1988, p. 96].<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[4]<\/span> \u201cUma vez contado como um em certa situa\u00e7\u00e3o <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[quer dizer, pertencimento]<\/span>, um m\u00faltiplo se encontra nela apresentado. Se ele tamb\u00e9m conta como um na metaestrutura <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[quer dizer, inclus\u00e3o]<\/span>, ou estado da situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 conveniente dizer que est\u00e1 representado\u201d (<em>ibid<\/em>., p. 99). A rela\u00e7\u00e3o combinat\u00f3ria entre apresenta\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o permite a Badiou supor v\u00e1rios cen\u00e1rios interessantes: coisas que s\u00e3o apresentadas, mas n\u00e3o representadas; coisas que s\u00e3o apresentadas e representadas; e assim por diante. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: a cita\u00e7\u00e3o de Badiou, no original: \u201cCompt\u00e9 pour un dans une situation, un multiple s\u2019y trouve pr\u00e9sent\u00e9. S\u2019il est \u00e9galement compt\u00e9 pour un par la m\u00e9tastructure, ou \u00e9tat de la situation, il est commode de dire qu\u2019il est repr\u00e9sent\u00e9\u201d. Badiou, Alain. <em>L\u2019\u00eatre et l\u2019\u00e9v\u00e9nement<\/em>. Paris: Seuil, 1988, p. 115].<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[5]<\/span> Ver: Gosling, James et al. <em>The Java Language Specification<\/em>. Nova York: Addison Wesley, 2005; ver, em particular, as se\u00e7\u00f5es 4.4, 8.1 e 8.2. Bem maior aten\u00e7\u00e3o pode e deve ser dada a uma teoria cr\u00edtica do Java, sem mencionar as linguagens computacionais em geral. Um livro valioso, que inicia essa conversa, \u00e9 o de Mackenzie, Adrian. <em>Cutting Code: Software and Sociality<\/em>. Nova York: Peter Lang, 2006, em particular o cap\u00edtulo cinco, \u201cJava: Practical Virtuality\u201d.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[6]<\/span> Note, contudo, um poss\u00edvel ponto de confus\u00e3o: os cientistas da computa\u00e7\u00e3o denominam a classe-m\u00e3e de superclasse, enquanto Badiou denomina o m\u00faltiplo-m\u00e3e [<em>the parent multiple<\/em>] de subconjunto. Assim, enquanto um discurso diz <em>sub<\/em> e o outro diz <em>super<\/em>, devem ser entendidos como equivalentes.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[7]<\/span> Ver: Agre, Philip E. \u201cSurveillance and Capture: Two Models of Privacy\u201d. In: Wardrip-Fruin, Noah; Montfort, Nick (org.). <em>The New Media Reader<\/em>. Cambridge: MIT Press, 2003, pp. 737\u201360.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[8]<\/span> Abrindo o ensaio com a discuss\u00e3o de Badiou, n\u00e3o estou sugerindo que ele seja um realista especulativo <em>per se<\/em> (ele n\u00e3o \u00e9), nem que ele caia no mesmo tipo de armadilha que o realismo filos\u00f3fico contempor\u00e2neo em geral (ele n\u00e3o cai). A solu\u00e7\u00e3o de Badiou para o p\u00e2ntano realista \u00e9 conectar sua ontologia a uma teoria pol\u00edtica igualmente rigorosa.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[9]<\/span> Parte do interesse pelo realismo foi deflagrada pelo movimento filos\u00f3fico conhecido como realismo especulativo, concebido por um conjunto de autores que apresentaram suas ideias em abril de 2007, no Goldsmiths College, compreendendo Harman, Iain Hamilton Grant, Ray Brassier e Meillassoux; ver tamb\u00e9m as edi\u00e7\u00f5es da revista <em>Collapse<\/em> dedicadas ao tema. Ver, em particular, todo o <em>Collapse<\/em> 2 (mar. 2007), bem como Ray Brassier et al., \u201cSpeculative Realism\u201d, <em>Collapse<\/em> 3 (nov. 2007): 307-449. Levi Bryant ressalta que esse movimento, se \u00e9 algo assim, \u00e9 