{"id":5368,"date":"2012-06-19T14:41:00","date_gmt":"2012-06-19T14:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=5368"},"modified":"2024-09-18T02:34:32","modified_gmt":"2024-09-18T02:34:32","slug":"o-descompasso-entre-o-tempo-do-mundo-e-o-tempo-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/06\/19\/o-descompasso-entre-o-tempo-do-mundo-e-o-tempo-da-vida\/","title":{"rendered":"O DESCOMPASSO ENTRE O TEMPO DO MUNDO E O TEMPO DA VIDA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>O DESCOMPASSO ENTRE O TEMPO DO MUNDO E O TEMPO DA VIDA<\/strong><\/p>\n<p><strong> <img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5371\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/06\/19\/o-descompasso-entre-o-tempo-do-mundo-e-o-tempo-da-vida\/relogio\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/relogio.jpg?fit=960%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"960,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Rel\u00f3gio\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/relogio.jpg?fit=960%2C640&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-5371 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/relogio.jpg?resize=494%2C329&#038;ssl=1\" alt=\"Rel\u00f3gio\" width=\"494\" height=\"329\" \/><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><em>Aforismo 174 \u2013 N\u00e3o viver \u00e0s pressas. &#8220;<\/em><em>Se sabe organizar as coisas, voc\u00ea saber\u00e1 desfrut\u00e1-las. A muitos sobra tempo de vida j\u00e1 tendo acabado a felicidade. Desperdi\u00e7am as alegrias, por n\u00e3o sabore\u00e1-las e depois querem voltar atr\u00e1s. O tempo lhes passa devagar demais, e, postilh\u00f5es da vida, apressam-na com seu pr\u00f3prio temperamento precipitado. Querem devorar num dia aquilo que mal conseguiram digerir numa vida. Antecipam a felicidade, gastam por conta do porvir e, uma vez que est\u00e3o sempre com pressa, logo acabam com tudo. At\u00e9 no desejo de conhecimento \u00e9 preciso modera\u00e7\u00e3o, de modo que as coisas n\u00e3o sejam mal aprendidas. T\u00eam-se mais dias do que alegrias. Seja r\u00e1pido para agir, lento para apreciar. Os feitos s\u00e3o bons, e a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior, quando acabados&#8221;.\u00a0 &#8211; <\/em>Baltazar, Graci\u00e1n ([1647] 2002).<\/h6>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong style=\"color: initial\">INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong>A civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea vive a insipi\u00eancia de n\u00e3o organizar o <em>tempo do mundo<\/em>, isto \u00e9, de experimentar a sensa\u00e7\u00e3o de se perder na cultura material que ela pr\u00f3pria criou. Por consequ\u00eancia, \u00e9 comum encontrarmos em diversas m\u00eddias \u2013 artigos de jornais, revistas, livros de autoajuda, v\u00eddeos na internet, folhetos divulgando cursos etc. \u2013 discursos que diagnosticam uma \u201cpatologia do tempo contempor\u00e2neo\u201d, expondo o quanto o cidad\u00e3o moderno tem uma crescente dificuldade em pensar e arranjar seu tempo \u00edntimo e social. Experimentam-se hoje os estresses e outras tens\u00f5es que afligem o cotidiano no meio urbano (mas n\u00e3o mais s\u00f3 nele). Neste \u00e2mbito, o indiv\u00edduo se v\u00ea dilacerado pelas m\u00faltiplas exig\u00eancias e pelo excesso de informa\u00e7\u00f5es, que aparecem como falsas prioridades, contradit\u00f3rias ao cuidado de si, e, derradeiramente, desencadeando in\u00fameras espetaculariza\u00e7\u00f5es, ideologiza\u00e7\u00f5es e amn\u00e9sias sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De tal modo, a figura sintom\u00e1tica do indiv\u00edduo ansioso, inconsciente e apressado \u00e9 premente. A maneira como isso se expressa nas m\u00eddias e literaturas diversas n\u00e3o deixa de convocar o cientista social a refletir sobre os variados porqu\u00eas de tal problema sociol\u00f3gico \u2013 e, como veremos, profundamente filos\u00f3fico e pol\u00edtico, tamb\u00e9m, levando-nos a arrazoar acerca do car\u00e1ter da modernidade t\u00e9cnica edificada com a voli\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p><strong>ONIPRESEN\u00c7A E CEGUEIRA <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em um conto intitulado <em>O apressado<\/em>, publicado na revista <em>Logosofia<\/em> \u2013 <em>Funda\u00e7\u00e3o Logos\u00f3fica em Prol da Supera\u00e7\u00e3o Humana<\/em> (1995, p. 11), a descri\u00e7\u00e3o do homem perdido em seus afazeres era a seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Andava pelas ruas como quem cumpre urgentes dilig\u00eancias, e, cada vez que encaminhava um assunto qualquer, sempre se referia \u00e0 escassez de tempo, protestando com ira quando algu\u00e9m demorava um minuto para atend\u00ea-lo \/ Dava a impress\u00e3o de sempre estar ocupado com assuntos importantes, embora nada lhe impusesse urg\u00eancia para ter tais pressas; ao contr\u00e1rio, muitas vezes era visto perdendo lamentavelmente o tempo em coisas pueris [&#8230;] \/ Algu\u00e9m, certo dia, fez com que ele notasse sua lament\u00e1vel falha, e com tanta clareza, tino e acerto, que, ante a vis\u00e3o mental do desafortunado personagem, rodou integralmente o filme mon\u00f3tono de sua vida, fugazmente vivida, penosamente desaproveitada, na qual sobressa\u00edam projetos malogrados, lacunas sem preencher, anelos e esperan\u00e7as sem satisfazer, ansiedade indefinida por coisas que jamais puderam ser concretizadas [&#8230;].<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Tal descri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de indiv\u00edduo perdido em \u201ccoisas pueris\u201d, vivendo \u201cfugazmente\u201d, \u00e9 desdobrada, em outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, como causa de doen\u00e7as, s\u00edndromes ou transtornos individuais e sociais. Em 2008, a revista <em>Superinteressante<\/em> (Hueck, 2008, p. 65-75) dedicou uma mat\u00e9ria de capa para tentar explicar a \u201cansiedade social\u201d que rege a vida urbana. Sua chamada era enf\u00e1tica: \u201cEscolhas demais, informa\u00e7\u00f5es demais, expectativas demais e tempo de menos. Entenda o que est\u00e1 por tr\u00e1s da maior epidemia moderna: a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o vamos dar conta de tudo\u201d. Dois dados saltam aos olhos ao leitor desta mat\u00e9ria. O primeiro sobre a relev\u00e2ncia do tema para o mundo letrado e cient\u00edfico: \u201cH\u00e1 mais de 300 mil livros e 100 mil artigos m\u00e9dicos sobre o assunto, e o n\u00famero aumenta todos os dias\u201d. O segundo sobre a quantidade de informa\u00e7\u00e3o a que se tem hoje acesso, dando como exemplo emblem\u00e1tico um jornal dominical: \u201cUma edi\u00e7\u00e3o dominical do <em>The New York Times<\/em> tem cerca de 12 milh\u00f5es de palavras e cont\u00e9m mais informa\u00e7\u00f5es do que um cidad\u00e3o do s\u00e9culo 17 recebia durante toda a vida\u201d. Uma publica\u00e7\u00e3o anterior da mesma revista (Gwercman, 2005, p. 52-55), com mat\u00e9ria intitulada <em>Cada vez mais acelerado<\/em>, discursou acerca de um comportamento urbano \u201cepid\u00eamico\u201d, lembrando que:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">[&#8230;] existe um consenso entre os editores do mundo todo de que os leitores t\u00eam cada vez menos tempo \u2013 e paci\u00eancia \u2013 para ler. Por isso, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer revistas, jornais e livros cada vez mais acelerados, diz o jornalista canadense Carl Honor\u00e9. Para ele, a prolifera\u00e7\u00e3o de leitura r\u00e1pida \u00e9 um dos sintomas de uma epidemia que assola todas as sociedades industrializadas: o desejo de viver em velocidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">A ansiedade com o <em>ritmo da vida<\/em> alcan\u00e7a tamb\u00e9m, evidentemente, o discurso midi\u00e1tico do universo empresarial capitalista. Tanto que a revista <em>Voc\u00ea S.A.<\/em> publicou um encarte especial com o livreto <em>Administre seu tempo<\/em>, de autoria de Iain Maitlain (2000). No programa para isso, tr\u00eas regras gerais eram explanadas: identificar os principais perigos do seu desempenho; reprogramar antigos h\u00e1bitos; e aumentar o seu rendimento. A partir disso, o livreto prescreve variadas economias, regras de condutas, an\u00e1lises de problemas-atitudes, determina\u00e7\u00f5es de agendas, listas e separa\u00e7\u00f5es de prioridades. S\u00e3o prescri\u00e7\u00f5es no sentido de adapta\u00e7\u00e3o e o adestramento dos indiv\u00edduos aos novos par\u00e2metros de competividade neoliberal, de modo que os contextos e determina\u00e7\u00f5es v\u00eam, desde o in\u00edcio do livreto, como naturais, isto \u00e9, como fatos consumados.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">O tempo \u00e9 algo limitado, transit\u00f3rio e ef\u00eamero \u2013 e por isso mesmo, dif\u00edcil de controlar. De modo quase inevit\u00e1vel, voc\u00ea ir\u00e1 perceber que atualmente disp\u00f5e de bem pouco tempo, contudo, (s\u00f3) amanh\u00e3, ele ser\u00e1 suficiente. No dia seguinte \u00e9 que perceberemos que o tempo parece t\u00e3o escasso quanto no dia anterior. Se voc\u00ea puder identificar e eliminar as atividades que geram desperd\u00edcio de tempo (ou, pelo menos, reduzi-las consideravelmente), vai encontrar um modo de controlar o seu pr\u00f3prio tempo (Maitlain, 2000, p. 7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Tornou-se do mesmo modo corriqueiro encontrar cartazes em vias urbanas e em meios eletr\u00f4nicos divulgando cursos de \u201cgest\u00e3o do tempo\u201d para o p\u00fablico em geral, propondo ganhos extraordin\u00e1rios de produtividade e qualidade de vida ao repensar os nossos \u201cgastos de energia\u201d com a agenda di\u00e1ria. No cartaz promocional da escola de yoga <em>Sw\u00e0sthya Y\u00f4ga<\/em>, de Florian\u00f3polis, encontr\u00e1vamos a seguinte chamada:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Inscreva-se e aprenda a gerenciar um dos recursos mais importantes da sua vida. [&#8230;]. 90% das pessoas abandonam a maioria dos seus projetos, por falta de planejamento e gerenciamento do tempo. No <em>Curso de Gest\u00e3o do Tempo<\/em> voc\u00ea aprende a administrar sua agenda di\u00e1ria, exercendo poder efetivo e controle sobre suas a\u00e7\u00f5es e compromissos. Fa\u00e7a o Curso e ganhe tamb\u00e9m 1 m\u00eas de Y\u00f4ga. Al\u00e9m de, claro, muito mais tempo para praticar as aulas\u201d (Sw\u00e0sthya Y\u00f4ga, 2008).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Pois bem. O leitor j\u00e1 percebe que a lista de mat\u00e9rias nas m\u00eddias encontradas sobre o assunto estende-se para os mais diversos p\u00fablicos-alvo, notabilizando assim o qu\u00e3o sintom\u00e1tico \u00e9 o tema-problema. Por suas dramaticidades, citemos apenas mais duas passagens de dois artigos, o primeiro publicado em uma revista de circula\u00e7\u00e3o mensal (<em>Tribuna<\/em>), o segundo em um jornal di\u00e1rio (<em>O Estado de S. Paulo<\/em>).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o parece que ultimamente o tempo anda mais r\u00e1pido do que o normal? Olha s\u00f3. Outro dia acabou o ano. Lembra? Foi ontem mesmo! [&#8230;] Tava na cara que esse neg\u00f3cio da Terra girar em torno do Sol n\u00e3o ia dar certo, agora ela est\u00e1 a\u00ed, girando, girando e girando descontrolada! (&#8230;) Tenho muito o que fazer, uma lista enorme de prioridades. Nem sei onde come\u00e7o [&#8230;] (Pigatto, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 realmente interessante que a pressa seja a t\u00f4nica da vida, justamente no momento em que a ci\u00eancia propicia um aumento expressivo da expectativa de vida. Afinal, se por um lado a prioridade zero \u00e9 atingir os objetivos rapidamente, por outro a longevidade propicia anos adicionais de vida. A pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9 o que planejamos fazer com o hiato de tempo entre as conquistas realizadas e a morte? Iniciar o ciclo novamente, de maneira insaci\u00e1vel, sem se permitir desfrut\u00e1-lo? Pressa? Pressa, para qu\u00ea? Pressa, de que? (Toledo, 2007).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">A despeito das variadas formas com as quais os diferentes ve\u00edculos de m\u00eddia abordam o tema da \u201cvida acelerada\u201d, as causas da vida urbana desordenada e apressada, e o questionamento apropriado dela, poucas vezes s\u00e3o desenroladas. Uma mat\u00e9ria da revista mensal <em>Filosofia, Ci\u00eancia &amp; Vida<\/em> \u2013 de divulga\u00e7\u00e3o de assuntos cient\u00edficos e filos\u00f3ficos \u2013, foi o \u00fanico caso de exce\u00e7\u00e3o que encontramos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">[&#8230;] o correr das horas, que nos oprime, \u00e9 resultado de uma forma de rela\u00e7\u00e3o com o tempo que constru\u00edmos na modernidade (&#8230;). Sabemos, sim, que as horas parecem nos faltar e que isso nos oprime. Mas n\u00e3o sabemos \u00e9 que essa rela\u00e7\u00e3o com o tempo, que nos traz a sensa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o diante da impossibilidade de dar conta de tudo, \u00e9 pr\u00f3pria de nossa \u00e9poca. Isso mesmo, \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de olhar. Ou melhor, de valores. Isto \u00e9, n\u00f3s que inventamos a forma como nos relacionamos com o tempo hoje. Mas, d\u00e1 para mudar esse jogo: a solu\u00e7\u00e3o passa por reformular nossos conceitos sobre o que \u00e9 \u00fatil e reconhecer nossa finitude. (Pereira, 2007, p. 15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Apesar de coerente, a resposta \u00e9 ainda gen\u00e9rica (e \u00f3bvia), limitando-se a identificar como a causa a \u201cvalores\u201d que devem ser modificados. Uma resposta atemporal e antropom\u00f3rfica, tamb\u00e9m, pois nada diz sobre os hist\u00f3ricos arranjos sociot\u00e9cnicos e seus dispositivos tecnol\u00f3gicos atuais que expressam e agenciam a nova realidade temporal que solapa o <em>ritmo da vida<\/em> das pessoas. Assim, os esclarecimentos sobre o tema \u201cvidas aceleradas\u201d raramente se d\u00e3o a partir de reflex\u00f5es acerca da cultura material em meio ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Devemos, pois, perguntar-nos: por que vivemos uma crise na organiza\u00e7\u00e3o do <em>tempo da vida<\/em>? E o que a <em>t\u00e9cnica<\/em> tem a ver com isso? Conforme discorre Br\u00fcseke (2002, p. 140), a partir da leitura do fil\u00f3sofo social Hans Blumenberg:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">[&#8230;] a passagem da t\u00e9cnica, de um n\u00edvel que ajudava a se situar o homem melhor no <em>seu <\/em>mundo e no <em>seu <\/em>tempo, para um n\u00edvel que indica a sa\u00edda do homem do <em>seu <\/em>mundo e do <em>seu <\/em>tempo, foi lenta. A tesoura do <em>tempo da vida e do tempo do<\/em> <em>mundo <\/em>abriu-se sem aviso cada vez mais. Hoje dispomos de uma t\u00e9cnica que tende a ultrapassar n\u00e3o somente o horizonte, mas tamb\u00e9m todos os limites humanos. Ela ultrapassa esses limites como se fosse o horizonte geogr\u00e1fico.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma das marcas pr\u00f3prias da sociedade contempor\u00e2nea \u00e9 o desacordo entre o <em>tempo do mundo<\/em> (<em>Weltzeit<\/em>) e <em>tempo da vida<\/em> (<em>Lebenszeit<\/em>), sendo tais termos importantes para distinguir e especificar os horizontes da t\u00e9cnica e do ser humano no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tempo da vida expressa os nossos \u201ctempos pr\u00f3prios\u201d, ou seja, a temporalidade que individualiza singulares sentidos biol\u00f3gicos, ps\u00edquicos e sociais \u00e0 exist\u00eancia humana no mundo. Deste modo, podemos compreender o <em>tempo da vida<\/em> dentro de um ritmo e ciclo de exist\u00eancia pr\u00f3prios \u00e0 individua\u00e7\u00e3o humana \u2013 nascer, crescer, amadurecer, morrer; meditar, comer, trabalhar, conversar, descansar \u2013 que demandam cont\u00ednuos cuidados e equil\u00edbrios. Na ordem cotidiana, entremeando e agenciando os ritmos da vida, encontram-se os ritmos dos objetos e sistemas t\u00e9cnicos, que comp\u00f5em o <em>tempo do mundo<\/em>. Tal entremear e agenciar dos objetos e sistemas t\u00e9cnicos revelam-se, hoje, problem\u00e1ticos, uma vez que a ordem do tempo do mundo, a saber, as ordena\u00e7\u00f5es ditadas pelo n\u00edvel macro dos arranjos sociot\u00e9cnicos e micro dos dispositivos pessoais cotidianos, geram consequentes explora\u00e7\u00f5es sociais por via de servid\u00f5es maqu\u00ednicas, perpetrando diversas determina\u00e7\u00f5es de h\u00e1bitos e ritmos. Ou seja, \u00e9 intrinsecamente por via dos arranjos e dispositivos tecnol\u00f3gicos diversos que as ideologias e explora\u00e7\u00f5es sociais se estabelecem hoje n\u00e3o somente no \u201cch\u00e3o da f\u00e1brica\u201d, desordenando, desviando ou mesmo solapando os cuidados e equil\u00edbrios que os indiv\u00edduos deveriam ter (e as sociedades deveriam ensinar a ter) com o <em>tempo da vida<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, \u00e9 constantemente mal observado que no mundo moderno a t\u00e9cnica patenteia sobremaneira uma nova experi\u00eancia temporal, ditando um ritmo da vida \u00e0s pessoas (como se a situa\u00e7\u00e3o de onipresen\u00e7a gerasse uma cegueira generalizada a respeito), sendo isto apropriado \u00e0s formas mais eficientes de administra\u00e7\u00e3o das subjetividades e de domina\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eis, portanto, o que cremos ser o ponto de partida de nosso problema sociol\u00f3gico (e, t\u00e3o logo, filos\u00f3fico). Tentemos agora expor como (alguns poucos) autores da teoria social foram se dando conta dele.<\/p>\n<p><strong>TEORIA SOCIAL E CULTURA MATERIAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma caracter\u00edstica peculiar de nossa \u00e9poca \u00e9 a conviv\u00eancia com o \u201cnovo\u201d, sendo a \u201cera moderna\u201d aquela da constante instabilidade gerada pelas variadas e sucessivas dimens\u00f5es de <em>progresso<\/em>. Habitamos um mundo em rupturas permanentes (disrup\u00e7\u00e3o, dizem). A partir do s\u00e9culo XX, especialmente, a aglutina\u00e7\u00e3o dos campos da ci\u00eancia (<em>epist\u00e9me<\/em>) e da t\u00e9cnica (<em>t\u00e9khne<\/em>) \u2013 a tecnoci\u00eancia \u2013, al\u00e9m de aumentar espantosamente a produ\u00e7\u00e3o de materialidades tecnol\u00f3gicas, acarretou cont\u00ednuas altera\u00e7\u00f5es na capacidade de autonomia da a\u00e7\u00e3o humana, produzindo novas experi\u00eancias espaciais e temporais, intermediada com as tecnologias, que modificaram as formas humanas de relacionamento com o mundo e com si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi Simmel (1979), no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, um dos pioneiros a dar \u00eanfase \u00e0s consequ\u00eancias mais sutis do aumento da <em>cultura objetiva<\/em> na administra\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia do indiv\u00edduo urbano<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>; em outras palavras, de dom\u00ednio da cultura material no processamento, esmagamento ou regress\u00e3o da <em>cultura subjetiva<\/em> das pessoas, sendo a metr\u00f3pole, por excel\u00eancia, o <em>l\u00f3cus<\/em> de intensifica\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos e de racionaliza\u00e7\u00e3o da vida, lugar em que ela passaria a exigir mais \u2018raz\u00e3o do que cora\u00e7\u00e3o\u2019. Simmel argumentava, pois, que a rela\u00e7\u00e3o de paralisia da cultura subjetiva e hipertrofia da cultura objetiva constituiria a \u201ctrag\u00e9dia da cultura moderna\u201d. Para ele, o ideal de cultura \u2013 a realiza\u00e7\u00e3o do processo dela pr\u00f3pria enquanto cultivada a partir dos indiv\u00edduos \u2013 fora desvirtuado.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">O indiv\u00edduo \u00e9 reduzido a uma quantidade negligenci\u00e1vel, talvez menos em sua consci\u00eancia do que em sua pr\u00e1tica e na totalidade de seus obscuros estados emocionais derivados de sua pr\u00e1tica. O indiv\u00edduo se tornou um mero elo em uma enorme organiza\u00e7\u00e3o de coisas e poderes que arrancam de suas m\u00e3os todo o progresso, espiritualidade e valores, para transform\u00e1-lo de sua forma subjetiva na forma de uma vida puramente objetiva. N\u00e3o \u00e9 preciso mais que apontar que a metr\u00f3pole \u00e9 o cen\u00e1rio dessa cultura que extravasa de toda vida pessoal. (Simmel, 1979, p. 26).