{"id":5409,"date":"2022-09-23T12:23:00","date_gmt":"2022-09-23T12:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=5409"},"modified":"2024-03-29T12:51:33","modified_gmt":"2024-03-29T12:51:33","slug":"traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/23\/traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] \u2013 McKENZIE WARK, \u201cA CLASSE\u00a0VETORIALISTA\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/traducao-registrar-1.jpg?ssl=1\" alt=\"traducao-registrar\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em style=\"font-size: revert;color: initial\"><span style=\"color: #0000ff\"><strong><a style=\"color: #0000ff\" href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\">Voltar &#8211; Sum\u00e1rio<\/a><\/strong><\/span><\/em><a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\"><em><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5450\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/03\/29\/traducoes-sofware-ideologia-chun-sobre-o-software-ou-a-persistencia-do-conhecimento-visual\/voltar\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"voltar\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-5450 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?resize=38%2C38&#038;ssl=1\" alt=\"voltar\" width=\"38\" height=\"38\" \/><\/em><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>A CLASSE VETORIALISTA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">McKENZIE WARK<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Originalmente publicado, em duas partes, em: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><u>E-flux Journal<\/u>, issue 65, May-August, p. 1-8, 2015 [1\u00b0parte]; <u>E-flux Journal<\/u>, issue 70, February, p. 1-6, 2016 [2\u00b0 parte].<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ednei de Genaro<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5414\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/23\/traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista\/mckenzie-wark-vetorialist-class\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?fit=1110%2C410&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1110,410\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"McKenzie Wark &amp;#8211; Vetorialist Class\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?fit=1024%2C378&amp;ssl=1\" class=\" wp-image-5414 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?resize=553%2C204&#038;ssl=1\" alt=\"McKenzie Wark - Vetorialist Class\" width=\"553\" height=\"204\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cTudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Claro, muito da reverbera\u00e7\u00e3o dessa frase \u00e9 um artif\u00edcio de tradu\u00e7\u00e3o: \u201cAlles St\u00e4ndische und Stehende verdampft\u201d: Tudo o que persiste evapora-se em afirma\u00e7\u00f5es. Essa foi a frase emocionante de Marx sobre como a forma mercadoria incendeia o mundo, vaporizando as velhas formas sociais e normas, de maneira que modos de vida inteiros e suas correspondentes vis\u00f5es de mundo, uma ap\u00f3s outra, se desfazem em fuma\u00e7a. Tal \u00e9 a grande hist\u00f3ria-lenda do <em>capitalismo<\/em>, como todos concordam denominar hoje. Seus <em>fanboys<\/em> agora celebram inclusive a tocha niilista, rebatizada de <em>disrup\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para os seus benefici\u00e1rios, o capitalismo traz o melhor dos tempos: liberdade e prosperidade para todos, bem, talvez n\u00e3o para todos, mas pelo menos para os mais devotados a ele. Para os premidos de suas vontades, traz o pior dos tempos, incinerando as formas de vida comunais e tradicionais e oferecendo em troca vidas inteiras de servid\u00f5es assalariadas e endividadas. Para os seus protagonistas, o capitalismo \u00e9 o melhor dos mundos poss\u00edveis e n\u00e3o pode ser melhorado. Para os seus poucos antagonistas restantes, o capitalismo \u00e9 o pior dos mundos poss\u00edveis, mas a \u00faltima sociedade de classes remanescente, antes da derrocada final do dom\u00ednio de classe. Mas isso agora \u00e9 mais uma vontade de poder do que uma estrat\u00e9gia real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em todo caso, a narrativa hist\u00f3rica de alguma maneira ficou presa na ideia fixa de que existe uma coisa chamada capitalismo e que somos todos pe\u00e7as m\u00f3veis dentro dessa m\u00e1quina eterna. Tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado \u2013 exceto o ideal do capitalismo em si mesmo. Isso se tornou uma esp\u00e9cie de ideia fixa. Para os seus benefici\u00e1rios, porque o sistema no qual eles se beneficiam precisa ser arranjado para parecer natural; para os seus detratores, porque a \u00fanica sa\u00edda que eles podem imaginar para outra vida \u00e9 a partir do capitalismo. Assim, de maneira realmente ideol\u00f3gica, eles insistem que, embora as apar\u00eancias do capitalismo mudem, a ess\u00eancia permanece a mesma. Isso \u00e9 ainda capitalismo? Ou \u00e9, na verdade, algo pior?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Houve um tempo em que estava na moda pensar que o capitalismo j\u00e1 havia sido superado<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Tais teorias s\u00e3o agora um tanto embara\u00e7osas. Durante a Guerra Fria, aquelas m\u00e1quinas de escrever que datilografavam a servi\u00e7o das pot\u00eancias do capitalismo ocidental precisavam de uma narrativa hist\u00f3rica para competir com outras, desenvolvida pelos supostos Estados socialistas, que afirmavam ter entrado em um est\u00e1gio hist\u00f3rico para al\u00e9m do capitalismo em que suas rela\u00e7\u00f5es de classe seriam abolidas. Assim, os apologistas ocidentais emprestaram de seus rivais a ideia de uma forma hist\u00f3rica al\u00e9m do capitalismo, que colocaria um fim para o conflito de classes. Chamaram isso de sociedade da informa\u00e7\u00e3o ou sociedade do conhecimento ou sociedade p\u00f3s-industrial \u2013 qualquer coisa, na verdade, menos capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com o colapso dos chamados estados socialistas, desintegram-se tais narrativas hist\u00f3ricas que ansiavam a exist\u00eancia de um est\u00e1gio hist\u00f3rico para al\u00e9m do capitalismo. Praticamente todo mundo intitula capitalismo novamente. Contudo, no final do s\u00e9culo XX, n\u00e3o parece mais o capitalismo b\u00e1sico e sem altera\u00e7\u00e3o do passado, de tal modo que novas adjetiva\u00e7\u00f5es tiveram de ser invocadas para explicar suas estranhas apar\u00eancias. Era ent\u00e3o o capitalismo tardio, o neocapitalismo, o capitalismo neoliberal, o capitalismo p\u00f3s-fordista, o capitalismo p\u00f3s-moderno, o capitalismo biopol\u00edtico, o semicapitalismo, o capitalismo cognitivo, e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A op\u00e7\u00e3o de narrativa hist\u00f3rica que foi com menos frequ\u00eancia ensaiada \u00e9 a de que esta sociedade continua sendo de explora\u00e7\u00e3o