internamente diverso:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p>Se, como Graham <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[Harman]<\/span> argumenta, h\u00e1 algo unindo os Realistas Especulativos, isso n\u00e3o se d\u00e1 por suas posi\u00e7\u00f5es semelhantes, mas sim por suas posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. Ou seja, o fio condutor ligando os Realistas Especulativos \u00e9 a insatisfa\u00e7\u00e3o com o correlacionismo e o paradigma antirrealista de pensamento. Acerca disso, n\u00e3o seria impreciso afirmar que existem v\u00e1rios \u201cRealismos Especulativos\u201d que n\u00e3o se referem a si mesmos como realistas especulativos. Por exemplo, Deleuze, segundo certa leitura, poderia ser classificado como um Realista Especulativo. De Landa certamente se encaixa nisso, assim como Alfred North Whitehead. Harman argumenta que <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[Bruno]<\/span> Latour se encaixa no projeto, e eu adicionaria tamb\u00e9m <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[Isabelle]<\/span> Stengers. <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[Levi Bryant, \u201cObject-Oriented Philosophy: What Is It Good For?\u201d 5 Feb. 2009, bit.ly\/5wxSS1]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p>[10] Ver: De Landa, Manuel. <em>Intensive Science and Virtual Philosophy<\/em>. London: Bloomsbury, 2002; e Harman, Graham. <em>Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects<\/em>. Chicago: Open Court, 2002. Ver tamb\u00e9m a pondera\u00e7\u00e3o de Lee Braver acerca da longa rejei\u00e7\u00e3o do realismo na filosofia continental: Braver, Lee. <em>A Thing of This World: A History of Continental Anti-Realism<\/em>. Evanston: NUP, 2007; e Bennett, Jane. <em>Vibrant Matter: A Political Ecology of Things<\/em>. Durham: DUP, 2010.<\/p>\r\n<p>O interesse de Harman pelos objetos combina com outro mais geral, nas humanidades, em torno dos objetos e das coisas. Ver, por exemplo, a obra de Daniel Miller sobre <em>shoppings<\/em> e coisas, a obra de Bill Brown sobre objetos da cultura de consumo, o interesse de Bruno Latour pela ag\u00eancia aut\u00f4noma de redes de objetos, bem como duas obras organizadas: Turkle, Sherry (org.). <em>Evocative Objects: Things We Think With<\/em>. Cambridge: MIT Press, 2007; e Candlin, Fiona; Guins, Raiford (org.). <em>The Object Reader<\/em>. New York: Routledge, 2009.<\/p>\r\n<p>Contudo, um segundo movimento tamb\u00e9m emergiu em torno da relativa autonomia do reino est\u00e9tico. Isso \u00e9 evidenciado na est\u00e9tica de Deleuze durante a d\u00e9cada de 1980, particularmente nos seus livros sobre cinema e pintura, nos quais ele explora a externaliza\u00e7\u00e3o do afeto nos processos maqu\u00ednicos do mundo, ou na obra de Jacques Ranci\u00e8re sobre o regime est\u00e9tico, que ele caracteriza por sua relativa autonomia. Compare tamb\u00e9m a teoria de Slavoj \u017di\u017eek sobre a objetifica\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a, a qual aparece em v\u00e1rios de seus livros, bem como as obras de Mitchell, W. J. T. <em>What Do Pictures Want? The Lives and Loves of Images<\/em>. Chicago: UCP, 2006; Stafford, Barbara. <em>Echo Objects: The Cognitive Work of Images<\/em>. Chicago: UCP, 2007; e Beller, Jonathan. <em>The Cinematic Mode of Production: Attention Economy and the Society of the Spectacle<\/em>. Lebanon: DCP, 2006.<\/p>\r\n<p>[11] Meillassoux, Quentin. <em>After Finitude: An Essay on the Necessity of Contingency<\/em>, trad. Brassier. London: Continuum, 2008, p. 5; doravante abreviado como AF.