{"id":4229,"date":"2022-09-22T00:32:00","date_gmt":"2022-09-22T00:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=4229"},"modified":"2026-06-06T15:57:28","modified_gmt":"2026-06-06T15:57:28","slug":"traducao-wendy-chun-fonticaria-o-codigo-como-fetiche-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/22\/traducao-wendy-chun-fonticaria-o-codigo-como-fetiche-2008\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] \u2013 WENDY CHUN,  \u201c&#8217;FONTI\u00c7ARIA&#8217;: O C\u00d3DIGO COMO FETICHE&#8221; [2008]"},"content":{"rendered":"\r\n<p class=\"has-text-align-center has-light-green-cyan-background-color has-background has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Tradu\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cSoftware, Rede, Classe &#8211; Chun, Galloway, Wark\u201d<\/em> <em>[Fins acad\u00eamicos]<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"640\" data-attachment-id=\"5450\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/03\/29\/traducoes-sofware-ideologia-chun-sobre-o-software-ou-a-persistencia-do-conhecimento-visual\/voltar\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"voltar\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-5450\" style=\"width: 44px; height: 44px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?resize=640%2C640&#038;ssl=1\" alt=\"voltar\" \/><\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em><strong><a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\">Voltar &#8211; Sum\u00e1rio<\/a><\/strong><\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-chun-2008.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"870\" height=\"312\" data-attachment-id=\"4240\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/22\/traducao-wendy-chun-fonticaria-o-codigo-como-fetiche-2008\/capa-chun-2008\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-chun-2008.jpg?fit=870%2C312&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"870,312\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"capa-chun-2008\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-chun-2008.jpg?fit=870%2C312&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-4240\" style=\"width: 671px; height: 240px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-chun-2008.jpg?resize=870%2C312&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/a><\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>\u201cFONTI\u00c7ARIA\u201d: O C\u00d3DIGO COMO FETICHE<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">WENDY H. K. CHUN<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Originalmente publicado em:<\/em> <em>Configurations, volume 16, issue 3, Fall 2008; pp. 299-324.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ednei de Genaro.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* *<\/p>\r\n\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Os debates acerca das novas m\u00eddias frequentemente ressoam com a hist\u00f3ria dos seis homens cegos e o elefante. Cada homem apanha uma parte do animal, oferecendo diferentes analogias: o elefante \u00e9 como uma parede, uma lan\u00e7a, uma cobra, uma \u00e1rvore, uma palmeira, uma corda. Recusando recuar de suas posi\u00e7\u00f5es \u2013 baseadas em experi\u00eancias pessoais \u2013, os s\u00e1bios envolvem-se, pois, em uma disputa intermin\u00e1vel, cada um \u201ccom sua opini\u00e3o \/ Sobrepujando r\u00edgida e forte \/ Embora todos estivessem parcialmente certos, \/ E todos errados!\u201d. A moral, segundo a vers\u00e3o do conto de John Godfrey Saxe, \u00e9: \u201cFrequentemente nas guerras teol\u00f3gicas, \/ Os disputantes, creio, \/ Praguejam em total ignor\u00e2ncia \/ Sobre o que o outro quer dizer, \/ E tagarelam sobre um Elefante \/ Que nenhum deles viu!\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[1]<\/span>. Talvez seja profano comparar um poema sobre a incompreensibilidade do divino a argumentos acerca das novas m\u00eddias, mas a invisibilidade, a ubiquidade e o alegado poder das novas m\u00eddias (e da tecnologia, mais genericamente) prestam-se perfeitamente a essa analogia. Parece imposs\u00edvel conhecer a extens\u00e3o, o conte\u00fado e os efeitos das novas m\u00eddias. Quem conheceria a totalidade dos conte\u00fados da WWW ou a real extens\u00e3o da Internet ou das redes m\u00f3veis? Como algu\u00e9m poderia ver e conhecer a totalidade das intera\u00e7\u00f5es online? Quem poderia transitar com desenvoltura da an\u00e1lise dos sites de redes sociais \u00e0s novelas japonesas via celular, ao World of Warcraft, aos algoritmos dos hardwares e \u00e0s instala\u00e7\u00f5es ef\u00eameras de arte? \u00c9 poss\u00edvel uma imagem global das novas m\u00eddias?<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Em resposta a tais dificuldades, uma importante vertente dos estudos de novas m\u00eddias afastou-se dos conte\u00fados e das tecnologias espec\u00edficas, aproximando-se daquilo que parece ser comum a todos os objetos e ocasi\u00f5es das novas m\u00eddias: o software. Todas as novas m\u00eddias supostamente dependem \u2013 ou, mais fortemente, podem ser reduzidas \u2013 ao software, uma ess\u00eancia \u201cvisivelmente invis\u00edvel\u201d. O software parece permitir que algu\u00e9m apreenda o elefante inteiro porque \u00e9 o todo invis\u00edvel que gera as partes percept\u00edveis aos sentidos. Fundamentado em nosso senso t\u00e1til, mas excedendo-o \u2013 baseado em nossa capacidade de manipular objetos virtuais que n\u00e3o podemos ver completamente \u2013, o software \u00e9 uma fonte m\u00e1gica que promete reunir o campo fraturado dos estudos das novas m\u00eddias e encapsular a diferen\u00e7a que esse campo produz.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9 software? O que significa conhecer o software e, mais significativamente, o que implica postular o software como a ess\u00eancia das novas m\u00eddias? Este ensaio responde a essas quest\u00f5es, argumentando que o software enquanto source* depende de uma profunda l\u00f3gica de \u201cfonti\u00e7aria\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[sourcery**]<\/span> \u2013 um fetichismo que ofusca as vicissitudes da execu\u00e7\u00e3o e torna nossas m\u00e1quinas demon\u00edacas. Ademais, essa fonti\u00e7aria \u00e9 o reverso, e n\u00e3o o oposto, de outra tend\u00eancia dominante nos estudos das novas m\u00eddias: a valoriza\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio enquanto agente. Tais fonti\u00e7arias estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o causal entre a\u00e7\u00f5es, c\u00f3digos e interfaces. No entanto, a rela\u00e7\u00e3o entre c\u00f3digo e interface, a\u00e7\u00e3o e resultado, \u00e9 sempre contingente e sempre, em alguma medida, imaginada. A redu\u00e7\u00e3o do computador ao c\u00f3digo-fonte, combinada \u00e0 cren\u00e7a de que os usu\u00e1rios operam nossos computadores, torna-nos vulner\u00e1veis a narrativas fant\u00e1sticas sobre o poder da computa\u00e7\u00e3o. Para nos libertarmos dessa fonti\u00e7aria, precisamos interrogar, em vez de venerar ou simplesmente aceitar, o fundamento ou a l\u00f3gica do software. Contudo, o crucial \u00e9 que um forte envolvimento com o software n\u00e3o nos permitir\u00e1 escapar das fic\u00e7\u00f5es e alcan\u00e7ar uma verdadeira compreens\u00e3o de nossas m\u00e1quinas; ao contr\u00e1rio, tornar\u00e1 nossas interfaces mais produtivamente espectrais. Como fetiche, o c\u00f3digo-fonte pode proporcionar prazeres \u201cdesviantes\u201d surpreendentes que n\u00e3o terminam onde deveriam. Organizado como re-source, o c\u00f3digo-fonte pode ajudar-nos a pensar a partir dos rituais maqu\u00ednicos e humanos e a imaginar nossas tecnologias e suas execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\r\n<p><strong>O Logos do Software<\/strong><\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Exagerando um pouco, o software foi recentemente destacado como a ess\u00eancia das novas m\u00eddias, e conhec\u00ea-lo veio a ser uma forma de iluminismo. O software \u00e9 supostamente a verdade, a camada de base, a l\u00f3gica das novas m\u00eddias. Lev Manovich, por exemplo, em seu inovador <em>The Language of New Media<\/em>, afirma que:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">as novas m\u00eddias podem parecer velhas m\u00eddias, mas apenas superficialmente <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. Para compreender a l\u00f3gica das novas m\u00eddias, precisamos voltar \u00e0 ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o. \u00c9 l\u00e1 que n\u00f3s podemos encontrar novos termos, categorias e opera\u00e7\u00f5es que caracterizam as m\u00eddias, agora program\u00e1veis. Dos estudos de m\u00eddias passamos para algo que se pode denominar \u201cestudos de software\u201d \u2013 da teoria da m\u00eddia \u00e0 teoria do software.<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[2]<\/span><\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Seu giro ao software \u2013 para a l\u00f3gica do que est\u00e1 por baixo \u2013 ofereceu uma base s\u00f3lida para os estudos das novas m\u00eddias, permitindo, como assevera Manovich, abarcar as tecnologias contempor\u00e2neas e abolir a chamada \u201cteoria do vapor\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[\u201cvapor theory\u201d]<\/span>, a teoria que erra ao distinguir demo e produto, fic\u00e7\u00e3o e realidade<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[3]<\/span>. Tal convite \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o, realizado por Geert Lovink e Alexander Galloway, entre outros, tem sido crucial para os estudos rigorosos das novas m\u00eddias; no entanto, esse evadir-se do que \u00e9 vaporizado \u2013 ao indefinido, ao movente \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m problem\u00e1tico porque a vaporiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidental, mas essencial para as novas m\u00eddias e, mais largamente, para o software. O software \u00e9, acima de tudo, ef\u00eamero, informa\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica, e os projetos de novas m\u00eddias que nunca se materializaram, ou o fizeram apenas precariamente, est\u00e3o entre os mais valorizados e citados. (Igualmente, se voc\u00ea tomar a defini\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de informa\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio, a informa\u00e7\u00e3o aumenta com o vapor, com a entropia). Tal giro para a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m amea\u00e7a reificar o saber do software como verdade, uma experi\u00eancia indiscutivelmente imposs\u00edvel: todos n\u00f3s sabemos sobre algum software, sobre alguma linguagem de software, mas algu\u00e9m realmente \u201cconhece\u201d o software? O que significaria conhec\u00ea-lo? De toda forma, dos mitos de hackers todo-poderosos, que \u201cfalam a linguagem dos computadores como se fala a l\u00edngua materna\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[4]<\/span>, ou que produzem abstra\u00e7\u00f5es que libertam o virtual <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[5]<\/span>, \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es mais mundanas, talvez, sobre a radicalidade do c\u00f3digo aberto, saber (ou usar) o software certo tornou-se an\u00e1logo \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do homem de sua tutela autoincorrida <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[6]<\/span>. Como esclarecem os militantes do software livre e do c\u00f3digo aberto, a cr\u00edtica mira tanto a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como a epistemol\u00f3gica: enquanto forma de iluminismo, \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o sobre como n\u00e3o ser governado \u2013 uma afirma\u00e7\u00e3o de liberdade essencial que s\u00f3 pode ser cerceada a um grande custo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[7]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Deixando claro, n\u00e3o estou rejeitando o potencial pol\u00edtico do software livre ou do c\u00f3digo aberto, ou a import\u00e2ncia de estudar ou politizar o software; em vez disso, estou argumentando que precisamos questionar como conhecer (ou usar) software livre ou c\u00f3digo aberto n\u00e3o apenas nos permite lutar contra a domina\u00e7\u00e3o ou resgatar o software de malfeitores como a Microsoft, mas tamb\u00e9m contra sua incorpora\u00e7\u00e3o nas \u2013 mediada entre, parte das \u2013 estruturas de saber-poder. Por exemplo, o uso de software livre n\u00e3o significa escapar do poder, mas sim engajar-se com ele de maneira diversa, uma vez que o software livre e o c\u00f3digo aberto privatizam profundamente o dom\u00ednio p\u00fablico: o copyleft GNU n\u00e3o anseia reformar o copyright, mas dissemin\u00e1-lo por toda parte <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[8]<\/span>. De tal modo, \u00e9 sintom\u00e1tico o movimento da sociedade contempor\u00e2nea de substituir a dicotomia p\u00fablico\/privado pela dicotomia aberto\/fechado<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[9]<\/span>. Mais sutilmente, o movimento do software livre, ao insistir que a liberdade procede do software livre \u2013 a partir do livre acesso ao c\u00f3digo-fonte \u2013, amplifica o poder do c\u00f3digo-fonte, apagando as vicissitudes da execu\u00e7\u00e3o e das estruturas que garantem a coincid\u00eancia entre o c\u00f3digo e sua execu\u00e7\u00e3o. Nisso se firma a l\u00f3gica do software \u2013 ou seja, o software enquanto <em>logos<\/em>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Como agora sabemos, o software (lembre-se, o software nem sempre foi software) associa palavra a resultado, <em>logos<\/em> a a\u00e7\u00e3o. O objetivo do software \u00e9 associar um evento a um comando escrito. O software borra a diferen\u00e7a entre o c\u00f3digo leg\u00edvel por humanos (leg\u00edvel devido a outro programa), sua interpreta\u00e7\u00e3o por m\u00e1quina e a sua execu\u00e7\u00e3o, a partir da transforma\u00e7\u00e3o da palavra \u201cprograma(r)\u201d [<em>program<\/em>], que