e de classe dominante \u2013 s\u00f3 n\u00e3o mais exatamente ou inteiramente de tipo capitalista<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Talvez uma parte dela possa ser razoavelmente descrita como capitalista, mas talvez haja alguma forma nova \u2013 se n\u00e3o menos exploradora \u2013 empilhando-se em cima da anterior. Afinal, fica claro nos escritos pol\u00edticos de Marx que ele pensava as forma\u00e7\u00f5es sociais como constitu\u00eddas por m\u00faltiplos modos de produ\u00e7\u00e3o, dos quais apenas um poderia ser denominado capitalista. Os outros, pensava, eram residuais, como os resqu\u00edcios do feudalismo; ou marginais, como as formas simples de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Algumas vertentes te\u00f3ricas do capitalismo-adjetivado sustentam que houve um momento decisivo no qual o capitalismo n\u00e3o mais governou de maneira formal esses outros modos de produ\u00e7\u00e3o, mas, na verdade, subsumiu-os em rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas propriamente ditas. Por\u00e9m, eles tendem a adiar um pensamento hist\u00f3rico sobre isso: tudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar \u2013 exceto o capitalismo, que continua para sempre e como sempre o mesmo. Dura para sempre, uma vez que somente o proletariado pode neg\u00e1-lo. A hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser imaginada enquanto mudan\u00e7as de fases de nenhuma outra maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O proletariado como agente negador assumiu diferentes formas em diferentes \u00e9pocas. P\u00f4de ser o trabalhador industrial, o trabalhador de massa, a multid\u00e3o da f\u00e1brica social, as massas do mundo colonial, e assim por diante. \u00c0s vezes, \u00e9 uma quest\u00e3o de alian\u00e7as, dos oper\u00e1rios e camponeses, ou dos oper\u00e1rios e estudantes. \u00c0s vezes, \u00e9 uma quest\u00e3o de agentes da esfera da reprodu\u00e7\u00e3o, tal como as ag\u00eancias anticapitalistas feminista e queer. \u00c0s vezes, o agente da nega\u00e7\u00e3o \u00e9 fundado mais na domina\u00e7\u00e3o racial do que na explora\u00e7\u00e3o de classe<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. De qualquer modo, o que tais teorias t\u00eam em comum \u00e9 a ideia fixa de que o capitalismo s\u00f3 chega a um fim quando \u00e9 negado pela for\u00e7a de uma ag\u00eancia vinda de baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Levando a cabo isso, \u00e9 preciso tomar como fixo algo o que para Marx era apenas uma tend\u00eancia, e talvez uma tend\u00eancia n\u00e3o realizada: a polariza\u00e7\u00e3o de toda forma\u00e7\u00e3o social em somente duas classes antag\u00f4nicas. \u00c9 um problema bem estudado que, do lado perdedor dessa equa\u00e7\u00e3o, a identidade de classe n\u00e3o \u00e9 completamente esclarecida. As diferen\u00e7as entre os trabalhadores n\u00e3o se tornam menos agudas. Os problem\u00e1ticos \u201cestratos m\u00e9dios\u201d obscurecem a imagem da classe. As diferen\u00e7as de ra\u00e7a e g\u00eanero tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser descartadas. O nacionalismo e a identidade religiosa persistem obstinadamente em reivindicar a lealdade dos oprimidos<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mesmo entre aqueles que prestaram muita aten\u00e7\u00e3o para as diferen\u00e7as entre os oprimidos e que se esfor\u00e7aram para mapear como as mudan\u00e7as no modo de produ\u00e7\u00e3o modificam os tipos de trabalhadores que trabalham nele, h\u00e1 pouca aten\u00e7\u00e3o para as complexidades e mudan\u00e7as entre as <em>classes dominantes<\/em>. Tais s\u00e3o genericamente denominadas apenas como capital, com dois ou tr\u00eas outros subgrupos brutos. H\u00e1 um capital industrial e um capital financeiro, por certo, mas isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, para resumir nossas propostas her\u00e9ticas de imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, apresentamos tr\u00eas: talvez pensar em mudan\u00e7a hist\u00f3rica seja uma quest\u00e3o de m\u00faltiplas classes e conflitos de classes; talvez outras classes al\u00e9m do capital e trabalho possam ser pensadas enquanto agentes motores de mudan\u00e7a hist\u00f3rica; e talvez at\u00e9 mesmo dentro do capitalismo possa surgir um novo conflito de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso pode parecer her\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Capital <\/em>de Marx, que examina apenas de maneira simplificada, sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e suas formas bin\u00e1rias de capital e trabalho. Contudo, pode n\u00e3o ser maneira t\u00e3o original de pensar a partir dos escritos pol\u00edticos de Marx, por exemplo, sobre as s\u00e9ries de revolu\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a. Tratava-se de uma multiplicidade de classes, pelas quais uma classe burguesa emergente mobilizava os camponeses e artes\u00e3os para realizarem os interesses burgueses como se fosse o interesse geral. O surgimento do movimento oper\u00e1rio foi um longo aprendizado na revolu\u00e7\u00e3o, sob a tutela de outra classe, antes de ser capaz de articular seus pr\u00f3prios interesses e m\u00e9todos \u2013 ainda que brevemente \u2013 no momento da Comuna de Paris.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ideia de divis\u00f5es entre as classes dominantes tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o nova assim. Em retrospectiva, pode ser \u00fatil diferenciar a classe capitalista e sua contraparte rural, uma classe latifundi\u00e1ria. A transforma\u00e7\u00e3o das antigas propriedades feudais, dos camponeses pagando d\u00edzimos em esp\u00e9cie, para as v\u00e1rias formas de arrendamento nas quais os agricultores pagavam o aluguel em dinheiro \u00e9, em certos aspectos, um momento hist\u00f3rico completamente distinto do surgimento de uma ind\u00fastria e da forma\u00e7\u00e3o de classes capitalista e trabalhadora com base na rela\u00e7\u00e3o salarial.