{"id":4053,"date":"2020-02-08T21:27:00","date_gmt":"2020-02-08T21:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=4053"},"modified":"2024-03-29T12:51:47","modified_gmt":"2024-03-29T12:51:47","slug":"escatologias-tecnopoliticas-contemporaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/02\/08\/escatologias-tecnopoliticas-contemporaneas\/","title":{"rendered":"ESCATOLOGIAS TECNOPOL\u00cdTICAS CONTEMPOR\u00c2NEAS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>ESCATOLOGIAS TECNOPOL\u00cdTICAS CONTEMPOR\u00c2NEAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"378\" height=\"292\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image001.jpg?resize=378%2C292&#038;ssl=1\" alt=\"image001\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><sub>\u201cSet of opposites\u201d (1989) \u2013 Eduardo Nery<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">*  *<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">1. INTRODU\u00c7\u00c3O <br>2. ACELERACIONISMO HIPERLIBERAL <br><em>2.1 \u2013 Singularidade<\/em> <br><em>2.2 \u2013 Condi\u00e7\u00e3o antropot\u00e9cnica<\/em> <br>3. PROPOSI\u00c7\u00d5ES ACERCA DO CONTEMPOR\u00c2NEO <br><em>3.1 \u2013 Maquina\u00e7\u00f5es<\/em> <br><em>3.2 \u2013 Capitalismo contempor\u00e2neo<\/em> <br>4. ACELERACIONISMO PROGRESSISTA <br><em>4.1 \u2013 Cr\u00edtica imanente ao capitalismo<\/em> <br><em>4.2 \u2013 Escatologia reversa<\/em> <br>5. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS <br>6. REFER\u00caNCIAS &nbsp;<br><br>*  *<br><em>Link para a publica\u00e7\u00e3o no Cadernos IHU Ideias (v.18, ano 18, n.297, 2020):<\/em><br><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/297cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\">Escatologias Tecnopol\u00edticas Contempor\u00e2neas<\/a><\/strong><br><em>English version<\/em>:<br><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/article_genaro_contemporary-technopolitical-eschatologies-2020.pdf\" target=\"_blank\">Contemporary Technopolitical Eschatologies<\/a><\/strong><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Como compreender e periodizar os discursos escatol\u00f3gicos sobre o progresso tecnocient\u00edfico contempor\u00e2neo? E o que estes discursos t\u00eam a ver com certa dimens\u00e3o expressiva e elucidativa dos atuais encontros entre filosofia, sociologia e economia pol\u00edticas? Tais s\u00e3o as duas interroga\u00e7\u00f5es extensivas impetradas neste texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">As reflex\u00f5es, considera\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises que executaremos para as interroga\u00e7\u00f5es acima estar\u00e3o imersas em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es, com base em conjectura de pesquisa na qual avalia duas escatologias tecnopol\u00edticas, a partir de suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas hiperliberal e progressista, a <em>aceleracionista hiperliberal<\/em> e a <em>aceleracionista progressista<\/em>; entre as duas se\u00e7\u00f5es, outra para precisar proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas oportunas sobre o contempor\u00e2neo, acerca das no\u00e7\u00f5es de humano e de m\u00e1quina, e da rela\u00e7\u00e3o entre os dois, especialmente em termos filos\u00f3fico e sociopol\u00edtico<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"297\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image002.jpg?resize=500%2C297&#038;ssl=1\" alt=\"image002\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><sub>\u201cIllusory Space\u201d (1989) \u2013 Eduardo Nery<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. CAPITALISMO ACELERACIONISTA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Como compreender e periodizar o aceleracionismo hiperliberal? Seguindo a maneira como diversos pesquisadores de ci\u00eancias humanas e de m\u00eddias, com enfoques distintos, evidenciam de modo cada vez mais convicto (Levy S., 2011; Haucap; Heimeshoff, 2013; Aschoff, 2015; Bola\u00f1o; Figueiredo, 2017; Robinson, 2016; Solon; Siddiqui, 2017; Pulkkinen, 2019), o lugar onde a conjun\u00e7\u00e3o do capitalismo financeiro e das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, notadamente inform\u00e1ticas, incide de modo extraordin\u00e1rio \u00e9, por excel\u00eancia, o <em>Silicon Valley<\/em>, na ba\u00eda da S\u00e3o Francisco, na Calif\u00f3rnia (EUA), sobrevindo por l\u00e1 n\u00e3o apenas concentra\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico-econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m profecias e experi\u00eancias hiperliberais de vida e pol\u00edtica. Em outras palavras, \u00e9 o lugar onde se v\u00eam arquitetando virtualidades pendulares, de descentraliza\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de processos, dados, designs, fluxos, mais-valias, gerando novos rearranjos do capital e trabalho, a partir de uma governamentalidade algor\u00edtmica (Rouvroy; Berns, 2013), que vem requalificando as no\u00e7\u00f5es de assujeitamento, da soberania e geopol\u00edtica contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Desde o in\u00edcio dos anos 2000, as materialidades algor\u00edtmicas criadas no <em>Silicon Valley<\/em>, notadamente as infraestruturas \u201cinvis\u00edveis\u201d do conjunto de empresas etiquetadas como GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) \u2013 quase todas envolvidas no programa estadunidense de vigil\u00e2ncia global PRISM, revelado por Edward Snowden, note-se \u2013, contribu\u00edram para fazer delas as mais valiosas do mundo, as <em>Big Five<\/em>, colocando, desde 2017, empresas tradicionais como Exxon, Nestl\u00e9, General Electric e Johnson &amp; Johnson em posi\u00e7\u00f5es posteriores (Parra <em>et al.<\/em>, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s de tais materialidades algor\u00edtmicas, imposta a todos, cotidianamente, nas interfaces, rela\u00e7\u00f5es, paisagens, cidades, h\u00e1 obviamente pessoas \u2013 fabricantes, comerciantes e financiadores das infraestruturas \u2013, criando a \u201chumanidade Google\u201d de \u201cusu\u00e1rios\u201d (Comit\u00ea Invis\u00edvel, 2018); pessoas como o hoje bilion\u00e1rio empres\u00e1rio e investidor hiperliberal Peter Thiel, o qual, entre in\u00fameras atividades, dedica-se a alimentar projetos de intelig\u00eancia artificial, extens\u00e3o da vida e <em>seasteading<\/em>, ilhas-flutuantes em alto-mar, em \u00e1guas internacionais, formando microterrit\u00f3rios fora de jurisdi\u00e7\u00f5es de Estados-na\u00e7\u00e3o. Um dos grandes sonhos dos <em>libertarians<\/em>, designa\u00e7\u00e3o dada aos hiperliberais norte-americanos (Gelles, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Internet das coisas, rob\u00f3ticas, <em>big data<\/em>, intelig\u00eancia artificial, estruturas algor\u00edtmicas&#8230; A \u201cind\u00fastria 4.0\u201d, baseada em sistemas ciberf\u00edsicos e computa\u00e7\u00e3o em nuvem, vem fazendo com que os actantes n\u00e3o-humanos tenham \u2013 dentro do t\u00e9los capitalista de quantifica\u00e7\u00e3o das esferas da vida e produ\u00e7\u00e3o de mais-valia \u2013 enormes vantagens sobre os humanos, a partir de sistemas de ger\u00eancia, execu\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o de inconsci\u00eancia ou de despolitiza\u00e7\u00e3o das tecnologias \u00e9 insuport\u00e1vel; na aurora dos sistemas de cibervigil\u00e2ncia globais, \u00e9 a prop\u00f3sito das barb\u00e1ries tecnocr\u00e1tica e liberal, das tiranias das expertises e elites capitalistas, que carecemos indagar, acerca das democracias contempor\u00e2neas. Afinal, n\u00e3o ficou patente a invers\u00e3o da f\u00f3rmula de Clausewitz, preconizada por Deleuze e Guattari (1997): a pol\u00edtica que se torna continua\u00e7\u00e3o da guerra; a \u201ceterna paz\u201d, de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, que delibera tecnicamente o processo ilimitado de guerra total, de estado de exce\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Seja como for, <em>Silicon Valley<\/em> denota atualmente o colossal <em>centro de c\u00e1lculo<\/em> (Latour, 2000) tecnocient\u00edfico, de amplia\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o dos mundos, de controle de espa\u00e7os e tempos, a partir de perempt\u00f3rias e terminantes circunscri\u00e7\u00f5es, invent\u00e1rios, classifica\u00e7\u00f5es, sondagens, cole\u00e7\u00f5es, cartografias, incurs\u00f5es e a\u00e7\u00f5es a dist\u00e2ncia. Denota o circuito de compatibilidades, padroniza\u00e7\u00f5es, contagens, fluxogramas e organogramas, definindo uma universalidade relativa, conferida absoluta e, t\u00e3o logo, problem\u00e1tica ou alheia \u00e0s diferen\u00e7as, localidades, particularidades, multiplicidades. <em>Silicon Valley<\/em>, o colossal <em>maelstr\u00f6m<\/em> do mundo, o turbilh\u00e3o onde inexoravelmente carecemos velejar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Interessa-nos, pois, a compreens\u00e3o da filosofia, doutrina ou ideologia pol\u00edtica, de cren\u00e7a tecnof\u00edlica, que mais profundamente hospedou, floresce e projeta o centro de c\u00e1lculo <em>Silicon Valley<\/em>, a saber, a escatologia tecnol\u00f3gica, notavelmente na vers\u00e3o denominada singularidade tecnol\u00f3gica, uma vez que dela que sobressaem os sentidos, pr\u00e1ticas, afetos, imagin\u00e1rios \u2013 em outras palavras, uma cultura pol\u00edtica vigorante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Na cartografia deste ensaio, seguiremos ent\u00e3o, primeiro, os contornos da escatologia tecnopol\u00edtica dos hiperliberais \u2013 significativamente, a dos kurzwelianos, cevando o aceleracionismo capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Voltemos \u00e0 quest\u00e3o: como compreender e periodizar o aceleracionismo hiperliberal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Um discurso escatol\u00f3gico \u00e9 uma doutrina que evoca a destina\u00e7\u00e3o da vida, da humanidade, a partir de especula\u00e7\u00f5es e preceitos, em car\u00e1ter teleol\u00f3gico, de \u201cju\u00edzos finais\u201d, sendo, na hist\u00f3ria, especialmente concebido por doutrinas deliberadamente religiosas. Nos \u00faltimos dois s\u00e9culos, sintomaticamente, os sentidos e sonhos espirituais da humanidade igualmente se difundiram enquanto <em>ep\u00edstolas<\/em> de escatologias tecnol\u00f3gicas, apresentadas a partir de literaturas <em>sci-fi<\/em>, de modo que a no\u00e7\u00e3o de escatologia passou ent\u00e3o a ser tamb\u00e9m associada \u00e0s presci\u00eancias acerca do devir tecnol\u00f3gico e da humanidade. Mais ainda, a partir do fim do s\u00e9culo XX, tais escatologias auferiram um <em>corpus<\/em> tecnopol\u00edtico expressivo, afirmado por diversas m\u00eddias, mas, sobretudo, por estruturas e organiza\u00e7\u00f5es institucionais, como veremos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A teoria acerca da singularidade tecnol\u00f3gica busca transpor o termo f\u00edsico-matem\u00e1tico de singularidade para o tecnol\u00f3gico. No campo f\u00edsico-matem\u00e1tico, o termo singularidade \u00e9 par\u00e2metro de performatividade de uma resolu\u00e7\u00e3o ou de um fen\u00f4meno. Refere-se a um estado singular, peculiar, incomum ou anormal, em que todas as linhas se colocam paralelas, gerando um evento infinito ou que tende ao infinito e \u00e0 incomensurabilidade. Na Matem\u00e1tica, especificamente, condiz com o valor ou o intervalo de valores de uma fun\u00e7\u00e3o para a qual n\u00e3o existe uma derivada. Na F\u00edsica, condiz com um ponto ou regi\u00e3o no espa\u00e7o-tempo em que as for\u00e7as gravitacionais fazem a mat\u00e9ria ter uma densidade infinita, apoiando-se particularmente na teoria dos buracos negros. A singularidade marca um sentido importante, portanto: o da transi\u00e7\u00e3o entre dois mundos ou dois dom\u00ednios em um ponto ou instante, tendo um valor de quebra, de cis\u00e3o. \u00c9 um termo que define a acelera\u00e7\u00e3o dos processos e o colapso de explica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas tradicionais, indo al\u00e9m das possibilidades de cogni\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e previs\u00e3o a partir de instrumentos e leis da Matem\u00e1tica e da F\u00edsica tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Kurzweil \u00e9 o principal mentor contempor\u00e2neo dos discursos singularistas tecnol\u00f3gicos; o maior expoente, sobretudo em termos de discursos pol\u00edticos, midi\u00e1ticos e institucionais. Autor dos livros <em>The age of spiritual machines: when computers exceed human intelligence<\/em> (1999) e <em>The Singularity is Near: When Humans Transcend Biology<\/em> (2005), traduzidos em v\u00e1rios idiomas, ele vem argumentando e ajudando a disseminar o ponto de vista de que o progresso tecnocient\u00edfico contempor\u00e2neo se d\u00e1 em uma escala exponencial, transcendendo e dando nova posi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e pot\u00eancias humanas, advogando certo sentido \u00e0s no\u00e7\u00f5es de (p\u00f3s)humano e economia. Em <em>The Singularity is Near<\/em>, o autor escreve:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que \u00e9, portanto, Singularidade? \u00c9 um per\u00edodo futuro durante o qual o ritmo da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica ser\u00e1 t\u00e3o r\u00e1pido, o seu impacto t\u00e3o profundo, que a vida humana ir\u00e1 irreversivelmente ser transformada. Embora nem ut\u00f3pico ou dist\u00f3pico, esta \u00e9poca ir\u00e1 transformar os conceitos que utilizamos para dar sentido \u00e0s nossas vidas, dos modelos de neg\u00f3cios aos ciclos da vida humana, inclusive a pr\u00f3pria morte. (KURZWEIL, 2005, p. 25).