passa de um verbo a um substantivo; e da transforma\u00e7\u00e3o do processo no tempo em processo no espa\u00e7o, transformando a execu\u00e7\u00e3o em inscri\u00e7\u00e3o \u2013 ou pelo menos pretendendo fazer isso. Um exemplo que utilizei em outro lugar, que resume bem isso, foi a famosa reprova\u00e7\u00e3o de Edsger Dijkstra ao comando <em>goto<\/em> <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[\u201cir para\u201d] <\/span><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[10]<\/span>. Em \u201cIr para Declara\u00e7\u00e3o Considerada Prejudicial\u201d, argumenta Dijkstra, \u201ca qualidade dos programadores \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o decrescente da densidade dos comandos <em>gotos<\/em> produzidos por eles no programa\u201d, porque o comando <em>goto<\/em> trabalha contra aquilo que Dijkstra considerava o princ\u00edpio fundamental de uma boa programa\u00e7\u00e3o: a saber, a necessidade de \u201cabreviar a dist\u00e2ncia conceitual entre programa est\u00e1tico e programa din\u00e2mico, criando, da maneira mais natural poss\u00edvel, uma correspond\u00eancia entre o programa (disseminado no espa\u00e7o do texto) e o processo (disseminado no tempo) <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[11]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio acima \u00e9 importante, uma vez que, se o programa de repente interromper devido a um <em>bug<\/em>, fica dif\u00edcil aos <em>gotos<\/em> encontrar o lugar correspondente de origem do c\u00f3digo bugado. <em>Gotos<\/em> tornam dif\u00edcil a associa\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o com seu produto \u2013 a redu\u00e7\u00e3o do processo ao comando \u2013, que fundamenta a emerg\u00eancia do software enquanto entidade concreta e mercadoria; isto \u00e9, <em>gotos<\/em> tornam dif\u00edcil a atua\u00e7\u00e3o leg\u00edvel do programa-fonte <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[12]<\/span>. Como argumentei em outro lugar, tal associa\u00e7\u00e3o entre instru\u00e7\u00e3o ou comando e seu produto est\u00e1 ligada \u00e0 hist\u00f3ria militar e de g\u00eanero do software: no ex\u00e9rcito, sup\u00f5e-se que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre um comando dado e um comando executado, sobretudo quando dado a uma \u201cgarota\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[13]<\/span>. A implica\u00e7\u00e3o disso \u00e9 a seguinte: a execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o importa \u2013 tal como na arte conceitual, a execu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ocorr\u00eancia superficial; o que importa \u00e9 a fonte<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[14]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A tend\u00eancia ao esquecimento ou \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe aos programadores sobrecarregados na tarefa de depurar erros de programas; ela tamb\u00e9m se estende a muitas an\u00e1lises cr\u00edticas do c\u00f3digo. Tais teoriza\u00e7\u00f5es, que significativamente questionam a redu\u00e7\u00e3o das novas m\u00eddias \u00e0s m\u00eddias televisivas, enfatizam o c\u00f3digo como performativo ou execut\u00e1vel. Por exemplo, Alexander Galloway, em <em>Protocol: How Control Exists after Decentralization<\/em>, assevera: \u201co c\u00f3digo tra\u00e7a uma linha entre o que \u00e9 material e o que \u00e9 ativo, expressando, em ess\u00eancia, que escrever (hardware) n\u00e3o pode fazer nada, devendo ser transformado em c\u00f3digo (software) para ser efetivo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. O c\u00f3digo \u00e9 linguagem, por\u00e9m um tipo muito especial de linguagem. O c\u00f3digo \u00e9 a \u00fanica linguagem execut\u00e1vel\u201d<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[15]<\/span>. Com base em parte em Galloway, N. Katherine Hayles, em <em>My Mother Was a Computer: Digital Subjects and Literary Texts<\/em>, diferencia linguagem performativa e performativo maqu\u00ednico, argumentando que:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo que \u00e9 rodado na m\u00e1quina \u00e9 performativo em um sentido muito mais forte do que aquele geralmente atribu\u00eddo \u00e0 linguagem. Quando a linguagem \u00e9 dita performativa, os tipos de a\u00e7\u00f5es que ela \u201cperforma\u201d ocorrem na mente dos humanos, tal como quando algu\u00e9m diz \u201cEu declaro esta sess\u00e3o legislativa aberta\u201d ou \u201cEu declaro voc\u00eas marido e mulher\u201d. Concedidas tais mudan\u00e7as, elas podem e de fato produzem resultados efetivos nos comportamentos; contudo, a for\u00e7a perform\u00e1tica da linguagem est\u00e1 ligada \u00e0s mudan\u00e7as externas por meio de complexas cadeias de media\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o c\u00f3digo rodando em um computador digital determina mudan\u00e7as no comportamento da m\u00e1quina e, por meio de portas de redes e outras interfaces, pode desencadear outras mudan\u00e7as, todas implementadas a partir da transmiss\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[16]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A independ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina \u2013 sua autonomia, ou sua execu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica do c\u00f3digo \u2013 \u00e9, de acordo com Galloway, sua ess\u00eancia material:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O substrato material do c\u00f3digo, que sempre deve existir como um am\u00e1lgama de sinais el\u00e9tricos e de opera\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas em sil\u00edcio, seja grande ou pequeno, demonstra que o c\u00f3digo existe primeiro e fundamentalmente como comandos emitidos por uma m\u00e1quina. O c\u00f3digo n\u00e3o tem outra raz\u00e3o de existir sen\u00e3o instruir alguma m\u00e1quina sobre como atuar. N\u00e3o se pode dizer o mesmo das linguagens naturais<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[17]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Em <em>A linguagem quer ser ocultada: software e ideologia<\/em>, Galloway afirma veementemente que \u201cver o c\u00f3digo enquanto subjetividade performativa ou enunciativa seria antropomorfizar, projet\u00e1-lo em uma rubrica psicol\u00f3gica, em vez de compreend\u00ea-lo por meio de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica de \u2018c\u00e1lculo\u2019 e \u2018comando\u2019\u201d<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[18]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">No entanto, at\u00e9 onde o c\u00f3digo-fonte pode ser compreendido sem antropomorfiza\u00e7\u00e3o? A compreens\u00e3o das tens\u00f5es arquivadas na mem\u00f3ria enquanto comandos\/c\u00f3digos j\u00e1 n\u00e3o antropomorfiza a m\u00e1quina? (A inevitabilidade da antropomorfiza\u00e7\u00e3o \u00e9 indubitavelmente evidente no t\u00edtulo do artigo de Galloway: \u201cA linguagem quer ser ocultada\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[grifo nosso]<\/span>). Como o c\u00f3digo \u201ccausa\u201d mudan\u00e7a no comportamento da m\u00e1quina? Quais media\u00e7\u00f5es sustentam a no\u00e7\u00e3o de c\u00f3digo como inerentemente execut\u00e1vel?<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Ao empregar o argumento de que o c\u00f3digo \u00e9 automaticamente execut\u00e1vel, o pr\u00f3prio processo de execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas precisa ser apagado, mas o pr\u00f3prio c\u00f3digo-fonte precisa ser associado \u00e0 sua vers\u00e3o execut\u00e1vel. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque, argumenta Galloway, as duas \u201ccamadas\u201d de c\u00f3digo podem ser reduzidas uma \u00e0 outra. Na verdade, em <em>Protocol<\/em>, o autor afirma que:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">o c\u00f3digo n\u00e3o compilado \u00e9 logicamente equivalente ao mesmo c\u00f3digo compilado na linguagem assembly e\/ou ligado ao c\u00f3digo da m\u00e1quina. Por exemplo, \u00e9 absurdo afirmar que certo valor expresso como um n\u00famero hexadecimal (base 16) seja mais ou menos fundamental que o mesmo valor expresso como um n\u00famero bin\u00e1rio (base 2). Eles s\u00e3o simplesmente duas express\u00f5es do mesmo valor<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[19]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Ulteriormente, em rela\u00e7\u00e3o a isso, Galloway tra\u00e7a uma analogia entre a equa\u00e7\u00e3o quadr\u00e1tica e as camadas l\u00f3gicas:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> nunca se deve entender tal m\u00e1quina simb\u00f3lica \u201csuperior\u201d como algo empiricamente diferente das intera\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas \u201cinferiores\u201d de tens\u00f5es atrav\u00e9s de portas l\u00f3gicas. Sim, elas s\u00e3o agregados complexos, mas \u00e9 tolice pensar que escrever uma estrutura de controle \u201cse\/ent\u00e3o\u201d em oito linhas de linguagem assembly seja algo mais ou menos maqu\u00ednico do que fazer o mesmo em uma linha de C, assim como a mesma equa\u00e7\u00e3o quadr\u00e1tica pode crescer com qualquer n\u00famero de multiplicadores e ainda assim manter-se equilibrada. A rela\u00e7\u00e3o entre os dois \u00e9 t\u00e9cnica<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[20]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a analogia da equa\u00e7\u00e3o quadr\u00e1tica de Galloway, a diferen\u00e7a entre uma linha compacta de c\u00f3digo de programa\u00e7\u00e3o de n\u00edvel superior e oito linhas de <em>assembler<\/em> \u00e9 igual \u00e0 diferen\u00e7a entre duas equa\u00e7\u00f5es, nas quais uma cont\u00e9m coeficientes que s\u00e3o m\u00faltiplos da outra. A solu\u00e7\u00e3o para ambas as equa\u00e7\u00f5es \u00e9 a mesma: uma equa\u00e7\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 outra. Essa redu\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o capta a diferen\u00e7a entre as v\u00e1rias inst\u00e2ncias de c\u00f3digo, muito menos a diferen\u00e7a emp\u00edrica entre a m\u00e1quina simb\u00f3lica superior e as intera\u00e7\u00f5es de tens\u00f5es inferiores (a quest\u00e3o aqui \u00e9: onde se realiza a observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica?); isto \u00e9, levando adiante o conceito de Galloway, uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 muito mais complexa do que uma rela\u00e7\u00e3o num\u00e9rica.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Significativamente, uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica envolve arte e artesanato. De acordo com o <em>Oxford English Dictionary<\/em> (OED), um indiv\u00edduo t\u00e9cnico \u00e9 aquele que possui \u201chabilidade em ou familiaridade com alguma arte ou assunto espec\u00edfico\u201d. O c\u00f3digo nem sempre realiza automaticamente o que lhe \u00e9 ordenado, contudo o realiza de forma astuciosa. Explicitando o \u00f3bvio, n\u00e3o se pode executar o c\u00f3digo-fonte: ele precisa ser compilado ou interpretado. Essa compila\u00e7\u00e3o ou interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 esse tornar o c\u00f3digo execut\u00e1vel \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o trivial; compilar c\u00f3digo n\u00e3o \u00e9 o mesmo que traduzir um n\u00famero decimal em bin\u00e1rio; em vez disso, envolve a expans\u00e3o das instru\u00e7\u00f5es e a tradu\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico em endere\u00e7os reais. Considere, por exemplo, as instru\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para adicionar dois n\u00fameros em linguagem assembly PowerPC, que constitui um n\u00edvel acima da linguagem de m\u00e1quina:<\/p>\r\n<p>li\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 r3,1\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 *load the number 1 into register 3<\/p>\r\n<p>li\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 r4,2\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 *load the number 2 into register 4<\/p>\r\n<p>add\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 r5,r4,r3\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 *add r3 to r4 and store the result in r5<\/p>\r\n<p>stw\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 r5,sum(rtoc)\u00a0 *store the contents of r5 (i.e. 3) into the memory location<\/p>\r\n<p>*called \u201csum\u201ds (where sum is defined \u00a0elsewhere)<\/p>\r\n<p>blr\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 *end of snippet of code<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[21]<\/a><\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Essa explos\u00e3o n\u00e3o \u00e9 equivalente a multiplicar ambos os lados da equa\u00e7\u00e3o quadr\u00e1tica pelo menor coeficiente ou pela diferen\u00e7a entre E e 15. \u00c9, ao contr\u00e1rio, uma divis\u00e3o das etapas necess\u00e1rias para executar o que parece ser um simples c\u00e1lculo aritm\u00e9tico. \u00c9 a diferen\u00e7a entre uma identidade matem\u00e1tica e uma equival\u00eancia l\u00f3gica, que depende de um ato de f\u00e9. Isso fica mais claro com o emprego de m\u00e9todos num\u00e9ricos, ao transformar a integral \u2013 uma fun\u00e7\u00e3o executada de maneira descomplicada em computadores anal\u00f3gicos \u2013 em uma s\u00e9rie de etapas aritm\u00e9ticas mais simples e repetitivas. A tradu\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo-fonte para o execut\u00e1vel \u00e9 incontestavelmente t\u00e3o intricada quanto a execu\u00e7\u00e3o de qualquer comando. Mais significativamente ainda, ela depende da a\u00e7\u00e3o (humana ou n\u00e3o) de compilar\/interpretar e executar. Igualmente, alguns programas podem ser execut\u00e1veis, por\u00e9m nem todos os c\u00f3digos compilados de um programa s\u00e3o execut\u00e1veis; na verdade, as linhas s\u00e3o lidas somente quando necess\u00e1rio. Assim, o c\u00f3digo-fonte [<em>source code<\/em>] somente se torna fonte [<em>source<\/em>] a posteriori. O c\u00f3digo-fonte \u00e9 mais precisamente um <em>re-source<\/em>, em vez de uma fonte [<em>source<\/em>]. Torna-se uma fonte quando integrado \u00e0s portas l\u00f3gicas (e, em um n\u00edvel ainda mais inferior, aos transistores que comp\u00f5em essas portas); quando se expande para incluir as bibliotecas de software; quando se funde ao c\u00f3digo-fonte gravado em chips de sil\u00edcio; e quando todos os sinais s\u00e3o cuidadosamente monitorados, cronometrados e retificados.