<\/p>\n<p><strong>Segunda Natureza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na obra de David Ricardo, o principal conflito de classe \u00e9, de fato, um conflito intraclasse, entre propriet\u00e1rio de terra e capitalista<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Quanto mais os propriet\u00e1rios de terras excedentes souberem capturar na forma de renda, menos haver\u00e1 para os capitalistas capturarem na forma de lucro. Permanecendo a terra em tamanho fixo, a economia da renda se comporta de maneira bem diferente da economia do lucro. O aumento da demanda eleva os arrendamentos, e nenhum novo incremento de terra pode surgir para reduzir os arrendamentos. O aumento da demanda eleva os lucros, mas o lucro \u00e9 derivado da ind\u00fastria, que n\u00e3o tem oferta fixa. O aumento dos lucros atrai os competidores para o mercado retornando os lucros para os padr\u00f5es hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ind\u00fastria \u00e9, em certo sentido, <em>mais abstrata<\/em> que a terra. Um peda\u00e7o de terra \u00e9 aquilo que \u00e9 e est\u00e1 onde est\u00e1 \u2013 um <em>topos<\/em>. Uma por\u00e7\u00e3o de ind\u00fastria \u00e9 bem fung\u00edvel e m\u00f3vel. Particularmente ap\u00f3s a ascens\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis como fonte de energia, a ind\u00fastria ocorre em um espa\u00e7o topogr\u00e1fico mais abstrato, necessitando apenas estar no ponto \u00f3timo dos fluxos de energia, trabalho e mat\u00e9rias-primas. \u00c9 neste sentido que se pode dizer que a ind\u00fastria cria uma segunda natureza: um ambiente constru\u00eddo que n\u00e3o mais segue e forma os contornos e topos da terra, mas sim os transforma em um plano topogr\u00e1fico abstrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, poder-se-ia contar uma narrativa hist\u00f3rica sobre o passado n\u00e3o apenas envolvendo m\u00faltiplas classes e n\u00e3o apenas conflitos entre classes dominantes e dominadas, mas tamb\u00e9m conflitos entre as pr\u00f3prias classes dominantes. E talvez existam mais. E se a tend\u00eancia hist\u00f3rica para um ambiente cada vez mais abstrato de produ\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o social n\u00e3o parasse com a ind\u00fastria? Em quais condi\u00e7\u00f5es se poderia dizer que existe um novo tipo de classe dominante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aqui poderia ser \u00fatil pensar de que modo a produ\u00e7\u00e3o industrial de mercadorias pode diferir da produ\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria de mercadorias. Essa \u00faltima j\u00e1 \u00e9 uma esp\u00e9cie de abstra\u00e7\u00e3o. Retira do campesinato seus antigos direitos e obriga\u00e7\u00f5es para com uma propriedade particular. Cria n\u00e3o apenas os camponeses, mas tamb\u00e9m as terras equivalentes e permut\u00e1veis. E eventualmente desfaz o t\u00edtulo heredit\u00e1rio do senhor da terra. Pertencer \u00e0 classe dominante n\u00e3o \u00e9 mais um direito heredit\u00e1rio. \u00a0S\u00e3o varridas as particularidades do lugar, ou direitos, deveres e costumes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas ainda h\u00e1 certa fixidez na produ\u00e7\u00e3o de mercadoria agr\u00e1ria. A terra \u00e9 a terra. Um lugar \u00e9 um lugar. Um topos \u00e9 um topos. Permanece uma paisagem com entornos fixos que o agricultor <em>forma<\/em>, mas n\u00e3o realmente <em>transforma<\/em>. Dela saem os fluxos de produtos agr\u00edcolas, mas de uma \u00e1rea completamente est\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ind\u00fastria \u00e9 diferente. Especialmente quando h\u00e1 fluxos de carv\u00e3o, gr\u00e3os e m\u00e3o-de-obra, e as estruturas de a\u00e7o para transport\u00e1-las, surge uma topografia mais abstrata e male\u00e1vel. A ind\u00fastria perfaz um novo diagrama no antigo terreno. As cidades se expandem para absorver a m\u00e3o-de-obra agora excedente no campo. Tal m\u00e3o-de-obra \u00e9 colocada para trabalhar nas novas f\u00e1bricas, abastecidas por ferrovias e canais com mat\u00e9rias-primas e alimentos das col\u00f4nias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta \u00e9 a \u00e9poca em que a cidade arrebata o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do campo, usando os primeiros frutos rudimentares de uma t\u00e3o logo sistem\u00e1tica instrumentaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza \u2013 uma tecnologia industrial. Capital e trabalho transformam o outrora s\u00f3lido mundo da vida rural no mundo l\u00edquido da segunda natureza industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A transi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o feudal para a produ\u00e7\u00e3o mercantil na agricultura pode ser principalmente uma mudan\u00e7a nas formas de propriedade, mas a cria\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mercantil na ind\u00fastria exigiu um pouco mais do que isso. Foi uma transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente das rela\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m das for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o. Vale a pena notar aqui o papel que a escassez desempenhou. Com as minas cada vez mais profundas e as florestas sob o machado, foi necess\u00e1ria uma aplica\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel de engenhosidade t\u00e9cnica para manter a produ\u00e7\u00e3o em andamento. O complexo carv\u00e3o-vapor-ferro surgiu da escassez de recursos naturais, mas ao mesmo tempo produziu uma natureza completamente diferente<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa segunda natureza, embora em alguns aspectos uma terreno mais abstrata, tinha certas vulnerabilidades que poderiam ser aproveitadas por uma classe trabalhadora em ascens\u00e3o. O que tornou a greve uma arma eficaz foi que a ind\u00fastria dependia do fluxo constante de recursos, de carv\u00e3o e mat\u00e9rias-primas e de produtos acabados que chegavam rapidamente ao mercado. Esses fluxos poderiam ser interrompidos nos principais pontos estreitos. A segunda natureza era uma rede estreita \u2013 portos e ferrovias \u2013 de coisas grandes \u2013 minas e f\u00e1bricas \u2013 e podia ser interrompida em seu elo mais fraco. O trabalho organizado conquistou suas vit\u00f3rias \u2013 a jornada de oito horas, o direito de se organizar, o sufr\u00e1gio universal, o estado de bem-estar, at\u00e9 mesmo a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro \u2013 n\u00e3o tanto por meio de qualquer ideologia ou forma organizacional, mas pelo uso real ou potencial desse poder para fechar a infraestrutura de segunda natureza<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a tecnologia a partir da qual se construiu a segunda natureza foi primeiro a industrial e depois a militar, no caso da terceira natureza ocorreu o contr\u00e1rio. A Segunda Guerra Mundial foi a grande incubadora da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, que posteriormente desempenhou um papel significativo tamb\u00e9m na Guerra Fria. A princ\u00edpio, do projeto de produtos complexos ao controle de estoques e \u00e0 log\u00edstica de distribui\u00e7\u00e3o, a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o possibilitou formas industriais de organiza\u00e7\u00e3o em escala expandida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas quando o sistema fordista de produ\u00e7\u00e3o e consumo em massa encalhou no final do s\u00e9culo XX, essa mesma tecnologia da informa\u00e7\u00e3o forneceu os meios para contornar suas limita\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Em particular, reduziu muito a for\u00e7a de trabalho. O poder dos oper\u00e1rios era de interromper os fluxos \u2013 da linha de montagem, das mat\u00e9rias-primas, da fonte de energia. A tecnologia da informa\u00e7\u00e3o poderia substituir o trabalho na produ\u00e7\u00e3o e fornecer uma rede mais flex\u00edvel e redundante que permitiria ao capital industrial mover seus locais de produ\u00e7\u00e3o para longe da milit\u00e2ncia trabalhista ou direcionar fluxos de materiais longe de poss\u00edveis bloqueios. Esta \u00e9 a era da automa\u00e7\u00e3o, da desqualifica\u00e7\u00e3o e da f\u00e1brica fugidia<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Este foi o lado negativo das f\u00e1bulas hist\u00f3ricas da sociedade da informa\u00e7\u00e3o como o fim da luta de classes.