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">R\u00fcdiger (2003, p. 20), analisando a amplitude dos questionamentos de Simmel sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, salienta que com Simmel \u00e9 pela primeira vez claramente esbo\u00e7ado o problema do avan\u00e7o do \u201c[&#8230;] processo de racionaliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da exist\u00eancia, cujo foco n\u00e3o \u00e9 mais a economia, a pol\u00edtica ou mesmo a produ\u00e7\u00e3o cultural, mas, mais diretamente, o pr\u00f3prio modo de ser humano\u201d, assinalando, por fim, um diagn\u00f3stico importante sobre as altera\u00e7\u00f5es nas percep\u00e7\u00f5es espacial e temporal do ser humano \u2013 agora permeadas pelos atributos transit\u00f3rios, mutat\u00f3rios, ligeiros, descont\u00ednuos, ca\u00f3ticos e fragment\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A cultura material, ao alterar as experi\u00eancias individual e coletiva, altera, precisamente, o conjunto de disposi\u00e7\u00f5es e cogni\u00e7\u00f5es humanas \u2013 instintos, mem\u00f3rias\/esquecimentos, consci\u00eancias, h\u00e1bitos etc. As mudan\u00e7as nas percep\u00e7\u00f5es espacial e temporal geram outras formas de experi\u00eancia no mundo e trato com a vida (Domingues, 1996). Em meio a uma cultura do excesso \u2013 de informa\u00e7\u00e3o, de consumo, de afazeres, de lazeres, de capacita\u00e7\u00f5es, de necessidades de conquistas e muta\u00e7\u00f5es \u2013 o efeito incipiente nas pessoas \u00e9 de n\u00e3o se sentirem \u201ccontempor\u00e2neas\u201d de si mesmas, \u201cperdidas\u201d, pois continuamente \u00e0 deriva, incapacitadas de conciliar, contemplar, absorver o <em>tempo da vida<\/em> e o <em>tempo do mundo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As ci\u00eancias sociais disseminaram as no\u00e7\u00f5es de \u201cdesordem temporal\u201d e \u201cacelera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d a partir da percep\u00e7\u00e3o dos processos de globaliza\u00e7\u00e3o. No livro <em>Mundializa\u00e7\u00e3o e cultura<\/em>, Renato Ortiz (1998) nos mostra como o per\u00edodo hist\u00f3rico anterior \u2013 a era mec\u00e2nica \u2013, j\u00e1 ficou no passado e deu lugar ao imperativo de mundo muito mais ef\u00eamero. Na era mec\u00e2nica, um desenvolvimento tecnol\u00f3gico em particular poderia ser visto como paradigm\u00e1tico para a compreens\u00e3o dos processos que levaram a rela\u00e7\u00f5es humanas cada vez mais r\u00e1pidas e preocupadas: o trem. \u201cO trem revoluciona a concep\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e de tempo. Por um artif\u00edcio de acelera\u00e7\u00e3o, ele \u2018devora\u2019 o espa\u00e7o. O vapor libera o esfor\u00e7o f\u00edsico do trabalhado bra\u00e7al, distanciando o homem do ritmo da natureza\u201d (<em>Idem<\/em>, p. 48)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A \u201cacelera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d, concluir\u00e1 Ortiz, tem a ver com o aumento do descompasso das pessoas com a \u201cordem das coisas\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">No mundo moderno o tempo \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o da inter-rela\u00e7\u00e3o de um conjunto de atividades, entre elas: morar, vestir, fazer compras, trabalhar, passear, etc. Adaptar-se ou n\u00e3o a seu ritmo passa a ser uma quest\u00e3o fundamental. \u2018Perder tempo\u2019 significa estar em descompasso com a ordem das coisas (<em>Idem<\/em>, p. 83).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">A tecnologiza\u00e7\u00e3o da vida, ou de tecnomorfiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana, \u00e9 aproveitada enquanto constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do tempo. Sobre isso, Jean Chesneaux (1996a) observa que a instantaneidade dos acontecimentos hist\u00f3ricos no moderno transformou-se, na verdade, em um imperativo moral na cultura ocidental. \u201cA urg\u00eancia transforma-se em ideologia\u201d, escreve, t\u00e3o logo que \u201co tempo pode ultrapassar a si mesmo e confirmar seu dom\u00ednio sobre o espa\u00e7o, \u00e9 o crit\u00e9rio superior para os utens\u00edlios e para as pessoas, \u00e9 o sinal do poder social ao ponto de Paul Virilio poder falar de \u2018dromocracia\u2019\u201d (<em>Idem<\/em>, p. 24).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">O tempo da modernidade se contrai no imediato, imp\u00f5e \u00e0 nossa vida cotidiana as formas diversas do instante. O \u2018fastfood\u2019 \u00e9 preparado t\u00e3o r\u00e1pido quanto consumido, desprezando a arte tradicional dos cozidos gradualmente na dura\u00e7\u00e3o, a diferente matura\u00e7\u00e3o dos gostos e dos sabores, a combina\u00e7\u00e3o dos ingredientes que precisam de tempo para se harmonizar progressivamente. Os rel\u00f3gios \u2018digitais\u2019 n\u00e3o s\u00e3o capazes de indicar o tempo como dura\u00e7\u00e3o, mas somente o instante pontual, por isso ef\u00eamero, enquanto que o movimento dos ponteiros sobre um mostrador tradicional inscrevia o tempo no espa\u00e7o e tornava percept\u00edvel sua progress\u00e3o; cada momento se definia pela rela\u00e7\u00e3o com o anterior e o posterior, um passado e um futuro (<em>Idem<\/em>, p. 23).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Jean Chesneaux e Renato Ortiz estabelecem, pois, a no\u00e7\u00e3o de que quanto mais envolvidos na \u2018ordem das coisas\u2019, mais determinados (cegos temporalmente e perdidos no espa\u00e7o) ficamos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Cabe lembrar aqui o artigo de Ruiz (2000), <em>\u2018<\/em><em>Universal Time\u2019: a estandardiza\u00e7\u00e3o hor\u00e1ria num mundo globalizado<\/em>, que acrescenta a respeito do car\u00e1ter de acelera\u00e7\u00e3o temporal que estar\u00edamos vivendo. Para ele, estamos em meio a um problema de sincroniza\u00e7\u00e3o que \u2018esvazia\u2019 o tempo dos indiv\u00edduos e institui o \u2018tempo oficial\u2019, o \u2018<em>Universal Time\u2019<\/em>, coordenado principalmente pelos mercados financeiros e legitimado pelos Estados-Na\u00e7\u00e3o. Com a informatiza\u00e7\u00e3o da sociedade contempor\u00e2nea, logrou-se um crescente fen\u00f4meno de sincroniza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas globais e, ao mesmo tempo, uma desincroniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas locais, que vivem a fal\u00eancia constante de suas ordens tradicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A contribui\u00e7\u00e3o de Foucault (2006) para a teoria social complementaria, por fim, a nossa problematiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre a cultura material. Para ele, o car\u00e1ter das <em>tecnologias<\/em> pode ser dividido em quatro tipos, sendo que os tr\u00eas primeiros \u2013 as tecnologias de poder (aquelas que determinam a conduta dos indiv\u00edduos), as tecnologias de produ\u00e7\u00e3o (que transformam, produzem, manipulam) e as tecnologias de sistemas de sinais (que transmitem os signos, sentidos, significa\u00e7\u00f5es) \u2013 passaram, na conjuntura da modernidade, a sucumbir a tecnologia do governo de si, isto \u00e9, o quarto tipo de tecnologia, precisamente aquele que oferece condi\u00e7\u00f5es aos indiv\u00edduos efetivar sua maturidade e estados de sabedoria (saber-viver e saber-fazer), \u00e9tica e felicidade.