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo nem sempre \u00e9 a fonte, pois o hardware n\u00e3o precisa de software para \u201cfazer algo\u201d. Pode-se construir algoritmos usando hardware, uma vez que o hardware n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 mem\u00f3ria armazenada. A Figura 1 <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[abaixo]<\/span>, por exemplo, faz a seguinte declara\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: \u201cse n\u00e3o B e n\u00e3o A, fa\u00e7a CDM1 (situa\u00e7\u00e3o P); se n\u00e3o B e n\u00e3o A e n\u00e3o Z OU B e A (situa\u00e7\u00e3o Q), ent\u00e3o comande 2.\u201d Para ficar claro, isso n\u00e3o \u00e9 uma valoriza\u00e7\u00e3o do hardware sobre o software, como se o hardware necessariamente escapasse dessa fun\u00e7\u00e3o de associar espa\u00e7o e tempo. Fundamentalmente, o esquema \u00e9 abstrato em si mesmo. As portas l\u00f3gicas somente podem operar \u201clogicamente\u201d se forem cuidadosamente temporalizadas. Como Phillip Agre enfatizou, a abstra\u00e7\u00e3o digital apaga o fato de que as portas t\u00eam \u201cdirecionalidade tanto no espa\u00e7o (lendo suas entradas, dirigindo suas sa\u00eddas) quanto no tempo (sempre indo ao encontro da rela\u00e7\u00e3o logicamente consistente entre as entradas e sa\u00eddas)\u201d<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[22]<\/span>. Quando o valor muda de repente, h\u00e1 um breve per\u00edodo em que uma porta fornecer\u00e1 um valor falso. Al\u00e9m disso, devido \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o dos sinais ao longo do espa\u00e7o e do tempo, eles produzem um campo magn\u00e9tico que pode corromper outros sinais ao redor (\u201cdiafonia\u201d). O esquema apaga todos esses v\u00e1rios efeitos baseados no tempo. Assim, os esquemas de hardware, em vez de escapar da l\u00f3gica de fonti\u00e7aria, tamb\u00e9m se incorporam a essa estrutura. Na verdade, John von Neumann, o suposto arquiteto do computador digital com mem\u00f3ria armazenada, baseando-se em Warren McCulloch e Walter Pitt, fundamentou-se na conjuga\u00e7\u00e3o entre atividade neuronal e sua inscri\u00e7\u00e3o, de modo a conceituar nossos computadores modernos. De acordo com McCulloch e Pitt (os mesmos fundamentando-se no trabalho de Turing), \u201ca resposta de qualquer neur\u00f4nio <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[\u00e9]<\/span> de fato equivalente a uma proposi\u00e7\u00e3o que indica seu est\u00edmulo adequado\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[23]<\/span>. Ou seja, a resposta de um neur\u00f4nio pode ser restrita \u00e0 circunst\u00e2ncia que a tornou poss\u00edvel: a instru\u00e7\u00e3o pode ser substitu\u00edda pelo resultado. Quem sabe seja adequado dizer, pois, que von Neumann tenha passado os \u00faltimos dias de sua vida \u2013 morrendo de c\u00e2ncer, provavelmente devido aos seus trabalhos em Alamos \u2013 recitando de mem\u00f3ria a primeira parte do <em>Fausto <\/em><span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[24]<\/span>. No centro do programa de armazenamento computacional est\u00e1 a faustiana substitui\u00e7\u00e3o da palavra pela a\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"4250\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/22\/traducao-wendy-chun-fonticaria-o-codigo-como-fetiche-2008\/chun-2008-1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-1.jpg?fit=858%2C792&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"858,792\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Chun 2008 1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-1.jpg?fit=858%2C792&amp;ssl=1\" class=\"alignnone  wp-image-4250\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-1.jpg?resize=482%2C445&#038;ssl=1\" alt=\"Chun 2008 1\" width=\"482\" height=\"445\" \/><\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">Fig. 1 \u2013 Se n\u00e3o B e n\u00e3o A, fa\u00e7a CDM1 (situa\u00e7\u00e3o P); se n\u00e3o B e n\u00e3o A e n\u00e3o Z OU B e A (situa\u00e7\u00e3o Q), ent\u00e3o comande.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 surpreendente que a no\u00e7\u00e3o de c\u00f3digo-fonte como fonte coincida com a introdu\u00e7\u00e3o de linguagens alfanum\u00e9ricas. Com elas, o c\u00f3digo n\u00e3o execut\u00e1vel escrito por humanos torna-se o c\u00f3digo-fonte, e o c\u00f3digo compilado, o c\u00f3digo-objeto. O c\u00f3digo-fonte \u00e9, pois, indubitavelmente sintom\u00e1tico da tend\u00eancia da linguagem humana de atribuir uma fonte soberana para uma a\u00e7\u00e3o, um sujeito para um verbo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[25]<\/span>. Transformando a a\u00e7\u00e3o em linguagem, emerge o c\u00f3digo-fonte. De tal modo, a afirma\u00e7\u00e3o de Galloway, \u201cver o c\u00f3digo enquanto subjetividade performativa ou enunciativa seria antropomorfizar, projet\u00e1-lo em uma rubrica psicol\u00f3gica, em vez de compreend\u00ea-lo por meio de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica de \u2018c\u00e1lculo\u2019 e \u2018comando\u2019\u201d, ignora o fato de que o uso de linguagens alfanum\u00e9ricas superiores j\u00e1 \u00e9 antropomorfizar a m\u00e1quina, e reduzir todas as a\u00e7\u00f5es maqu\u00ednicas aos comandos que supostamente as dirigem. Em outras palavras, o fato de que o \u201cc\u00f3digo \u00e9 lei\u201d \u2013 algo que Lawrence Lessig expressa com grande desenvoltura \u2013 dificilmente tem fundamento <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[26]<\/span>. Afinal de contas, o c\u00f3digo \u00e9, de acordo com a OED, \u201cuma cole\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica ou resumida de leis de um pa\u00eds, ou daquelas relacionadas a determinado assunto\u201d. O surpreendente \u00e9 o fato de que o software \u00e9 c\u00f3digo, que o c\u00f3digo \u00e9 \u2013 foi feito para ser \u2013 execut\u00e1vel, e tal executabilidade n\u00e3o faz do c\u00f3digo uma lei, mas sim o sonho de todo advogado sobre o que a lei deveria ser, automaticamente habilitando e desabilitando certas a\u00e7\u00f5es e funcionando no n\u00edvel da pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\r\n<p><strong>C\u00f3digo-fonte como Fetiche<\/strong><\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo-fonte como fonte significa que o software funciona como um axioma, como \u201cuma proposi\u00e7\u00e3o autoevidente que n\u00e3o requer demonstra\u00e7\u00e3o formal para provar que \u00e9 verdadeira, mas \u00e9 aceita logo que mencionada\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[27]<\/span>. Em outras palavras, queira ou n\u00e3o, o c\u00f3digo-fonte \u00e9 somente c\u00f3digo-fonte ap\u00f3s o fato, ou ent\u00e3o, queira ou n\u00e3o, o software pode ser separado do hardware <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[28]<\/span>; o software \u00e9 sempre postulado como algo existente, como o fundamento autoevidente ou a fonte de nossas interfaces. Ele \u00e9 axiom\u00e1tico. Enquanto primeiro princ\u00edpio, ele imp\u00f5e uma l\u00f3gica de causa e efeito, baseada no apagamento da execu\u00e7\u00e3o e no privil\u00e9gio da programa\u00e7\u00e3o drenada e alimentada alhures <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[29]<\/span>. Sendo um axioma, como Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari argumentam, o software limita artificialmente as decodifica\u00e7\u00f5es <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[30]<\/span>. Limita o que pode ser decodificado, colocado em movimento, situando um limite artificial \u2013 o limite artificial da programabilidade \u2013 que busca distinguir informa\u00e7\u00e3o de entropia, pelo balizamento de algumas informa\u00e7\u00f5es entr\u00f3picas e de outros ru\u00eddos \u201cn\u00e3o intencionais\u201d. A programabilidade, a computa\u00e7\u00e3o discreta, depende do disciplinamento do hardware e do desejo de uma programa\u00e7\u00e3o axiom\u00e1tica. O c\u00f3digo \u00e9 um meio [<em>medium<\/em>] no sentido pleno da palavra. Como um meio, ele canaliza o fantasma que imaginamos conduzir a m\u00e1quina \u2013 que vemos e n\u00e3o vemos \u2013 quando olhamos para as imagens fantasmag\u00f3ricas de nossa tela.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Compreendido de tal maneira, o c\u00f3digo-fonte \u00e9 um fetiche. Segundo a OED, um fetiche foi originalmente um ornamento ou amuleto adorado por \u201cpovos primitivos <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> devido aos seus hipot\u00e9ticos poderes inerentes m\u00e1gicos\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[31]<\/span>. O termo fetisso derivou do com\u00e9rcio de pequenas mercadorias e amuletos m\u00e1gicos entre os mercadores portugueses e os africanos ocidentais; Charles de Brosses, em 1757, cunhou o termo fetichismo para descrever as \u201creligi\u00f5es primitivas\u201d. De acordo com William Pietz, os pensadores iluministas viam o fetichismo como uma:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">falsa raz\u00e3o causal acerca da natureza f\u00edsica, <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[tornando]<\/span> o erro determinante da mente pr\u00e9-iluminada: supersticiosamente atribuindo prop\u00f3sito intencional e desejo a entidades materiais do mundo natural, enquanto permitia que a a\u00e7\u00e3o social fosse determinada pelas <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> vontades de coisas contingencialmente personificadas, sendo, na verdade, meramente a caprichosa externaliza\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o, em pontos materiais, de imagina\u00e7\u00f5es libidinais das pr\u00f3prias pessoas <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[32]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Ou seja, o fetichismo, enquanto \u201cpensamento causal primitivo\u201d, converteu causalidade em desejo, em vez de raz\u00e3o.<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Ao falhar em distinguir a intencionalidade do mundo natural e a raz\u00e3o cient\u00edfica, e apoiando-se em quest\u00f5es materiais pr\u00e1ticas, o selvagem (assim \u00e9 dito) assume supersticiosamente a exist\u00eancia de um campo causal unificado para eventos pessoais e f\u00edsicos, postulando, pois, a realidade como sujeita a poderes animados, cujos prop\u00f3sitos podem ser endeusados ou influenciados. Especificamente, a cren\u00e7a da humanidade em deuses e poderes sobrenaturais (isto \u00e9, o n\u00e3o-iluminismo da humanidade) foi teorizada em termos de substitui\u00e7\u00e3o, por parte de indiv\u00edduos pr\u00e9-cient\u00edficos, de personifica\u00e7\u00f5es imaginadas pelas causas f\u00edsicas desconhecidas, pelos eventos futuros sobre os quais os indiv\u00edduos n\u00e3o t\u00eam controle e pelos fen\u00f4menos sobre os quais eles observam com medo e ansiedade <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[33]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Fetiches, portanto, permitem \u00e0 mente humana muito e pouco controle ao estabelecer um \u201ccampo causal unificado\u201d, que engloba a\u00e7\u00f5es pessoais e eventos f\u00edsicos. Fetiches produzem um controle aparente sobre os eventos futuros \u2013 uma possibilidade de influ\u00eancia, ou uma programabilidade herm\u00e9tica \u2013, distorcendo as rela\u00e7\u00f5es sociais reais a partir de realidades imaginadas.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Tal no\u00e7\u00e3o de fetiche como falsa causalidade foi especialmente importante para o diagn\u00f3stico de Karl Marx acerca do capital como fetiche. De maneira c\u00e9lebre, ele argumentou que:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">a forma-mercadoria <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> nada mais \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o social determinada entre humanos, que aqui assumem, para eles, a forma fantasmag\u00f3rica de rela\u00e7\u00e3o entre coisas. Desse modo, para encontrarmos uma analogia, temos de nos refugiar na regi\u00e3o nebulosa do mundo religioso. Aqui, os produtos do c\u00e9rebro humano parecem dotados de vida pr\u00f3pria, como figuras independentes que travam rela\u00e7\u00e3o umas com as outras e com os homens. Assim se apresentam, no mundo das mercadorias, os produtos da m\u00e3o humana. A isso eu chamo de fetichismo <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>\u00a0<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[34]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O capitalista, portanto, confunde as rela\u00e7\u00f5es sociais e as atividades do trabalho de indiv\u00edduos reais com o capital e sua aparente habilidade m\u00e1gica de reproduzir-se, uma vez que \u201c\u00e9 na renda por juros <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> que o capital encontra sua maior objetifica\u00e7\u00e3o, enquanto fetiche em forma pura <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. O capital \u2013 como uma entidade \u2013 encontra-se aqui como fonte de valor independente; algo que cria valor da mesma maneira que a terra <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[produz]<\/span> renda e o trabalho assalariado\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[35]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O paralelo com o c\u00f3digo-fonte parece \u00f3bvio: n\u00f3s, o \u201cpovo primitivo\u201d, adoramos o c\u00f3digo-fonte como uma entidade m\u00e1gica \u2013 como uma fonte da causalidade \u2013 quando, na verdade, o poder est\u00e1 em outro lugar, mais propriamente nas rela\u00e7\u00f5es sociais e maqu\u00ednicas. Por\u00e9m, curiosamente, em tal paralelo, o pensamento iluminista \u2013 uma cren\u00e7a de que o conhecimento leva ao controle e \u00e0 liberdade, uma libera\u00e7\u00e3o da tutelagem \u2013 n\u00e3o \u00e9 a \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d para o fetiche, mas sim o que o fundamenta, visto que o c\u00f3digo-fonte tem sido historicamente retratado como a solu\u00e7\u00e3o para as feiti\u00e7arias e outros mitos da programa\u00e7\u00e3o. De acordo com a narrativa popular, o c\u00f3digo da m\u00e1quina provoca mist\u00e9rio e submiss\u00e3o; o c\u00f3digo-fonte permite a compreens\u00e3o e, ent\u00e3o, institui o conhecimento racional e a liberdade, permitindo-nos passar de cegos a videntes.