<\/p>\n<p><strong>A Classe Vetorialista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A derrota do trabalho teve um pre\u00e7o para a classe capitalista. Significava ceder parte de seu poder a um novo tipo de classe dominante. Uma classe que n\u00e3o dependia mais da terra ou da ind\u00fastria como fonte de riqueza. Seu ativo de trabalho era a pr\u00f3pria informa\u00e7\u00e3o. A separa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da terra produziu o terreno abstrato da segunda natureza. A separa\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria produziu um terreno ainda mais abstrato de terceira natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O capital derrotou o trabalho. Chamam frequentemente essa \u00e9poca de \u201cneoliberalismo\u201d, mas tal termo obscurece mais do que explica. Ideias n\u00e3o fazem hist\u00f3ria, e certamente n\u00e3o ressuscitam ou estendem velhas ideias. Como foi poss\u00edvel contornar materialmente a for\u00e7a do trabalho? Tem a ver com os poderes de um novo tipo de terreno, funcionando em um novo tipo de infraestrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A segunda natureza ainda \u00e9 bastante topogr\u00e1fica, pois a localiza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria ainda est\u00e1 ligada a caracter\u00edsticas da paisagem, como portos naturais ou dep\u00f3sitos de carv\u00e3o e ferro. A terceira natureza \u00e9 bem mais <em>topol\u00f3gica<\/em>, na medida em que a densa rede de informa\u00e7\u00f5es que cobre o territ\u00f3rio permite que a paisagem seja esticada, comprimida, dobrada e torcida em novas formas \u2013 pelo menos para fins de atividade econ\u00f4mica. Torna-se uma densa rede de coisas bem mais tempor\u00e1rias. O mundo l\u00edquido da segunda natureza, com seus fluxos canalizados de capital, trabalho, energia, recursos e bens, realmente se vaporiza em um novo estado, um tanto mais gasoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A terceira natureza torna-se um envelope de fluxos de informa\u00e7\u00e3o que duplica n\u00e3o apenas a paisagem natural, mas tamb\u00e9m a segunda natureza. Ainda tem alguns la\u00e7os com a topografia, \u00e9 claro. As velhas cidades de segunda natureza tornam-se centros de informa\u00e7\u00e3o. Os vastos <em>data centers<\/em> que continuar\u00e3o a crescer rapidamente no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI exigem ainda grandes quantidades de energia e acesso a \u00e1gua para resfriamento. Mas toda essa nova infraestrutura tamb\u00e9m produz um espa\u00e7o topol\u00f3gico no qual as informa\u00e7\u00f5es passam a controlar a movimenta\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o dos recursos industriais, que por sua vez comandam a extra\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tudo o que era s\u00f3lido e depois l\u00edquido finalmente se desmancha no ar. O espa\u00e7o torna-se uma topologia na qual qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro. Uma linha de atividade econ\u00f4mica torna-se um <em>vetor<\/em>, no sentido de que pode, em princ\u00edpio, ser implantada em qualquer lugar. Conecte um fornecedor de materiais a um local de processamento com um vetor. Se o fornecimento se tornar err\u00e1tico, mova o vetor para se conectar com um fornecedor diferente. Se a m\u00e3o de obra no local de processamento se tornar dif\u00edcil, mova o vetor novamente, conectando o novo fornecedor a um novo local de processamento. Se a empresa capitalista que faz o processamento quer muito lucro, mude para outra<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Castells descreve a transi\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de lugares para um espa\u00e7o de fluxos, ou o que chamo de terceira natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o apenas o trabalho perde seu poder no terreno da terceira natureza. O mesmo acontece com a classe capitalista. Aqui o capital deve ser entendido no sentido espec\u00edfico da classe propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Em muitos casos, isso n\u00e3o \u00e9 mais um locus de poder. O vetor pode contornar n\u00e3o apenas o trabalho, mas tamb\u00e9m o capital. O poder ascendente sobre o trabalho e o capital \u00e9 a classe vetorialista. N\u00e3o controla mais a terra ou a ind\u00fastria, apenas a informa\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o reivindica sua parte do excedente como renda ou lucro, mas como <em>juros<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A forma mais antiga da classe vetorialista \u00e9 a finan\u00e7a, mas no passado seu poder sempre foi relativo. A segunda natureza n\u00e3o apoiava o uso da informa\u00e7\u00e3o como meio de controle absoluto. \u00c9 somente com a produ\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura na qual a informa\u00e7\u00e3o se separa de seus estratos materiais, podendo ser canalizada com efici\u00eancia para qualquer lugar do planeta, armazenada a um custo insignificante, processada facilmente em padr\u00f5es complexos, que a classe vetorialista se destaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As finan\u00e7as se encontram unidas a outros tipos de controle pela informa\u00e7\u00e3o \u2013 a partir do controle de patentes, dos direitos autorais e marcas, das cadeias de suprimentos a partir da log\u00edstica, do controle da distribui\u00e7\u00e3o espacial dos recursos por meio de SIG ou, mais recentemente, do controle de acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es sobre o cen\u00e1rio mut\u00e1vel de pessoas e coisas \u2013, tornando todos eles endere\u00e7\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O poder da classe vetorialista est\u00e1 na acumula\u00e7\u00e3o de juros, que neste contexto significa n\u00e3o apenas o retorno do investimento de informa\u00e7\u00f5es na forma de dinheiro, mas de qualquer informa\u00e7\u00e3o excedente, adquirida por meio de trocas desiguais de informa\u00e7\u00f5es. Seu poder agora \u00e9 global. Baseada principalmente no mundo superdesenvolvido da Europa e nos Estados Unidos, a classe vetorial prospera extraindo informa\u00e7\u00f5es excedentes em escala global. Raramente possui os meios de produ\u00e7\u00e3o. A fabrica\u00e7\u00e3o real das coisas pode ser terceirizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 claro que os produtores capitalistas desafiam o poder vetorial, mas principalmente tentando obter acesso ao controle da informa\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria \u2013 e, portanto, escapando da ind\u00fastria capitalista e tornando-se eles pr\u00f3prios vetorialistas. Primeiro no Jap\u00e3o, depois na Cor\u00e9ia e depois na China, as empresas manufatureiras tentaram adquirir o poder simb\u00f3lico das marcas, as patentes de processos tecnol\u00f3gicos sofisticados, a efici\u00eancia do trabalho controlado por dados e das cadeias de suprimentos, para livrar-se do problema de possuir meios de produ\u00e7\u00e3o mais rotineiros.