<\/p>\r\n<p>[12] Bryant, por sua vez, caracteriza-se como marxista e materialista, embora ainda contribua para o discurso acerca do realismo especulativo e da ontologia orientada a objetos. Para Bryant, o realismo requer aten\u00e7\u00e3o \u00e0 infraestrutura material, indo al\u00e9m do reino da cultura ou, no caso, do reino do ser. Ele est\u00e1 certo, pois, ao denominar sua abordagem uma \u201conticologia\u201d, e n\u00e3o uma ontologia. Desse modo, Bryant emerge mais da tradi\u00e7\u00e3o deleuziana, enquanto Harman emerge da latouriana. Para mais a respeito, ver: Bryant, Levi. <em>The Democracy of Objects<\/em>. Ann Arbor: Studium Publishing, 2011, esp. caps. 4 e 5.<\/p>\r\n<p>[13] AF, pp. 3-4. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: segue o trecho citado, no original: \u00ab [&#8230;] la pens\u00e9e ne saurait sortir d\u2019elle-m\u00eame pour comparer le monde \u2018en soi\u2019 au monde \u2018pour nous\u2019 [&#8230;] Nous ne pouvons faire une repr\u00e9sentation de l\u2019en-soi sans qu\u2019il devienne un \u2018pour-nous\u2019 ou, comme le dit plaisamment Hegel, nous ne pouvons \u2018surprendre\u2019 l\u2019objet \u2018par derri\u00e8re\u2019, en sorte de savoir ce qu\u2019il serait en lui-m\u00eame \u00bb. Quentin Meillassoux, <em>Apr\u00e8s la finitude<\/em> (Paris, 2006), p. 17].<\/p>\r\n<p>[14] AF, p. 26, grifos removidos. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: segue o trecho citado, sem abrevia\u00e7\u00e3o, no original: \u00ab Qu\u2019est-ce qui permet \u00e0 un discours math\u00e9matique de d\u00e9crire un monde d\u00e9sert\u00e9 par l\u2019humain, un monde p\u00e9tri de choses et d\u2019\u00e9v\u00e9nements non-corr\u00e9l\u00e9s \u00e0 une manifestation, un monde non-corr\u00e9l\u00e9 \u00e0 un rapport au monde ? C\u2019est l\u00e0 l\u2019\u00e9nigme qu\u2019il nous faut affronter : la capacit\u00e9 des math\u00e9matiques \u00e0 discourir du Grand Dehors, \u00e0 discourir d\u2019un pass\u00e9 d\u00e9sert\u00e9 par l\u2019homme comme par la vie \u00bb. Meillassoux, Quentin. <em>Apr\u00e8s la finitude<\/em>. Paris: Seuil, 2006, p. 37.<\/p>\r\n<p>[15] Nos Estados Unidos, Simon Critchley foi um dos primeiros a responder ao livro de Meillassoux; duas figuras importantes da filosofia continental contempor\u00e2nea tamb\u00e9m escreveram respostas, Alberto Toscano e Peter Hallward, tendo o ensaio de Hallward provocado uma interessante complementa\u00e7\u00e3o de Nathan Brown. Ver: Critchley, Simon. \u201cBack to the Great Outdoors\u201d. <em>Times Literary Supplement<\/em>, 28 Feb. 2009, p. 28; Toscano, Alberto. \u201cAgainst Speculation, or, A Critique of the Critique of Critique: A Remark on Quentin Meillassoux\u2019s After Finitude (After Colletti)\u201d; Hallward, Peter. \u201cAnything Is Possible: A Reading of Quentin Meillassoux\u2019s After Finitude\u201d; e Brown, Nathan. \u201cThe Speculative and the Specific: On Hallward and Meillassoux\u201d. In: Bryant, L.; Srnicek, N.; Harman, G. (org.). <em>The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism<\/em>. Melbourne: Re.press, 2010, pp. 84\u201391, 130\u201341 e 142\u201363.<\/p>\r\n<p>[16] Em variados textos, \u017di\u017eek defende a verdade universal contra o p\u00f3s-modernismo, incluindo: \u017di\u017eek, Slavoj. <em>In Defense of Lost Causes<\/em>. New York: Verso, 2008. Buck-Morss, Susan, em <em>Hegel, Haiti, and Universal History<\/em>. Pittsburgh: UPP, 2009, escreve sobre uma teoria do sujeito n\u00e3o limitada por uma subjetividade fragment\u00e1ria, mas fundada na universalidade da verdade.