<\/p>\n<p><strong>DESCOMPASSO E SUAS CONSEQU\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A tese aqui levantada \u2013 a cultura material confere uma temporalidade pr\u00f3pria \u00e0 modernidade e expressa com toda for\u00e7a o descompasso entre o tempo da vida e o tempo do mundo \u2013 evidencia um problema muito elementar, cheio de intrincadas consequ\u00eancias. Preliminarmente, a situa\u00e7\u00e3o de sujei\u00e7\u00e3o \u00e0s constantes e fragmentadas solicita\u00e7\u00f5es dos arranjos sociot\u00e9cnicos e objetos desviam e desordenam as pessoas do cuidado que deveriam ter com o tempo da vida. Por conseguinte, o \u201caperfei\u00e7oamento\u201d do humano torna-se pernicioso, pois a cultura tecnol\u00f3gica substitui, essencialmente, o ritmo natural por um artificial, descompassado e ideol\u00f3gico da vida.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 medida que o ritmo da vida moderna continua a acelerar, passamos a nos sentir cada vez mais fora de contato com os ritmos biol\u00f3gicos do planeta, incapazes de experimentar uma conex\u00e3o pr\u00f3xima com o ambiente natural. O mundo do tempo humano n\u00e3o est\u00e1 mais ligado \u00e0s mar\u00e9s que v\u00eam e v\u00e3o, ao nascer e ao p\u00f4r do sol e \u00e0s mudan\u00e7as das esta\u00e7\u00f5es. Em vez disso, a humanidade criou um ambiente de tempo artificial pontuado por dispositivos mec\u00e2nicos e impulsos eletr\u00f4nicos: um projeto de tempo que \u00e9 quantitativo, acelerado, eficiente e previs\u00edvel (Rifkin, 1987 apud Adam, 1990, p. 104)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Os sistemas maqu\u00ednicos diversos e, especialmente, os aparelhos t\u00e9cnicos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o (a televis\u00e3o, o cinema, o r\u00e1dio, o computador etc.) como ve\u00edculos ideol\u00f3gicos de \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o das realidades temporais\u201d s\u00e3o explorados por importantes autores franceses contempor\u00e2neos \u2013 Paul Virilio, Baudrillard e Bernard Stiegler, por exemplo \u2013, estabelecendo quest\u00f5es dif\u00edceis, mas cruciais. Vivemos em um mundo de temporalidade industrializada que busca a homogeneiza\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, empobrecedora e limitada da vida? O universo cotidiano restringe a heterogeneidade reflexiva e criativa da vida? Uma vez que a t\u00e9cnica age hoje por sistema de objetos pr\u00f3prios, seguindo uma tend\u00eancia \u00e0 autonomiza\u00e7\u00e3o, o ser humano tenderia a uma \u201cmis\u00e9ria simb\u00f3lica\u201d? Como podemos entender o fim da cultura tradicional e a ascens\u00e3o da cultura tecnol\u00f3gica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas quest\u00f5es nos fazem refletir, sobretudo, como \u00e9 realmente problem\u00e1tico conquistar o dom\u00ednio de si, da realidade e conv\u00edvio social frente uma crise de organizar do tempo da vida<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ora, os indiv\u00edduos t\u00eam necessidade de um <em>devir aberto<\/em>, isto \u00e9, a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, arrazoando projetos de edifica\u00e7\u00e3o de suas identidades. A constru\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo (individua\u00e7\u00e3o) exige uma consci\u00eancia do tempo para habitar e agir no mundo. Em suma, ao analisarmos profundamente o atual capitalismo, com toda a sua ilus\u00e3o de liberdade e multiculturalismo, ter\u00edamos, na verdade, a manufatura\u00e7\u00e3o de gestos rigidamente funcionalizados e homog\u00eaneos, em diferentes facetas.<\/p>\n<p><strong>URDIDURA FILOS\u00d3FICA <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A discuss\u00e3o sobre a tecnologia traz, portanto, um campo f\u00e9rtil para discutir a nossa \u00e9tica e cultura pol\u00edtica, de modo que interroga\u00e7\u00f5es politizadas como \u00e0s do personagem Matias Pascal, no livro <em>O Finado Matias Pascal<\/em>, de Pirandello (1970, p. 151), no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, seguem aflitivas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8211; Oh, por que os homens \u2013 perguntava a mim mesmo, ansiosamente \u2013 se esfor\u00e7am tanto por tornar cada vez mais complicado o funcionamento das suas vidas? Por que todo este aturdimento de m\u00e1quinas? E que far\u00e1 o homem quando as m\u00e1quinas fizerem tudo? Perceber\u00e1 ent\u00e3o que o assim chamado progresso nada tem a ver com a felicidade? Diante de t\u00f4das as inven\u00e7\u00f5es com que a ci\u00eancia que honestamente enriquecer a humanidade (e a empobrece, pois custam t\u00e3o caro), que alegria experimentamos, mesmo se as admiramos?\u2019 (&#8230;) E, no entanto, a ci\u00eancia tem a ilus\u00e3o de tornar mais f\u00e1cil e mais c\u00f4moda a exist\u00eancia! Mesmo admitindo que a torne realmente mais f\u00e1cil, com t\u00f4das as suas m\u00e1quinas t\u00e3o dif\u00edceis e complicadas, pergunto: &#8211; Para quem est\u00e1 condenado a uma luta v\u00e3, existe pior colabora\u00e7\u00e3o do que a tornar f\u00e1cil e quase mec\u00e2nica?