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">John Backus, escrevendo sobre programa\u00e7\u00e3o nos anos 1950, afirma que \u201ca programa\u00e7\u00e3o nos anos 1950 era uma magia negra, uma misteriosa arte privada\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[36]<\/span>. Os programadores formavam um \u201csacerd\u00f3cio guardando habilidades e mist\u00e9rios muito complexos para os ordin\u00e1rios mortais\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[37]<\/span>. Opondo-se at\u00e9 mesmo ao uso de n\u00fameros decimais, os programadores de m\u00e1quinas eram volta e meia presun\u00e7osos fornecedores de seus pr\u00f3prios fetiches ou \u201c\u00f3leos de cobra\u201d*, sistemas que tinham \u201chabilidades misteriosas, quase humanas, na compreens\u00e3o da linguagem e das necessidades do usu\u00e1rio; uma inspe\u00e7\u00e3o mais refinada certamente revelaria um amontoado complexo de exce\u00e7\u00f5es, de tarefas administrativas tediosas que substituem as pr\u00f3prias idiossincrasias daqueles computadores\u201d\u00a0 <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[38]<\/span>. Linguagens de programa\u00e7\u00e3o autom\u00e1ticas como o FORTRAN, desenvolvida por Backus, claramente exorcizaram o of\u00edcio do sacerd\u00f3cio, ao realizarem programas mais leg\u00edveis, tornando assim mais f\u00e1cil discernir a diferen\u00e7a entre o \u00f3leo de cobra e a coisa real.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, Richard Stallman, em sua cr\u00edtica do software n\u00e3o livre, argumentou que os programas execut\u00e1veis por m\u00e1quina criam mist\u00e9rios em vez de iluminismo. Stallman afirma que o execut\u00e1vel \u201c\u00e9 uma misteriosa pilha de n\u00fameros. O que isto faz \u00e9 segredo\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[39]<\/span>. Como argumentarei abaixo, tais no\u00e7\u00f5es de execut\u00e1vel e de c\u00f3digo de execu\u00e7\u00e3o como m\u00e1gicas apoiam-se em sistemas de opera\u00e7\u00e3o em tempo real, situando o usu\u00e1rio como fonte. Contra tal execu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, o c\u00f3digo-fonte aparentemente permite entendimento puro e liberdade \u2013 a capacidade de mapear e entender os funcionamentos da m\u00e1quina; mas, de novo, somente por meio de um apagamento m\u00e1gico da dist\u00e2ncia entre a fonte e a execu\u00e7\u00e3o, um apagamento da pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o. \u00c9 not\u00e1vel que essa mudan\u00e7a para o c\u00f3digo-fonte dificilmente privou os programadores de seus status de sacerdotes\/m\u00e1gicos. Inclusive, a no\u00e7\u00e3o de programadores como super-her\u00f3is tem sido ainda mais disseminada, e a hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o \u2013 da manipula\u00e7\u00e3o direta ao hipertexto \u2013 tem sido marcada por v\u00e1rias \u201clibera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Contudo, bem sabemos que o c\u00f3digo-fonte pode realizar coisas: pode ser interpretado ou compilado, e pode ser renderizado em comandos leg\u00edveis por m\u00e1quinas, sendo assim executado. O c\u00f3digo-fonte \u00e9 tamb\u00e9m lido por humanos e escrito por humanos para humanos: \u00e9 ent\u00e3o fonte de algum entendimento. Embora Ellen Ullman e v\u00e1rios outros tenham argumentado que \u201cum programa de computador tem somente um significado: aquilo que realiza. N\u00e3o \u00e9 um texto para um acad\u00eamico ler. Todo significado \u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o\u201d; o c\u00f3digo-fonte deve ser capaz de funcionar, mesmo n\u00e3o funcionando \u2013 isto \u00e9, mesmo que nunca seja executado <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[40]<\/span>. A legibilidade do c\u00f3digo-fonte n\u00e3o se resume aos coment\u00e1rios incorporados no c\u00f3digo, mas tamb\u00e9m abrange os comandos em ingl\u00eas e os estilos de programa\u00e7\u00e3o projetados para serem compreens\u00edveis. Essa legibilidade n\u00e3o \u00e9 somente para \u201coutros programadores\u201d; quando algu\u00e9m programa, precisa ser capaz de ler seu pr\u00f3prio programa \u2013 seguir sua l\u00f3gica e prever seu resultado \u2013 quer este resultado coincida ou n\u00e3o com a previs\u00e3o.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de c\u00f3digo-fonte como leg\u00edvel \u2013 enquanto produ\u00e7\u00e3o de algum resultado, independentemente de sua execu\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica \u2013 fundamenta o \u201ccodework\u201d*** e outros projetos criativos. O artista de internet Mez, por exemplo, criou uma linguagem, \u201cmezangelle\u201d, que incorpora c\u00f3digos formais e falas informais. A po\u00e9tica de Mez brinca deliberadamente com a sintaxe de programa\u00e7\u00e3o, produzindo uma linguagem que n\u00e3o pode ser executada, mas, mesmo assim, baseia-se nas conven\u00e7\u00f5es das linguagens de programa\u00e7\u00e3o para dar sentido <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[41]<\/span>. <em>Codework<\/em>, contudo, tamb\u00e9m pode funcionar inteiramente junto a uma linguagem de programa\u00e7\u00e3o existente. O poema de Graham Harwood, <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[baseado em linguagem]<\/span> Perl, por exemplo, traduz o poema <em>London<\/em>, de William Blake, escrito no s\u00e9culo XVIII, em <em>London.pl<\/em>, em um script que cont\u00e9m um algoritmo para \u201cencontrar e calcular a capacidade pulmonar bruta das crian\u00e7as gritando, de 1792 ao presente\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[42]<\/span>. Independentemente de poder ou n\u00e3o ser executado, o c\u00f3digo pode ser, e deve ser, trabalhado em algo relevante. O c\u00f3digo-fonte, em outras palavras, pode ser fonte de outras coisas al\u00e9m da m\u00e1quina de execu\u00e7\u00e3o que \u201csupostamente\u201d engendra.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo-fonte como fetiche, compreendido de forma psicanal\u00edtica, abarca o potencial n\u00e3o teleol\u00f3gico do c\u00f3digo-fonte, porque o fetiche \u00e9 um substituto genital que produz um prazer n\u00e3o reprodutivo no fetichista. \u00c9 um desvio que n\u00e3o \u201cacaba\u201d onde deveria, um desvio tomado para que a crian\u00e7a possa combater a castra\u00e7\u00e3o tanto para si quanto para sua m\u00e3e, ao mesmo tempo que assevera a estrutura edipiana mais ampla de seu mundo. Tanto reprime como reconhece a autoridade simb\u00f3lica paterna. De acordo com Freud, \u201co fetiche \u00e9 o substituto para o falo da mulher (m\u00e3e), em que o menino uma vez acreditou e n\u00e3o quer renunciar\u201d<span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[43]<\/span>; contudo, o fetiche, formado no momento em que o menino v\u00ea o falo da m\u00e3e, tamb\u00e9m transforma o falo:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 verdade que a crian\u00e7a emerge de sua experi\u00eancia vendo as partes femininas com uma cren\u00e7a inalterada de que a mulher tem um falo. Ela alimenta essa cren\u00e7a, mas tamb\u00e9m desiste dela; durante o conflito entre o peso morto da inconveniente percep\u00e7\u00e3o e da for\u00e7a de desejo oposta, assenta-se um compromisso tal como \u00e9 poss\u00edvel apenas no reino do pensamento inconsciente \u2013 a partir dos processos prim\u00e1rios. No mundo das realidades f\u00edsicas, a mulher ainda tem um p\u00eanis, apesar de tudo, mas esse p\u00eanis n\u00e3o \u00e9 mais aquele que foi antes. Outra coisa tomou o seu lugar, sendo nomeada sucessora, por assim dizer, e agora absorve todos os interesses que antes pertenciam ao p\u00eanis <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[44]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O fetiche \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do falo da m\u00e3e, cujo poder m\u00e1gico \u201cpermanece um s\u00edmbolo de triunfo sobre a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, e uma salvaguarda contra isso\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[45]<\/span>; enquanto tal, tanto fixa um singular evento \u2013 transformando o tempo em espa\u00e7o \u2013 quanto permite a l\u00f3gica de repeti\u00e7\u00e3o que constantemente reafirma essa salvaguarda. Como argumenta Pietz,<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">o fetiche \u00e9 sempre uma expressiva fixa\u00e7\u00e3o de um evento; antes de tudo, \u00e9 um objeto \u201chist\u00f3rico\u201d, a forma e a for\u00e7a materiais de um evento irrepet\u00edvel. O objeto \u00e9 \u201cterritorializado\u201d em espa\u00e7o material (uma matriz terrestre), seja na forma de localidade geogr\u00e1fica, de uma marca na superf\u00edcie do corpo humano, ou de um meio de inscri\u00e7\u00e3o ou configura\u00e7\u00e3o definida por alguma coisa port\u00e1til ou vest\u00edvel <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[46]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Embora fixe um evento singular, o fetiche funciona somente porque pode ser repetido; entretanto, novamente, o que \u00e9 repetido \u00e9, ao mesmo tempo, nega\u00e7\u00e3o e reconhecimento, uma vez que o fetiche pode ser \u201ctanto ve\u00edculo de nega\u00e7\u00e3o como de afirma\u00e7\u00e3o do fato da castra\u00e7\u00e3o\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[47]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Slavoj \u017di\u017eek fundamenta-se neste insight para explicar a persist\u00eancia do fetiche marxista:<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando os indiv\u00edduos usam dinheiro, eles sabem muito bem que n\u00e3o h\u00e1 nada m\u00e1gico nisso \u2013 que o dinheiro, em sua materialidade, \u00e9 simplesmente uma express\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. No n\u00edvel do cotidiano, os indiv\u00edduos sabem muito bem que h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es entre pessoas por tr\u00e1s das rela\u00e7\u00f5es entre as coisas. O problema \u00e9 que em suas pr\u00f3prias atividades sociais, naquilo que fazem, eles est\u00e3o agindo como se o dinheiro, em sua realidade material, fosse a incorpora\u00e7\u00e3o imediata da riqueza como tal. Na pr\u00e1tica, eles s\u00e3o fetichistas, n\u00e3o na teoria. O que eles \u201cn\u00e3o sabem\u201d, o que eles reconhecem erroneamente, \u00e9 o fato de que em suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais \u2013 no ato da troca de mercadorias \u2013 eles s\u00e3o guiados pela ilus\u00e3o fetichista&#8221; <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[48]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Sobretudo, os fetichistas sabem o que eles est\u00e3o fazendo \u2013 o conhecimento n\u00e3o \u00e9 a resposta para o fetichismo. O conhecimento que o c\u00f3digo-fonte oferece n\u00e3o \u00e9, pois, a cura para o fetichismo do c\u00f3digo-fonte: se alguma coisa, ele ampara esse fetichismo.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Deixando expl\u00edcito o paralelo, o c\u00f3digo-fonte, como o fetiche, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do evento em localidade \u2013 do tempo em espa\u00e7o \u2013, e isso afeta as coisas, mas n\u00e3o necessariamente da maneira prescrita. Seus efeitos podem ser tanto produtivos quanto n\u00e3o execut\u00e1veis. Ainda, em termos de nega\u00e7\u00e3o e reconhecimento, sabemos muito bem que o c\u00f3digo-fonte n\u00e3o \u00e9 execut\u00e1vel, ainda que persistamos em trat\u00e1-lo dessa forma. E \u00e9 essa dissimula\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel a cren\u00e7a ideol\u00f3gica na programabilidade.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo como fetiche significa que a execu\u00e7\u00e3o do computador se desvia da chamada fonte, como o programa-fonte desvia-se do programador. Alan Turing, em resposta \u00e0 obje\u00e7\u00e3o de que os computadores n\u00e3o podem pensar porque eles meramente seguem as instru\u00e7\u00f5es humanas, argumenta:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Com grande frequ\u00eancia, as m\u00e1quinas pegam-me de surpresa <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>. A ideia de que as m\u00e1quinas n\u00e3o podem dar origem a surpresas deve-se, creio eu, a uma fal\u00e1cia \u00e0 qual os fil\u00f3sofos e matem\u00e1ticos s\u00e3o especialmente sujeitos. \u00c9 a suposi\u00e7\u00e3o de que, t\u00e3o logo um fato \u00e9 apresentado a uma mente, todas as consequ\u00eancias disso surgem simultaneamente. A suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito \u00fatil em v\u00e1rias circunst\u00e2ncias, mas esquece-se com facilidade que \u00e9 falsa. Uma consequ\u00eancia natural de adot\u00e1-la \u00e9 assumir que n\u00e3o h\u00e1 virtude na mera elabora\u00e7\u00e3o de consequ\u00eancias a partir de dados e princ\u00edpios gerais. <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[49]<\/span>.