<\/p>\r\n<p>[17] Deixando claro, tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o contradiz a teoria do valor. Embora o algoritmo matem\u00e1tico possa auxiliar na extra\u00e7\u00e3o de valor, a mais-valia extra\u00edda \u00e9 ela mesma produzida previamente pelo trabalho humano. Um bom exemplo disso \u00e9 o Google. Grande parte do trabalho que acontece nas torres de servidores do Google \u00e9 realizada por um aglomerado de algoritmos executados por uma enorme frota de computadores. No entanto, o valor extra\u00eddo \u00e9 recolhido de grandes reservat\u00f3rios de microtrabalhos gerados por usu\u00e1rios da rede em todo o planeta. Assim, o Google est\u00e1 meramente aproveitando o valor das redes de informa\u00e7\u00e3o, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, t\u00eam suas origens na atividade laboral humana.<\/p>\r\n<p>[18] Para uma an\u00e1lise de como esta transforma\u00e7\u00e3o afetou os textos e a marca\u00e7\u00e3o textual, ver: Liu, Alan. \u201cTranscendental Data: Toward a Cultural History and Aesthetics of the New Encoded Discourse\u201d. <em>Critical Inquiry<\/em> 31, Autumn 2004, pp. 49\u201384.<\/p>\r\n<p>[19] Uma quest\u00e3o mais profunda, muito mais dif\u00edcil de demonstrar, \u00e9 se isso sempre foi ou n\u00e3o o caso, e n\u00e3o somente durante o per\u00edodo do capitalismo digital. Por exemplo, poder-se-ia estudar como o per\u00edodo de tayloriza\u00e7\u00e3o produziu um tipo especial de matematiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e, mesmo antes disso, os conceitos b\u00e1sicos de valor de troca e acumula\u00e7\u00e3o na obra de Marx.<\/p>\r\n<p>[20] A precis\u00e3o terminol\u00f3gica \u00e9 imprescind\u00edvel aqui. Neste ensaio, materialismo \u00e9 compreendido como materialismo hist\u00f3rico, isto \u00e9, a filosofia materialista da hist\u00f3ria encontrada em Marx e na subsequente teoria marxista. N\u00e3o se deve confundir isso com a defini\u00e7\u00e3o de materialismo usada por certos c\u00edrculos cient\u00edficos e filos\u00f3ficos, como a utilizada por Harman, que define o materialismo essencialmente como uma forma de atomismo por meio da qual pequenos elementos de mat\u00e9ria s\u00e3o a base e os \u00e1rbitros de tudo o que existe. Assim, o materialismo de Harman \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que afirma que \u201ctodas as entidades de tamanho macro podem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ser reduzidas a uma camada final de min\u00fasculos elementos f\u00edsicos animados, sendo estes mais reais do que tudo o mais\u201d (<em>Prince of Networks<\/em>, p. 6).<\/p>\r\n<p>[21] Immanuel Kant, <em>Prolegomena<\/em>, trad. Paul Carus (Chicago, 1902), pp. 17, 14.<\/p>\r\n<p>[22] Lembremo-nos da reveladora anedota de Alfred North Whitehead sobre a centralidade da matem\u00e1tica na hist\u00f3ria do pensamento. \u201cEu n\u00e3o irei t\u00e3o longe a ponto de dizer que construir a hist\u00f3ria do pensamento sem um profundo estudo das ideias matem\u00e1ticas em sucessivas \u00e9pocas seja como omitir Hamlet da pe\u00e7a teatral nomeada por causa dele. Isso seria querer demais. Mas \u00e9 certamente an\u00e1logo a cortar o papel de Of\u00e9lia. Esta compara\u00e7\u00e3o est\u00e1 profundamente correta. Ora, Of\u00e9lia \u00e9 de todo essencial para a pe\u00e7a; ela \u00e9 muito encantadora \u2013 e um tanto louca\u201d (Whitehead, Alfred North. <em>Science and the Modern World<\/em> [1925]. New York: Free Press, 1970, p. 20).<\/p>\r\n<p>[23] Husserl, Edmund. <em>The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology: An Introduction to Phenomenological Philosophy<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de David Carr. Evanston: NUP, 1970, pp. 48\u201349.<\/p>\r\n<p>[24] Heidegger, Martin. \u201cThe Age of the World Picture\u201d. In: <em>The Question Concerning Technology and Other Essays<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de William Lovitt. New York: Garland Publishing, 1977, pp. 129\u201330; grifos nossos. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: reproduzimos a tradu\u00e7\u00e3o de Alexandre Franco de S\u00e1, encontrada na obra: Heidegger, Martin. <em>Caminhos de floresta<\/em>. Lisboa: Gulbenkian, 2002, p. 112].