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Enfrentamos, pois, o problema da crise de organiza\u00e7\u00e3o do tempo da vida a partir do fen\u00f4meno t\u00e9cnico. A constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas tecnol\u00f3gicas, hoje cada vez mais concebidas e implementadas pelas grandes empresas, a partir de seus vieses de inova\u00e7\u00e3o e disrup\u00e7\u00e3o nos mercados \u2013, \u00e9 sempre carregada de d\u00favidas \u00e9ticas e pol\u00edticas, assim como encampa discuss\u00f5es especializadas em \u00e1reas como a cibern\u00e9tica, automa\u00e7\u00e3o, sistemas, comuta\u00e7\u00e3o, cinem\u00e1tica, mec\u00e2nica etc. N\u00e3o obstante, importa-nos agora aprofundarmos um pouco sobre as consequ\u00eancias do descompasso a partir do horizonte fenomenol\u00f3gico (e pol\u00edtico) da vida: o objeto t\u00e9cnico como ve\u00edculo de inser\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o da temporalidade humana, perante uma l\u00f3gica na qual quanto mais envolvidos em tecnologia, mais temporalmente determinados ficamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma observa\u00e7\u00e3o importante vem de Gianni Vattimo (1996, p. 36): \u201ca t\u00e9cnica representa a crise do humanismo n\u00e3o porque o triunfo da racionaliza\u00e7\u00e3o negue os valores humanistas, como uma an\u00e1lise superficial nos levou a crer, mas sim porque, representando a consuma\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica, chama o humanismo a uma supera\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Especialmente, o humanismo cl\u00e1ssico, baseado na escritura e oralidade, encontra-se em crise. Vattimo esclarece acerca da fal\u00eancia das doutrinas baseadas em um antropocentrismo, estando ciente de que hoje os sujeitos ficam expostos a um processo de individua\u00e7\u00e3o em que as realidades tecnol\u00f3gicas (\u201cdebilitadas\u201d, \u201csecularizadas\u201d e \u201csimulacrizadas\u201d) t\u00eam papel evidente na forma\u00e7\u00e3o da temporalidade humana. Para ele, \u00e9 preciso compreender a dificuldade ou a impossibilidade de se pensar o homem como consci\u00eancia plena, como cogito ou subst\u00e2ncia, que predominou na filosofia moderna, assim como pensar o impasse que o desenvolvimento sem precedentes das tecnologias, na medida em que vivemos em uma sociedade organizada e regida pelos ambientes massificados da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o possibilitadas pelas tecnologias contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O nosso problema sociol\u00f3gico aqui exposto carrega, portanto, uma verdadeira urdidura filos\u00f3fica em rela\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno t\u00e9cnico. Cabe agora anotar, derradeiramente, alguns outros pontos importantes desta \u00faltima. O modo como o tempo do mundo \u2013 ou, poder\u00edamos dizer, o <em>tempo da t\u00e9cnica<\/em> \u2013, se insere na temporalidade humana se d\u00e1 a partir de uma verdadeira tecnosfera ou tecnicidade (Goffi, 1998; Santos, 1999)<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivemos uma modernidade t\u00e9cnica<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> (Br\u00fcseke, 2002). Como j\u00e1 salientamos, a presen\u00e7a massificante da t\u00e9cnica moderna faz com que ela seja, no senso comum, algo onipresente e inapercebida. Por\u00e9m, contra esta impercep\u00e7\u00e3o, a defini\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica, e de sua rela\u00e7\u00e3o com a nossa experi\u00eancia temporal, foi ganhando corpo aprofundado na filosofia, uma vez que os constantes desequil\u00edbrios provocados pela emerg\u00eancia da tecnifica\u00e7\u00e3o da vida modificaram decisivamente a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A urdidura filos\u00f3fica a respeito da t\u00e9cnica moderna nos leva a pensar em como esta comp\u00f5e um tempo do mundo, e que influi, t\u00e3o logo, na experi\u00eancia humana no trato com o tempo. Tal como aprofundou Don Ihde (1990), uma fenomenologia da t\u00e9cnica compreende que esta configura a base da intera\u00e7\u00e3o humana com os mundos naturais e humanos. Ora, experimentamos nossas intera\u00e7\u00f5es com o mundo por meio da t\u00e9cnica. Nossas percep\u00e7\u00f5es e pr\u00e1xis nunca s\u00e3o \u2018puras\u2019 (como pensar\u00edamos que seria com Ad\u00e3o e Eva), mas definitivamente mediadas pelas tecnologias. Isto designa, fundamentalmente, uma media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que constr\u00f3i nossa percep\u00e7\u00e3o do tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diferentemente dos animais, o ser humano acumula experi\u00eancias temporais atrav\u00e9s dos objetos t\u00e9cnicos; ou seja, \u00e9 por meio do processo de exterioriza\u00e7\u00e3o que a cultura sobrevive. O ser humano inventa a t\u00e9cnica e \u00e9 inventado por ela. De tal maneira, conforme argumenta Bernard Stiegler (1993; 1994), a ess\u00eancia humana \u00e9, na verdade, um verdadeiro processo de \u2018desnaturaliza\u00e7\u00e3o<strong>\u2019<\/strong> do ser humano por meio da tecnog\u00eanese (tecnoantropomorfiza\u00e7\u00e3o). Assim, a t\u00e9cnica \u00e9 a prolonga\u00e7\u00e3o da vida por outros meios que n\u00e3o a vida. Sua evolu\u00e7\u00e3o <em>prolonga<\/em> a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. O objeto t\u00e9cnico pode ser visto como o suporte artificial b\u00e1sico da mem\u00f3ria humana e, portanto, condi\u00e7\u00e3o ao processo de individua\u00e7\u00e3o humana. Possu\u00edmos duas vias principais de mem\u00f3ria: a mem\u00f3ria org\u00e2nica (viva) e a mem\u00f3ria t\u00e9cnica (n\u00e3o-viva). A mem\u00f3ria t\u00e9cnica cria uma ruptura com a vida \u201cpura\u201d, pois os instrumentos tornam-se portadores de uma nova temporalidade que interfere em nossas individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em uma leitura heideggeriana, os instrumentos surgem como <em>resultado<\/em> e <em>condi\u00e7\u00e3o <\/em>de toda antecipa\u00e7\u00e3o temporal do <em>ser-no-mundo<\/em>. Se no passado o ritmo social variava localmente e aos par\u00e2metros dos ritmos biol\u00f3gicos, hoje, com a massifica\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica em todos os dom\u00ednios (pelas automa\u00e7\u00f5es no trabalho, pelas diversas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o que se inserem no lazer e na vida dom\u00e9stica), temos uma temporalidade formada crescentemente pelo car\u00e1ter das t\u00e9cnicas modernas. E qual \u00e9 o car\u00e1ter da t\u00e9cnica moderna? A autonomia (sist\u00eamica) e ontol\u00f3gica. O primeiro primordialmente desenvolvido por Gilbert Simondon e o segundo, por Martin Heidegger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Apesar de n\u00e3o ser o objetivo deste ensaio, a exposi\u00e7\u00e3o destas dimens\u00f5es fundamentais nos ajudaria a expor o horizonte em que a t\u00e9cnica moderna (<em>Gestell<\/em>, para Heidegger) satisfaz uma <em>disponibilidade<\/em> que empreende a efici\u00eancia, a compress\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o, a performatividade e a evolu\u00e7\u00e3o para o ganho do status de velocidade, informa\u00e7\u00e3o, virtualidade \u2013 em uma palavra: cibern\u00e9tico \u2013, tornando-se um objeto de estudo de sua dimens\u00e3o temporal. O tempo do mundo ou o tempo da t\u00e9cnica \u00e9 do cont\u00ednuo atarefamento regular que se