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">O apagamento das vicissitudes da execu\u00e7\u00e3o coincide com a vincula\u00e7\u00e3o de dados e informa\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o e conhecimento \u2013 supondo ser mais dif\u00edcil a captura, em vez da an\u00e1lise, dos dados. O apagamento da execu\u00e7\u00e3o por meio do c\u00f3digo-fonte como fonte cria um sujeito autoral intencional: o computador, o programa, ou o usu\u00e1rio, e essa fonte \u00e9 tratada como a fonte do significado. O fato de haver um algoritmo, uma significa\u00e7\u00e3o esperada pelo c\u00f3digo (e, assim, de alguma forma conhecida), ocasionalmente estrutura nossa experi\u00eancia com programas. Quando jogamos um jogo digital, certamente tentamos fazer a engenharia reversa do seu algoritmo, ou pelo menos fazer o elo entre as a\u00e7\u00f5es e as programa\u00e7\u00f5es do jogo, sendo por isso que todos os livros de design alertam contra a coincid\u00eancia ou o mapeamento aleat\u00f3rio do jogo, uma vez que isso pode induzir \u00e0 paranoia em seus usu\u00e1rios. Ou seja, como uma interface \u00e9 programada, muitos usu\u00e1rios tratam a coincid\u00eancia como significativa. Para o usu\u00e1rio, tal como para o esquizofr\u00eanico paranoico, h\u00e1 sempre um significado: quer o usu\u00e1rio saiba ou n\u00e3o, ele sabe que isso se refere a ele ou a ela. Contudo, o fato de ele ou ela se importar com isso \u00e9 outra quest\u00e3o. De qualquer modo, o fato de que o c\u00f3digo supostamente comanda uma interface pode ser revelado; o fato de que o c\u00f3digo-fonte existe significa que a verdade existe. Conhecer o c\u00f3digo \u00e9 como ter uma vis\u00e3o \u201craio X\u201d, que faz coincidir o interior e o exterior, e o ato de revelar a fonte ou as conex\u00f5es torna-se em si mesmo um ato cr\u00edtico <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[50]<\/span>.<\/p>\r\n<p><strong>Tempo Real, Este Tempo<\/strong><\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"162\" data-end=\"953\">A discuss\u00e3o acerca do usu\u00e1rio exp\u00f5e um fato intrigante: a no\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rio como fonte, introduzida por meio dos sistemas operacionais em tempo real, \u00e9 o anverso, e n\u00e3o o ant\u00eddoto, para o c\u00f3digo como fonte. De acordo com a <em data-start=\"384\" data-end=\"389\">OED<\/em>, o tempo real \u00e9 \u201co tempo atual durante o qual um processo ou um evento ocorre, especialmente aquele analisado por computador, em contraste com o tempo subsequente a isso, quando um processamento computacional pode ser realizado, uma grava\u00e7\u00e3o reproduzida, ou algo semelhante\u201d. Fundamentalmente, sistemas de tempo real <em data-start=\"707\" data-end=\"713\">hard<\/em> e <em data-start=\"716\" data-end=\"722\">soft<\/em> est\u00e3o sujeitos a uma \u201crestri\u00e7\u00e3o de tempo real\u201d \u2013 isto \u00e9, eles precisam responder, em uma dura\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, a eventos previamente definidos. A medi\u00e7\u00e3o do tempo real, em sistemas computacionais, \u00e9 sua rea\u00e7\u00e3o ao vivo \u2013 sua vivacidade.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"955\" data-end=\"2005\">A no\u00e7\u00e3o de tempo real sempre desponta alhures \u2013 para os eventos do \u201cmundo real\u201d, para as a\u00e7\u00f5es do usu\u00e1rio \u2013 introduzindo assim a indexicalidade deste meio supostamente n\u00e3o indexado; ou seja, quer as imagens digitais sejam ou n\u00e3o \u201creais\u201d, o tempo real postula a exist\u00eancia de uma fonte \u2013 codificada ou n\u00e3o \u2013 que torna nossos computadores transparentes. Os sistemas operacionais de tempo real criam uma \u201ccamada abstrata\u201d que oculta os detalhes do hardware do processador para o software aplicativo; as imagens em tempo real retratam os computadores enquanto conectividades n\u00e3o mediadas. Como o Realplayer patenteia, a no\u00e7\u00e3o de tempo real transborda em todas as imagens em movimento, n\u00e3o porque todas s\u00e3o gravadas ao vivo, mas porque as granuladas imagens em movimento tornam-se marcas do real [51]. O que \u00e9 aut\u00eantico ou real \u00e9 o que transparece em tempo real; contudo, o tempo real \u00e9 real n\u00e3o somente por conta dessa indexicalidade \u2013 isto \u00e9, por remeter a algo situado alhures \u2013 mas igualmente por conta de suas r\u00e1pidas rea\u00e7\u00f5es aos <em data-start=\"1985\" data-end=\"1993\">inputs<\/em> do usu\u00e1rio.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2007\" data-end=\"2258\">Din\u00e2micas de atualiza\u00e7\u00e3o em tempo real de p\u00e1ginas da web, aparentemente por desejos ou por <em data-start=\"2098\" data-end=\"2106\">inputs<\/em> dos usu\u00e1rios, criam o que Tara McPherson chamou de \u201cmobilidade volicional\u201d. Estabelecendo uma \u201cfenomenologia da navega\u00e7\u00e3o na web\u201d, McPherson argumenta:<\/p>\r\n<blockquote data-start=\"2260\" data-end=\"2977\">\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2262\" data-end=\"2977\">Quando eu exploro a web, eu sigo o cursor, um sinal tang\u00edvel de presen\u00e7a: implica movimento. Tal movimento estrutura o senso de vivacidade, imediaticidade, de agora [&#8230;]. Contudo, n\u00e3o \u00e9 mais a velha vivacidade da televis\u00e3o: \u00e9 a vivacidade com uma diferen\u00e7a. Vivacidade que fundamenta voli\u00e7\u00e3o e mobilidade, criando uma vivacidade por demanda. Assim, ao contr\u00e1rio da televis\u00e3o, que ostenta sua presen\u00e7a diante de n\u00f3s, a web estrutura um senso de causalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vivacidade, algo que navegamos e no qual ingressamos, frequentemente estruturando um sentimento de que nosso pr\u00f3prio desejo incita o movimento. A web \u00e9 sobre a presen\u00e7a, mas tamb\u00e9m sobre uma presen\u00e7a inst\u00e1vel: \u00e9 um processo, em movimento [52].<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2979\" data-end=\"4227\">Tal vivacidade, nota cuidadosamente McPherson, \u00e9 sobretudo uma ilus\u00e3o \u2013 o sentimento ou a sensa\u00e7\u00e3o de vivacidade, em vez da pr\u00f3pria vivacidade; a escolha associada a essa vivacidade \u00e9 similar \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o algo real (embora algu\u00e9m possa questionar: qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre o sentir da escolha e a escolha? N\u00e3o seria a escolha em si mesma uma limita\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia?). O movimento do cursor em tempo real e o desdobramento de uma presen\u00e7a inst\u00e1vel por meio de nossas manipula\u00e7\u00f5es digitais (dos dedos) fazem-nos esticar o pesco\u00e7o para frente, em vez de sentar em nossos sof\u00e1s, originando dores nas costas e no pesco\u00e7o. \u00c9 surpreendente a forma como os computadores tornam as atividades mais enfadonhas em formas de consumo de tempo incr\u00edveis e at\u00e9 agrad\u00e1veis: um dos jogos digitais mais populares, <em data-start=\"3777\" data-end=\"3787\">The Sims<\/em>, concentra-se no mundano; jogos de a\u00e7\u00e3o e aventura reduzem a aventura a atividades estereotipadas e restritas ao movimento. A mobilidade volitiva, afirma McPherson, revela que o \u201chiper\u201d em torno da Internet tem certo amparo fenomenol\u00f3gico. Isto n\u00e3o necessariamente faz da Internet uma m\u00eddia empoderadora, mas pelo menos significa que pode provocar um desejo por algo melhor: uma verdadeira mobilidade volitiva, uma mudan\u00e7a verdadeira [53].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"4229\" data-end=\"6087\">No entanto, como visto anteriormente, o usu\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 apenas uma fonte de mudan\u00e7a em tempo real. As imagens em tempo real, como aquelas fornecidas por <em data-start=\"4380\" data-end=\"4389\">webcams<\/em>, fazem nossos computadores parecerem, mesmo que brevemente, vivos. Atualizando a si pr\u00f3prios e despontando alhures, os computadores fazem nossas redes parecerem transparentes, cumprindo, pois, a promessa das redes de fibra \u00f3ptica de conectar-nos com o mundo, do mesmo modo que as cota\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es e os notici\u00e1rios o fazem em tempo real [54]. Como um todo, os momentos de \u201cinteratividade\u201d refor\u00e7am de forma mais extensa a no\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancia. A fonte das a\u00e7\u00f5es de um computador sempre decorre alhures, porque o tempo real sugere que apenas eventos externos \u2013 cliques de mouse do usu\u00e1rio, <em data-start=\"4982\" data-end=\"4993\">streaming<\/em> de v\u00eddeo \u2013 causam as a\u00e7\u00f5es do computador. Essas intera\u00e7\u00f5es em tempo real, inicialmente introduzidas para tornar a computa\u00e7\u00e3o mais eficiente, quase apagaram a computa\u00e7\u00e3o por completo. De novo, os movimentos no interior do computador \u2013 a atualiza\u00e7\u00e3o constante, a diferen\u00e7a entre a representa\u00e7\u00e3o textual e um programa, um programa compilado, um programa armazenado em um <em data-start=\"5362\" data-end=\"5369\">drive<\/em>, e o programa lido instru\u00e7\u00e3o por instru\u00e7\u00e3o no processador \u2013 s\u00e3o todos apagados. Tais movimentos criam a nossa interface espectral, sem a qual nossas m\u00e1quinas (cremos erroneamente) n\u00e3o podem trabalhar, e s\u00e3o essas interfaces espectrais que nos permitem incluir os computadores dentro do campo mais largo dos estudos da cultura visual, ou das m\u00eddias televisivas. Vistas como o alfa e \u00f4mega de nossos computadores, as interfaces substituem, na maioria das vezes, o pr\u00f3prio computador, suprimindo o meio \u00e0 medida que ele prolifera seus espectros, tornando nossas transparentes m\u00e1quinas produtoras de vis\u00f5es irreais \u2013 \u00e0s vezes aterrorizantes, contudo frequentemente imita\u00e7\u00f5es banais ou alucina\u00e7\u00f5es de algo situado alhures.<\/p>\r\n<p><strong>M\u00eddia Demon\u00edaca<\/strong><\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por acaso, a espectralidade das m\u00eddias digitais torna nossas m\u00eddias demon\u00edacas; isto \u00e9, torna-as habitadas por processos invis\u00edveis que, talvez como o <em data-start=\"6264\" data-end=\"6275\">daim\u00f3nion<\/em> (voz interior m\u00edstica) de S\u00f3crates, ajudam-nos naquilo de que agora precisamos. Tais processos tornam m\u00e1gicos os execut\u00e1veis. UNIX \u2013 aquele sistema operacional que aparentemente est\u00e1 por tr\u00e1s de nossos felizes Macs espectrais \u2013 roda <em data-start=\"6509\" data-end=\"6519\">daemones<\/em>. <em data-start=\"6521\" data-end=\"6531\">Daemones<\/em> rodam nossos e-mails, nossos servidores de redes. Por isso, Macs n\u00e3o somente ostentam orgulhosamente o s\u00edmbolo da sedu\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e da queda na desgra\u00e7a \u2013 a ass\u00e9ptica e, mesmo assim, reveladora ma\u00e7\u00e3 mordida \u2013 como tamb\u00e9m povoam seus sistemas operacionais com <em data-start=\"6798\" data-end=\"6808\">daemones<\/em>, fazendo disto um verdadeiro \u201cpara\u00edso perdido\u201d (Fig. 2).<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"4251\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/22\/traducao-wendy-chun-fonticaria-o-codigo-como-fetiche-2008\/chun-2008-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-2.jpg?fit=640%2C673&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,673\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Chun 2008 2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-2.jpg?fit=640%2C673&amp;ssl=1\" class=\"alignnone  wp-image-4251\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/chun-2008-2.jpg?resize=306%2C322&#038;ssl=1\" alt=\"Chun 2008 2\" width=\"306\" height=\"322\" \/><\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">Fig. 2 \u2013 Mascote FreeBSD<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem. Por que tais <em>daemones<\/em> s\u00e3o chamados \u201csend mail\u201d e n\u00e3o Satan\u00e1s? De modo simples, um <em>daemon<\/em> \u00e9 um processo executado em segundo plano, sem a interven\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio (executado normalmente no momento da inicializa\u00e7\u00e3o). Eles podem rodar continuamente, em resposta a um evento particular ou a alguma condi\u00e7\u00e3o (tr\u00e1fego de rede, por exemplo); ou ainda em um tempo programado (a cada cinco minutos, ou todos os dias \u00e0s 5 horas, por exemplo). Mais tecnicamente, os <em>daemones<\/em> UNIX s\u00e3o processos sem parentesco, \u00f3rf\u00e3os, rodando no diret\u00f3rio raiz. Voc\u00ea pode criar um <em>daemon<\/em> UNIX bifurcando um processo-filho e, ent\u00e3o, fazendo com que o processo-pai saia, de modo que o INIT**** ocupe o lugar dele[55].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Os <em>daemones<\/em> UNIX, ao que parece, originam-se da palavra grega <em>da\u00edm\u00f4n<\/em>, significando, de acordo com o OED, \u201cum ser sobrenatural de natureza intermedi\u00e1ria, entre a dos deuses e a dos homens; uma divindade inferior, esp\u00edrito ou g\u00eanio (incluindo aqui as almas ou fantasmas de pessoas finadas, sobretudo de her\u00f3is endeusados)\u201d. Um <em>daemon<\/em> j\u00e1 \u00e9, pois, um meio, um valor intermedi\u00e1rio, ainda que n\u00e3o seja frequentemente visto assim. O mais famoso <em>daemon<\/em> \u00e9 certamente o <em>daim\u00f3nion<\/em> de S\u00f3crates \u2013 a voz interior m\u00edstica que auxiliava S\u00f3crates nos momentos de crise, impedindo-o de fazer algo precipitado. Outro <em>daemon<\/em> famoso, mais diretamente relativo aos processos UNIX, \u00e9 o dem\u00f4nio de Maxwell. Conforme Fernando Corbat\u00f3, um dos pioneiros membros do colaborativo Projeto MAC (<em>Project on Mathematics and Computation<\/em>), em 1963:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso uso da palavra daemon foi inspirado no daemon da f\u00edsica e termodin\u00e2mica. (Minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em F\u00edsica.) O daemon de Maxwell foi um agente imagin\u00e1rio que ajudou a escolher mol\u00e9culas de diferentes velocidades movimentando incessantemente uma porta em segundo plano. N\u00f3s come\u00e7amos a usar fantasiosamente a palavra daemon para descrever os processos de fundo, os quais incessantemente operavam nas tarefas do sistema [56].<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Processos daem\u00f4nicos s\u00e3o escravos que operam incessantemente e, como todos os escravos, cumprem e desafiam as ordens do mestre.