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A partir de parcerias da estatal Nasa e da Google, e outras empresas emergentes ligadas ao ramo de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o), Kurzweil e Peter Diamandis constitu\u00edram, em 2008, no <em>Silicon Valley<\/em>, a <em>Singularity University<\/em>, contando hoje com filiais e parcerias em v\u00e1rios pa\u00edses. Tal universidade busca ser, ao mesmo tempo, organiza\u00e7\u00e3o <em>think-tank<\/em>, incubadora de neg\u00f3cios e de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas disruptivas de mercados, sendo ela o principal n\u00facleo real e simb\u00f3lico motivador de agentes privilegiados do capitalismo, (empres\u00e1rios, cientistas de \u00e1reas de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gicas, tecnocratas etc.), acerca de vis\u00f5es, anseios, modelos pol\u00edticos, ideais de bem-estar individual e social, os quais se configuram a partir da escatologia tecnopol\u00edtica e singularidade tecnol\u00f3gica, de vida em geral enquanto submissa ao devir tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A no\u00e7\u00e3o de singularidade tecnol\u00f3gica de Kurzweil (1999; 2005) \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o tecnocient\u00edfica; um estonteante encadeamento de previs\u00f5es a partir de dados, gr\u00e1ficos, interpreta\u00e7\u00f5es e acontecimentos, impondo-se tamb\u00e9m, explicitamente ou nas entrelinhas, como uma perspectiva de pren\u00fancio de acontecimentos sociopol\u00edticos; uma perspectiva futurol\u00f3gica que se baseia, pois, em proje\u00e7\u00f5es, formulando leis, teorias e no\u00e7\u00f5es que se encontram no campo das especula\u00e7\u00f5es, disseminadas e valorizadas em diversas \u00e1reas acad\u00eamicas (More; Vita-More, 2013). De tal maneira, a singularidade tecnol\u00f3gica destaca-se, antes de tudo, como discurso pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural, instituidor de uma vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica de mundo, constituindo cren\u00e7as que afirmam um <em>estado<\/em> pol\u00edtico. Discurso que constitui, portanto, quer seja verdadeiro ou falso, regimes de fic\u00e7\u00f5es e de verdade<a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>: pensamentos sobre imortalidade, voli\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tecnocr\u00e1ticas e promo\u00e7\u00e3o de novas fronteiras de inova\u00e7\u00f5es capitalistas, de conforma\u00e7\u00f5es e automa\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, notadamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Os discursos de singularidade tecnol\u00f3gica, e seus valores diversos associados, satisfazem um verniz escatol\u00f3gico, ut\u00f3pico, aos valores tecnocr\u00e1ticos, explicitando uma destina\u00e7\u00e3o final, uma vis\u00e3o de \u201cpara\u00edso\u201d. Uma perspectiva teleol\u00f3gica a partir de dada concep\u00e7\u00e3o de tecnologia e vis\u00e3o otimista sobre a \u201cabund\u00e2ncia\u201d, seguran\u00e7a e felicidade no mundo (Diamandis; Kotler, 2012). Buscam-se assim as condi\u00e7\u00f5es e conforma\u00e7\u00f5es estritamente tecnocient\u00edficas para \u201cacelerar o processo\u201d rumo \u00e0 \u201cboa vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Atualmente, conforme diversos autores v\u00eam explicitando (Malabou, 2009; Pariser, 2011; Crary, 2013; Morozov, 2015; Wajcman; Dodd, 2017; Benkler et all., 2018; Zuboff, 2019) \u2013 a despeito de suas diferentes posi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, cient\u00edficas e pol\u00edticas \u2013, a acelerada dissemina\u00e7\u00e3o e descentraliza\u00e7\u00e3o dos processos digitais promovidos no <em>Silicon Valley<\/em> vem simultaneamente conformando novos controles, cognitivos, neurolingu\u00edsticos e procedimentais nas popula\u00e7\u00f5es, impetrando extensamente voli\u00e7\u00f5es capitalistas em termos de assujeitamentos fabricados por estrat\u00e9gias de neg\u00f3cios hipercorporativos. N\u00e3onos importa exatamente neste ensaio, cumpre salientar, uma den\u00fancia da (pseudo)filosofia de Kurzweil, ou uma arqueologia do conceito de singularidade tecnol\u00f3gica, que remonta Venor Vinge, John Von Neumann e outros autores; importar-nos precisamente seguir destacando e analisando, a partir de uma periodiza\u00e7\u00e3o, os principais sentidos, interesses, convic\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as e valores destes regimes de fic\u00e7\u00e3o e verdade, os quais instituem e sustentam este novo ide\u00e1rio tecnopol\u00edtico, escatol\u00f3gico, que advoga certa no\u00e7\u00e3o de singularidade enquanto hispostasia e determinismo tecnol\u00f3gico, imputando uma cultura pol\u00edtica <em>despolitizadora<\/em> do mundo, na verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Arrazoamos e definimos que o pensamento secular tecnocr\u00e1tico-escatol\u00f3gico n\u00e3o foi exclusivo da escatologia-empresarial gestada na \u201cideologia californiana\u201d do <em>Silicon Valley<\/em>, no in\u00edcio dos anos 1990, uma vez que outra, tamb\u00e9m naquela \u00e9poca, conservada na tradi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e liberal-conservadora, teve muito maior publiciza\u00e7\u00e3o e preponder\u00e2ncia, a escatologia-estatal do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. Logo ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, de promo\u00e7\u00e3o neoliberal e de sentimento de \u201cvit\u00f3ria\u201d do capitalismo na Guerra Fria, surge uma conveniente interpreta\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica, tendo como principal mentor o fil\u00f3sofo Francis Fukuyama. No famoso livro <em>The End of History and the Last Man<\/em>, publicado em 1992, Fukuyama amplia suas ideias contidas em um pol\u00eamico artigo publicado em 1989 . Em leitura revisionista e inusitada da hist\u00f3ria, de Hegel e do cristianismo, a autor apontaria o estado \u201ccompletamente satisfat\u00f3rio\u201d, de triunfo da democracia liberal, em estilo americano, revelador de que o <em>t\u00e9los <\/em>e a <em>arch\u00e9 <\/em>pol\u00edticos encontrar-se-iam resolvidos e encerrados. Chega-se assim a hora de comemorar a \u201cBoa Nova\u201d e a \u201cTerra Prometida\u201d, liberal-conservadora, enquanto ju\u00edzos de fim da hist\u00f3ria \u2013 enquanto doutrina de Estado liberal perene e ilimitado. Contudo, a \u201cnova ordem mundial\u201d, afirmada por uma escatologia crist\u00e3-liberal, assinalava o limite \u00e0 capacidade do progresso tecnocient\u00edfico de promover a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Embora as ci\u00eancias naturais guiem-nos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s portas da Terra Prometida da democracia liberal, ela n\u00e3o nos guia em si mesma para a Terra Prometida, porque n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o economicamente necess\u00e1ria para que o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o deva produzir liberdade pol\u00edtica. (FUKUYAMA, 1992, p. XV).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Nas palavras de Sloterdijk (2010, p. 51), a nova edi\u00e7\u00e3o da escatologia \u201ccrist\u00e3\u201d de Fukuyama, esp\u00e9cie de \u201cthimotologia reatualizada\u201d, com fins ao uso do Estado moderno, aspirava iluminar \u201c[&#8230;] a confusa rela\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o secular e tecnol\u00f3gica ocidental com as tr\u00eas escatologias messi\u00e2nicas derivadas do pensamento religioso do Oriente Pr\u00f3ximo: a judia, a crist\u00e3 e a isl\u00e2mica\u201d. Todavia, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, sobretudo, a perspectiva escatol\u00f3gica-estatal de Fukuyama, antropoc\u00eantrica e humanista, confrontar-se-ia com a escatologia-empresarial, tecnoc\u00eantrica e p\u00f3s-humanista<em>. <\/em>Reagindo, Fukuyama, no livro <em>Nosso futuro p\u00f3s-humano<\/em> (2003), efetuaria uma cr\u00edtica aos discursos e movimentos tecnopol\u00edticos aceleracionistas hiperliberais, que principiavam a ganhar popularidade. A conjuntura havia mudado, de modo que a no\u00e7\u00e3o de transhumanismo ou p\u00f3s-humanismo, atrelada \u00e0 tecnopol\u00edtica aceleracionista hiperliberal, seria uma das \u201cideias mais perigosas do mundo\u201d (Fukuyama, 2002; 2009), de maneira especial pelo afastamento das no\u00e7\u00f5es de direitos baseados em um ju\u00edzo s\u00f3lido acerca da \u201cnatureza humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c9 minha opini\u00e3o que [o] afastamento de no\u00e7\u00f5es de direitos baseados na natureza humana \u00e9 profundamente equivocado, tanto em bases filos\u00f3ficas quanto como uma quest\u00e3o de racioc\u00ednio moral corriqueiro. A natureza humana \u00e9 o que nos d\u00e1 senso moral, nos fornece as habilidades sociais para viver em sociedade e serve de base para discuss\u00f5es filos\u00f3ficas mais sofisticadas sobre direitos, justi\u00e7a e moralidade. [&#8230;] Queremos proteger toda a extens\u00e3o de nossas naturezas complexas, evolu\u00eddas, contra tentativas de modifica\u00e7\u00e3o por parte do pr\u00f3prio homem. N\u00e3o queremos perturbar nem a unidade nem a continuidade da natureza humana [&#8230;]. (FUKUYAMA, 2003, p. 180).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O pensador e estrategista da nova ordem geopol\u00edtica americana opor-se-ia \u00e0 ascens\u00e3o de uma ordem cibern\u00e9tica e biogen\u00e9tica do mundo, que trata ainda como equivalentes \u201cavan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cliberdade pol\u00edtica\u201d. Tal ordem libera o mundo para radicaliza\u00e7\u00f5es hiperliberais, de doutrina de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica perene e ilimitada, dirigida a processos de desonera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, pol\u00edticas e econ\u00f4micas, por meio de agentes de capitais de risco e empreendorismos, dialogando de forma cada vez mais livre com os Estados-na\u00e7\u00e3o e pregando automatiza\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias diversas para e com a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2.1 \u2013 Singularidade<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra <em>O fim da hist\u00f3ria e o \u00faltimo homem<\/em>, Derrida se perguntava acerca da amplia\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de tais discursos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>[&#8230;] Valeria mais a pena perguntar-se por que esse livro, com a \u201cboa nova\u201d que pretende trazer, tornou-se semelhante <em>gadget <\/em>midi\u00e1tico, e por que faz furor em todos os supermercados ideol\u00f3gicos de um Ocidente ansioso. Compra-se esse livro, a\u00ed, como se corre atr\u00e1s de a\u00e7\u00facar e de \u00f3leo, quando estes ainda restam, aos primeiros rumores de guerra. Por que essa amplia\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica? E como um discurso desse tipo \u00e9 buscado por aqueles que s\u00f3 cantam a vit\u00f3ria do capitalismo liberal e de sua alian\u00e7a predestinada com a democracia para dissimular, e primeiramente a si mesmo, que, em tempo algum, esse triunfo esteve mais amea\u00e7ado, nem foi t\u00e3o cr\u00edtico, fr\u00e1gil, e at\u00e9 mesmo, sob certos pontos de vista, catastr\u00f3fico, e mais enlutado? (DERRIDA, 1994, p. 90).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Hoje, ao fim dos anos 2010, compreendendo um per\u00edodo progressivamente influenciado e institu\u00eddo pela tecnopol\u00edtica escatal\u00f3gica-empresarial, podemos da mesma forma perguntar-nos: o que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa amplia\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica acerca da acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica hiperliberal, na qual se revela a no\u00e7\u00e3o de singularidade tecnol\u00f3gica? Em outras palavras, o que significa essa nova \u201cboa nova\u201d secular, p\u00f3s-humana, de sujei\u00e7\u00e3o-automa\u00e7\u00e3o, de otimismos irrestritos aos modelos de acelera\u00e7\u00e3o e encampa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gicas corporativas, hiperliberais e id\u00edlicas de mundo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A fim de demarcar afastamento e cr\u00edtica quanto a dimens\u00e3o tecnocr\u00e1tica-escatol\u00f3gica da vida, sem, contudo, cairmos no mesmo conservadorismo que marca a escatologia-estatal de Fukuyama, devemos encarar seriamente as quest\u00f5es centrais levantadas por aquela dimens\u00e3o. Cumpre ent\u00e3o uma an\u00e1lise conceitual cr\u00edtica das no\u00e7\u00f5es de singularidade e da condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-humana \u2013 para n\u00f3s, antropot\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">No pensamento filos\u00f3fico contempor\u00e2neo, o conceito de singularidade afasta-se diametralmente de uma proposi\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica. Singularidade na filosofia condiz propriamente com um sentido de devir cont\u00ednuo de seres, objetos, ambientes, identificando as pot\u00eancias poss\u00edveis desses enquanto diferenciada, espacializada e temporalizada <em>a partir de<\/em> rela\u00e7\u00f5es, heterog\u00eaneas, m\u00faltiplas. Notadamente a partir do esp\u00f3lio da filosofia de Simondon, Deleuze nos aparta de qualquer ideia de hipostasia e determinismo no interior de singularidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Singularidade \u00e9 vista como iman\u00eancia do ser que entra em um <em>campo de for\u00e7as<\/em>, ou seja, quando opera em mundos diversos, de agenciamentos maqu\u00ednicos: ps\u00edquicos, coletivos, naturais, t\u00e9cnicos. Singularidades, expressar\u00e1 Deleuze, em <em>L\u00f3gica do Sentido:<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>S\u00e3o pontos de retrocesso, de inflex\u00e3o etc.; desfiladeiros, n\u00f3s, n\u00facleos, centros; pontos de fus\u00e3o, de condensa\u00e7\u00e3o, de ebuli\u00e7\u00e3o etc.; pontos de choro e de alegria, de doen\u00e7a e de sa\u00fade, de esperan\u00e7a e de ang\u00fastia, pontos sens\u00edveis, como se diz. [&#8230;] A singularidade faz parte de outra dimens\u00e3o, diferente das dimens\u00f5es da designa\u00e7\u00e3o, da manifesta\u00e7\u00e3o ou da significa\u00e7\u00e3o. A singularidade \u00e9 essencialmente pr\u00e9-individual, n\u00e3o-pessoal, aconceitual [&#8230;]. (DELEUZE, 1974, p. 54).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Em Deleuze, portanto, n\u00e3o faz sentido compreender o conceito como algo prescrito e decidido por si mesmo. N\u00e3o h\u00e1 singularidade enquanto germe auto-reprodutor, auto-multiplicador. Singularidade \u00e9 sin\u00f4nimo de hecceidade, termo da filosofia escol\u00e1stica medieval que confere a particularidade de uma coisa a partir de eventos, muta\u00e7\u00f5es, potencialidades. Da f\u00edsica moderna, Deleuze recorda que singularidade est\u00e1 associada \u00e0 teoria da equa\u00e7\u00e3o diferencial, que atribui a distribui\u00e7\u00e3o de curvas e potenciais nas vizinhan\u00e7as, superf\u00edcies e espa\u00e7os, marcando assim dist\u00e2ncia no que concerne \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o de paradigmas, formas, padr\u00f5es, universalidades, generalidades, identidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A \u201cverdadeira identidade\u201d, escreve Simondon (2009, p.84), \u201cn\u00e3o \u00e9 a identidade consigo mesma, sen\u00e3o a identidade da perman\u00eancia concreta do sistema atrav\u00e9s de fases\u201d. As considera\u00e7\u00f5es deste autor fazem com que as tradicionais no\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de eu e de sujeito percam estima para um conjunto de no\u00e7\u00f5es que suprimem a dicotomia entre o intr\u00ednseco e o extr\u00ednseco, entre o sujeito e o objeto, o eu e o mundo: individua\u00e7\u00e3o, meio associado, caixa de resson\u00e2ncia etc., enquanto ve\u00edculos e distribuidores de energia para a amplia\u00e7\u00e3o de singularidades (Idem, p .83-84).