repete de forma instant\u00e2nea e \u00e0 exaust\u00e3o, quebrando a cad\u00eancia dos elementos da ordem temporal natural do mundo. A interfer\u00eancia da t\u00e9cnica \u00e9 sempre de uma objetiva\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o das coisas ao entorno \u2013 ou seja, em dire\u00e7\u00e3o a um horizonte cibern\u00e9tico que enseja quebras de paradigmas das forma\u00e7\u00f5es sociais tradicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O rel\u00f3gio \u00e9, sem d\u00favida, a grande met\u00e1fora do mundo moderno. Um \u00edcone para um mundo que foi guiado pelo pensamento mecanicista e pela racionaliza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana. O cron\u00f4metro \u00e9 o instrumento, por excel\u00eancia, da ordem artificial da vida. Assim, para n\u00f3s, este artefato crucial pode ser visto e estudado como s\u00edmbolo para o valor mais amplo da ordem artificial da vida. Isto perfaz uma percep\u00e7\u00e3o mais aguda da organiza\u00e7\u00e3o e dos engajamentos coletivos diversos que trazem problemas para o tempo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A partir das bases fenomenol\u00f3gicas abertas por D. Ihde e do o entendimento filos\u00f3fico do processo hist\u00f3rico de humaniza\u00e7\u00e3o e tecniza\u00e7\u00e3o proposto por B. Stiegler, poder\u00edamos seguir estudando, enfim, a urdidura filos\u00f3fica que esclarece o distanciamento do tempo da vida com o tempo do mundo. Como argumentamos centralmente no ensaio, os ritmos sociot\u00e9cnicos que as m\u00e1quinas conferem destacam o problema da rela\u00e7\u00e3o entre o <em>ritmo da evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica<\/em> e o <em>ritmo da forma\u00e7\u00e3o cultural<\/em> (dos indiv\u00edduos e sociedade). Como salientamos, faz-nos revelar o descompasso entre o <em>tempo do mundo<\/em> e o <em>tempo da vida<\/em>, uma vez que hoje a \u201ccultura objetiva\u201d da t\u00e9cnica se desenvolve <em>mais r\u00e1pido<\/em> que a \u201ccultura subjetiva\u201d do indiv\u00edduo e sociedade. No n\u00edvel filos\u00f3fico (fenom\u00eanico), argumentamos que o problema est\u00e1 no fato de que o fluxo temporal dos objetos e a nossa consci\u00eancia do fluxo temporal dos indiv\u00edduos se encontram em div\u00f3rcio. Ora, os indiv\u00edduos se ajustam inconscientemente ao tempo do mundo e subvertem assim a individua\u00e7\u00e3o que constituiria a identidade e singularidade de seu tempo da vida<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n<p>BALTAZAR, Graci\u00e1n, <strong>A arte da prud\u00eancia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2002.<\/p>\n<p>BR\u00dcSEKE, Franz Josef. <strong>A t\u00e9cnica e os riscos da modernidade<\/strong>. Florian\u00f3polis: Editora da UFSC, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">BR\u00dcSEKE, Franz Josef. Modernidade t\u00e9cnica. <strong>Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais<\/strong>. Vol. 17, n\u00b0 49, S\u00e3o Paulo, 2002.<\/p>\n<p>DASTUR, Fran\u00e7oise. <strong>Heidegger et Ia question du temps<\/strong>. Paris: Press Universitaire, 1990.<\/p>\n<p>ELIAS, Norbert. <strong>O processo civilizador: uma hist\u00f3ria dos costumes<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.<\/p>\n<p>ELIAS, Norbert. <strong>Sobre o tempo<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/p>\n<p>GIDDENS, Anthony. <strong>As consequ\u00eancias da modernidade<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 1991.<\/p>\n<p>GOFFI, Jean-Yves, <strong>La philosophie de la technique<\/strong>. Paris: PUF, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">GWERCMAN, Sergio. Cada vez mais acelerado. <strong>Revista Superinteressante<\/strong>. Sec\u00e7\u00e3o Tecnologia, p. 52-55, S\u00e3o Paulo, Mar\u00e7o, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">HARVEY, David, <strong>The condition of postmodernity: an enquiry into the origins of cultural change<\/strong>. Cambridge: Blackwell, 1989.<\/p>\n<p>HEIDEGGER, Martin, A quest\u00e3o da t\u00e9cnica. In: ____. <strong>Ensaios e confer\u00eancias<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2001.<\/p>\n<p>HUECK, Karin. Sobre a ansiedade. <strong>Revista Superinteressante<\/strong>. Reportagem de capa, n\u00b0 258, S\u00e3o Paulo, p. 64-75, Novembro, 2008.<\/p>\n<p>IHDE, Don, <strong>Technology and lifeworld: from garden to earth<\/strong>. Bloomington: Indiana University, 1990.<\/p>\n<p>LEIS, H\u00e9ctor R. (Org.). I<strong>mpactos da Modernidade na Condi\u00e7\u00e3o Humana.<\/strong> Florian\u00f3polis: Editora Insular, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">LOGOSOFIA. O apressado. <strong>Revista Logosofia<\/strong>, Se\u00e7\u00e3o Conto, n\u00b009, Belo Horizonte, p.11, 2005.<\/p>\n<p>MAITLAIN, Iain. <strong>Administre seu tempo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Nobel, 2000.<\/p>\n<p>MITCHAM, Carl, <strong>Thinking through technology<\/strong>. Chicago: UCP, 1994.<\/p>\n<p>ORTIZ, Renato, <strong>Mundializa\u00e7\u00e3o e cultura<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2003.<\/p>\n<p>PEREIRA, Patr\u00edcia. O tempo n\u00e3o p\u00e1ra. <strong>Filosofia Ci\u00eancia &amp; Vida<\/strong>, ano II, n\u00ba 15. S\u00e3o Paulo, Editora Escala, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">PIGATTO, Maria C\u00e9lia. Perdendo tempo.<strong> Revista da Tribuna<\/strong>, cr\u00f4nica, p. 50, Indaiatuba, Abril, 2009.<\/p>\n<p>PIRANDELLO, Luigi. <strong>O finado Matias Pascal<\/strong>. Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">ROSISKA, Darcy de Oliveira. <strong>Reengenharia do tempo<\/strong>. Texto apresentado na <em>\u201cTrig\u00e9sima Octava Reuni\u00f3n de la Mesa Directiva de la Conferencia Regional sobre la Mujer de Am\u00e9rica Latina y el Caribe\u201d<\/em>. Mar del Plata, Argentina, set., 2005.<\/p>\n<p>SANTOS, Milton, <strong>A natureza do espa\u00e7o<\/strong>: espa\u00e7o e tempo, raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1999.<\/p>\n<p>SANTOS, Milton. Elogio da lentid\u00e3o. <strong>Jornal Folha de S. Paulo<\/strong>, Caderno Mais!, p. 14-5, S\u00e3o Paulo, 11 de mar. 2001.<\/p>\n<p>SIMMEL, Georg. A metr\u00f3pole e a vida mental. In: VELHO, O. G. (org.). <strong>O fen\u00f4meno urbano<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.<\/p>\n<p>SIMONDON, Gilbert, <strong>Du <\/strong><strong>mode d\u2019existence des objets techniques<\/strong>. Paris: Aubier-Montaigne, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">STIEGLER, Bernard. Contribution \u00e0 une th\u00e9orie de la consommation de masse. Le d\u00e9sir asphyxi\u00e9, ou comment l\u2019industrie culturelle d\u00e9truit l\u2019individu. <strong>Archives Le Monde<\/strong>, Juin 2004. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.monde-diplomatique.fr\/2004\/06\/STIEGLER\/11261\">http:\/\/www.monde-diplomatique.fr\/2004\/06\/STIEGLER\/11261<\/a>. Acessado em: 10 set. 2009.<\/p>\n<p>STIEGLER, Bernard. Discr\u00e9tiser le temps. Artigo dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.mediologie.org\/collection\/09_moins\/stiegler.pdf\">http:\/\/www.mediologie.org\/collection\/09_moins\/stiegler.pdf<\/a>. Acessado em: 10\/09\/2009, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">STIEGLER, Bernard. Temps et individuation technique, psychique, et collective dans l\u2019oeuvre de Simondon<strong>. Revue <\/strong><strong>Multitudes. <\/strong>Politique, artistique, philosophique. Futur Ant\u00e9rieur, 19-20, 5-6, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">TOLEDO, Sirlene. <strong>Pressa para que?<\/strong>. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno Emprego, p. 3, S\u00e3o Paulo, 18 nov. 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">VATTIMO, Gianni. <strong>O Fim da Modernidade<\/strong>: niilismo e hermen\u00eautica na cultura p\u00f3s-moderna. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Conferir aqui o interessante coment\u00e1rio de Jos\u00e9 L. Garcia (2003), no artigo \u201cSobre as origens da cr\u00edtica da tecnologia na teoria social. A vis\u00e3o pioneira e negligenciada da autonomia da tecnologia de Georg Simmel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Seguiremos apresentando apenas os resultados de Renato Ortiz (e Jean Chesneaux), sabendo, contudo, que outros autores, Anthony Giddens (1991) e David Harvey (1989), por exemplo, exploraram a tese da \u201ccompress\u00e3o espa\u00e7o-temporal\u201d, relacionando as novas tecnologias e as suas consequentes maximiza\u00e7\u00f5es espacial e temporal das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Em outro texto, Chesneaux (1996b, p. 37) expressa o entendimento escrevendo que: \u201cLa pression multiforme et quotidienne du temps maill\u00e9 est aussi obs\u00e9dante pour les simples citoyens que pour les d\u00e9cideurs technico-\u00e9conomiques. Les barreaux \u00e0 la fois horizontaux et verticaux qui quadrillent chaque page de nos agendas personnels, avec une rigueur quase carc\u00e9rale, en sont l\u2019expression tr\u00e8s symbolique, tr\u00e8s fonctionelle aussi\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> No original: \u201cAs the tempo of modern life has continued to accelerate, we have come to feel increasingly out of touch with the biological rhythms of the planet, unable to experience a close connection with the natural environment. The human time world is no longer joined to the incoming and outgoing tides, the rising and setting sun, and the changing seasons. Instead, humanity has created an artificial time environment punctuated by mechanical contrivances and electronic impulses: a time plane that is quantitative, fast-paced, efficient, and predictable\u201d (RIFKIN, 1987, p. 12 <em>apud <\/em>ADAM, 1990, p. 104).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Interessante citar aqui duas produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas do s\u00e9culo XX, uma vez que exemplares para refletir sobre a radicalidade dist\u00f3pica na qual o controle total do <em>tempo do mundo<\/em> e a aboli\u00e7\u00e3o do <em>tempo da vida<\/em> podem danificar a temporalidade humana. As obras <em>Alphaville<\/em> (1965), de F. Godard e <em>1984 de Orwell<\/em> (1984), de M. Bradford expressam um mundo futuro dominado por regimes totalit\u00e1rios e tecnocr\u00e1ticos. Em ambos os filmes a vida \u00e9 policiada por meio de aparelhos tecnol\u00f3gicos. Em ambos o cotidiano \u00e9 reprimido por um universo tecnol\u00f3gico em que todos se adaptam a uma m\u00e1quina planificadora da cidade e da vida \u00edntima. O objetivo \u00faltimo deste cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 outro que a tentativa de aboli\u00e7\u00e3o do passado, presente e futuro dos indiv\u00edduos, isto \u00e9, do devir humano, uma vez que a vida segue por uma eterna \u2018ordem \u00fanica\u2019. O mundo \u00e9 um c\u00e1lculo probabil\u00edstico da m\u00e1quina. E quem n\u00e3o se adapta \u00e9 banido por uma ind\u00fastria de execu\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O humanismo, esclarece Vattimo (<em>idem, ibidem<\/em>), \u201c\u00e9 a doutrina que atribui ao homem o papel de sujeito, isto \u00e9, de autoconsci\u00eancia como sede da evid\u00eancia, no quadro do ser pensado como <em>Grund<\/em>, como presen\u00e7a plena\u201d. O humanismo, dir\u00edamos, entendido como pleno dom\u00ednio de si, da realidade e conv\u00edvio social capaz de alcan\u00e7ar a consci\u00eancia do tempo para habitar e agir no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> A tecnosfera pode ser entendida como a arma\u00e7\u00e3o artificial que o homem constr\u00f3i no espa\u00e7o da biosfera. As cidades, as ind\u00fastrias, as redes transportes, os instrumentos e as m\u00e1quinas diversas etc. formam o ambiente que se denomina tecnosfera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Br\u00fcseke (2002) justifica o termo: \u201cO fato de que a modernidade, como \u00e9poca hist\u00f3rica, nasce com a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica, mostra hoje toda a sua virul\u00eancia. Podemos dizer que essa modernidade \u00e9 t\u00e3o penetrada pela \u201ct\u00e9cnica\u201d que ela pode ser denominada e caracterizada como \u201cmodernidade t\u00e9cnica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Conforme j\u00e1 destacamos, extra\u00edmos as no\u00e7\u00f5es e os problemas entre a \u201ccultura objetiva\u201d e \u201ccultura subjetiva\u201d de Simmel (1979). Interessante lembrar, no entanto, que Norbert Elias (1998; 1994) traz uma distin\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m poderia nos interessar. Ele distingue entre <em>civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>cultura<\/em>. Enquanto a ideia de civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0s de modernidade, progresso e tecnologia. A cultura, por outro lado, associa-se aos dom\u00ednios da tradi\u00e7\u00e3o e \u00e0s esferas da vida cotidiana em que os \u2018projetos civilizadores\u2019 tentam conquistar e domesticar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O DESCOMPASSO ENTRE O TEMPO DO MUNDO E O TEMPO DA VIDA Aforismo 174 \u2013 N\u00e3o viver \u00e0s pressas. &#8220;Se sabe organizar as coisas, voc\u00ea saber\u00e1 desfrut\u00e1-las. A muitos sobra tempo de vida j\u00e1 tendo acabado a felicidade. Desperdi\u00e7am as alegrias, por n\u00e3o sabore\u00e1-las e depois querem voltar atr\u00e1s. 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