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">A introdu\u00e7\u00e3o do multiusu\u00e1rio, do processamento de linha de comando \u2013 dos sistemas operacionais em tempo real \u2013 requer a mistifica\u00e7\u00e3o dos processos que parecem operar automaticamente, sem <em>input<\/em> do usu\u00e1rio, quebrando a \u201cdiegese\u201d das interfaces. O que n\u00e3o \u00e9 visto torna-se mais daem\u00f4nico do que normal, porque o usu\u00e1rio \u00e9 julgado ser a causa e o fim de todos os processos. Os sistemas operacionais em tempo real, tal como o UNIX, transformam o computador de uma m\u00e1quina operada em lotes por humanos em uma m\u00e1quina pessoal \u201cviva\u201d, que responde aos comandos dos usu\u00e1rios. Os conte\u00fados em tempo real \u2013 cota\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es, not\u00edcias de \u00faltima hora e <em>streaming<\/em> de v\u00eddeo \u2013 transformam igualmente os computadores pessoais em m\u00e1quinas pessoais de m\u00eddia. Estes momentos de \u201cinteratividade\u201d sustentam a no\u00e7\u00e3o de nossos computadores como transparentes. Em outras palavras, os processos em tempo real fazem do usu\u00e1rio a \u201cfonte\u201d [\u201csource\u201d] da a\u00e7\u00e3o, por\u00e9m somente tornando \u00f3rf\u00e3os aqueles processos sem os quais n\u00e3o poderia haver usu\u00e1rio. Ao tornar a interface transparente ou \u201cracional\u201d, criam-se dem\u00f4nios.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 compreens\u00edvel, pois, que Nietzsche tenha condenado S\u00f3crates t\u00e3o impetuosamente por seu <em>daemon<\/em> (e igualmente a linguagem, por sua imputa\u00e7\u00e3o de sujeito a verbo). De acordo com Nietzsche, S\u00f3crates foi ele mesmo um <em>daemon<\/em>, porque insistiu na transpar\u00eancia do conhecimento, porque insistiu que o mais belo \u00e9 tamb\u00e9m o mais sens\u00edvel. Fundamentalmente, a voz interior de S\u00f3crates apenas falou para dissuadir. S\u00f3crates introduziu ordem e reificou a percep\u00e7\u00e3o consciente, convertendo o instinto em cr\u00edtico e a consci\u00eancia em criadora. Qui\u00e7\u00e1, como um signo do desejo por transpar\u00eancia do conhecimento \u2013 o reinado da racionalidade \u2013, <em>daemon<\/em> \u00e9 igualmente um retroacr\u00f4nimo. Uma vez que o primeiro <em>daemon<\/em> supostamente era um programa que automaticamente fazia <em>backups<\/em> em fitas do sistema de arquivos, assumiu-se que <em>daemon<\/em> denotava \u201cDisk And Executive MONitor\u201d. Esse primeiro <em>daemon<\/em> \u00e9 relativo \u00e0 mem\u00f3ria, propriamente: um processo autom\u00e1tico, armazenado na mem\u00f3ria, que transfere os dados entre formas secund\u00e1rias e terci\u00e1rias de mem\u00f3ria, e que armazena os c\u00f3digos, podendo esses ser visualizados como a fonte. A mem\u00f3ria \u00e9 o que torna poss\u00edvel os daemones, fazendo nossas m\u00eddias daem\u00f4nicas [57]. As quest\u00f5es que permanecem s\u00e3o: como lidar com tais <em>daemones<\/em> e seus supostos c\u00f3digos-fonte? Deveriam eles ser exorcizados ou essa rela\u00e7\u00e3o espectral n\u00e3o \u00e9 central para o conceito fantasmag\u00f3rico de informa\u00e7\u00e3o e da mercadoria em si mesma? [58]<\/p>\r\n<p><strong>C\u00f3digo como Re-<em>Source<\/em><\/strong><\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Para responder \u00e0s quest\u00f5es acima, deixa-me retornar ao c\u00f3digo como <em>re-source<\/em>, uma vez que isto nos permite pensar a dist\u00e2ncia entre <em>source<\/em> e execu\u00e7\u00e3o, fazendo da interface um processo em vez de algo est\u00e1vel. Tal dist\u00e2ncia dificulta qualquer an\u00e1lise da determina\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio pelo software: como Matthew Fuller assevera, a \u201cdist\u00e2ncia entre um modelo de uma fun\u00e7\u00e3o e suas realidades <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span> descreve, em alguns casos, certo grau de liberdade e <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[&#8230;]<\/span>, em outros casos, desenvolve uma incapacidade paralisante para a a\u00e7\u00e3o\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[59]<\/span>. Analisando a montanha de recursos do Microsoft Word, Fuller argumenta convincentemente que, na ansiosa tentativa de programar o usu\u00e1rio, quanto mais recursos s\u00e3o oferecidos \u2013 mais c\u00f3digos disponibilizados \u2013, mais maneiras h\u00e1 de o usu\u00e1rio se perder <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[60]<\/span>. Pensar em termos dessa falha tamb\u00e9m significa pensar em como a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 morta-viva; como ela retorna continuamente <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[61]<\/span>. Ainda, o c\u00f3digo como <em>re-source<\/em> permite-nos tomar a s\u00e9rio a entropia, o ru\u00eddo e o modo como o c\u00f3digo enquanto <em>re-source<\/em> torna vis\u00edvel o invis\u00edvel. Tomando a s\u00e9rio o decaimento, podemos afastar-nos da associa\u00e7\u00e3o entre armazenamento e mem\u00f3ria, que fundamenta hoje a compreens\u00e3o das m\u00eddias digitais. Finalmente, a compreens\u00e3o do c\u00f3digo como <em>re-source<\/em> conecta sua efetividade \u00e0 hist\u00f3ria e ao contexto. Se o c\u00f3digo \u00e9 performativo, isto se d\u00e1 por conta da comunidade (humana ou n\u00e3o) que permite que tais enunciados sejam repetidos e executados, vinculando algu\u00e9m por meio da cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Tal vis\u00e3o mais abrangente do performativo tem sido desenvolvida por Judith Butler, argumentando contra a ideia de que o sucesso de um enunciado dependa da soberania do sujeito que fala. Em vez disso, ela argumenta que o crucial para o sucesso ou fracasso de um enunciado performativo \u00e9 sua iterabilidade, isto \u00e9, \u201ca opera\u00e7\u00e3o de metalepse, pela qual o sujeito que \u2018cita\u2019 o performativo \u00e9 temporalmente constitu\u00eddo como a origem tardia e fict\u00edcia do performativo\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[62]<\/span>. De outro modo, quando um falante executa um enunciado performativo, ela ou ele cita um enunciado, instituindo uma \u201ccomunidade lingu\u00edstica e uma hist\u00f3ria de falantes\u201d <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[63]<\/span>. Aqui, o que \u00e9 crucial \u00e9: primeiro, o c\u00f3digo que teve sucesso deve ser citado \u2013 e citado de forma extremamente exata. N\u00e3o existe espa\u00e7o para erros de sintaxe; segundo, essa iterabilidade precede o chamado sujeito (ou m\u00e1quina) que supostamente \u00e9 a fonte do c\u00f3digo; e terceiro, e mais importante, uma estrutura inteira precisa ser colocada em ordem a fim de que um comando seja executado. Tal estrutura \u00e9 tanto institucional e pol\u00edtica como maqu\u00ednica.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Para esclarecer o acima, concluirei abordando diretamente um exemplo que \u201cassombrou\u201d o presente ensaio: o atual confronto entre software livre e software de c\u00f3digo aberto. No n\u00edvel material, o desacordo pode n\u00e3o fazer sentido, pois qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre software livre e c\u00f3digo aberto, entre Linux e GNU\/Linux? Tudo e nada \u2013 uma diferen\u00e7a imagin\u00e1ria, mas ainda fundamental. Segundo Richard Stallman, a diferen\u00e7a est\u00e1 em seus valores:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a entre os dois movimentos est\u00e1 em seus valores, em seus modos de olhar o mundo. Para o movimento Open Source, a quest\u00e3o de saber se o software deve ser c\u00f3digo aberto \u00e9 uma quest\u00e3o pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9tica. Como algu\u00e9m disse: \u201cC\u00f3digo aberto \u00e9 uma metodologia de desenvolvimento; software livre \u00e9 um movimento social\u201d. Para o movimento Open Source, software n\u00e3o-livre \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o sub\u00f3tima. Para o movimento Free Software, o software n\u00e3o-livre \u00e9 um problema social e software livre \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[64]<\/span><\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">O fato de o c\u00f3digo realizar automaticamente o que diz dificilmente \u00e9 central. A diferen\u00e7a entre c\u00f3digo aberto e software livre est\u00e1 na rede que \u00e9 imaginada quando a pessoa codifica, difunde e usa software \u2013 o tipo de comunidade na qual algu\u00e9m entra e opera quando codifica. A comunidade citada aqui est\u00e1 comprometida com esta no\u00e7\u00e3o de liberdade, com o ato de codificar enquanto forma de liberdade de express\u00e3o. Os movimentos a favor do c\u00f3digo aberto e do software livre est\u00e3o alinhados, contudo, em suas valida\u00e7\u00f5es do \u201copen\u201d: liberdade \u00e9 c\u00f3digo aberto <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[65]<\/span>.<\/p>\r\n<p class=\"isSelectedEnd\" style=\"text-align: justify;\">Ao enfatizar aqui redes imaginadas, espero que fique claro que n\u00e3o estou interessada simplesmente em exorcizar o espectral ou o visual, mas antes tentando compreender como tal espectralidade est\u00e1 alhures. Capturar fantasmas envolve frequentemente olhar al\u00e9m do que n\u00f3s \u201crealmente\u201d vemos, para aquilo que vemos sem ver, e, indiscutivelmente, o maior impacto das m\u00eddias digitais em nossas vidas n\u00e3o decorre de suas interfaces, mas de seus processos algor\u00edtmicos. Agre tem enfatizado os modos de captura em vez da vigil\u00e2ncia \u2013 ou seja, os modos pelos quais os computadores capturam nossas tarefas cotidianas como dados a serem analisados e otimizados, das compras \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do autom\u00f3vel <span class=\"text-token-text-primary cursor-text rounded-sm\" data-placeholder-token=\"true\">[66]<\/span>. A captura retrabalha a no\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia do acesso: ningu\u00e9m precisa de um \u201ccomputador pessoal\u201d para ser capturado \u2013 tudo de que precisamos \u00e9 de uma <em>tag<\/em> RFID (<em>Radio Frequency Identification<\/em>; Identifica\u00e7\u00e3o por Radiofrequ\u00eancia), de trabalhar em uma f\u00e1brica ou simplesmente de estar em d\u00e9bito. A captura tamb\u00e9m enfatiza a tateabilidade e o mundano em vez do espetacular \u2013 mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia pol\u00edtica e te\u00f3rica de imaginar essas redes e tecnologias invis\u00edveis que nos envolvem em seu denso emaranhado de sinais passivos e ativos, que s\u00f3 podem ser imaginados.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal imagina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, tal distinta visualidade espectral, ressalta o fato de que n\u00f3s n\u00e3o experimentamos a tecnologia diretamente, embora esteja ainda por ser compreendido em que medida a experi\u00eancia sens\u00f3ria humana ou o afeto s\u00e3o o in\u00edcio e o fim da computa\u00e7\u00e3o, levando em conta que enfatizar a percep\u00e7\u00e3o humana pode ser uma maneira de se agarrar a um humanismo retr\u00f3grado. Imagina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria significa tamb\u00e9m que o software somente pode ser compreendido <em>in media res<\/em> \u2013 no meio das coisas. \u201c<em>In media res<\/em>\u201d \u00e9 um estilo de narrativa que come\u00e7a no meio, j\u00e1 no desenrolar da a\u00e7\u00e3o. Em vez de oferecer uma cronologia suave, o passado \u00e9 introduzido a partir de <em>flashbacks<\/em> \u2013 interrup\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria. Retornando \u00e0 par\u00e1bola dos seis homens cegos l\u00e1 do in\u00edcio, isto significa que a posi\u00e7\u00e3o dos homens cegos, que sabem sem saber, n\u00e3o pode ser trocada, mas sim permanecer exatamente a mesma, pois \u00e9 a partir dela que podemos intervir e conhecer. <em>Software in media res<\/em> significa igualmente que podemos apenas come\u00e7ar com coisas \u2013 coisas que tocamos e agarramos, mas n\u00e3o totalmente; coisas que se desdobram no tempo \u2013 coisas que apenas podem ser processadas como \u201csources\u201d ou objetos (caso possam) ap\u00f3s o fato.<br \/><br \/><\/p>\r\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"331\" data-end=\"480\"><strong data-start=\"331\" data-end=\"338\">[1]<\/strong> Saxe, John Godfrey. \u201cThe Blind Men and the Elephant\u201d. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link cursor-pointer\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"408\" data-end=\"479\">http:\/\/www.wordinfo.info\/words\/index\/info\/view_unit\/1\/?letter=B&amp;spage=3<\/a>.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"482\" data-end=\"857\">* O substantivo ingl\u00eas <em data-start=\"506\" data-end=\"514\">source<\/em> \u00e9 frequentemente traduzido por <em data-start=\"546\" data-end=\"553\">fonte<\/em>, em portugu\u00eas. Contudo, admite outras tradu\u00e7\u00f5es, tais como <em data-start=\"613\" data-end=\"621\">origem<\/em>, <em data-start=\"623\" data-end=\"631\">motivo<\/em>, <em data-start=\"633\" data-end=\"646\">proced\u00eancia<\/em>, <em data-start=\"648\" data-end=\"654\">raiz<\/em> e <em data-start=\"657\" data-end=\"668\">princ\u00edpio<\/em>. Ao longo deste ensaio, Chun emprega <em data-start=\"706\" data-end=\"714\">source<\/em> em sentido filos\u00f3fico, desdobrando-o ainda em duas outras formas: o termo prefixado <em data-start=\"799\" data-end=\"810\">re-source<\/em> e o neologismo <em data-start=\"826\" data-end=\"836\">sourcery<\/em>. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"859\" data-end=\"1812\">** Embora n\u00e3o fa\u00e7a refer\u00eancia direta a isso, o neologismo <em data-start=\"918\" data-end=\"928\">sourcery<\/em>, traduzido aqui literalmente e tamb\u00e9m em forma neol\u00f3gica como <em data-start=\"991\" data-end=\"1003\">fonti\u00e7aria<\/em>, aparece na literatura fant\u00e1stica de Terry Pratchett, no romance <em data-start=\"1069\" data-end=\"1079\">Sourcery<\/em>, publicado em 1988. No Brasil, a obra foi traduzida por Roberto DeNice com o t\u00edtulo <em data-start=\"1164\" data-end=\"1179\">O Oitavo Mago<\/em> (Conrad Editora, 2003), recebendo a seguinte sinopse: \u201cSegundo uma lei natural do Discworld \u2013 o universo fant\u00e1stico criado por Terry Pratchett \u2013, o oitavo filho de um mago seria um feiticeiro, um homem com poderes m\u00e1gicos infinitos, fatais para o mundo. Por isso, os magos eram proibidos de se casar e procriar. Mas Ipslore se apaixona, \u00e9 expulso da Universidade Invis\u00edvel e tem oito filhos. Como vingan\u00e7a, o mago guia os passos de seu filho para juntos dominarem o mundo. E assim come\u00e7a a grande guerra da Magia\u201d. No ensaio de Chun, como veremos, esse poder m\u00e1gico e dominador passa a ser atribu\u00eddo ao software. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"1814\" data-end=\"1924\"><strong data-start=\"1814\" data-end=\"1821\">[2]<\/strong> Manovich, Lev. <em data-start=\"1837\" data-end=\"1864\">The Language of New Media<\/em>. Cambridge, MA: MIT Press, 2001, p. 48, grifos no original.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"1926\" data-end=\"2490\"><strong data-start=\"1926\" data-end=\"1933\">[3]<\/strong> A teoria do vapor (<em data-start=\"1953\" data-end=\"1967\">vapor theory<\/em>) \u00e9 um termo cunhado por Peter Lunenfeld e empregado por Geert Lovink para designar abordagens te\u00f3ricas que se distanciam do engajamento efetivo com as m\u00eddias digitais, tratando a fic\u00e7\u00e3o como fato. Contudo, o termo pode adquirir uma conota\u00e7\u00e3o mais positiva, caso se leve a s\u00e9rio a n\u00e3o materialidade do software (Lovink, Geert. \u201cEnemy of Nostalgia, Victim of the Present, Critic of the Future: Interview with Peter Lunenfeld\u201d. 31 jul. 2000. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.nettime.org\/Lists-Archives\/nettime-l-0008\/msg00008.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"2422\" data-end=\"2488\">http:\/\/www.nettime.org\/Lists-Archives\/nettime-l-0008\/msg00008.html<\/a>).<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"2492\" data-end=\"2615\"><strong data-start=\"2492\" data-end=\"2499\">[4]<\/strong> Galloway, Alexander R. <em data-start=\"2523\" data-end=\"2574\">Protocol: How Power Exists after Decentralization<\/em>. Cambridge, MA: MIT Press, 2004, p. 164.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"2617\" data-end=\"2754\"><strong data-start=\"2617\" data-end=\"2624\">[5]<\/strong> Wark, McKenzie. \u201cA Hacker Manifesto\u201d. Vers\u00e3o 4.0 (s.d.). Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link cursor-pointer\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"2697\" data-end=\"2753\">http:\/\/subsol.c3.hu\/subsol_2\/contributors0\/warktext.html<\/a>.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"2756\" data-end=\"3272\"><strong data-start=\"2756\" data-end=\"2763\">[6]<\/strong> Ver: Stallman, Richard. \u201cThe Free Software Movement and the Future of Freedom\u201d. 9 mar. 2006. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/fsfeurope.org\/documents\/rms-fs-2006-03-09.en.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"2872\" data-end=\"2928\">http:\/\/fsfeurope.org\/documents\/rms-fs-2006-03-09.en.html<\/a>. Famosamente, Immanuel Kant descreveu o Iluminismo como \u201ca sa\u00edda do homem de sua menoridade autoinfligida\u201d. Kant, Immanuel. \u201cAn Answer to the Question: What Is Enlightenment?\u201d. In: Schmidt, James (org.). <em data-start=\"3133\" data-end=\"3216\">What Is Enlightenment? Eighteenth-Century Answers and Twentieth-Century Questions<\/em>. Berkeley: University of California Press, 1996, p. 58.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"3274\" data-end=\"3532\"><strong data-start=\"3274\" data-end=\"3281\">[7]<\/strong> Para mais sobre o Iluminismo como uma posi\u00e7\u00e3o acerca de como n\u00e3o ser governado desta maneira, ver: Foucault, Michel. \u201cWhat Is Critique?\u201d. In: Schmidt, James (org.). <em data-start=\"3447\" data-end=\"3471\">What Is Enlightenment?<\/em> Berkeley: University of California Press, 1996, pp. 382\u2013398.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"3534\" data-end=\"4637\"><strong data-start=\"3534\" data-end=\"3541\">[8]<\/strong> Como observa Niva Elkin-Koren, em \u201cCreative Commons: A Skeptical View of a Worthy Project\u201d, a estrat\u00e9gia do Creative Commons \u201cn\u00e3o visa criar um dom\u00ednio p\u00fablico, ao menos n\u00e3o no sentido estrito de um regime livre de quaisquer direitos propriet\u00e1rios exclusivos. A estrat\u00e9gia depende inteiramente de um regime de propriedade, administrando sua pr\u00f3pria for\u00e7a legal de exist\u00eancia. Seu quadro normativo pressup\u00f5e ser poss\u00edvel substituir pr\u00e1ticas efetivas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de trabalhos informacionais com base no regime de propriedade existente. A suposi\u00e7\u00e3o subjacente \u00e9 que, se o direito de propriedade intelectual permanecer o mesmo, mas os direitos forem exercidos de forma diferente por seus propriet\u00e1rios, uma cultura livre poder\u00e1 emergir\u201d. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.hewlett.org\/NR\/rdonlyres\/6D4BFD1E-09BB-4F89-9208-7C1E4B141F2A\/0\/Creative_Commons_Amsterdam_fnal2006.pdf\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"4306\" data-end=\"4420\">http:\/\/www.hewlett.org\/NR\/rdonlyres\/6D4BFD1E-09BB-4F89-9208-7C1E4B141F2A\/0\/Creative_Commons_Amsterdam_fnal2006.pdf<\/a>. Embora Elkin-Koren esteja escrevendo sobre o Creative Commons, deixa claro que tal estrat\u00e9gia de extens\u00e3o e revis\u00e3o da propriedade intelectual deriva da GPL (<em data-start=\"4580\" data-end=\"4604\">General Public License<\/em>) do movimento do Software Livre.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"4639\" data-end=\"4798\"><strong data-start=\"4639\" data-end=\"4646\">[9]<\/strong> Para mais sobre isso, ver: Chun, Wendy Hui Kyong. <em data-start=\"4697\" data-end=\"4765\">Control and Freedom: Power and Paranoia in the Age of Fiber Optics<\/em>. Cambridge, MA: MIT Press, 2006.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"4800\" data-end=\"4978\"><strong data-start=\"4800\" data-end=\"4808\">[10]<\/strong> Ver: Chun, Wendy Hui Kyong. \u201cOn Software, or the Persistence of Visual Knowledge\u201d. <em data-start=\"4892\" data-end=\"4903\">Grey Room<\/em>, n. 18, inverno de 2005, pp. 27\u201352. Traduzido neste volume, no Cap\u00edtulo 1.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"4980\" data-end=\"5177\"><strong data-start=\"4980\" data-end=\"4988\">[11]<\/strong> Dijkstra, Edsger. \u201cGo To Statement Considered Harmful\u201d. In: Broy, Manfred; Denert, Ernst (org.). <em data-start=\"5086\" data-end=\"5144\">Software Pioneers: Contributions to Software Engineering<\/em>. Berlin: Springer, 2002, p. 342.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"5179\" data-end=\"5465\"><strong data-start=\"5179\" data-end=\"5187\">[12]<\/strong> A programa\u00e7\u00e3o estruturada foi introduzida como uma maneira de produzir programas em que, em vez do \u201cprogramador-sacerdote\u201d, tem-se a fonte. Contudo, a pr\u00f3pria figura do programador-sacerdote complica a no\u00e7\u00e3o de fonte: o programador \u00e9 a fonte ou um poder m\u00edtico mediado por ela?<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"5467\" data-end=\"5515\"><strong data-start=\"5467\" data-end=\"5475\">[13]<\/strong> Ver: Chun, \u201cOn Software\u201d [ver nota 10].<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"5517\" data-end=\"5779\"><strong data-start=\"5517\" data-end=\"5525\">[14]<\/strong> Para mais sobre software como arte conceitual, ver: Cramer, Florian. \u201cConcepts, Notations, Software, Art\u201d (2002). Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/userpage.fu-berlin.de\/~cantsin\/homepage\/writings\/software_art\/concept_notations\/concepts_notations_software_art.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"5655\" data-end=\"5778\">http:\/\/userpage.fu-berlin.de\/~cantsin\/homepage\/writings\/software_art\/concept_notations\/concepts_notations_software_art.html<\/a>.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"5781\" data-end=\"5852\"><strong data-start=\"5781\" data-end=\"5789\">[15]<\/strong> Galloway, <em data-start=\"5800\" data-end=\"5810\">Protocol<\/em>, p. 165, grifos no original [ver nota 4].<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"5854\" data-end=\"6313\"><strong data-start=\"5854\" data-end=\"5862\">[16]<\/strong> Hayles, N. Katherine. <em data-start=\"5885\" data-end=\"5948\">My Mother Was a Computer: Digital Subjects and Literary Texts<\/em>. Chicago: University of Chicago Press, 2005, p. 50. O argumento de Hayles suscita imediatamente uma quest\u00e3o: o que conta como interno e externo \u00e0 m\u00e1quina, sobretudo considerando que, na defini\u00e7\u00e3o do computador de programa armazenado de John von Neumann, entrada (<em data-start=\"6212\" data-end=\"6219\">input<\/em>) e sa\u00edda (<em data-start=\"6230\" data-end=\"6238\">output<\/em>) \u2013 isto \u00e9, o mundo exterior da m\u00e1quina \u2013 constitu\u00edam uma forma de mem\u00f3ria?<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"6315\" data-end=\"6464\"><strong data-start=\"6315\" data-end=\"6323\">[17]<\/strong> Galloway, Alexander R. \u201cLanguage Wants to Be Overlooked: Software and Ideology\u201d. <em data-start=\"6405\" data-end=\"6432\">Journal of Visual Culture<\/em>, v. 5, n. 3, 2006, pp. 315\u2013331.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"6466\" data-end=\"6489\"><strong data-start=\"6466\" data-end=\"6474\">[18]<\/strong> Ibid., p. 321.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"6491\" data-end=\"6562\"><strong data-start=\"6491\" data-end=\"6499\">[19]<\/strong> Galloway, <em data-start=\"6510\" data-end=\"6520\">Protocol<\/em>, p. 167, grifos no original [ver nota 4].<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"6564\" data-end=\"6659\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\"><strong data-start=\"6564\" data-end=\"6572\">[20]<\/strong> Galloway, \u201cLanguage Wants to Be Overlooked\u201d, p. 321, grifos no original [ver nota 17].<\/p>\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\r\n<p data-start=\"150\" data-end=\"302\"><strong data-start=\"150\" data-end=\"158\">[21]<\/strong> Este exemplo baseia-se em <em data-start=\"185\" data-end=\"228\">PowerPC Assembly Language Beginners Guide<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.lightsoft.co.uk\/Fantasm\/Beginners\/Chapt1.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"245\" data-end=\"301\">http:\/\/www.lightsoft.co.uk\/Fantasm\/Beginners\/Chapt1.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"304\" data-end=\"416\"><strong data-start=\"304\" data-end=\"312\">[22]<\/strong> Agre, Philip E. <em data-start=\"329\" data-end=\"363\">Computation and Human Experience<\/em>. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 92.<\/p>\r\n<p data-start=\"418\" data-end=\"590\"><strong data-start=\"418\" data-end=\"426\">[23]<\/strong> McCulloch, Warren; Pitts, Walter. \u201cA Logical Calculus of the Ideas Immanent in Nervous Activity\u201d. In: <em data-start=\"529\" data-end=\"550\">Embodiments of Mind<\/em>. Cambridge, MA: MIT Press, 1965, p. 21.<\/p>\r\n<p data-start=\"592\" data-end=\"669\"><strong data-start=\"592\" data-end=\"600\">[24]<\/strong> McRae, Norman. <em data-start=\"616\" data-end=\"634\">John von Neumann<\/em>. New York: Pantheon, 1992, p. 378.<\/p>\r\n<p data-start=\"671\" data-end=\"1024\"><strong data-start=\"671\" data-end=\"679\">[25]<\/strong> De acordo com Friedrich Nietzsche, em <em data-start=\"718\" data-end=\"746\">On the Genealogy of Morals<\/em>, \u201cn\u00e3o existe \u2018ser\u2019 por tr\u00e1s do fazer, do agir, do tornar-se: o \u2018agente\u2019 \u00e9 apenas uma fic\u00e7\u00e3o acrescentada ao ato \u2013 o ato \u00e9 tudo\u201d; ver: Nietzsche, Friedrich. <em data-start=\"903\" data-end=\"953\">The Birth of Tragedy and The Genealogy of Morals<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Francis Golffing. New York: Doubleday, 1956, pp. 178\u2013179.<\/p>\r\n<p data-start=\"1026\" data-end=\"1118\"><strong data-start=\"1026\" data-end=\"1034\">[26]<\/strong> Lessig, Lawrence. <em data-start=\"1053\" data-end=\"1088\">Code and Other Laws of Cyberspace<\/em>. New York: Basic Books, 1999.<\/p>\r\n<p data-start=\"1120\" data-end=\"1199\"><strong data-start=\"1120\" data-end=\"1128\">[27]<\/strong> <em data-start=\"1129\" data-end=\"1163\">Oxford English Dictionary Online<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.oed.com\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"1180\" data-end=\"1198\">http:\/\/www.oed.com<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"1201\" data-end=\"1334\"><strong data-start=\"1201\" data-end=\"1209\">[28]<\/strong> Ver: Kittler, Friedrich. \u201cThere Is No Software\u201d. <em data-start=\"1259\" data-end=\"1268\">CTheory<\/em>, 1995. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.ctheory.net\/articles.aspx?id=74\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"1291\" data-end=\"1333\">http:\/\/www.ctheory.net\/articles.aspx?id=74<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"1336\" data-end=\"1383\"><strong data-start=\"1336\" data-end=\"1344\">[29]<\/strong> Nomeadamente, a gen\u00e9tica do s\u00e9culo XX.<\/p>\r\n<p data-start=\"1385\" data-end=\"1538\"><strong data-start=\"1385\" data-end=\"1393\">[30]<\/strong> Deleuze, Gilles; Guattari, F\u00e9lix. \u201cCapitalism: A Very Special Delirium\u201d, 1995. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.generation-online.org\/p\/fpdeleuze7.htm\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"1488\" data-end=\"1537\">http:\/\/www.generation-online.org\/p\/fpdeleuze7.htm<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"1540\" data-end=\"1598\"><strong data-start=\"1540\" data-end=\"1548\">[31]<\/strong> <em data-start=\"1549\" data-end=\"1583\">Oxford English Dictionary Online<\/em> [ver nota 27].