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Singularidade \u00e9, pois, encontro de for\u00e7as, diferen\u00e7as, realidades, mundos; uma <em>constela\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 algo expressamente diferente do hilemorfismo e substancialismo que se encontram nas ra\u00edzes dos argumentos escatol\u00f3gicos tecnol\u00f3gicos. Simondon, em <em>O modo de exist\u00eancia dos objetos t\u00e9cnicos<\/em>, deixava claro que o processo de aprimoramento da tecnicidade das m\u00e1quinas \u201c[&#8230;] <em>n\u00e3o corresponde a um acr\u00e9scimo de automatismo<\/em>, sen\u00e3o, ao contr\u00e1rio, pelo fato de que seu funcionamento preserva certa margem de indetermina\u00e7\u00e3o\u201d (SIMONDON, 1969, p. 11, grifos nossos). A automatiza\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica \u00e9, na verdade, um rebaixamento do grau de perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. A eleva\u00e7\u00e3o de sua perfei\u00e7\u00e3o, a alta tecnicidade, d\u00e1-se pelos processos de abertura \u00e0 individua\u00e7\u00e3o, enquanto \u201cm\u00e1quina aberta\u201d, supondo \u201c[&#8230;] o homem como organizador permanente, como int\u00e9rprete vivente de m\u00e1quinas [&#8230;]\u201d; afinal de contas, \u201co maestro da orquestra somente pode dirigir os m\u00fasicos pelo fato de que toca com eles, t\u00e3o intensamente como todos eles\u201d (IDEM, p. 11-12).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Ora, em que implica o rebaixamento da no\u00e7\u00e3o de singularidade a um estado de efic\u00e1cia produtiva reduzida ao automatismo da m\u00e1quina t\u00e9cnica?&nbsp; De modo mais geral e cl\u00e1ssico: por que tal exalta\u00e7\u00e3o valorativa da no\u00e7\u00e3o de progresso t\u00e9cnico em si mesmo? Evidentemente, \u00e9 preciso refletir sobre a dimens\u00e3o pol\u00edtica criada a partir do espectro escatol\u00f3gico que os mitos do progresso e da superioridade t\u00e9cnica dos modernos (Dupas, 2006) exasperam hoje, depois de tr\u00eas s\u00e9culos de escoramento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Se a t\u00e9cnica, tornada ind\u00fastria, refugia-se defensivamente em uma nova feudalidade de t\u00e9cnicos, pesquisadores e administradores, ela evoluir\u00e1 como a linguagem e a religi\u00e3o, rumo ao fechamento, centrando-se em torno de si mesma, em vez de continuar formando, com o homem, um conjunto em devir. (SIMONDON, 1990, p. 10).&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Conceb\u00edvel e conveniente aos arautos, partid\u00e1rios e agentes econ\u00f4micos da barb\u00e1rie tecnocr\u00e1tica liberal, o regime de fic\u00e7\u00e3o e de verdade da singularidade tecnol\u00f3gica vivifica e perfila a feudalidade conduzida por um ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o; de conex\u00e3o sem singulariza\u00e7\u00e3o; de maquina\u00e7\u00f5es sociais absorvidas em automatismos, hipertrofias e aliena\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Em um trecho do cl\u00e1ssico <em>A sociedade contra o Estado<\/em>, obra em que Pierre Clastres (2003) estuda os modos de vida e pensamentos dos amer\u00edndios, navegamos pela sobriedade e simplicidade da quest\u00e3o que estamos enfrentando.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>[&#8230;] se entendermos por t\u00e9cnica o conjunto dos processos de que se munem os homens, n\u00e3o para assegurarem o dom\u00ednio absoluto da natureza (isso s\u00f3 vale para o nosso mundo e seu insano projeto cartesiano cujas consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas mal come\u00e7amos a medir), mas para garantir um dom\u00ednio do meio natural adaptado e relativo \u00e0s suas necessidades, ent\u00e3o n\u00e3o mais podemos falar em inferioridade t\u00e9cnica das sociedades primitivas: elas demonstram uma capacidade de satisfazer suas necessidades pelo menos igual \u00e0quela de que se orgulha a sociedade industrial e t\u00e9cnica. Isso equivale a dizer que todo grupo humano chega a exercer, pela for\u00e7a, o m\u00ednimo necess\u00e1rio de domina\u00e7\u00e3o sobre o meio que ocupa. [&#8230;] N\u00e3o existe portanto hierarquia no campo da t\u00e9cnica, nem tecnologia superior ou inferior; s\u00f3 se pode medir um equipamento tecnol\u00f3gico pela sua capacidade de satisfazer, num determinado meio, as necessidades da sociedade. (CLASTRES, 2003, p. 209).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O car\u00e1ter tecnol\u00f3gico das sociedades primitivas, distingue Clastres (Idem, p. 216), era \u201cbem mais como positividade\u201d, entre os humanos e o cosmo. Na linha de Amartya Sen (1993), dir-se-ia, os amer\u00edndios prezavam suas <em>capacidades<\/em>, potencializando-as a partir de suas concep\u00e7\u00f5es de bem-estar e liberdade. Desenvolvimento ou progresso como sin\u00f4nimo de expans\u00e3o das capacidades. A defer\u00eancia ou a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do progresso enquanto mera prosperidade econ\u00f4mica, utopia hiperliberal ou \u00eaxtase de imortalidade \u00e9 predicado equivocado das sociedades modernas, exatamente a que agora se v\u00ea diante da necessidade imperativa de din\u00e2micas sociot\u00e9cnicas (\u201cdesenvolvimento\u201d?) associadas \u00e0 exist\u00eancia e ao cuidado ecol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2.2 \u2013 Condi\u00e7\u00e3o antropot\u00e9cnica<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o problem\u00e1tica da singularidade e do automatismo tecnol\u00f3gicos, precisa nos levar para o outro lado da moeda, do mesmo modo problem\u00e1tico: a imagina\u00e7\u00e3o de uma essencialidade humana \u201cpura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">\u201cLibertar-se da m\u00e1quina\u201d, \u201cter vontade, interioridade e desejo puros\u201d; \u201cencontrar-se com o \u00e2mago do humano\u201d&#8230; Tais proclama\u00e7\u00f5es, de esp\u00edrito rom\u00e2ntico \u2013 que nos reportariam genealogicamente a Rousseau (Derrida, 1973; Stiegler, 1994; Deleuze, 2006) \u2013, parecem-nos, filos\u00f3fica e politicamente, insustent\u00e1veis e problem\u00e1ticas, hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria humana, analisada de maneira antropot\u00e9cnica, indica-nos um horizonte de maquina\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas do eu, do social e da t\u00e9cnica. Estamos, assim, de acordo com um conjunto de reflex\u00f5es filos\u00f3ficas contempor\u00e2neas, de cariz materialistas, e de estudos antropol\u00f3gicos e paleontol\u00f3gicos (Sloterdijk, 2010; Deleuze e Guattari, 1997; Stiegler, 1994; Serres, 2004; Leroi-Gourhan, 1964), nos quais apreendemos que o ancestral humano aparece exclusivamente a partir das modifica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e, t\u00e3o logo, de sua cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o a partir delas. Se apenas hoje nos damos conta da complementaridade da exterioridade t\u00e9cnica para a f\u00edsica, biologia e mem\u00f3ria humanas, isto se deve \u00e0s descobertas cient\u00edficas e da perda de for\u00e7a do pensamento antropoc\u00eantrico, sendo substitu\u00eddo por um pensamento da media\u00e7\u00e3o, que inclui, simetricamente, humanos e n\u00e3o-humanos (Latour, 1994). Em termos de media\u00e7\u00e3o, ou de realidade intensiva ou transindividual, a aten\u00e7\u00e3o, o <em>cuidado<\/em> com a vida, para al\u00e9m de uma procura da \u201cess\u00eancia do Ser\u201d, d\u00e1-se pela investiga\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o das composi\u00e7\u00f5es e dos modos de exist\u00eancias capazes de gerar capacita\u00e7\u00f5es diversas para o bem-estar e a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O pensamento essencialista, que em \u00faltima inst\u00e2ncia sustenta a rela\u00e7\u00e3o humano e t\u00e9cnica de maneira dicot\u00f4mica ou paradoxal, precisar ser superado. Como notou Garcia dos Santos (2005, p. 165), o principal problema dos que defendem a \u201cess\u00eancia do Ser\u201d seria a \u201c[&#8230;] valoriza\u00e7\u00e3o do humano no que ele tem de animal, como se houvesse uma esp\u00e9cie de terreno a salvaguardar&#8230; [De modo que] o recuo para o animal implica a tentativa de segurar uma esp\u00e9cie de \u2018ess\u00eancia do humano\u2019 que j\u00e1 n\u00e3o tem sentido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">H\u00e1, pois, uma natureza flu\u00edda, antropot\u00e9cnica, desde sempre; e tal posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 diferente da ideia de um est\u00e1gio avan\u00e7ado, contempor\u00e2neo ou futuro, em que atingir\u00edamos um horizonte \u201cp\u00f3s\u201d-humano, como advogam as concep\u00e7\u00f5es escatol\u00f3gicas. N\u00e3o obstante, ao pretendermos superar o universo escatol\u00f3gico p\u00f3s-humanista, devemos nos voltar n\u00e3o somente para a cr\u00edtica do \u00e2mbito de voli\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es tecnocr\u00e1ticas liberais, mas tamb\u00e9m para a cr\u00edtica das perspectivas filos\u00f3ficas p\u00f3s-modernas de \u00edndoles apocal\u00edpticas, que diagnosticaram uma \u201cimperiosa\u201d m\u00e1quina t\u00e9cnica determinando a era da \u201ctranspar\u00eancia cibern\u00e9tica total\u201d e o fim das possiblidade pol\u00edticas de gerar capacita\u00e7\u00f5es diversas para o bem-estar e a liberdade em democracias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Na an\u00e1lise conceitual cr\u00edtica acerca das perspectivas filos\u00f3ficas p\u00f3s-modernas, assunto que permanece pouco compreendido, cabe ressaltar o pensamento de Jean-Fran\u00e7ois Lyotard \u2013 presumivelmente o autor mais respeit\u00e1vel no an\u00fancio de um entrave<em>, <\/em>ao asseverar reiteradamente uma dicotomia e incomensurabilidadehumano-t\u00e9cnica, e a consequente mis\u00e9ria pol\u00edtica para os modos de exist\u00eancia em democracias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Vivendo e proclamando o \u201cmomento p\u00f3s-moderno\u201d do Iluminismo, Lyotard posicionou-se a partir de <em>hesita\u00e7\u00f5es<\/em> paradoxais, antevendo um antagonismo pavoroso entre o \u201cdestino inumano\u201d, antropot\u00e9cnico, e a liberdade humana: o exerc\u00edcio da liberdade humana para incremento constante da maquina\u00e7\u00e3o implicaria, opostamente, em perda da liberdade humana \u2013 automa\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia do pensar e \u201ceclipse\u201d da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>De todas as atitudes c\u00e9ticas de Lyotard em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o humanista na cultura ocidental (em comum com a maioria dos pensadores p\u00f3s-modernistas, Lyotard foi muito cr\u00edtico sobre o que o significou o Iluminismo ou como este foi utilizado para justificar certos assuntos), ele defende aquilo que parece ser substancial na posi\u00e7\u00e3o humanista, no livro <em>O inumano <\/em>[1987]. Descrito muitas vezes como anti-humanista (\u00e0s vezes p\u00f3s-humanista), poucos humanistas por\u00e9m discordam dos argumentos que ele traz neste livro, estando ele, sem d\u00favida, do lado contr\u00e1rio dos entusiastas de uma cultura maqu\u00ednica, como Donna Haraway, para quem uma fus\u00e3o do humano e o inumano, sob a forma do <em>cyborg<\/em>, \u00e9 um desenvolvimento altamente desej\u00e1vel: \u2018n\u00f3s somos a m\u00e1quina\u2019, como ela provocativamente proclama. Da perspectiva lyotardiana, seguir a estrada da cyborgiza\u00e7\u00e3o, cultivar tanta afinidade, \u00e9 render-se ao inumano, e ele advoga as pequenas narrativas para que isto nunca aconte\u00e7a. (SIM, 2011, p. 106).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Lyotard (1987; 1989), assim como outros admir\u00e1veis fil\u00f3sofos franceses de sua gera\u00e7\u00e3o, Jean Baudrillard e Paul Virilio, satisfaria, na verdade, tal como cogitamos, uma perspectiva argumentativa de <em>afirma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica <\/em>da escatologia tecnol\u00f3gica \u2013 tendo se encontrado, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u201csem sa\u00edda\u201d. Dentro de certa tradi\u00e7\u00e3o nietzschiana, ele apontou para a dificuldade de um pensar reduzido \u00e0 ordem do ju\u00edzo de fato e de calculabilidade da vida. Nos termos da \u201cvit\u00f3ria da tecnoci\u00eancia capitalista\u201d, o grande \u00eaxito \u00e9 justamente o reconhecimento t\u00e3o-somente do <em>\u00eaxito <\/em>como crit\u00e9rio de ju\u00edzo, renunciando a pensar uma medida de ordem \u00e9tica e justa: o \u00eaxito \u00e9 \u201calgo que se comprova; como uma san\u00e7\u00e3o, ignoramos sua lei\u201d (LYOTARD, 1987, p. 30). Seu diagn\u00f3stico de isolamento e hipostasia da tecnoci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras redes sociot\u00e9cnicas, compeliu-o a ajuizar que, de forma cega e hegem\u00f4nica, a tecnoci\u00eancia <em>decide<\/em> sobre o \u201cverdadeiro\u201d e o \u201cjusto\u201d, n\u00e3o deixando nenhum espa\u00e7o para os ju\u00edzos de valores movimentarem as <em>circunst\u00e2ncias<\/em> do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Em <em>Jamais fomos modernos<\/em>, Latour (1994, p. 50) ratifica: \u201cO p\u00f3s-modernismo \u00e9 um sintoma e n\u00e3o uma nova solu\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Sente que h\u00e1 algo de errado com a cr\u00edtica, mas n\u00e3o sabe fazer nada al\u00e9m de prolongar a cr\u00edtica sem, no entanto, acreditar em seus fundamentos\u201d. Caber-nos-ia, ent\u00e3o, indagar: como superar o sintoma e a hesita\u00e7\u00e3o das filosofias p\u00f3s-modernas? Positivamente, devemos primeiro dizer que h\u00e1 certamente ainda um caminho poss\u00edvel para a pol\u00edtica, a hist\u00f3ria; h\u00e1 ainda o lugar para uma vida aut\u00eantica (n\u00e3o-determinada). A quest\u00e3o, pois, n\u00e3o \u00e9 exatamente \u201ccontra o p\u00f3s-humano\u201d. A <em>hesita\u00e7\u00e3o <\/em>n\u00e3o deve ser filos\u00f3fica \u2013 negativa em rela\u00e7\u00e3o ao inumano no antropot\u00e9cnico avan\u00e7ado e de afirma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da escatologia tecnol\u00f3gica dos aceleracionistas hiperliberais \u2013, mas pol\u00edtica: contra as voli\u00e7\u00f5es que querem eliminar o acontecimento das m\u00e1quinas desejantes e sociais (Deleuze; Guattari, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Longe ent\u00e3o de pensarmos em termos de incomensurabilidade humano-m\u00e1quina, devemos propor que entre o maquinal e o n\u00e3o-maquinal \u201copera uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de simples oposi\u00e7\u00e3o. Pode-se chamar isso de liberdade, mas somente a partir do momento em que haja o incalcul\u00e1vel [&#8230;]\u201d (DERRIDA; ROUDINESCO, 2004, p. 65). Tal associa\u00e7\u00e3o maquinal e n\u00e3o-maquinal \u00e9, antes de tudo, uma condi\u00e7\u00e3o amplamente antropot\u00e9cnica. As maquina\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do mundo, isto \u00e9, a a\u00e7\u00e3o dos dispositivos de c\u00e1lculo e repeti\u00e7\u00e3o, t\u00eam lugar naquilo que engendra a nossa pr\u00f3pria possibilidade de liberdade e, t\u00e3o logo, de pol\u00edtica \u2013 sendo ela, a express\u00e3o das singularidades a partir do <em>incalcul\u00e1vel<\/em> ou do <em>indecid\u00edvel<\/em><a id=\"_ftnref3\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><em>, <\/em>nos termos de Derrida, e da hecceidade e <em>indetermina\u00e7\u00e3o<\/em><a id=\"_ftnref4\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>, nos termos de Deleuze.