<\/p>\r\n<p>[25] Deleuze credita a William Burroughs a ado\u00e7\u00e3o do termo controle \u2013 Deleuze participou da influente confer\u00eancia \u201cSchizo Culture\u201d, realizada na Universidade de Columbia, em 1975, onde Burroughs apresentou uma fala intitulada \u201cThe Impasses of Control\u201d \u2013; contudo, a verdadeira origem do controle n\u00e3o \u00e9 mist\u00e9rio algum: cibern\u00e9tica, teoria dos sistemas, aut\u00f4matos celulares, teoria dos grafos e campos relacionados.<\/p>\r\n<p>[26] Ver: Latour, Bruno. \u201cFrom Realpolitik to Dingpolitik or How to Make Things Public\u201d. In: Latour, Bruno; Weibel, Peter. <em>Making Things Public: Atmospheres of Democracy<\/em>. Cambridge: MIT Press, 2005, pp. 14\u201343.<\/p>\r\n<p>[27] Power, Nina. \u201cThe Dialectics of Nature\u201d. Dispon\u00edvel em: bit.ly\/Pn6i5o. Em contrapartida, os proponentes da filosofia orientada a objetos, como Bogost ou Bryant, provavelmente inverteriam a val\u00eancia da pergunta de Power, perguntando se cada entidade poderia n\u00e3o ser t\u00e3o significativa quanto qualquer outra.<\/p>\r\n<p>[28] Sartre, Jean-Paul. \u201cExistentialism Is a Humanism\u201d [1946]. In: Kaufmann, Walter (org.). <em>Existentialism from Dostoevsky to Sartre<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Joan Stambaugh. New York: Meridian Books, 1989, pp. 290\u201391, 299, 301. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: reproduzimos a tradu\u00e7\u00e3o de Rita Correia Guedes, na obra: Sartre, Jean-Paul. <em>Os Pensadores<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1987, pp. 6, 12-13, 17].<\/p>\r\n<p>[29] Ver: Heidegger, Martin. \u201cLetter on Humanism\u201d [1947]. Tradu\u00e7\u00e3o de Frank Capuzzi e J. Glenn Gray. In: Farrell, David (org.). <em>Basic Writings<\/em>. New York: Harper, 1977; texto escrito como resposta a Jean Beaufret, mas tendo por base <em>O existencialismo \u00e9 um humanismo<\/em>, de Sartre. A passagem tamb\u00e9m \u00e9 not\u00e1vel porque cont\u00e9m uma das raras refer\u00eancias de Heidegger a Marx, cuja vis\u00e3o da hist\u00f3ria ele considera \u201csuperior\u201d (p. 243). [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: reproduzimos a tradu\u00e7\u00e3o de Emmanuel Carneiro Le\u00e3o, na obra: Heidegger, Martin. <em>Sobre o Humanismo<\/em>. Rio de Janeiro: Vozes, 1995, p. 51].<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cSoftware, Rede, Classe \u2013 Chun, Galloway, Wark\u201d\u00a0[Fins acad\u00eamicos] Voltar &#8211; Sum\u00e1rio &nbsp; A MIS\u00c9RIA DA FILOSOFIA: REALISMO E P\u00d3S-FORDISMO ALEXANDER R. GALLOWAY Originalmente publicado em: Critical Inquiry 2013, Winter, 347-366 * * * Este ensaio principia de outro. Em um recente exame do atual conceito ideol\u00f3gico de c\u00e9rebro, Catherine Malabou pergunta-se: \u201cO que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_seo_schema_type":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[9250160,707375814,8714,279226,537890,196392250,707375750,707375827,698363263,74666934],"class_list":["post-2980","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-after-finitude","tag-badiou-e-java","tag-critica","tag-galloway","tag-materialismo","tag-miseria-da-filosofia","tag-realismo-e-pos-fordismo","tag-retorno-do-realismo","tag-software-e-ideologia","tag-the-poverty-of-philosophy"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-M4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2980"}],"version-history":[{"count":34,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7311,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2980\/revisions\/7311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}