<\/p>\n<p><strong>A Classe Hacker<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A classe vetorial permitiu que a classe capitalista derrotasse o trabalho, mas a classe vetorialista tem seus pr\u00f3prios problemas com uma classe subordinada. O problema n\u00e3o \u00e9 dominar a classe que <em>forma<\/em> a natureza, ou que <em>transforma<\/em> a segunda natureza, mas que <em>informa<\/em> a terceira natureza. Vamos cham\u00e1-los de <em>classe hacker<\/em>. A extra\u00e7\u00e3o de interesse das trocas desiguais de informa\u00e7\u00f5es requer a produ\u00e7\u00e3o constante de novas informa\u00e7\u00f5es. A produ\u00e7\u00e3o de novas informa\u00e7\u00f5es \u00e9 tarefa da classe hacker. O fato de essa produ\u00e7\u00e3o ocorrer dentro de uma rela\u00e7\u00e3o de classe decorre da conten\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de novas informa\u00e7\u00f5es em vers\u00f5es rec\u00e9m-elaboradas da forma de propriedade privada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao longo do final do s\u00e9culo XX, a chamada propriedade intelectual emergiu dos tradicionais direitos autorais e patentes e gradualmente tornou-se essencialmente um conjunto de direitos de propriedade totalmente privados. A produ\u00e7\u00e3o de novas informa\u00e7\u00f5es enquanto informa\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em uma separa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do fluxo de informa\u00e7\u00e3o de seu substrato material, de modo que, embora a informa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o exista fora de um substrato material, sua rela\u00e7\u00e3o com esse substrato torna-se abstrata. O potencial desse desenvolvimento \u00e9 ent\u00e3o restringido e canalizado por meio de elabora\u00e7\u00f5es da forma de propriedade privada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas a produ\u00e7\u00e3o de propriedade intelectual, como a produ\u00e7\u00e3o de qualquer coisa, requer coopera\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o. A fonte de toda produ\u00e7\u00e3o passa pelo que \u00e9 comum. Assim como o latifundi\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao agricultor, e o capitalista em rela\u00e7\u00e3o ao trabalhador, a classe vetorialista tem que separar a classe hacker daquilo que suas a\u00e7\u00f5es colaborativas realizam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mais uma vez, os bens comuns s\u00e3o fechados ou retidos por meio de uma esfera subordinada da qual a mercantiliza\u00e7\u00e3o extrai suas reservas. A diferen\u00e7a desta vez \u00e9 que os bens comuns s\u00e3o potencialmente compartilh\u00e1veis infinitamente. Terra ou bens podem ser escassos, mas a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas artificialmente escassa em uma era de custos de c\u00f3pia e arquivamento em queda livre. Da\u00ed que um dos grandes movimentos sociais do final do s\u00e9culo XX em diante se dedique a tornar a informa\u00e7\u00e3o comum. A informa\u00e7\u00e3o quer ser gratuita, mas est\u00e1 por toda parte acorrentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Liberdade com e de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a utopia da classe hacker. Vale a pena mencionar quatro estrat\u00e9gias para controlar a classe hacker. Em primeiro lugar, a aristocracia hacker: um pequeno grupo \u00e9 encorajado a se ver n\u00e3o como parte de uma classe, mas como membro de uma elite. Eles s\u00e3o generosamente recompensados e, \u00e0s vezes, compartilham uma participa\u00e7\u00e3o na empresa vetorialista por meio de op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es ou b\u00f4nus. Em segundo lugar, a rotiniza\u00e7\u00e3o: a pr\u00f3pria infraestrutura vetorial \u00e9 projetada para separar algumas posi\u00e7\u00f5es especializadas de controle do trabalho de rotina, por sua vez separadas em partes discretas. A programa\u00e7\u00e3o orientada a objetos, por exemplo, \u00e9 projetada dessa maneira. Em terceiro lugar, a desterceiriza\u00e7\u00e3o [<em>in-sourcing<\/em>]. Se a terceiriza\u00e7\u00e3o envia um trabalho interno para outro trabalhador, no exterior, a desterceiriza\u00e7\u00e3o atribui o trabalho do hacker a qualquer um que desempenhe a tarefa gratuitamente. Assim, o esfor\u00e7o cooperativo e os bens comuns da informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratados como um recurso do qual se extrai interesse. Por fim, se tudo isso falhar, o hacker pode ser criminalizado, preso ou for\u00e7ado ao ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A domina\u00e7\u00e3o do hacker pelo vetorialista est\u00e1 incorporada no pr\u00f3prio design da infraestrutura dentro da qual a classe hacker opera. Essa domina\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m da domina\u00e7\u00e3o superestrutural pela ideologia do capitalista sobre o trabalhador, ou da domina\u00e7\u00e3o pela religi\u00e3o do latifundi\u00e1rio sobre o agricultor. De fato, todas as classes rivais t\u00eam que operar dentro de uma infraestrutura cada vez mais projetada para as especifica\u00e7\u00f5es da classe vetorial, que n\u00e3o apenas subordina a classe hacker a ela, mas tamb\u00e9m a todas as outras classes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em suma, ent\u00e3o, a hist\u00f3ria dos modos de produ\u00e7\u00e3o mercantilizados pode ser pensada como passando por tr\u00eas est\u00e1gios sobrepostos, cada um dos quais acarreta uma bifurca\u00e7\u00e3o em duas classes que polarizam o campo social. Cada est\u00e1gio desse campo tem sua pr\u00f3pria qualidade. A ascens\u00e3o da ind\u00fastria e a luta entre trabalhador e capitalista produzem uma topografia mais abstrata, uma segunda natureza. A ascens\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e a luta entre hacker e vetorialista produzem uma topologia ainda mais abstrata, uma terceira natureza. Este espa\u00e7o torna-se uma topologia global em que quase qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro, mobilizando recursos em escala planet\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em cada est\u00e1gio, o campo do conflito de classes pode ter certa polaridade entre classes dominantes e dominadas, mas todas as classes das tr\u00eas \u201cnaturezas\u201d interagem, como se estivessem em um jogo de xadrez tridimensional. Em muitos casos, o principal conflito de classe pode ocorrer entre diferentes classes dominantes. A