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Ora, o que o diagn\u00f3stico (positivo ou negativo) de \u201ctranspar\u00eancia cibern\u00e9tica total\u201d anuncia e decide, prontamente, \u00e9 acerca a pergunta que deveria permanecer irrespond\u00edvel: \u201co que \u00e9 o homem?\u201d; ou melhor, decide-se pela imediata elimina\u00e7\u00e3o desta pergunta e, consequentemente, decide-se por um mundo totalmente ilimitado a ser um equivalente geral do mercantilismo; um mundo enquanto um enorme \u201cnada\u201d (<em>niilismo<\/em>): sem hist\u00f3ria, sem pol\u00edtica, sem Deus \u2013 como disse Jean-Luc Nancy (1999).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Diante do exposto, Garcia dos Santos nos ajuda, enfim, a encontrar as quest\u00f5es produtivas de pesquisa, afastando-nos definitivamente das hesita\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas \u201cparalisantes\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 denominada \u201ccrise do humano\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em que medida os humanos s\u00e3o maquinados tamb\u00e9m, em que medida eles pertencem ao mesmo terreno do pr\u00e9-individual, quais rela\u00e7\u00f5es existem entre o humano e o n\u00e3o-humano, no sentido do animal, no sentido da m\u00e1quina? Que tipo de transforma\u00e7\u00f5es ainda poderiam ser atualizadas no humano? [&#8230;] <em>Mais interessante do que oposi\u00e7\u00e3o \u00e9, justamente, a diferen\u00e7a<\/em>. Porque o importante \u00e9 a diferen\u00e7a entre o humano e a m\u00e1quina e em que n\u00edvel podemos pens\u00e1-la. O que me interessa [&#8230;] \u00e9 pensar a tecnologia como um processo de individua\u00e7\u00e3o. Em que ponto nos encontramos e nos diferenciamos da m\u00e1quina? No que ele [Simondon] chama de <em>realidade pr\u00e9-individual<\/em>. Apesar das diferen\u00e7as, existem pontos de contato ou n\u00edveis de correspond\u00eancia grandes entre nossa maneira de individuar e o processo de individua\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas. (FERREIRA <em>et al.<\/em>, 2005, p. 165, grifos nossos).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"388\" height=\"241\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image003.jpg?resize=388%2C241&#038;ssl=1\" alt=\"image003\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><sub>\u201cAmbiguous structure IV&#8221; (1969) \u2013 Eduardo Nery<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. PROPOSI\u00c7\u00d5ES ACERCA DO CONTEMPOR\u00c2NEO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Conforme anunciado, antes de seguirmos para uma apresenta\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise dos discursos aceleracionistas progressistas, ser\u00e1 indispens\u00e1vel encorajarmos proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-epist\u00eamicasque cremos serem centrais para uma compreens\u00e3o do contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Como compreender \u2013 epistemologicamente \u2013 contemporaneamente a rela\u00e7\u00e3o humano-m\u00e1quina? Como vimos, o status tecnocr\u00e1tico-escatol\u00f3gico do progresso e sua utopia de \u201cabund\u00e2ncia\u201d, partindo da deifica\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas t\u00e9cnicas, auferem-nos algo: constr\u00f3i-se uma no\u00e7\u00e3o <em>fechada<\/em> de m\u00e1quina, que n\u00e3o se vincula \u00e0 perspectiva de realidade transindividual em que estas, na verdade, deveriam ser observadas e constitu\u00eddas \u2013 ou seja, nos \u201chibridismo dos reinos\u201d, lugar em que \u201c[&#8230;] os discursos cr\u00edticos n\u00e3o deveriam apoiar-se num humanismo universalista sob pena de passarem ao largo do que constitui os agenciamentos contempor\u00e2neos e sua for\u00e7a\u201d (PELBART, 2013, p. 124).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3.1 \u2013 Maquina\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Tal como pensamos, a partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o dos dois tomos de <em>Capitalismo e Esquizofrenia<\/em>, a m\u00e1quina (do latim <em>machina<\/em>, do grego j\u00f4nico \u03bc\u03b7\u03c7\u03b1\u03bd\u03ae \u2013 <em>mekhane<\/em> \u2013, uma deriva\u00e7\u00e3o de \u03bc\u1fc6\u03c7\u03bf\u03c2 \u2013 <em>mekhos<\/em> \u2013, denotando meio, expediente ou rem\u00e9dio) perfaz uma no\u00e7\u00e3o <em>aberta<\/em> \u2013 multiplicidades, alteridades, agenciamentos \u2013, de \u201cfluxos associativos\u201d (Deleuze; Guattari, 2010; 1997), que podemos expressar por sua adjetiva\u00e7\u00e3o, a <em>maquina\u00e7\u00e3o<\/em>, enquanto \u201czonas de proximidades e de indecernibilidade\u201d, sistema de fluxos e \u201ccortes\u201d, satisfazendo planos de consist\u00eancia entre os seres org\u00e2nicos e inorg\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Partimos, assim, de uma recupera\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o da perspectiva epistemol\u00f3gica aberta por Deleuze e Guattari \u2013 apesar disso, n\u00e3o nos restringimos a ela. Desde o primeiro tomo de <em>Capitalismo e Esquizofrenia<\/em> (<em>O Anti-\u00c9dipo<\/em>), os autores, aorealizarem uma releitura das obras de Marx e Freud (e dos marxismos e freudismos), avan\u00e7aram ao criticar centralmente as posi\u00e7\u00f5es naturalistas, mecanicistas ou reducionistas acerca do que vem a ser o humano e sua socializa\u00e7\u00e3o. Influenciados particularmente por Gilbert Simondon, Deleuze e Guattari pensam uma teoria sociot\u00e9cnica a partir das associa\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas t\u00e9cnicas, desejantes e sociais, estando interessados em expressar a ideia do humano e do mundo em um conceito bem peculiar de m\u00e1quina, no qual abrange os variados aspectos da realidade: \u201cH\u00e1 t\u00e3o somente m\u00e1quinas em toda parte, e sem qualquer met\u00e1fora: m\u00e1quinas de m\u00e1quinas, com seus acoplamentos, suas conex\u00f5es. [&#8230;] Toda m\u00e1quina est\u00e1, em primeiro lugar, em rela\u00e7\u00e3o com um fluxo material cont\u00ednuo (<em>hyl\u00ea<\/em>) que ela corta\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 11; 55).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A m\u00e1quina \u00e9, de tal modo, um \u201csistema de cortes\u201d que n\u00e3o significa separa\u00e7\u00e3o de realidades (de completude, de subtancializa\u00e7\u00e3o ou de isolamento), mas, pelo contr\u00e1rio, opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o de \u201cfluxos associativos\u201d, isto \u00e9, de maquina\u00e7\u00f5es \u2013 nas ordens do desejo, do t\u00e9cnico e do social. Na teoria sociot\u00e9cnica dos referidos autores, \u00e9 este sistema que continuamente engendra e torna poss\u00edvel compreender as produ\u00e7\u00f5es sociais (a\u00e7\u00f5es, conex\u00f5es), as <em>distribui\u00e7\u00f5es<\/em> t\u00e9cnicas (registros, gr\u00e1ficos, datafica\u00e7\u00f5es) e os consumos e desejos(vol\u00fapias, ang\u00fastias, dores) das forma\u00e7\u00f5es sociais como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">No di\u00e1logo cr\u00edtico com a teoria da psican\u00e1lise, e na proposi\u00e7\u00e3o da esquizoan\u00e1lise, de Deleuze e Guattari, a partir da no\u00e7\u00e3o de maquina\u00e7\u00e3o, prop\u00f5em uma nova pol\u00edtica dos desejos, singularidades ou subjetividades. Tal no\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 compreendida como meramente resultante de opera\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas (significantes), tampouco como centradas em agentes individuais ou coletivos, de intersubjetividade. As proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-epistemol\u00f3gicas estruturalistas, individualistas e holistas n\u00e3o s\u00e3o apropriadas, de modo que variados termos e predicados cl\u00e1ssicos \u2013 adapta\u00e7\u00e3o, estrutura, subordina\u00e7\u00e3o, substitui\u00e7\u00e3o, extens\u00e3o, exterioriza\u00e7\u00e3o, impacto, incorpora\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o exatamente se enquadram, servem ou conv\u00e9m. Composi\u00e7\u00e3o, agenciamento, individua\u00e7\u00e3o, meio associado, diagramas, conex\u00e3o, servid\u00e3o, captura podem e devem ser mais bem estudados no contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Se m\u00e1quina n\u00e3o \u00e9, como no modelo inspirado pela ferramenta, uma pr\u00f3tese ou um \u00f3rg\u00e3o, ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o humanos-m\u00e1quinas n\u00e3o pode ser reduzida nem a uma <em>incorpora\u00e7\u00e3o<\/em>, nem a uma <em>exterioriza\u00e7\u00e3o<\/em>. As rela\u00e7\u00f5es homens-m\u00e1quinas s\u00e3o sempre da ordem do acoplamento, de um agenciamento, de uma conex\u00e3o, de uma captura (LAZZARATO, 2014, p. 80).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Custa notar, afinal: precisamente no momento em que surgem os discursos de singularidade tecnol\u00f3gica, a <em>era algor\u00edtmica<\/em> tornou as m\u00e1quinas, por excel\u00eancia, descentralizadas e sem-finalidades <em>a priori<\/em> (Galloway, 2013; Serres, 2004, p. 77). A era anterior, <em>mec\u00e2nica <\/em>ou a do <em>homo faber<\/em> constru\u00eda ferramentas e m\u00e1quina pelas suas utilidades e finalidades bem definidas. As m\u00e1quinas algor\u00edtmicas apresentaram uma novidade: s\u00e3o universais, te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas, ao mesmo tempo, podendo servir para todas as coisas \u201c[&#8230;] e ainda para mil outras, justamente porque n\u00e3o servem para nada. Diferenciadas, universais, transferem o projecto de utilidade do construtor para o utilizador, que as emprega como lhe apraz e como lhe parece\u201d (Idem, Ibidem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>3.2 \u2013 Capitalismo contempor\u00e2neo<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Com a ascens\u00e3o das m\u00e1quinas algor\u00edtmicas, e com a maximiza\u00e7\u00e3o das maquina\u00e7\u00f5es, o capitalismo contempor\u00e2neo tornou-se cada vez mais um am\u00e1lgama de opera\u00e7\u00f5es diversas no espa\u00e7o-tempo: opera\u00e7\u00f5es de movimenta\u00e7\u00f5es (de mat\u00e9rias-primas, t\u00e9cnicas, humanos&#8230;), de compara\u00e7\u00f5es (de lucros, culturas, informa\u00e7\u00f5es, for\u00e7as de trabalho&#8230;) e de capturas (de territ\u00f3rios, tempos, grupos humanos&#8230;), que ganham complexidade e potenciais in\u00e9ditos, sociopol\u00edticos, de fluxos midi\u00e1ticos associativos centralizados e descentralizados (Galloway; Thacker, 2007). Assim, ao pensar em termos de hibridismos dos reinos, Deleuze e Guattari deixaram diversas contribui\u00e7\u00f5es conceituais. Paolo Virno articulou pioneiramente as consequ\u00eancias intelectuais e pol\u00edticas de pensar os coletivos a partir do novo universo conceitual, p\u00f3s-Deleuze e Guattari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O que aqui est\u00e1 em causa \u00e9 a conceitua\u00e7\u00e3o do campo de coincid\u00eancia imediata entre produ\u00e7\u00e3o e \u00e9tica, estrutura e superestrutura, entre a revolu\u00e7\u00e3o do processo de trabalho e da revolu\u00e7\u00e3o de sentimentos, entre a tecnologia e a tonalidade emocional, entre o desenvolvimento material e cultural [&#8230;]. Se n\u00e3o formos capazes de perceber os pontos de identidade entre as pr\u00e1ticas de trabalho e modos de vida, n\u00e3o iremos compreender nada das mudan\u00e7as que ocorrem na produ\u00e7\u00e3o atual e n\u00e3o compreenderemos muito sobre as formas de cultura contempor\u00e2nea. (VIRNO, 1996, p. 268).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Notadamente, no segundo tomo de <em>Capitalismo e Esquizofrenia<\/em> (Deleuze; Guattari, 1997), os campos social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico apresentam-se imersos em novas formas de capturas e produ\u00e7\u00e3o de subjetividades, e de explora\u00e7\u00e3o capital-trabalho a partir de maquina\u00e7\u00f5es capitalista. O capitalismo aparece como uma \u201cempresa mundial de subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d; por\u00e9m, aparece exclusivamente sob um Estado garantindo as \u201caxiom\u00e1ticas do capital\u201d nas popula\u00e7\u00f5es. Capitalistas e agentes do Estado operando, pois, a partir de dois termos-chave intimamente conexos e c\u00edclicos: os movimentos de <em>libera\u00e7\u00e3o<\/em> (inova\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de desejos cont\u00ednuos e ilimitados) e de <em>conten\u00e7\u00e3o<\/em> (codifica\u00e7\u00e3o e normatiza\u00e7\u00f5es retro-alimentativos) das popula\u00e7\u00f5es. Para os autores, na conjun\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea desses dois termos-chave, ou ainda, na expans\u00e3o do Estado liberal capitalista da era algor\u00edtmica, as popula\u00e7\u00f5es se encontram constantemente em dom\u00edniosque almejam reduzir seus modos de exist\u00eancia a partir do duplo movimento de produ\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o: de sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Tal como bem esclarece e completa Lazzarato (2010; 2014), as no\u00e7\u00f5es de sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica evidenciam os componentes semi\u00f3ticos do capital. A sujei\u00e7\u00e3o social aparece enquanto o processo semi\u00f3tico significante de assujeitamento (o \u201ccinismo \u2018humanista\u2019\u201d, segundo Lazzarato), de normaliza\u00e7\u00e3o ou governamentalidade. \u00c9 o regime que \u2013 como explicou Marx e Foucault atualizou e apurou \u2013 sujeita os indiv\u00edduos \u00e0 m\u00e1quina social, a partir de discursos, ideologias, ordens de segmenta\u00e7\u00e3o de poderes etc., buscando agenciar a forma\u00e7\u00e3o do trabalhador-empres\u00e1rio, do consumidor e patriota, da identidade sexual e demais governamentalidades. \u00c9 um tipo de poder <em>molar <\/em>sobre os comportamentos perceptivos, sensitivos, afetivos cognitivos e lingu\u00edsticos, aptos a serem identific\u00e1veis, manipul\u00e1veis e quantific\u00e1veis. Contudo, conforme escreve:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O conceito de sujei\u00e7\u00e3o, embora com varia\u00e7\u00f5es importantes, \u00e9 comum na filosofia e na sociologia dos \u00faltimos cinquenta anos. Em contrapartida, \u2018servid\u00e3o maqu\u00ednica\u2019 constitui uma contribui\u00e7\u00e3o original de Deleuze e Guattari para a compreens\u00e3o de como o capitalismo funciona. [&#8230;] O que importa no capitalismo \u00e9 controlar os dispositivos semi\u00f3ticos a-significantes (econ\u00f4micos, cient\u00edficos, t\u00e9cnicos, cont\u00e1beis, do mercado de a\u00e7\u00f5es etc.) atrav\u00e9s dos quais ele busca despolitizar e despersonalizar as rela\u00e7\u00f5es de poder. (LAZZARATO 2014, p. 37).