<\/p>\r\n<p data-start=\"1756\" data-end=\"1942\"><strong data-start=\"1756\" data-end=\"1764\">[32]<\/strong> Pietz, William. \u201cFetishism and Materialism\u201d. In: Apter, Emily; Pietz, William (org.). <em data-start=\"1851\" data-end=\"1884\">Fetishism as Cultural Discourse<\/em>. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1993, pp. 138\u2013139.<\/p>\r\n<p data-start=\"1944\" data-end=\"1967\"><strong data-start=\"1944\" data-end=\"1952\">[33]<\/strong> Ibid., p. 137.<\/p>\r\n<p data-start=\"1969\" data-end=\"2352\"><strong data-start=\"1969\" data-end=\"1977\">[34]<\/strong> Marx, Karl. <em data-start=\"1990\" data-end=\"2032\">Capital: A Critique of Political Economy<\/em>. Vol. 1. Tradu\u00e7\u00e3o de Ben Fowkes. New York: Penguin, 1976, p. 165. [Para esta passagem cl\u00e1ssica de <em data-start=\"2131\" data-end=\"2142\">O Capital<\/em> (Livro I), reproduzimos a tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Enderle: Marx, Karl. <em data-start=\"2209\" data-end=\"2220\">O Capital<\/em> (Livro I): <em data-start=\"2232\" data-end=\"2297\">Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. O processo de produ\u00e7\u00e3o do capital<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011, p. 122. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.]<\/p>\r\n<p data-start=\"1969\" data-end=\"2352\"><strong data-start=\"2418\" data-end=\"2426\">[35]<\/strong> Marx, conforme citado por Pietz, \u201cFetishism and Materialism\u201d, p. 149 [ver nota 32].<\/p>\r\n<p data-start=\"2582\" data-end=\"2796\"><strong data-start=\"2582\" data-end=\"2590\">[36]<\/strong> Backus, John. \u201cProgramming in America in the 1950s \u2013 Some Personal Impressions\u201d. In: Metropolis, N. et al. (org.). <em data-start=\"2706\" data-end=\"2755\">A History of Computing in the Twentieth Century<\/em>. New York: Academic Press, 1980, p. 126.<\/p>\r\n<p data-start=\"2798\" data-end=\"2821\"><strong data-start=\"2798\" data-end=\"2806\">[37]<\/strong> Ibid., p. 127.<\/p>\r\n<p data-start=\"2823\" data-end=\"2963\">*** Express\u00e3o empregada para designar algo apresentado como solu\u00e7\u00e3o milagrosa, panaceia ou promessa enganosa de efic\u00e1cia. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o].<\/p>\r\n<p data-start=\"2965\" data-end=\"2979\"><strong data-start=\"2965\" data-end=\"2973\">[38]<\/strong> Ibid.<\/p>\r\n<p data-start=\"2981\" data-end=\"3156\"><strong data-start=\"2981\" data-end=\"2989\">[39]<\/strong> Stallman, Richard. \u201cCopyright and Globalization in the Age of Computer Networks\u201d. 2001. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.gnu.org\/philosophy\/copyright-and-globalization.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"3093\" data-end=\"3155\">http:\/\/www.gnu.org\/philosophy\/copyright-and-globalization.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"3158\" data-end=\"3343\"><strong data-start=\"3158\" data-end=\"3166\">[40]<\/strong> Ellen Ullman, entrevistada por Scott Rosenberg. Ver: \u201c21st: Elegance and Entropy\u201d. 1997. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/dir.salon.com\/story\/tech\/feature\/1997\/10\/09\/interview\/print.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"3271\" data-end=\"3342\">http:\/\/dir.salon.com\/story\/tech\/feature\/1997\/10\/09\/interview\/print.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"3174\" data-end=\"3332\">**** <em data-start=\"3179\" data-end=\"3189\">Codework<\/em> \u00e9 uma modalidade de escrita criativa que incorpora, imita ou referencia linguagens formais de programa\u00e7\u00e3o de computadores. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o.]<\/p>\r\n<p data-start=\"3339\" data-end=\"3431\"><strong data-start=\"3339\" data-end=\"3347\">[41]<\/strong> Ver o s\u00edtio eletr\u00f4nico de Mez. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.hotkey.net.au\/~netwurker\/\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"3394\" data-end=\"3430\">http:\/\/www.hotkey.net.au\/~netwurker\/<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"3433\" data-end=\"3505\"><strong data-start=\"3433\" data-end=\"3441\">[42]<\/strong> Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.scotoma.org\/notes\/index.cgi?LondonPL\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"3457\" data-end=\"3504\">http:\/\/www.scotoma.org\/notes\/index.cgi?LondonPL<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"3507\" data-end=\"3623\"><strong data-start=\"3507\" data-end=\"3515\">[43]<\/strong> FREUD, Sigmund. \u201cFetishism\u201d. In: <em data-start=\"3549\" data-end=\"3587\">Sexuality and the Psychology of Love<\/em>. New York: Macmillan, 1963, p. 205.<\/p>\r\n<p data-start=\"3625\" data-end=\"3648\"><strong data-start=\"3625\" data-end=\"3633\">[44]<\/strong> Ibid., p. 206.<\/p>\r\n<p data-start=\"3650\" data-end=\"3664\"><strong data-start=\"3650\" data-end=\"3658\">[45]<\/strong> Ibid.<\/p>\r\n<p data-start=\"3666\" data-end=\"3760\"><strong data-start=\"3666\" data-end=\"3674\">[46]<\/strong> PIETZ, William. \u201cThe Problem of the Fetish, Part I\u201d. <em data-start=\"3728\" data-end=\"3733\">RES<\/em>, n. 9, Spring 1985, p. 12.<\/p>\r\n<p data-start=\"3762\" data-end=\"3812\"><strong data-start=\"3762\" data-end=\"3770\">[47]<\/strong> FREUD, \u201cFetishism\u201d, p. 208 [ver nota 43].<\/p>\r\n<p data-start=\"3814\" data-end=\"3921\"><strong data-start=\"3814\" data-end=\"3822\">[48]<\/strong> \u017dI\u017dEK, Slavoj. <em data-start=\"3838\" data-end=\"3870\">The Sublime Object of Ideology<\/em>. New York: Verso, 1989, p. 31, grifos no original.<\/p>\r\n<p data-start=\"3923\" data-end=\"4071\"><strong data-start=\"3923\" data-end=\"3931\">[49]<\/strong> TURING, Alan. \u201cComputing Machinery and Intelligence\u201d. <em data-start=\"3986\" data-end=\"3992\">Mind<\/em>, v. 59, 1950. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.loebner.net\/Prizef\/TuringArticle.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"4022\" data-end=\"4070\">http:\/\/www.loebner.net\/Prizef\/TuringArticle.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"4073\" data-end=\"4378\"><strong data-start=\"4073\" data-end=\"4081\">[50]<\/strong> N. Katherine Hayles desenvolve o tema da revela\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo em <em data-start=\"4146\" data-end=\"4172\">My Mother Was a Computer<\/em>, pp. 54\u201361 [ver nota 16]. Alguns projetos de arte em software tamb\u00e9m complicam e frustram a no\u00e7\u00e3o de c\u00f3digo como vis\u00e3o de raio X e de conex\u00e3o como significado, como ocorre no <em data-start=\"4348\" data-end=\"4361\">Axis Applet<\/em>, de Golan Levin.<\/p>\r\n<p data-start=\"4380\" data-end=\"4639\"><strong data-start=\"4380\" data-end=\"4388\">[51]<\/strong> LEVIN, Thomas. \u201cRhetoric of the Temporal Index: Surveillant Narration and the Cinema of \u2018Real Time\u2019\u201d. In: LEVIN, Thomas et al. (org.). <em data-start=\"4524\" data-end=\"4593\">CTRL [Space]: Rhetorics of Surveillance from Bentham to Big Brother<\/em>. Cambridge, MA: MIT Press, 2002, pp. 578\u2013593.<\/p>\r\n<p data-start=\"4641\" data-end=\"4830\"><strong data-start=\"4641\" data-end=\"4649\">[52]<\/strong> McPHERSON, Tara. \u201cReload: Liveness, Mobility and the Web\u201d. In: MIRZOEFF, Nicholas (org.). <em data-start=\"4740\" data-end=\"4767\">The Visual Culture Reader<\/em>. 2. ed. New York: Routledge, 2002, p. 462, grifos no original.<\/p>\r\n<p data-start=\"4832\" data-end=\"5695\"><strong data-start=\"4832\" data-end=\"4840\">[53]<\/strong> Vindo mais dos estudos de cinema do que dos estudos de televis\u00e3o, e preocupado mais com aplica\u00e7\u00f5es do que com fenomenologia, Galloway, em <em data-start=\"4979\" data-end=\"4989\">Protocol<\/em> [ver nota 4], argumenta igualmente que a continuidade caracteriza a navega\u00e7\u00e3o na web, produzindo \u201cuma experi\u00eancia atraente e intuitiva para o usu\u00e1rio\u201d: \u201cNa web, o movimento do navegador \u00e9 experimentado como o movimento do usu\u00e1rio. O movimento do mouse \u00e9 trocado pelo movimento do usu\u00e1rio. O usu\u00e1rio olha atrav\u00e9s da tela para um mundo imagin\u00e1rio, e isso faz sentido. O ato de \u2018navegar na web\u2019, que fenomenologicamente deveria constituir uma experi\u00eancia exasperante de deslocamento radical \u2013 passar do servidor de uma cidade para o servidor de outra \u2013, converte-se numa das experi\u00eancias mais prazerosas para o usu\u00e1rio. Legi\u00f5es de usu\u00e1rios jogam online sem qualquer sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento radical\u201d (p. 64).<\/p>\r\n<p data-start=\"5697\" data-end=\"5806\"><strong data-start=\"5697\" data-end=\"5705\">[54]<\/strong> Para mais sobre isso, ver o cap\u00edtulo 5 de CHUN, Wendy Hui Kyong. <em data-start=\"5771\" data-end=\"5792\">Control and Freedom<\/em> [ver nota 9].<\/p>\r\n<p data-start=\"5813\" data-end=\"6084\">***** <em data-start=\"5819\" data-end=\"5825\">init<\/em> (abrevia\u00e7\u00e3o de <em data-start=\"5841\" data-end=\"5857\">initialization<\/em>, \u201cinicializa\u00e7\u00e3o\u201d) \u00e9 o primeiro processo executado em sistemas Unix tradicionais. Constitui o ancestral direto ou indireto de todos os demais processos do sistema e adota automaticamente os processos \u00f3rf\u00e3os. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o.]<\/p>\r\n<p data-start=\"6091\" data-end=\"6265\"><strong data-start=\"6091\" data-end=\"6099\">[55]<\/strong> Considere-se, por exemplo, o seguinte programa Perl, que imprime uma mensagem a cada cinco minutos (adaptado de: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.webreference.com\/perl\/tutorial\/9\/3.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"6213\" data-end=\"6263\">http:\/\/www.webreference.com\/perl\/tutorial\/9\/3.html<\/a>):<\/p>\r\n<p data-start=\"6267\" data-end=\"6360\"><em data-start=\"6267\" data-end=\"6360\">(manter c\u00f3digo no corpo da nota, sem altera\u00e7\u00f5es editoriais al\u00e9m da formata\u00e7\u00e3o tipogr\u00e1fica).<\/em><\/p>\r\n<p data-start=\"6362\" data-end=\"6576\"><strong data-start=\"6362\" data-end=\"6370\">[56]<\/strong> \u201cThe Origin of the Word Daemon\u201d. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/ei.cs.vt.edu\/~history\/Daemon.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"6419\" data-end=\"6459\">http:\/\/ei.cs.vt.edu\/~history\/Daemon.html<\/a>. Neal Stephenson, em <em data-start=\"6481\" data-end=\"6493\">Snow Crash<\/em> (New York: Bantam, 1992), descreve os rob\u00f4s ou servos do Metaverso como <em data-start=\"6566\" data-end=\"6575\">daemons<\/em>.<\/p>\r\n<p data-start=\"6578\" data-end=\"6719\"><strong data-start=\"6578\" data-end=\"6586\">[57]<\/strong> Ver: CHUN, Wendy Hui Kyong. \u201cThe Enduring Ephemeral, or the Future Is a Memory\u201d. <em data-start=\"6668\" data-end=\"6686\">Critical Inquiry<\/em>, v. 35, n. 1, 2008, pp. 148\u2013171.<\/p>\r\n<p data-start=\"6721\" data-end=\"6947\"><strong data-start=\"6721\" data-end=\"6729\">[58]<\/strong> Ver: KEENAN, Thomas. \u201cThe Point Is to (Ex)Change It: Reading Capital, Rhetorically\u201d. In: APTER, Emily; PIETZ, William (org.). <em data-start=\"6856\" data-end=\"6889\">Fetishism as Cultural Discourse<\/em>. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1993, pp. 152\u2013185.<\/p>\r\n<p data-start=\"6949\" data-end=\"7030\"><strong data-start=\"6949\" data-end=\"6957\">[59]<\/strong> FULLER, Matthew. <em data-start=\"6975\" data-end=\"6992\">Behind the Blip<\/em>. New York: Autonomedia, 2003, p. 107.<\/p>\r\n<p data-start=\"7032\" data-end=\"7191\"><strong data-start=\"7032\" data-end=\"7040\">[60]<\/strong> Ver: FULLER, Matthew. \u201cIt Looks as Though You\u2019re Writing a Letter\u201d. <em data-start=\"7109\" data-end=\"7120\">Telepolis<\/em>, 2001. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.heise.de\/tp\/r4\/artikel\/7\/7073\/1.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"7143\" data-end=\"7190\">http:\/\/www.heise.de\/tp\/r4\/artikel\/7\/7073\/1.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"7193\" data-end=\"7252\"><strong data-start=\"7193\" data-end=\"7201\">[61]<\/strong> Ver: CHUN, \u201cThe Enduring Ephemeral\u201d [ver nota 57].<\/p>\r\n<p data-start=\"7254\" data-end=\"7384\"><strong data-start=\"7254\" data-end=\"7262\">[62]<\/strong> BUTLER, Judith. <em data-start=\"7279\" data-end=\"7329\">Excitable Speech: A Politics of the Performative<\/em>. New York: Routledge, 1997, p. 51, grifos no original.<\/p>\r\n<p data-start=\"7386\" data-end=\"7408\"><strong data-start=\"7386\" data-end=\"7394\">[63]<\/strong> Ibid., p. 52.<\/p>\r\n<p data-start=\"7410\" data-end=\"7566\"><strong data-start=\"7410\" data-end=\"7418\">[64]<\/strong> STALLMAN, Richard. \u201cWhy \u2018Free Software\u2019 Is Better than \u2018Open Source\u2019\u201d. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/www.gnu.org\/philosophy\/free-software-for-freedom.html\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"7505\" data-end=\"7565\">http:\/\/www.gnu.org\/philosophy\/free-software-for-freedom.html<\/a>.<\/p>\r\n<p data-start=\"7568\" data-end=\"7695\"><strong data-start=\"7568\" data-end=\"7576\">[65]<\/strong> A quest\u00e3o que permanece \u2013 e que constituiu o tema de outro artigo \u2013 \u00e9 a seguinte: o que significa esse abrir e fechar?<\/p>\r\n<p data-start=\"7697\" data-end=\"7831\"><strong data-start=\"7697\" data-end=\"7705\">[66]<\/strong> AGRE, Philip E. \u201cSurveillance and Capture: Two Models of Privacy\u201d. <em data-start=\"7773\" data-end=\"7798\">The Information Society<\/em>, v. 10, n. 2, 1994, pp. 101\u2013127.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cSoftware, Rede, Classe &#8211; Chun, Galloway, Wark\u201d [Fins acad\u00eamicos] Voltar &#8211; Sum\u00e1rio &nbsp; \u201cFONTI\u00c7ARIA\u201d: O C\u00d3DIGO COMO FETICHE WENDY H. K. CHUN Originalmente publicado em: Configurations, volume 16, issue 3, Fall 2008; pp. 299-324. 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