unidade das tr\u00eas classes dominadas tamb\u00e9m nunca pode ser garantida. Elas n\u00e3o s\u00e3o uma multid\u00e3o, mas classes distintas com diferentes fun\u00e7\u00f5es no processo produtivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com esse entendimento, \u00e9 poss\u00edvel reformular um debate um tanto confuso sobre a possibilidade de imaginar a mudan\u00e7a hist\u00f3rica em termos de uma for\u00e7a que negaria o impulso implac\u00e1vel da mercantiliza\u00e7\u00e3o, ou melhor, o <em>aceleraria<\/em> em dire\u00e7\u00e3o ao seu fim. Nenhum dos dois casos, como veremos, oferece muito hoje para renovar a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Particularmente na tradi\u00e7\u00e3o marxista ocidental ou hegeliana, o proletariado \u00e9 uma for\u00e7a que supostamente nega o capital<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. O proletariado irrompe de dentro da forma de mercadoria que o aprisiona enquanto outra coisa e assim realiza sua plena subjetividade e humanidade universal. O ato particular de bloqueio que \u00e9 a greve \u00e9, portanto, um precursor ou um limite para pensar o bloqueio total como um ato de vontade do proletariado como sujeito revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria, surgindo e recusando sua objetifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com o fracasso das revolu\u00e7\u00f5es do final dos anos 60, Deleuze, Guattari, Lyotard e Negri come\u00e7aram a pensar mais em termos de uma acelera\u00e7\u00e3o do capitalismo para o seu fim<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Esta foi realmente uma franca admiss\u00e3o da fraqueza do trabalho e da perda de seu poder de bloquear e parar, quanto mais negar totalmente, os fluxos da vida mercantilizada. A ideia era, ao contr\u00e1rio, levar o desenvolvimento do capitalismo ao seu limite, o que de fato parecia ter ocorrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para seus detratores, a acelera\u00e7\u00e3o cheira demais ao muito ridicularizado, embora nunca claramente explicado, outro mal que \u00e9 o neoliberalismo. Parece muito pr\u00f3ximo da ideologia que em nossos termos \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o da classe vetorialista, aquela que afirma ser sobre \u201ctecno\u201d e que quer girar, interromper e geralmente destruir criativamente o mundo por divers\u00e3o e interesse. No entanto, pode-se apontar que, de diferentes formas, essa ideologia tamb\u00e9m \u00e9 sobre nega\u00e7\u00e3o. \u00c9 que a ascend\u00eancia da classe vetorialista quer destruir os \u00faltimos vest\u00edgios de poder, <em>tanto<\/em> do capital <em>quanto<\/em> do trabalho, e subordinar ambos ao controle por meio da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O problema \u00e9 que tanto a nega\u00e7\u00e3o quanto a acelera\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas limitadas de imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A nega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma figura que pressup\u00f5e a exist\u00eancia apenas de uma segunda natureza. Existe apenas o capital e sua nega\u00e7\u00e3o pelo proletariado. A acelera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma figura que pressup\u00f4s existir apenas uma terceira natureza. Existe apenas a abstra\u00e7\u00e3o al\u00e9m da segunda natureza. N\u00e3o \u00e9 uma forma de imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que compreendeu o desenvolvimento de novas rela\u00e7\u00f5es de classe neste terreno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nega\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o negligenciam o problema dos limites da transforma\u00e7\u00e3o da natureza pela segunda e terceira natureza. A imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da nega\u00e7\u00e3o faz do social um fetiche, como se n\u00e3o estivesse incorporadas em <em>ambas<\/em>, na natureza e na t\u00e9cnica. A imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da acelera\u00e7\u00e3o em suas vers\u00f5es anteriores faz do desejo um fetiche, e em suas itera\u00e7\u00f5es posteriores, uma racionalidade t\u00e9cnica. O desejo nunca \u00e9 pensado junto com a necessidade; a racionalidade nunca \u00e9 pensada atrav\u00e9s da forma de propriedade e, portanto, das rela\u00e7\u00f5es de classe em que aparece na terceira natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nenhum dos dois tinha muito a dizer sobre as vastas <em>fendas metab\u00f3licas<\/em> que se abrem pela opera\u00e7\u00e3o da segunda e da terceira natureza em seu substrato natural<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. A mais conhecida delas s\u00e3o os fluxos moleculares de di\u00f3xido de carbono e metano na atmosfera, causados por combust\u00edveis f\u00f3sseis e gado. O desenvolvimento intensivo da segunda natureza, seguido pelo dom\u00ednio de todos e quaisquer recursos do mundo que a terceira natureza permite, causa retroalimenta\u00e7\u00e3o entr\u00f3pica em todo o processo global de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. De fato, a classe vetorialista agora se alimenta da pr\u00f3pria desordem entr\u00f3pica que produz. Assim, a hist\u00f3ria humana, social e t\u00e9cnica n\u00e3o pode mais ser imaginada independentemente da hist\u00f3ria natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Somente uma alian\u00e7a de todas as classes subordinadas poderia aspirar enfrentar esse desenvolvimento potencialmente catastr\u00f3fico da terceira natureza sob o dom\u00ednio da classe vetorialista. Tal alian\u00e7a precisaria identificar com clareza novas vulnerabilidades, j\u00e1 que poucos dos antigos pontos estreitos da f\u00e1brica ou mesmo da \u201cf\u00e1brica social\u201d da cidade podem \u201cdescarrilar\u201d um poder que n\u00e3o depende de trilhos, mas da topologia mais flex\u00edvel de vetor de informa\u00e7\u00e3o. Pode ter sido simbolicamente e poeticamente \u00fatil dizer \u201cocupar Wall Street\u201d \u2013 mas \u00e9 bem mais dif\u00edcil de fazer na pr\u00e1tica. Como voc\u00ea ocupa uma abstra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pensar a hist\u00f3ria em termos de nega\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o deixa muitas coisas fora do quadro. S\u00e3o vis\u00f5es que n\u00e3o apenas negligenciam certas caracter\u00edsticas-chave da terceira natureza, mas tamb\u00e9m perdem o que \u00e9 crucial em nossos tempos sobre a pr\u00f3pria natureza. A era da terceira natureza \u00e9 aquela que comanda n\u00e3o apenas toda a segunda natureza como um recurso, mas tamb\u00e9m toda a natureza. Al\u00e9m disso, toda a natureza torna-se o escape, o dissipador de calor, a lixeira, para todos os res\u00edduos entr\u00f3picos de uma escala agora planet\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o social abstrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E se a hist\u00f3ria n\u00e3o puder ser negada nem acelerada? Talvez