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Assim, na era algor\u00edtmica, seria preciso ponderar igualmente sobre a <em>servid\u00e3o<\/em><a id=\"_ftnref5\" href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> <em>maqu\u00ednica<\/em>, enquanto segunda natureza de produ\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o; segunda modalidade de maquina\u00e7\u00e3o da subjetividade no capitalismo \u2013 trabalhando simult\u00e2nea e complementarmente com a primeira, em movimentos, aqui negativos, de recodifica\u00e7\u00e3o<em>, <\/em>de sujei\u00e7\u00e3o social, de descodifica\u00e7\u00e3o e de servid\u00e3o maqu\u00ednica. Tal natureza de produ\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o das subjetividades corresponde a um sistema homens-m\u00e1quinas,no plural, carecendo apenas, para o seu funcionamento, de maquina\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas a-significantes: moedas, sons, m\u00fasicas, informa\u00e7\u00f5es, c\u00f3digos, algoritmos, diagramas cient\u00edficos, equa\u00e7\u00f5es, arquiteturas etc. \u201cA servid\u00e3o maqu\u00ednica \u2013 escreve Lazzarato (Idem, p. 32) \u2013 ativa for\u00e7as pr\u00e9-pessoais, pr\u00e9-cognitivas e pr\u00e9-verbais (percep\u00e7\u00e3o, sentido, afetos, desejo) tanto quanto for\u00e7as suprapessoais (m\u00e1quinas, lingu\u00edsticas, sociais, midi\u00e1ticas, sistemas econ\u00f4micos, etc.) [&#8230;]\u201d, atuando como maquina\u00e7\u00f5es nervosas ou cerebrais para a captura dos indiv\u00edduos. Aqui, no processo de multiplica\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es de maquina\u00e7\u00f5es, ocorre a fragmenta\u00e7\u00e3o do sujeito, com fins exclusivos de extra\u00e7\u00e3o, quantifica\u00e7\u00e3o e provento dos corpos \u2013 desta vez, o \u201ccinismo desumanizante\u201d do capitalismo. No poder molecular da servid\u00e3o maqu\u00ednica, o sujeito \u00e9 desconfigurado, despeda\u00e7ado, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao seu <em>corpo-<\/em>a\u00e7\u00e3o, disposto como <em>input<\/em>\/<em>output<\/em>, rel\u00e9, pe\u00e7a, ferramenta, quanto em rela\u00e7\u00e3o ao seu <em>corpo-<\/em>mente, disposto como serventia para alguma cogni\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, intelig\u00eancia, afeto, sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Compete ainda destacar uma derradeira e n\u00e3o menos relevante proposi\u00e7\u00e3o acerca do contempor\u00e2neo, atrav\u00e9s dos legados de Deleuze e Guattari. Na hist\u00f3ria, \u201cnunca um Estado perdeu tanta pot\u00eancia para colocar-se com tanta for\u00e7a a servi\u00e7o do signo de pot\u00eancia econ\u00f4mica\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 335). Sob o capitalismo, uma nova <em>m\u00e1quina social<\/em> \u00e9 produzida a partir de fluxos contr\u00e1rios, integrados e ambivalentes, em movimentos pedulares e diacr\u00f4nicos, os descodificadores, atributos do capital-dinheiro e do \u201ctrabalho livre\u201d, e os codificadores (axiom\u00e1ticos), atributos do Estado. A m\u00e1quina social capitalista confere um universo de diferentes planos de desejo <em>esquizofr\u00eanicos <\/em>nas popula\u00e7\u00f5es, e tal desejo seria diverso das ordens de funcionamento <em>depressivas<\/em> e <em>paranoicas<\/em>, geradas pelas m\u00e1quinas estatais desp\u00f3ticas (centralizadoras, totalit\u00e1rias, mon\u00e1rquicas) e <em>hist\u00e9ricas<\/em>, geradas pelas m\u00e1quinas territoriais (selvagem, tribal). Ao explicar o significado da inova\u00e7\u00e3o permanente do capitalismo, Deleuze e Guattari escrevem que as popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o submetidas a um cont\u00ednuo \u201ctempo esquizoide do novo corte criativo\u201d, de modo que o papel do Estado \u201c[&#8230;] j\u00e1 n\u00e3o determina um sistema social, mas \u00e9 determinado pelo sistema social ao qual se incorpora no jogo de suas fun\u00e7\u00f5es\u201d (IDEM, p. 293).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">N\u00e3o sendo mais um ve\u00edculo sobre-codifica\u00e7\u00e3o independente e imperativo, o Estado se ateria a cumprir precisamente a fun\u00e7\u00e3o c\u00ednica do \u201ccampo de iman\u00eancia burgu\u00eas\u201d, aquela que d\u00e1 um freio naquilo que foi liberado, de modo a assegurar, antes de liberar novamente, os horizontes de sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica, evidenciados a pouco, atingindo todas as classes. Neste sentido, a m\u00e1quina estatal, assim como as m\u00e1quinas t\u00e9cnicas \u2013 compreenda-se, os cientistas e t\u00e9cnicos \u2013, comp\u00f5em o amplo diagrama, onde:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>[&#8230;] j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 senhores, s\u00f3 escravos comandam escravos; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 necessidade de p\u00f4r carga no animal de fora, pois ele pr\u00f3prio se encarrega dela. N\u00e3o que o homem seja o escravo da m\u00e1quina t\u00e9cnica; mas, escravo da m\u00e1quina social, o burgu\u00eas d\u00e1 o exemplo, absorve a mais-valia para fins que, em seu conjunto, nada t\u00eam a ver com seu gozo: mais escravo do que o \u00faltimo dos escravos, primeiro servidor desta m\u00e1quina esfomeada, besta de reprodu\u00e7\u00e3o do capital, interioriza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida infinita. Eu tamb\u00e9m sou escravo, s\u00e3o estas as novas palavras do senhor. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 337).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"295\" height=\"373\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image004.jpg?resize=295%2C373&#038;ssl=1\" alt=\"image004\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><sub>\u201cAbsurd space&#8221; (1970) \u2013 Eduardo Nery<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. ACELERACIONISMO PROGRESSISTA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Deleuze e Guattari anunciam as maquina\u00e7\u00f5es descentralizadas no contexto intelectual franc\u00eas do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, de revis\u00e3o do marxismo e do freudismo, indo al\u00e9m das no\u00e7\u00f5es de ideologias e dial\u00e9ticas dominantes do \u201csenhor e escravo\u201d (luta de classe) e do \u201cpai e m\u00e3e\u201d (complexo de \u00c9dipo). No contexto hist\u00f3rico, o ano de 1972, de lan\u00e7amento do <em>Anti-\u00c9dipo \u2013 Capitalismo e esquizofrenia 1<\/em>, \u00e9 sobretudo marcado pelas corridas tecnol\u00f3gicas da Guerra Fria, pelas primeiras investidas neoliberais contra as axiom\u00e1ticas keynesianas dos Estados capitalistas, pelos sinais de esgotamento dos Estados desp\u00f3ticos no bloco sovi\u00e9tico e pelos desdobramentos das \u201crevolu\u00e7\u00f5es culturais\u201d p\u00f3s-maio de 1968.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Deleuze e Guattari redefiniriam, ent\u00e3o, a natureza da produ\u00e7\u00e3o capitalista, dispondo o social enquanto imerso nas maquina\u00e7\u00f5es subjetivas, do desejo, de forma que, pondera Lazzarato (2010, p. 179), a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se quer revolucion\u00e1ria, aquela que alimenta os fluxos de dessubjetiza\u00e7\u00e3o e t\u00e3o logo de nova subjetiva\u00e7\u00e3o, precisar\u00e1 \u201c[&#8230;] recusar a injun\u00e7\u00e3o de ocupar os lugares e os pap\u00e9is dentro da divis\u00e3o social do trabalho, e construir, problematizar e reconfigurar o agenciamento maqu\u00ednico, isto \u00e9, um mundo e seus poss\u00edveis\u201d. Aqui, a famosa passagem de <em>Anti-\u00c9dipo<\/em> (demasiadamente propalada pelos aceleracionistas progressistas) pode ser mais bem compreendida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c9 no n\u00edvel dos fluxos, e dos fluxos monet\u00e1rios, n\u00e3o no n\u00edvel da ideologia, que se faz a integra\u00e7\u00e3o do desejo. Ent\u00e3o, qual solu\u00e7\u00e3o, qual via revolucion\u00e1ria? A psican\u00e1lise ajuda pouco, considerando-se suas \u00edntimas rela\u00e7\u00f5es com o dinheiro, pois que registra, embora evite reconhec\u00ea-lo, todo um sistema de depend\u00eancias econ\u00f4mico-monet\u00e1rias no cora\u00e7\u00e3o do desejo de cada sujeito que ela trata, constituindo-se, por sua vez, numa enorme empresa de absor\u00e7\u00e3o de mais-valia. Mas haver\u00e1 alguma via revolucion\u00e1ria? \u2014 retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos pa\u00edses do Terceiro Mundo, numa curiosa renova\u00e7\u00e3o da \u201csolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d fascista? Ou ir no sentido contr\u00e1rio, isto \u00e9, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da descodifica\u00e7\u00e3o e da desterritorializa\u00e7\u00e3o? Pois talvez os fluxos ainda n\u00e3o estejam suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados, do ponto de vista de uma teoria e de uma pr\u00e1tica dos fluxos com alto teor esquizofr\u00eanico. N\u00e3o retirar-se do processo, mas ir mais longe, \u201cacelerar o processo\u201d, como dizia Nietzsche: na verdade, a esse respeito, n\u00f3s ainda n\u00e3o vimos nada. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 318).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Como escreve Pelbart (2013, p. 121), Deleuze e Guattari apostavam que o combate aos desejos <em>niilistas reativos <\/em>do capitalismo s\u00f3 poderia se dar \u201c[&#8230;] a partir do niilismo que se pretende ultrapassar, voltando contra ele mesmo [&#8230;]\u201d, de modo que, o contramovimento n\u00e3o significaria \u201c[&#8230;] sustar, frear, bloquear a escalada do niilismo, mas justamente intensific\u00e1-lo, esgot\u00e1-lo, lev\u00e1-lo a seu termo, fazer com que se complete e retorn\u00e1-lo contra si\u201d. Vem da\u00ed que a proposi\u00e7\u00e3o provocativa e inovadora de <em>Anti-\u00c9dipo<\/em>, \u201cacelerar o processo\u201d, em refer\u00eancia nietzschiana, ser\u00e1 adotada, veremos, como divisa pol\u00edtica dos aceleracionistas progressista; e, \u00f3bvia e declaradamente, tal divisa abre para tens\u00f5es intelectuais e pol\u00edticas controversas, de <em>niilismo ativo<\/em>, isto \u00e9, que advoga um determinado progresso do liberalismo pol\u00edtico, a partir de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias de avan\u00e7o das \u201cfor\u00e7as produtivas\u201d, de modo que estas <em>n\u00e3o<\/em> sejam mais ve\u00edculos <em>freados<\/em> pelas axiom\u00e1ticas da m\u00e1quina capitalista. Em teoria, seus prop\u00f3sitos repousariam em contraperformatividades, ativando agenciamentos maqu\u00ednicos capazes reais de desmontagens das subjetividades axiomatizadas, a fim de que sejam liberadas e constituam sociabilidades e espa\u00e7os p\u00fablicos democr\u00e1ticos, emancipadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Pois bem, como fizemos com os aceleracionistas capitalistas, ser\u00e1 preciso realizar uma periodiza\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o dos principais partid\u00e1rios e discursos aceleracionistas progressistas. Veremos suas conforma\u00e7\u00f5es de sentidos, pr\u00e1ticas, afetos, sonhos, expressando outra cultura pol\u00edtica, ao ponto de evidenciar os lugares em que tais extrapolam os sentidos pol\u00edticos program\u00e1tico-pragm\u00e1ticos, fomentando, como pensamos, uma escatologia tecnopol\u00edtica reversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>4.1 \u2013 Cr\u00edtica imanente ao capitalismo<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, em tentativa pioneira de alcan\u00e7ar t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias tecnopol\u00edticas que escapassem do duplo movimento de libera\u00e7\u00e3o e controle das sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica, Antonio Negri e Michael Hardt publicam o livro <em>Imp\u00e9rio<\/em>, posicionando-se acerca do pensamento e da provoca\u00e7\u00e3o \u201cacelerar o processo\u201d de Deleuze e Guattari. Em tal obra, Negri e Hardt n\u00e3o almejaria apenas <em>resistir<\/em>, mas, sobretudo, apostar que, por meio das reais descentraliza\u00e7\u00f5es das materialidades pol\u00edticas, poder-se-ia realizar uma cr\u00edtica e supera\u00e7\u00e3o imanente ao capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Deleuze e Guattari sustentaram que melhor do que resistir \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 acelerarmos o processo. \u2018Mas qual \u00e9\u2019, perguntam eles, \u2018o caminho revolucion\u00e1rio? Existe? \u2013 Sair do mercado mundial&#8230;? Ou ser\u00e1 que se deve ir na dire\u00e7\u00e3o oposta? Avan\u00e7ar ainda mais no movimento de mercado, de decodifica\u00e7\u00e3o e desterritorializa\u00e7\u00e3o?\u2019. <em>O <\/em>Imp\u00e9rio s\u00f3 pode ser efetivamente contestado em seu pr\u00f3prio n\u00edvel de generalidade, e levando-se os processos que ele oferece para al\u00e9m de suas limita\u00e7\u00f5es atuais. Temos de aceitar o desafio e aprender a pensar e agir globalmente. (NEGRI; HARDT, 2001, p. 226-227).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Negri e Hardt, principalmente a partir da referida obra, e nas seguintes, al\u00e7ariam, pois, proposi\u00e7\u00f5es tecnopol\u00edticas que visavam, fundamentalmente, produzir mudan\u00e7as no modo de pensar da esquerda tradicional, uma vez que esta teria sempre apostado na cr\u00edtica e na mobiliza\u00e7\u00e3o via quebra, paralisa\u00e7\u00e3o ou revolu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista por meio do levante da classe social prolet\u00e1ria \u2013 desconjurando assim as ideias de cr\u00edtica imanente, de subvers\u00e3o, desvios, <em>d\u00e9tournement<\/em> emancipadores a partir de \u201cdentro\u201d do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Naquele momento ainda esparsas, as pressuposi\u00e7\u00f5es de Negri e Hardt ganhariam maior proemin\u00eancia quando, em 2013, \u00e9 publicado e viralizado na <em>internet<\/em> um manifesto intitulado <em>Accelerate Manifesto: for an accelerationist politics<\/em>, assinado pelos ingleses Alex Williams e Nick Srnicek. No ano seguinte, Robin Mackay e Armen Avanessian lan\u00e7am <em>#Accelerate: The Accelerationist Reader<\/em> (Mackay; Avanessian, 2014), <em>for an accelerationist politics<\/em>, assinado pelos ingleses Alex Williams e Nick Srnicek, livro no qual republicam textos cl\u00e1ssicos e contempor\u00e2neos de 27 autores inspiradores do pensamento tecnopol\u00edtico aceleracionista progressista, tais como: K. Marx (<em>Fragment on Machines<\/em>), T. Veblen (<em>The Machine Process and the Natural Decay of the Business Enterprise<\/em>), Lyotard (<em>Energumen Capitalism<\/em>), G. Lipovetsky (<em>Power of Repetition<\/em>) e N. Land (<em>Circuitries<\/em>). Williams e Srnicek ainda fazem coautoria na obra <em>Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work<\/em> (2015), e Srnicek publica <em>Platform Capitalism<\/em> (2017), obras que ambicionam trazer diretrizes e proposi\u00e7\u00f5es para as suas vis\u00f5es pol\u00edticas. Seguem dois trechos do referido manifesto <em>#Accelerate<\/em>, nos quais tecem sobre aspectos conjunturais pol\u00edticos e econ\u00f4micos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Que as for\u00e7as do poder governamental, n\u00e3o-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer press\u00e3o com a neoliberaliza\u00e7\u00e3o \u00e9, ao menos em parte, um resultado da paralisia cont\u00ednua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos pol\u00edticos de esquerda desprovido de pensamento radical, esvaziado e sem um mandato popular. Na melhor das hip\u00f3teses, eles responderam a nossa presente crise com chamados de um retorno \u00e0 economia keynesiana [&#8230;]. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da Guerra Fria, experimentando um ressurgimento nos anos ap\u00f3s 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova vis\u00e3o ideol\u00f3gico-pol\u00edtica. Em inv\u00e9s disso, eles consomem uma energia consider\u00e1vel em processos direto-democr\u00e1ticos internos e numa autovaloriza\u00e7\u00e3o afetiva dissociada da efic\u00e1cia estrat\u00e9gica, e frequentemente prop\u00f5em alguma variante de localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a fr\u00e1gil e ef\u00eamera \u201cautenticidade\u201d do imediatismo comunal [&#8230;]. Aceleracionistas querem libertar as for\u00e7as produtivas latentes. Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo n\u00e3o precisa ser destru\u00edda. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente n\u00e3o \u00e9 um est\u00e1gio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lan\u00e7ar o p\u00f3s-capitalismo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Negri (2014) comentaria o manifesto como tendo, de maneira geral, um saldo positivo, salientando a capacidade dos aceleracionistas cr\u00edticos constru\u00edrem uma abordagem produtiva e propositiva acerca das materialidades \u201crevolucion\u00e1rias\u201d do \u201ccapitalismo cognitivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O argumento do <em>Manifesto por um Aceleracionismo Pol\u00edtico<\/em> baseia-se inteiramente nesta capacidade de liberar as for\u00e7as produtivas do trabalho cognitivo. Temos de remover qualquer ilus\u00e3o de um retorno ao trabalho fordista; temos de finalmente compreender a mudan\u00e7a da hegemonia do trabalho material para a hegemonia do trabalho imaterial. Portanto, considerando o comando do capital sobre a tecnologia, \u00e9 necess\u00e1rio atacar a \u2018abordagem cada vez mais retr\u00f3grada do capital \u00e0 tecnologia\u2019. For\u00e7as produtivas s\u00e3o limitadas pelo comando do capital. A quest\u00e3o fundamental \u00e9, em seguida, libertar as for\u00e7as produtivas latentes, como o materialismo revolucion\u00e1rio sempre fez. \u00c9 nesta \u2018lat\u00eancia\u2019 que temos agora de habitar. (NEGRI, 2014, p. 3).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">As proposi\u00e7\u00f5es aceleracionistas progressistas teriam repercuss\u00e3o nos ambientes acad\u00eamicos<a id=\"_ftnref6\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>, fazendo sobretudo prosperar discuss\u00f5es a respeito dos anacronismos e futurismos das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda, sendo, a esse respeito, significativas as recentes publica\u00e7\u00f5es do coletivo de esquerda <em>Comit\u00ea Invis\u00edvel<\/em>, sentenciando, em <em>Aos nossos amigos e amigas<\/em> (2014):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O poder contempor\u00e2neo \u00e9 de natureza arquitet\u00f4nica e impessoal, e n\u00e3o representativa e pessoal. [&#8230;] O poder \u00e9 a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o deste mundo, este mundo preparado, configurado, designado. A\u00ed est\u00e1 o segredo, de que n\u00e3o h\u00e1 segredo nenhum. [&#8230;] O poder \u00e9 agora imanente \u00e0 vida, tal como a vida \u00e9 agora organizada tecnologicamente e mercantilmente. Ele tem a apar\u00eancia neutra dos equipamentos ou da p\u00e1gina branca do Google.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Um ponto consensual entre os partid\u00e1rios de uma renova\u00e7\u00e3o das materialidades para as t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda \u00e9 o diagn\u00f3stico preconizador de Marx, nos <em>Grundisse<\/em>, na se\u00e7\u00e3o <em>Fragmento sobre as m\u00e1quinas<\/em>, que preconizou a tese na qual o surgimento da grande ind\u00fastria implicaria em tornar a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica os elementos centrais da produ\u00e7\u00e3o, retirando este papel do trabalho assalariado. Neste sentido, contemporaneamente, surgem diferentes coletivos que esquadrinham suas aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de \u201ccomunismo do saber\u201d a partir da constru\u00e7\u00e3o de materialidades digitais que satisfa\u00e7am reais ambientes descentralizados e de fomenta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Intitulados como <em>FabLabs<\/em>, <em>Hackerspaces<\/em>, <em>Wikispaces<\/em>, <em>Crowndfunding<\/em> etc., tais plataformas colaborativas movimentam a inven\u00e7\u00e3o de ambientes e mobiliza\u00e7\u00f5es virtuais e atuais para, por exemplo, monitorar contas de obras p\u00fablicas, acompanhar a\u00e7\u00f5es de representantes p\u00fablicos, acessar informa\u00e7\u00f5es, financiar e promover projetos educativos e art\u00edsticos, criar intera\u00e7\u00f5es entre habitantes da cidade tendo em vista os problemas diversos de gest\u00e3o da ecologia urbana, introduzir formas sociais e ecol\u00f3gica de transa\u00e7\u00f5es e moeda, avivar exerc\u00edcios de poder mais pr\u00f3ximo das popula\u00e7\u00f5es. Aqui, a quest\u00e3o \u00e9 imputar coletividades interativas e participativas, estando em contraposi\u00e7\u00e3o ao horizonte de disrup\u00e7\u00e3o mercantil e centralizador de processos das <em>Big Five<\/em>, <em>think-tanks<\/em> e <em>startups<\/em> do polo tecnol\u00f3gico <em>Silicon Valley<\/em>, especialmente, estas \u00faltimas fundamentadas enquanto sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica de extra\u00e7\u00e3o, processo e venda de informa\u00e7\u00f5es e produtos via plataformas de publicidade (Google, Facebook), de produtos (Spotify), de bicos (Uber, Airbn), de nuvem (SalesForce, Amazon) e industriais (GE, Siemens) (Srnicek, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">No plano objetivo, a quest\u00e3o do aceleracionismo progressista, conforme salienta Srnicek (Idem), \u00e9 ir a partir e al\u00e9m das formas de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas denominadas <em>folks<\/em>, compreendidas como as que ainda se baseiam em ou partem de peti\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es, greves, a\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, grupos de afinidades, sindicatos, ou seja, as t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias do senso comum, por vezes anacr\u00f4nicas e esvaziadas, mas que s\u00e3o repetidas por serem vistas como as mais \u201caut\u00eanticas\u201d e \u201cnaturais\u201d, de modo que mesmo as novas experi\u00eancias pol\u00edticas de esquerda, horizontalistas e localistas, <em>Occupy<\/em>, <em>15M<\/em>, <em>Tiqqun<\/em>, <em>Comit\u00ea Invis\u00edvel<\/em>, teriam elas por base. Ir al\u00e9m n\u00e3o seria negar as <em>folks politics<\/em>; pelo contr\u00e1rio, seria consider\u00e1-las necess\u00e1rias, mas insuficientes, j\u00e1 que a transforma\u00e7\u00e3o do neoliberalismo para algo melhor dependeria de plataformas de a\u00e7\u00f5es globais, de mudan\u00e7as de sistemas de valores e estruturas de governan\u00e7a, envolvendo experi\u00eancias de design, quantifica\u00e7\u00e3o e computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O horizonte prometeico dos aceleracionistas progressistas desperta diversas discuss\u00f5es, uma relevante \u00e9 a que, ao concentrarem na quest\u00e3o das materialidades tecnol\u00f3gicas diversas \u2013 designs, arquiteturas, formas de fluxos e agenciamentos, desempenhos algor\u00edtmicos \u2013 para a constru\u00e7\u00e3o de subjetiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, eles se afastam de vis\u00f5es da pol\u00edtica como exclusivamente pr\u00e1xis discursiva, sem as materialidades \u201cecon\u00f4micas\u201d da vida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Dizer, como Badiou ou Ranci\u00e8re, que a subjetiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 dedut\u00edvel \u00e0 economia, \u00e9 bem diferente do fato de colocar a quest\u00e3o a partir de sua articula\u00e7\u00e3o paradoxal. O primeiro caso ilustra a ilus\u00e3o de uma pol\u00edtica \u2018pura\u2019, porque a subjetiva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se articula a nada, nunca espera uma consist\u00eancia necess\u00e1ria para existir; a segunda, ao contr\u00e1rio, abre canteiros de experimenta\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma vez que ela deve, se ela deseja existir e ter consist\u00eancia, operar uma ruptura, atravessando e reconfigurando o econ\u00f4mico, o social, o pol\u00edtico etc. (LAZZARATO, 2011, p. 44).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Materialidade, for\u00e7a produtiva, economia pol\u00edtica, planejamento&#8230; O espectro dos desastrosos planejamentos pol\u00edtico-econ\u00f4micos dos pa\u00edses socialistas do s\u00e9culo XX pode vir \u00e0 mente; afinal, a centraliza\u00e7\u00e3o dos poderes edificada nestes pa\u00edses n\u00e3o exatamente levou \u00e0 supera\u00e7\u00e3o dos autoritarismos, da escassez e \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o real dos trabalhadores. Houve, de fato, o estabelecimento de \u201csocialismos de caserna\u201d, como bem demonstrou Robert Kurz (1992). Contudo, atualmente, \u201cplanejamento\u201d de esquerda de maneira alguma deve se fundamentar por centraliza\u00e7\u00f5es e modela\u00e7\u00f5es. Nem mesmo tal acep\u00e7\u00e3o faz mais real sentido, uma vez que a quest\u00e3o, como estamos vendo, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de plataformas democr\u00e1ticas colaborativas, m\u00faltiplas, descentralizadas e de c\u00f3digos abertos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Pela via da cr\u00edtica imanente, a hegemonia sociot\u00e9cnica da esquerda n\u00e3o \u00e9 aquela que constr\u00f3i um \u201cmuro\u201d e uma \u201ccorrida tecnol\u00f3gica\u201d; \u00e9 a do campo das ideias e dos afetos, e de edifica\u00e7\u00e3o, reprograma\u00e7\u00e3o ou reformata\u00e7\u00e3o das plataformas de produ\u00e7\u00e3o, finan\u00e7a, log\u00edstica, consumo, estas que s\u00e3o \u201cas infraestruturas da sociedade global\u201d, que \u201cestabelecem os par\u00e2metros b\u00e1sicos do que \u00e9 poss\u00edvel, tanto em termos de comportamento quanto em termos ideol\u00f3gicos\u201d (Williams; Srnicek, 2013). Segue da\u00ed que os atuais processos de quantifica\u00e7\u00f5es, designs, <em>big data<\/em>, interfaces, protocolos, visualizadores de dados, formas de renderiza\u00e7\u00e3o de tempo, espa\u00e7o e objetos s\u00e3o precisamente aquilo que a esquerda dele incorporar. Resist\u00eancia, profana\u00e7\u00e3o ou escapismo s\u00e3o insuficientes; ora, se hegemonia tecnol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3ria para a transforma\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica e a cria\u00e7\u00e3o de novo poder constituinte, n\u00e3o decorre que sem ela essas duas coisas aconte\u00e7am. Ao observar a geopol\u00edtica mundial sendo modificada precisamente por engenharias computacionais de <em>softwares<\/em> trabalhando em nuvens, coordenando sensores, objetos, pessoas e gerindo massas infinitas de informa\u00e7\u00f5es, tal discuss\u00e3o vem a obter urg\u00eancia. As novas redes arquitet\u00f4nicas mundiais criadas n\u00e3o se reduziriam ao poder das empresas nem dos Estados, deixando para tr\u00e1s uma vis\u00e3o de mundo a partir do tradicional nexo diplom\u00e1tico entre os pa\u00edses, a \u201csoberania de Vestf\u00e1lia\u201d (Bratton, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Devemos notar que os aceleracionistas progressistas v\u00eam discutindo assuntos que n\u00e3o \u00e9 exclusivo e origin\u00e1rio deles, obviamente. Podemos encontrar, nomeando temas ou conceitos, diversos autores acad\u00eamicos, muitos pioneiros e reconhecidos: Gerald Raunig (f\u00e1bricas de conhecimentos; ind\u00fastrias de criatividades), Pierre L\u00e9vy (ciberdemocracia; esfera sem\u00e2ntica), Adrian Mackenzie (<em>softwares<\/em>; sociabilidade), Peter Sloterdijk (esferas; espumas), Saskia Sassen (cidades; c\u00f3digo aberto), Trebor Scholz (cooperativismo; plataforma), Bernard Stiegler (ecologia relacional; economia da contribui\u00e7\u00e3o), Tiziana Terranova (moedas virtuais descentralizadas; bio-hiperm\u00eddias), Bruno Latour (cosmopol\u00edtica; composicionismo), Nicolas Nova (designs; ambientes), Dominique Cardon (estruturas; web sem\u00e2ntica), Mark Poster (fluxos; informa\u00e7\u00f5es libertas). Apesar de explicitarem diferentes temperamentos pol\u00edticos de esquerda, tais autores v\u00eam contribuindo para compreens\u00f5es e proposi\u00e7\u00f5es, procurando novas ferramentas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas para potenciar express\u00f5es pol\u00edticas e intelig\u00eancias coletivas, potencializando as coexist\u00eancias m\u00faltiplas de pessoas e objetos, e os ambientes conjuntos, fortalecendo movimentos sociais, de resist\u00eancias, ampliando os espa\u00e7os colaborativos, n\u00e3o hier\u00e1rquicos e emancipat\u00f3rios e as formas de acompanhamento e de den\u00fancia de a\u00e7\u00f5es corporativas e dos Estados, de forma a fortalecer as capacidades de exerc\u00edcio de cidadania e dos direitos, para a diversidade, discuss\u00e3o p\u00fablica, decis\u00f5es participativas, deliberativas, transparentes, plurais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong><em>4.2 \u2013 Escatologia reversa<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante, sem advogar uma voli\u00e7\u00e3o aceleracionista, todos os autores citados a pouco, aprontam des\u00edgnios an\u00e1logos. Nesta perspectiva, o que esperar da provoca\u00e7\u00e3o \u201cacelerar o processo\u201d deleuze-guattariano, elevada \u00e0 bandeira pol\u00edtica, dos aceleracionismo? Uma escatologia pol\u00edtica reversa ao outro aceleracionismo? Em uma \u00e9poca de enorme destrui\u00e7\u00e3o do planeta, de enorme necessidade de sensibiliza\u00e7\u00e3o acerca sobre a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o destrutiva\u201d da dimens\u00e3o antropoc\u00eanica, de que maneira a voli\u00e7\u00e3o prometeica dos aceleracionista progressivista distinguir-se-ia da dos aceleracionistas capitalistas? Ainda, em variante debatedora: ambos os aceleracionistas n\u00e3o estariam dentro da l\u00f3gica dos modernos, aquela mais cruel, de destrui\u00e7\u00e3o da Gaia, um demandando a maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros, da abund\u00e2ncia; outro buscando a \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d revolucion\u00e1ria? Estariam assim, os aceleracionistas progressistas, demarcando um (velho) tom messi\u00e2nico (de certo marxismo) acerca do desenvolvimento libertador das for\u00e7as produtivas e, t\u00e3o logo, movimentando tamb\u00e9m \u2013 e em paralelo com aqueles que criticam \u2013 outra escatologia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Podemos distinguir o car\u00e1ter provocativo escatol\u00f3gico a partir da recorrentemente citada defini\u00e7\u00e3o de Mackay e Avanessian (2014, p. 10) ao movimento: \u201cAceleracionismo \u00e9 o nome