a segunda e a terceira natureza tenham sido constru\u00eddas de forma t\u00e3o ampla e profunda que n\u00e3o h\u00e1 como contornar essa infraestrutura. Assim, enquanto a economia mercantil continua avan\u00e7ando, em seu pr\u00f3prio ritmo implac\u00e1vel, ela forma agentes de qualquer classe \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem e os obriga a trabalhar nas formas que ela determina. E se at\u00e9 mesmo a classe vetorialista tivesse pouco poder sobre sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso seria pensar ent\u00e3o na <em>in\u00e9rcia<\/em> da hist\u00f3ria. Jean-Paul Sartre oferece um relato brilhante disso, em sua linguagem distinta, aqui traduzida para a linguagem deste texto<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. O esfor\u00e7o social coletivo, primeiro na agricultura, depois na ind\u00fastria e depois na informa\u00e7\u00e3o, construiu uma infraestrutura acima e contra si moldando assim esses esfor\u00e7os cont\u00ednuos em suas formas calcificadas. Tudo o que \u00e9 s\u00f3lido pode se dissolver no ar, mas precipita-se do estado gasoso para o estado s\u00f3lido novamente como mais do mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A forma da mercadoria leva o trabalho a criar n\u00e3o apenas o produto do momento, mas uma infraestrutura que perdure e que tenha a forma da mercadoria embutida em si mesma. Assim, molda a a\u00e7\u00e3o por dentro e atrav\u00e9s dela, em sua pr\u00f3pria forma, despojando o esfor\u00e7o coletivo de seu car\u00e1ter social e roubando-lhe a capacidade de mud\u00e1-lo. A a\u00e7\u00e3o torna-se, mesmo como a\u00e7\u00e3o, uma forma de <em>passividade<\/em>, na qual cada a\u00e7\u00e3o aparece separada de todas as outras, como mera a\u00e7\u00e3o individual, para a qual s\u00f3 pode haver recompensas individuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nega\u00e7\u00e3o, pois a infraestrutura em si n\u00e3o oferece muito para uma a\u00e7\u00e3o que possa enfrent\u00e1-la com uma quebra qualitativa em sua forma. E, portanto, n\u00e3o h\u00e1 acelera\u00e7\u00e3o, pois as infraestruturas de segunda e terceira natureza determinam o ritmo em que a mudan\u00e7a deve acontecer e, al\u00e9m disso, molda a mudan\u00e7a como simplesmente mais do mesmo. A acelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais capaz de produzir uma ruptura qualitativa do que a nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tal par\u00e1frase de Sartre \u00e9 t\u00e3o sombria quanto a original, se n\u00e3o exatamente na mesma rica linguagem. Sartre tinha alguma esperan\u00e7a de um tipo de a\u00e7\u00e3o que fundiria as vontades individuais e as tiraria da separa\u00e7\u00e3o solipsista e desconexa umas das outras. Para Sartre, esse \u00e9 o <em>grupo fundido<\/em> \u2013 uma ideia que aparece de forma modificada enquanto o momento subjetivo de Guattari ou o evento formador-de-sujeito de Badiou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De qualquer forma, essa linha de pensamento sobre a a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ainda aposta fortemente em uma a\u00e7\u00e3o humana coletiva, ou mesmo em uma racionalidade p\u00f3s-humana por dentro e contra uma infraestrutura cuja pr\u00f3pria forma absorve e torna inerte tal atividade. O paradoxo da terceira natureza \u00e9, portanto, que ela de fato acelera e prolifera transa\u00e7\u00f5es de tipo mercantilizado, mas sempre do mesmo tipo. A flexibilidade e precariedade que gera na superf\u00edcie \u00e9 o efeito de uma profunda e ampla imobilidade infraestrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 aqui que a capacidade disruptiva do esfor\u00e7o coletivo, seja o motim dos agricultores, a greve dos trabalhadores ou o <em>exploit<\/em> do hacker, deve ser reconhecida como uma vis\u00e3o limitada e unilateral de a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. O que nos leva a um quarto termo, impl\u00edcito como uma lacuna deixada na matriz dos outros tr\u00eas. Se a tentativa de negar ou acelerar a hist\u00f3ria esbarra na in\u00e9rcia da infraestrutura sobre a qual ela funciona, ent\u00e3o talvez n\u00e3o se trate de frear ou acelerar essa infraestrutura, mas de <em>projetar outra diferente<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As infraestruturas de segunda e terceira natureza assumiram a forma de troca de mercadorias e a incorporaram a todos os aspectos da vida cotidiana. O design de algo diferente precisa ir atr\u00e1s de outro lugar. Talvez a hist\u00f3ria natural das formas possa aqui socorrer a hist\u00f3ria social das formas, agora que estas se tornaram clones infind\u00e1veis e servidores de uma forma, apenas de uma natureza cada vez mais abstrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este \u00e9 um caminho perigoso, pois \u00e9 quase imposs\u00edvel evitar projetar voltar \u00e0s formas naturais os h\u00e1bitos de pensamento de segunda natureza e agora de terceira natureza. Na era industrial, o capitalismo liberal e a m\u00e1quina a vapor moldaram a imagem da natureza como um livre mercado darwiniano. Em nosso tempo, o vetorialismo neoliberal e o computador moldam uma imagem diferente da natureza, mas nem por isso \u00e9 uma quest\u00e3o de substituir as imagens do mundo da produ\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria natureza como uma luta pequeno-burguesa de \u201cgenes ego\u00edstas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que significaria, pois, entender a natureza do ponto de vista n\u00e3o das classes dominantes, mas dos dominados? Pensar a natureza como o agricultor, o trabalhador ou o hacker, como pr\u00e1ticas simbi\u00f3ticas de transforma\u00e7\u00e3o, respectivamente, de mat\u00e9ria, energia e informa\u00e7\u00e3o? Seria poss\u00edvel usar as lutas coletivas dos tr\u00eas est\u00e1gios da economia mercantil para criticar as vis\u00f5es de mundo dominantes que surgiram sobre a natureza, mas indo al\u00e9m? A tarefa da imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 seguir em frente, procurando <em>extrapolar<\/em> acerca do que se pode saber das formas naturais e as poss\u00edveis morfologias para o desenho de uma nova infraestrutura<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, as m\u00e1s not\u00edcias: o rolo compressor que \u00e9 a terceira natureza n\u00e3o pode ser negado, pois sua pr\u00f3pria forma \u00e9 dedicada a contornar quaisquer pontos espec\u00edficos nos quais a a\u00e7\u00e3o possa ser eficaz. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser acelerado. N\u00e3o h\u00e1 classe subordinada em posi\u00e7\u00e3o de pression\u00e1-lo mais longe ou mais r\u00e1pido do que ele vai por conta pr\u00f3pria. Pensar a hist\u00f3ria do ponto de vista do produto, e n\u00e3o dos produtores, inverte o quadro e mostra que o peso cumulativo que o esfor\u00e7o coletivo construiu \u00e9 a pedra no caminho para a sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que sobra apenas a op\u00e7\u00e3o de reconfigur\u00e1-lo em tempo real. Isso exigiria uma a\u00e7\u00e3o colaborativa entre as classes subordinadas. As diferen\u00e7as entre essas classes n\u00e3o podem ser eliminadas pela marca da multid\u00e3o ou pela imposi\u00e7\u00e3o por decreto algum tipo de universalismo filos\u00f3fico. Significa uma abordagem para a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es que \u00e9 mais sobre agentes econ\u00f4micos do que meramente pol\u00edticos, como na maioria das vers\u00f5es de democracia radical<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. \u00c9 hora de construir uma nova infraestrutura dentro das ru\u00ednas da antiga.<\/p>\n<p><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Karl Marx e Friedrich Engels, \u201cManifesto of the Communist Party,\u201d em Karl Marx, The Revolutions of 1848 (London: Verso, 2010), 70. Ver tamb\u00e9m: Marshall Berman, <em>All That Is Solid Melts Into Air: The Experience of Modernity<\/em> (New York: Penguin, 1988).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Richard Barbrook, <em>Imaginary Futures: From Thinking Machines to the Global Village<\/em> (London: Pluto Press, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Embora esse tenha sido o caminho percorrido em meu <em>A Hacker Manifesto<\/em> (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004). Ver tamb\u00e9m: Richard Barbrook, <em>The Class of the New<\/em> (London: Mute, 2006), sobre as v\u00e1rias tentativas anteriores de reimaginar a classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver, por exemplo: Dennis Altman, <em>Oppression and Liberation<\/em> (Brisbane: University of Queensland Press, 2012); Shulamith Firestone, <em>The Dialectic of Sex<\/em> (London: Verso, 2015); Cedric Robinson, <em>Black Marxism<\/em> (Chapel Hill, NC: University of North Carolina Press, 2000).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Erik Olin Wright, <em>Classes<\/em> (London: Verso, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> David Ricardo, <em>On the Principles of Political Economy and Taxation<\/em> (Cambridge: Cambridge University Press, 1962).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> J. D. Bernal, <em>Science in History Vol. 2<\/em> (Cambridge, MA: MIT Press, 1978).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Timothy Mitchell, <em>Carbon Democracy<\/em> (Brooklyn: Verso, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Para economias pol\u00edticas de segunda e terceira natureza, ver respectivamente: Michel Aglietta, <em>A Theory of Capitalist Regulation<\/em> (London: Verso, 2001); Yann Moulier Boutang, <em>Cognitive Capitalism<\/em> (Cambridge: Polity Press, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ver David Noble, <em>America By Design: Science, Technology and the Rise of Corporate Capitalism<\/em> (New York: Oxford University Press, 1979).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver Manuel Castells, <em>Communication Power<\/em> (Oxford: Oxford University Press, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Dan Schiller, <em>How To Think About Information<\/em> (Champaign-Urbana, IL: University of Illinois Press, 2010), tem um belo relato da luta para acabar com o monop\u00f3lio da telefonia nos Estados Unidos no final do s\u00e9culo XX, que li como uma tentativa fracassada de reduzir o poder de uma classe vetorialista em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ver, por exemplo, Georg Luk\u00e1cs, <em>History and Class Consciousness<\/em> (Cambridge, MA: MIT Press, 1972) e Guy Debord, <em>The Society of the Spectacle<\/em>, trad. Donald Nicholson-Smith (New York: Zone Books, 1994). Curiosamente, o \u00faltimo livro \u00e9 apenas parcialmente uma teoria da hist\u00f3ria como nega\u00e7\u00e3o. O cap\u00edtulo final, sobre o desvio, aponta em outras dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Benjamin Noys, Malign Velocities (Winchester: Zero Books, 2014); <em>#Accelerate: The Accelerationist Reader<\/em>, eds. Robin Mackay e Armen Avanessian (Falmouth: Urbanomics, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Sobre fenda metab\u00f3lica, veja: John Bellamy Foster, <em>Marx&#8217;s Ecology: Materialism and Nature<\/em> (New York: Monthly Review Press, 2000); John Bellamy Foster et al., <em>The Ecological Rift<\/em> (New York: Monthly Review Press, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ver Robert Biel, <em>The Entropy of Capitalism<\/em> (Chicago: Haymarket Books, 2013).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Jean-Paul Sartre, <em>Critique of Dialectical Reason, Vol. 1<\/em> (London: Verso, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Sobre as formas pr\u00e9-capitalistas de revolta, ver Eric Hobsbawm, <em>Primitive Rebels <\/em>(Londres: Norton, 1965). Sobre as formas de revolta da classe hacker, ver Alex Galloway e Eugene Thacker, <em>The Exploit<\/em> (Minneapolis: Minnesota University Press, 2007) e Gabriella Coleman, <em>Hacker, Hoaxer, Whistleblower, Spy<\/em> (Brooklyn: Verso, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Eu tomo o conceito de extrapola\u00e7\u00e3o de Joseph Needham, <em>Time: The Refreshing River <\/em>(London: Allen &amp; Unwin, 1948).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Para um balan\u00e7o cl\u00e1ssico de democracia radical, ver Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, <em>Hegemony and Socialist Strategy<\/em> (London: Verso, 2014).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar &#8211; Sum\u00e1rio A CLASSE VETORIALISTA McKENZIE WARK *** Originalmente publicado, em duas partes, em: E-flux Journal, issue 65, May-August, p. 1-8, 2015 [1\u00b0parte]; E-flux Journal, issue 70, February, p. 1-6, 2016 [2\u00b0 parte]. Tradu\u00e7\u00e3o: Ednei de Genaro *** * * * \u201cTudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que \u00e9 sagrado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[895419,168910787,85629,763449538,761294095,470801684,763449550,758717047,763449601,38098436,376665,20384,6031297,763449555,874082,30250554,763449557,35919,1328577,615540,762656686],"class_list":["post-5409","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-aceleracao","tag-aceleracionismo","tag-capitalismo","tag-capitalismo-esta-morto","tag-classe-hacker","tag-classe-industrial","tag-classe-latundiaria","tag-classe-vetorialista","tag-classes-antagonista","tag-disrupcao","tag-genero","tag-informacao","tag-mckenzie-wark","tag-primeira-natureza","tag-raca","tag-segunda-natureza","tag-terceira-natureza","tag-topologia","tag-topos","tag-vetor","tag-vetorialist-class"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-1pf","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5409"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5481,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409\/revisions\/5481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}