uma heresia pol\u00edtica contempor\u00e2nea: a insist\u00eancia de que a \u00fanica resposta pol\u00edtica para o capitalismo n\u00e3o \u00e9 protestar, quebrar, criticar, ou <em>d\u00e9tourne<\/em>, mas acelerar e exacerbar suas tend\u00eancias de desenraizamento, aliena\u00e7\u00e3o, decodifica\u00e7\u00e3o e abstra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><em>Desenraizar<\/em>, <em>alienar<\/em>, <em>decodificar<\/em> e <em>abstrair<\/em> sugerem termos filos\u00f3fico-pol\u00edticos controversos, de leitura bastante particular da obra deleuze-guattariana, caso seja, para dizer o m\u00ednimo. Ora, no abissal <em>maelstr\u00f6m<\/em> em que vivemos, pensar as materialidades a partir de uma ecologia altru\u00edsta, democr\u00e1tica, comunal, de temporalidade lenta e n\u00e3o alienada, n\u00e3o seria um provocante e libert\u00e1rio (des)acelerar o processo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A futurologia e a velocidade cativam e hipnotizam os olhos prometeicos dos modernos, de modo que a conjuntura do progresso, do <em>avan\u00e7o<\/em>, j\u00e1 foi precisamente vista como o esquecimento de Epimeteu, marcando a elimina\u00e7\u00e3o do <em>atraso<\/em>, da <em>reflex\u00e3o<\/em> (Stiegler, 1994). Neste sentido, Danowski e Viveiros (2014, p. 150 et seq.) fazem apropriados questionamentos aos aceleracionistas progressistas, confrontando a \u201ceconomia pol\u00edtica da acelera\u00e7\u00e3o\u201d com a \u201cecologia pol\u00edtica do ralentamento\u201d, requerendo a este \u00faltimo termos filos\u00f3fico-pol\u00edticos como <em>hesita\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>abertura de espa\u00e7o para outros<\/em>. \u00c9 certo, contudo, que as condena\u00e7\u00f5es de reducionismo, determinismo tecnol\u00f3gico e nostalgia de um passado \u201cracionalista, imperialista e triunfalista\u201d, ou mesmo de negacionismo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, s\u00e3o extrapola\u00e7\u00f5es na avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica aos aceleracionistas. A desconfian\u00e7a de unilateralismo e autoritarismo nos discursos dos aceleracionistas progressistas parece ser sintom\u00e1tica na atual encruzilhada na qual se encontra a esquerda. No mais, Danowski e Viveiros (Idem, p. 153) esteiam mais uma provoca\u00e7\u00e3o, a \u201canti-moderna\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Eis por que o nome de Gaia \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o anti-modernista, uma forma de p\u00f4r a nu a posi\u00e7\u00e3o \u2018quase negacionista\u2019 [Stengers, 2013] dos arautos da \u2018acelera\u00e7\u00e3o pela esquerda\u2019\u201d&#8230; [&#8230;] teme que a intrus\u00e3o de Gaia perturbe o sonho da perfeita liberdade, a liberdade resultante da maestria prometeica capaz de nos levar a um estado ontologicamente desencarnado, a uma transfigura\u00e7\u00e3o tecno-ang\u00e9lica. \u00c9 o caso de perguntarmos quem \u00e9 que anda fumando \u00f3pio nestes \u00faltimos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A provoca\u00e7\u00e3o anti-moderna \u00e9 igualmente propositiva: exalta o <em>devir-\u00edndio<\/em>, a fim de bricolagens tecnoprimitivistas, agenciamentos sincr\u00e9ticos de alta intensidade, linhas de fuga e metamorfoses pol\u00edtico-metaf\u00edsicas, que seriam capazes de formar experi\u00eancias locais como globais, particulares como gerais (Idem, p. 158). Em outras palavras, acende-se aqui uma voli\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que parte de micro resist\u00eancias e de zonas aut\u00f4nomas tempor\u00e1rias a fim de liberar uma mudan\u00e7a global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"448\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image005.jpg?resize=320%2C448&#038;ssl=1\" alt=\"image005\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><sub>&#8220;Expanding universe I&#8221; (1980) &#8211; Eduardo Nery<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Pinker (2018, p. 56) assevera: \u201cIntelectuais odeiam o progresso. Intelectuais que se intitulam \u2018progressistas\u2019 odeiam <em>muito <\/em>o progresso\u201d. Na antiquada ordem do discurso \u201ca favor ou contra o progresso\u201d, ainda se tem em mente aquela rom\u00e2ntica \u201ccren\u00e7a oitocentista em for\u00e7as, leis, dial\u00e9ticas, lutas, desdobramentos, destinos, idades do homem e poderes evolucion\u00e1rios m\u00edsticos que impeliriam a humanidade sempre para cima, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 utopia\u201d; ou ent\u00e3o confundem tudo com aqueles ideais do s\u00e9culo XX, que visavam \u201c\u00e0 reengenharia da sociedade segundo conveni\u00eancias de tecnocratas e planejadores, tend\u00eancia essa que James Scott chama de alto modernismo autorit\u00e1rio\u201d (Idem, p. 25).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Em antagonismo, os aceleracionistas (hiperliberais e progressistas), com suas <em>ostenta\u00e7\u00f5es<\/em> prometeicas, e os anti-modernos, com suas <em>hesita\u00e7\u00f5es<\/em> primitivistas, caem na mesma fissura anacr\u00f4nica acerca do progresso t\u00e9cnico&#8230; Afinal, a quest\u00e3o \u00e9 metaf\u00f3rica \u2013 <em>(des)acelerar<\/em> \u2013 ou \u00e9 permitir cria\u00e7\u00f5es, desvios, descentraliza\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias, diferen\u00e7as, singularidades coletivas a partir do fortalecimento de estruturas, t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias tecno-ecol\u00f3gicas de democracia digital? Diante dessa pergunta, caberia tamb\u00e9m a preven\u00e7\u00e3o reflexiva de Pelbart (2013, p. 123): \u201cSabemos que o capitalismo pode muito contra isso as desterritorializa\u00e7\u00f5es, e muito mais do que na \u00e9poca se acreditava, mas talvez, tamb\u00e9m, muito menos. Em todo caso, hoje, uma tal avalia\u00e7\u00e3o demandaria uma \u2018atualiza\u00e7\u00e3o\u2019 minuciosa\u201d; completemos, ainda: atualiza\u00e7\u00e3o que seja realista, pragm\u00e1tica e program\u00e1tica. Verborragias tecno-ut\u00f3picas de esquerda \u2013 a \u00faltima, a do \u201ccomunismo luxuoso\u201d que estaria advindo com a plena automa\u00e7\u00e3o do trabalho (Bastani, 2019), e a pen\u00faltima, de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d a partir dos <em>blockchains<\/em> \u2013, apenas redundam em mais jogos ilus\u00f3rios de opacidade e transpar\u00eancia, determinando diversas suspei\u00e7\u00f5es, como fez Noys (2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Apesar de mostrar-se amig\u00e1vel com aqueles que se manifestam politicamente a partir de uma \u201cconcep\u00e7\u00e3o materialista e imanentista extremadas\u201d dos aceleracionistas progressistas, Bifo (2013) adverte notadamente que, hoje, <em>acelerar<\/em> pode significar, na verdade, interrup\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de singularidade \u2013 de experi\u00eancias, desensibiliza\u00e7\u00f5es, reduzindo os modos de exist\u00eancia a meros est\u00edmulos. Desterritoriza\u00e7\u00e3o-descodifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa imediato sin\u00f4nimo de autonomia, cria\u00e7\u00e3o de singularidade, emancipa\u00e7\u00e3o. De tal modo, uma pertinente quest\u00e3o deve ser balizada: as capacidades de metabolizar informa\u00e7\u00f5es, criar experi\u00eancias de singularidades coletivas em meio a uma vida <em>j\u00e1<\/em> altamente acelerada, em que as muta\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas ocorreriam com <em>maior rapidez<\/em> que as muta\u00e7\u00f5es mentais-sociais, n\u00e3o estariam sobrecarregando e bloqueando as muta\u00e7\u00f5es das \u00faltimas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Entre <em>Anti-\u00c9dipo<\/em> e <em>O que \u00e9 a filosofia?<\/em>, nota ainda Bifo (Idem, Ibidem), isto \u00e9, entre 1972 e 1992, Deleuze e Guattari teriam mudado bastante. \u201c[&#8230;] Durante este per\u00edodo, a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a revolu\u00e7\u00e3o info-tecnol\u00f3gica intensificaram os efeitos da acelera\u00e7\u00e3o no corpo desejante\u201d, e os efeitos da acelera\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica na subjetividade social seriam outros. Isto transpareceria na revers\u00e3o problem\u00e1tica quando os autores abordam a rela\u00e7\u00e3o entre o \u201ccaos\u201d (disrup\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas?) e o \u201cc\u00e9rebro\u201d (subjetiva\u00e7\u00f5es?). Em <em>O que \u00e9 a filosofia?<\/em>, os fil\u00f3sofos escreveram:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Queremos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada \u00e9 mais estressante do que o pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparece apenas esbo\u00e7adas, erodidas pelo esquecimento ou precitadas em outras, que do mesmo modo n\u00e3o dominamos. (DELEUZE; GUATTARI apud BIFO, 2013, p. 3).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><em>Fazer<\/em> pol\u00edtica ou <em>fazer<\/em> democracia vem a ser a cria\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os de vida. Ranci\u00e8re (2005), mesmo que tenha deixado de lado a urgente discuss\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es entre materialidades e a democracia, esclarece-nos que, longe de ser um ambiente institucional, a democracia \u2013 o processo de luta cont\u00ednua contra a privatiza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica \u2013, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o se define por uma forma de governo, ou uma constitui\u00e7\u00e3o, mas pelo encontro e conflito entre as l\u00f3gicas oposta da <em>pol\u00edtica<\/em> (o governo de \u201cqualquer um\u201d; a possibilidade do <em>dissenso<\/em>) e da <em>pol\u00edcia<\/em> (a separa\u00e7\u00e3o, hierarquiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o das compet\u00eancias sociais; a formata\u00e7\u00e3o de certo <em>consenso<\/em>). A democracia seria, pois, emancipa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas formas, materialidades, dentro de uma dimens\u00e3o est\u00e9tica. Isto vem a ser significativo para se refletir e debater acerca das proposi\u00e7\u00f5es escatologias tecnopol\u00edticas levantadas, para os quais caberia enfim perguntar, particularmente aos aceleracionistas progressistas: na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a favor das materialidades libertadoras, qual figura-central admitiriam tais aceleracionistas, a do <em>hacker<\/em> (dissenso) ou a do <em>engenheiro<\/em> (consenso)?<a id=\"_ftnref7\" href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>; finalmente, como a democracia \u00e9 compreendida? A partir de um novo poder constituinte<a>?<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ASCHOFF, Nicole. <em>New prophets of capital<\/em>. Londres: Verso, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BASTANI, Aaron. <em>Fully automated. Luxury communism<\/em>. Londres: Verso, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BENKLER, Yochai; FARIS, Robert; HAL, Roberts. <em>Network propaganda: manipulation, disinformation, and radicalization in America politics<\/em>. Nova Iorque: Oxford University Press, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BIFO, Franco Berardi. Accelerationism questioned from the point of view of the body. <em>E-Flux Journal<\/em>, n. 46, jun. 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BOLA\u00d1O, C\u00e9sar; FIGUEIREDO, Carlos. Social media and algorithms: configurations of the lifeworld colonization by New Media. <em>International Review of Information Ethics<\/em>, Karlsruhe, v. 26, dez. 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRATTON, Benjamin H. <em>The Stack: on software and sovereignty<\/em>. Massachusetts: MIT Press, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comit\u00ea Invis\u00edvel. <em>Aos nossos amigos e amigas<\/em>. Brasil: Edi\u00e7\u00f5es Baratas, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comit\u00ea Invis\u00edvel. <em>Motim e destitui\u00e7\u00e3o. Agora<\/em>. S\u00e3o Paulo, N-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CRARY, Jonathan.&nbsp;<em>24\/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep<\/em>. Londres: Verso, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DANOWSKI, D\u00e9borah; Viveiros de Castro, Eduardo. <em>H\u00e1 mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins<\/em>. Florian\u00f3polis: Desterro, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles. <em>L\u00f3gica do sentido<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles. Un concept philosophique. <em>Cahiers confrontation<\/em>, n. 20, Inverno, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <em>Anti-\u00c9dipo: capitalismo e esquizofrenia 1<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia 2: volume 5.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DERRIDA, Jacques. <em>Espectros de Marx<\/em>. Rio de Janeiro: Dumar\u00e1, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DERRIDA, Jacques. <em>For\u00e7a da lei<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DERRIDA, Jacques. <em>Gramatologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1973.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DERRIDA, Jacques; ROUDINESCO, Elisabeth. <em>De que amanh\u00e3&#8230;: di\u00e1logos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DIAMANDIS, Peter H.; KOTLER, Steven. <em>Abundance: the future is better than you think<\/em>. Nova Iorque: Free Press, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DUPAS, Gilberto. <em>O mito do progresso<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ed. Unesp, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FERREIRA, Pedro P. et al., Demasiadamente p\u00f3s-humano: entrevista com Laymert Garcia dos Santos. <em>Novos Estudos<\/em>. CEBRAP, S\u00e3o Paulo, v. 72, p. 161-175, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FUKUYAMA, Francis. <em>Nosso futuro p\u00f3s-humano: consequ\u00eancias da revolu\u00e7\u00e3o da biotecnologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Rocco, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FUKUYAMA, Francis. <em>The end of history and the last man<\/em>. Nova Iorque: The Free Press, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FUKUYAMA, Francis. The end of history? <em>The National Interest<\/em>, n. 16, Ver\u00e3o, p. 3-18, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FUKUYAMA, Francis. Transhumanism. <em>Foreign Policy<\/em>, n. 23, Outubro, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GALLOWAY, A. R.; THACKER, E. <em>The exploit: a theory of networks<\/em>. Minnesota: UMP, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GALLOWAY, Alexander R. The Poverty of Philosophy: Realism and Post-Fordism. <em>Critical Inquiry<\/em>, v. 39, n. 2, Winter 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GELLES, David. Floating Cities, No Longer Science Fiction, Begin to Take Shape. <em>The New York Times<\/em>. 13 nov. 2017. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/11\/13\/business\/dealbook\/seasteading-floating-cities.html\">https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/11\/13\/business\/dealbook\/seasteading-floating-cities.html<\/a>. Acesso em: 30 ago. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HAUCAP, Justus; HEIMESHOFF, Ulrich. Google, Facebook, Amazon, eBay: Is the Internet Driving Competition or Market Monopolization? <em>Dice Discussion Paper<\/em>, D\u00fcsseldorf: Heinrich\u2010Heine\u2010Universit\u00e4t D\u00fcsseldorf, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KURZ, Robert. <em>O colapso da moderniza\u00e7\u00e3o: da derrocada do socialismo de caserna \u00e0 crise da economia mundial<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KURZWEIL, Ray. <em>The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence<\/em>. Londres: Penguin Books, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KURZWEIL, Ray. <em>The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology<\/em>. Londres: Penguin Books, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LATOUR, Bruno. <em>Ci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LATOUR, Bruno. <em>Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia sim\u00e9trica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LAZZARATO, Maurizio. <em>La fabrique de l\u2019homme endett\u00e9: essai sur la condition n\u00e9olib\u00e9ral<\/em>. Paris: \u00c9ditions Amsterdam, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LAZZARATO, Maurizio. <em>Signos, m\u00e1quinas, subjetividades<\/em>. S\u00e3o Paulo: N-1, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LAZZARATO, Maurizio. Sujei\u00e7\u00e3o e servid\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo. <em>Cadernos de Subjetividade<\/em>. NEPS-PUC-SP, p. 168-179, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEROI-GOURHAN, Andre. <em>Le Geste et la Parole<\/em>. Paris: Albin Michel, 1964.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEVY, S. <em>In the Plex. How Google thinks, works and shapes our lives<\/em>, Nova Iorque: Simon &amp; Schuster, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LYOTARD, Jean-Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>. Lisboa: Gradiva, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LYOTARD, Jean-Fran\u00e7ois. <em>La posmodernidad (explicada a los ni\u00f1os)<\/em>. Barcelona: Gedisa, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACKAY, Robin; Avanessian, Armen.<em> #Accelerate: The Accelerationist Reader<\/em>. Falmouth: Urbanomic, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MALABOU, Catherine. <em>What should we do with our brain?<\/em> Nova Iorque: Fordham University Press, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MENGUE, Philippe. <em>Faire l&#8217;idiot : la politique de Deleuze<\/em>. Paris: Germina, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MORE, Max&nbsp;; VITA-MORE, Natasha. <em>The transhumanist reader<\/em>. Chichester: Whiley-Blackwell, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MOROZOV, Evgeny. Silicon Valley likes to promise \u2018digital socialism\u2019 \u2013 but it is selling a fairytale. <em>The Gardian<\/em>. 01 Mar. 2015. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2015\/mar\/01\/silicon-valley-promises-digital-socialism-but-is-selling-a-fairy-tale\">http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2015\/mar\/01\/silicon-valley-promises-digital-socialism-but-is-selling-a-fairy-tale<\/a>. Acesso em: 31 ago. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NANCY, Jean-Luc. Technique du pr\u00e9sent. <em>Le Portique<\/em>, n. 3, 1999. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/leportique.revues.org\">http:\/\/leportique.revues.org<\/a>. Acesso em: 19 set. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NEGRI, Antonio. Reflections on the \u201cManifesto for an Accelerationist Politics\u201d. In: <em>E-Flux Journal<\/em>, n. 53, mar. 2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.e-flux.com\/journal\/reflections-on-the-%E2%80%9Cmanifesto-for-an-accelerationist-politics%E2%80%9D\/\">http:\/\/www.e-flux.com\/journal\/reflections-on-the-%E2%80%9Cmanifesto-for-an-accelerationist-politics%E2%80%9D\/<\/a>. Acesso em: 03 nov. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NEGRI, Antonio; HARDT, Michael. <em>Imp\u00e9rio<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NOYS, Benjamin. <em>Malign Velocities: Speed &amp; Capitalism<\/em>. Winchester: Zero books, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PARISER, Eli.&nbsp;<em>The filter bubble: what the internet is hiding from you<\/em>. Nova Iorque: Penguin, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PARRA, Henrique Z. 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Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2019\/apr\/30\/silicon-valley-wealth-second-richest-country-world-earth\">https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2019\/apr\/30\/silicon-valley-wealth-second-richest-country-world-earth<\/a>. Acesso em: 30 ago. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RANCIERE, Jacques. <em>O \u00f3dio \u00e0 democracia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROBINSON, Sandra. The vital network: an algorithmic milieu of communication and control. <em>Communication +1<\/em>. V. 5, Set. 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROUVROY, Antoinette e Berns, Thomas. Gouvernementalit\u00e9 algorithmique et perspectives d\u2019\u00e9mancipation&nbsp;: le disparate comme condition d\u2019individuation par la relation ?. <em>R\u00e9seaux<\/em>, Paris, n. 177, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SEN, Amartya. O desenvolvimento como expans\u00e3o de capacidades. <em>Lua Nova<\/em>, n. 28-29, S\u00e3o Paulo, abr. 1993.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SERRES, Michel. <em>Hominesc\u00eancia<\/em>. Lisboa: Instituto Piaget, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIBERTIN-BLANC, Guillaume. <em>Politique et \u00c9tat chez Deleuze e Guattari&nbsp;: essai sur le mat\u00e9rialisme historico-machinique<\/em>. Paris: PUF, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIM, Stuart (Org.). <em>The Lyotard Dictionary<\/em>. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMONDON, Gilbert. <em>Du mode d&#8217;existence des objets techniques<\/em>. Paris: Aubier Montaigne, 1969.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMONDON, Gilbert. <em>La individuaci\u00f3n: a la luz de las nociones de forma y de informaci\u00f3n<\/em>. Buenos Aires: Cactus, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMONDON, Gilbert. Les limites du progr\u00e8s humain. <em>Cahiers Philosophiques<\/em>, n. 42, mar. 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SLOTERDIJK, Peter. <em>La domestication de l\u2019\u00eatre: pour un \u00e9claircissement de la clairi\u00e8re<\/em>. \u00c9ditions mille et une nuits, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SOLON, Olivia; Siddiqui, Sabrina. Forget Wall Street \u2013 Silicon Valley is the new political powet in Washington. <em>The Guardian<\/em>. 03\/09\/2017. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2017\/sep\/03\/silicon-valley-politics-lobbying-washington\">https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2017\/sep\/03\/silicon-valley-politics-lobbying-washington<\/a>. Acesso em: 30 ago. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SQUIRRA, Sebati\u00e3o C. A tecnologia e a evolu\u00e7\u00e3o podem levar a comunica\u00e7\u00e3o para a esfera das mentes. <em>Famecos: m\u00eddia, cultura e tecnologia<\/em>, v. 23, n. 1, jan-abr, Porto Alegre, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SRNICEK, Nick. <em>Platform capitalism<\/em>. Polity Press, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STENGERS, Isabelle. <em>Une autre science est possible ! Manifeste pour le ralentissement des science<\/em>. Paris: La D\u00e9couverte, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STIEGLER, Bernard. <em>La technique et le temps : La faute d&#8217;Epim\u00e9th\u00e9e<\/em> (tome 1). Paris: Galil\u00e9e, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TERRANOVA, Tiziana. Red stack attack! Algorithms, capital and the automation of the common. In: Mackay, Robin; Avanessian, Armen. <em>#Accelerate: The Accelerationist Reader<\/em>. Falmouth: Urbanomic, p.379-398, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VIRNO, Paolo. Notes on the \u2018General Intellect\u2019. In: Makdisi, S.; Casarino, C.; Karl, R., <em>Marxism beyond Marxism<\/em>. New York: Routledge, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WAJACMAN, Judy; DODD, Nigel. <em>The sociology of speed. Digital, organizational and social temporalities<\/em>. Nova Iorque: Oxford University Press, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WILLIAMS, Alex; SRNICEK, Nick. #Accelerate manifesto: for an accelerationist politics. In: <em>Critical Legal Thinking \u2013 Law &amp; the Political<\/em>, 14 mai. 2013. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/criticallegalthinking.com\/2013\/05\/14\/accelerate-manifesto-for-an-accelerationist-politics\/\">http:\/\/criticallegalthinking.com\/2013\/05\/14\/accelerate-manifesto-for-an-accelerationist-politics\/<\/a>. Acesso em: 03 out. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WILLIAMS, Alex; SRNICEK, Nick. <em>Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work<\/em>. Londres: Verso, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ZUBOFF, Shoshana. <em>The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power<\/em>. Nova Iorque: PublicAffairs, 2019.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> O texto, de natureza ensa\u00edsta, faz parte da terceira parte de um projeto pessoal de pesquisa intitulado <em>Materialismo Contempor\u00e2neo, Arqueologia e Democracia<\/em>, cabendo notar que \u2013 em tempos de destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es brasileiras de amparo \u00e0 pesquisa \u2013, fora desenvolvido sem aux\u00edlio. Agrade\u00e7o as leituras cr\u00edticas e anal\u00edticas de Gustavo Denani e Felipe Barbosa Gomes. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cO real precisa ser ficcionado para ser pensado. Essa proposi\u00e7\u00e3o deve ser distinguida de todo o discurso \u2014 positivo ou negativo \u2014 segundo o qual tudo seria \u2018narrativa\u2019, com altern\u00e2ncias entre as \u2018grandes\u2019 e \u2018pequenas\u2019 narrativas. [&#8230;] N\u00e3o se trata de dizer que tudo \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Trata-se de constatar que a fic\u00e7\u00e3o [&#8230;] definiu modelos de conex\u00e3o entre apresenta\u00e7\u00e3o dos fatos e formas de inteligibilidade que tornam indefinida a fronteira entre raz\u00e3o dos fatos e raz\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o [&#8230;]. Escrever a hist\u00f3ria e escrever hist\u00f3rias pertencem a um mesmo regime de verdade.\u201d (RANCI\u00c8RE, 2009, p. 54).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Derrida, no contexto de discuss\u00e3o sobre \u201cdireito fechado\u201d <em>versus<\/em> \u201cjurisprud\u00eancia\u201d, escreve: \u201cO indecid\u00edvel n\u00e3o \u00e9 somente a oscila\u00e7\u00e3o ou a tens\u00e3o entre duas decis\u00f5es. Indecid\u00edvel \u00e9 a experi\u00eancia daquilo que, estranho, heterog\u00eaneo \u00e0 ordem do calcul\u00e1vel e da regra, deve entretanto \u2013 \u00e9 dever que \u00e9 preciso falar \u2013 entregar-se \u00e0 decis\u00e3o imposs\u00edvel, levando em conta o direito e a regra. Uma decis\u00e3o que n\u00e3o enfrentasse a prova do indecid\u00edvel n\u00e3o seria uma decis\u00e3o livre, seria apenas a aplica\u00e7\u00e3o program\u00e1vel ou o desenvolvimento cont\u00ednuo de um processo calcul\u00e1vel. Ela seria, talvez, legal, mas n\u00e3o seria justa.\u201d (DERRIDA, 2010, p. 46-47).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Segue o formid\u00e1vel coment\u00e1rio de Philippe Mengue acerca da interpreta\u00e7\u00e3o deleuziana da burocratiza\u00e7\u00e3o da vida na obra <em>Bartleby<\/em> (Herman Melville): \u201cO que \u00e9 comum a Bartleby \u2013 her\u00f3i deleuziano por excel\u00eancia \u2013 \u00e9 o <em>idiota<\/em>, tendo com isso a ideia de que s\u00f3 podemos fazer uma pol\u00edtica de indetermina\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o-causal, capaz de dar chances para o evento [<em>\u00e9v\u00e9nement<\/em>] (violento, desorganizador) e o inesperado (indecid\u00edvel, n\u00e3o program\u00e1vel). \u00c9 a partir do nada ou a partir do indeterminado que o controle patina, retarda, permanece impotente e nesta ocasi\u00e3o cria-se um espa\u00e7o aberto na dire\u00e7\u00e3o de um evento poss\u00edvel. N\u00e3o que o indeterminado tenha um valor em si mesmo e constitua um fim \u00faltimo. Mas \u00e9 a partir dele que devemos principalmente contar, n\u00e3o para produzir o evento, mas para tornar poss\u00edvel somente sua apari\u00e7\u00e3o (que depende de outros fatores). A pol\u00edtica do evento se torna necessariamente uma pol\u00edtica da indetermina\u00e7\u00e3o.\u201d (MENGUE, 2013, p. 30).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Conforme esclarece em nota o tradutor Paulo D. Oneto (Lazzarato, 2014, p. 17), o termo franc\u00eas utilizado por Deleuze e Guattari \u00e9 <em>asservissement<\/em>, que denota ao mesmo tempo a transforma\u00e7\u00e3o de humanos em servos e voc\u00e1bulo t\u00e9cnico da engenharia de automa\u00e7\u00e3o e controle, utilizado para identificar m\u00e1quinas do tipo \u201cservo controle\u201d, ou \u201ccontrole tipo servo\u201d, como se diz em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Para uma compreens\u00e3o das discuss\u00f5es acad\u00eamicas no Brasil, no momento da divulga\u00e7\u00e3o do manifesto, consultar, por exemplo, a edi\u00e7\u00e3o n\u00b0 42, ano 2014, da revista <em>Lugar Comum<\/em>. Do mesmo modo, para analisar a penetra\u00e7\u00e3o das ideias dos aceleracionistas capitalista, ver o artigo de Squirra (2016).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Conforme distingue Comit\u00ea invis\u00edvel (2014, p. 126), enquanto a figura do <em>engenheiro<\/em> se posiciona como um agente policial que vem fazer com que o mundo funcione, da melhor forma poss\u00edvel, de acordo com um sistema; a figura do hacker, por sua vez, busca encontrar as falhas, inventar outros usos, experimentar, isto \u00e9, liberar novas est\u00e9ticas e \u00e9ticas a partir de experimenta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESCATOLOGIAS TECNOPOL\u00cdTICAS CONTEMPOR\u00c2NEAS \u201cSet of opposites\u201d (1989) \u2013 Eduardo Nery * * 1. INTRODU\u00c7\u00c3O 2. ACELERACIONISMO HIPERLIBERAL 2.1 \u2013 Singularidade 2.2 \u2013 Condi\u00e7\u00e3o antropot\u00e9cnica 3. PROPOSI\u00c7\u00d5ES ACERCA DO CONTEMPOR\u00c2NEO 3.1 \u2013 Maquina\u00e7\u00f5es 3.2 \u2013 Capitalismo contempor\u00e2neo 4. ACELERACIONISMO PROGRESSISTA 4.1 \u2013 Cr\u00edtica imanente ao capitalismo 4.2 \u2013 Escatologia reversa 5. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS 6. 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