{"id":5409,"date":"2022-09-23T12:23:00","date_gmt":"2022-09-23T12:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/maelstromlife.com\/?p=5409"},"modified":"2026-06-28T15:59:34","modified_gmt":"2026-06-28T15:59:34","slug":"traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/23\/traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] \u2013 McKENZIE WARK, \u201cA CLASSE\u00a0VETORIALISTA\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/traducao-registrar-1.jpg?ssl=1\" alt=\"traducao-registrar\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em style=\"font-size: revert; color: initial;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\">Voltar &#8211; Sum\u00e1rio<\/a><\/strong><\/span><\/em><a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/2022\/12\/07\/software-network-classe-chun-galloway-wark\/\"><em><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5450\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2020\/03\/29\/traducoes-sofware-ideologia-chun-sobre-o-software-ou-a-persistencia-do-conhecimento-visual\/voltar\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"voltar\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-5450 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/voltar.jpg?resize=38%2C38&#038;ssl=1\" alt=\"voltar\" width=\"38\" height=\"38\" \/><\/em><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A CLASSE VETORIALISTA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">McKENZIE WARK<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Originalmente publicado, em duas partes, em: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><u>E-flux Journal<\/u>, issue 65, May-August, p. 1-8, 2015 [1\u00b0parte]; <u>E-flux Journal<\/u>, issue 70, February, p. 1-6, 2016 [2\u00b0 parte].<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ednei de Genaro<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5414\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2022\/09\/23\/traducao-mckenzie-wark-a-classe-vetorialista\/mckenzie-wark-vetorialist-class\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?fit=1110%2C410&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1110,410\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"McKenzie Wark &amp;#8211; Vetorialist Class\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?fit=1024%2C378&amp;ssl=1\" class=\" wp-image-5414 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/mckenzie-wark-vetorialist-class.jpg?resize=553%2C204&#038;ssl=1\" alt=\"McKenzie Wark - Vetorialist Class\" width=\"553\" height=\"204\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\">\u201cTudo o que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado\u201d[1]. Claro, muito da resson\u00e2ncia dessa frase \u00e9 um artif\u00edcio de tradu\u00e7\u00e3o: <i data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"147\">\u201cAlles St\u00e4ndische und Stehende verdampft\u201d<\/i>: Tudo o que permanece se esvai em afirma\u00e7\u00f5es. Essa foi a frase eletrizante de Marx sobre como a forma mercadoria incendeia o mundo, vaporizando velhas formas e normas sociais, de maneira que modos de vida inteiros e suas correspondentes vis\u00f5es de mundo, um ap\u00f3s o outro, se desfazem em fuma\u00e7a. Tal \u00e9 a grande narrativa hist\u00f3rica do <em>capitalismo<\/em>, como praticamente todos agora concordam em cham\u00e1-lo. Seus <i data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"592\">fanboys<\/i> agora celebram at\u00e9 mesmo sua tocha niilista, rebatizada de disrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\">Para os seus benefici\u00e1rios, o capitalismo traz o melhor dos tempos: liberdade e prosperidade para todos \u2014 bem, talvez n\u00e3o para todos, mas pelo menos para aqueles mais devotados a ele. Para os exclu\u00eddos por seus des\u00edgnios, traz o pior dos tempos, incinerando as formas de vida comunais e tradicionais e oferecendo em troca uma vida inteira de servid\u00e3o assalariada e escravid\u00e3o por d\u00edvidas. Para os seus protagonistas, o capitalismo \u00e9 o melhor dos mundos poss\u00edveis e n\u00e3o pode ser aprimorado. Para os seus poucos antagonistas restantes, o capitalismo \u00e9 o pior dos mundos poss\u00edveis, mas a \u00faltima sociedade de classes remanescente, antes da derrubada final do dom\u00ednio de classe para sempre. Isso agora \u00e9 mais uma vontade de poder espiritual do que uma estrat\u00e9gia real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\">Seja como for, a narrativa hist\u00f3rica de alguma maneira ficou presa na ideia fixa de que existe uma coisa chamada capitalismo e que somos todos pe\u00e7as m\u00f3veis dentro dessa mesma m\u00e1quina eterna. Tudo o que era sagrado \u00e9 profanado \u2014 exceto o ideal do capitalismo em si mesmo. Isso se tornou algo como uma ideia fixa. Para os seus benefici\u00e1rios, porque o sistema do qual se beneficiam deve ser feito parecer natural; para os seus detratores, porque a \u00fanica sa\u00edda que conseguem imaginar para outra vida \u00e9 a partir do capitalismo. Assim, de maneira genuinamente teol\u00f3gica, eles insistem que, embora as apar\u00eancias do capitalismo mudem, a ess\u00eancia permanece a mesma. Isso ainda \u00e9 capitalismo? Ou \u00e9, na verdade, algo pior?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\">Houve um tempo em que estava na moda argumentar que o capitalismo j\u00e1 havia sido superado[2]. Tais teorias s\u00e3o agora um tanto embara\u00e7osas. Durante a Guerra Fria, aqueles cujas m\u00e1quinas de escrever datilografavam a servi\u00e7o das pot\u00eancias capitalistas ocidentais precisavam de uma narrativa hist\u00f3rica para competir com aquela mobilizada pelos supostos Estados socialistas, que afirmavam ter entrado em um est\u00e1gio hist\u00f3rico para al\u00e9m do capitalismo, no qual suas rela\u00e7\u00f5es de classe seriam abolidas. Assim, os apologistas ocidentais pegaram emprestada de seus rivais a ideia de uma forma hist\u00f3rica al\u00e9m do capitalismo, que colocaria um fim ao conflito de classes. Chamaram isso de sociedade da informa\u00e7\u00e3o, sociedade do conhecimento ou sociedade p\u00f3s-industrial \u2014 qualquer coisa, na verdade, menos capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\">Com o colapso dos chamados Estados socialistas, desintegraram-se as narrativas hist\u00f3ricas que tentavam impor a exist\u00eancia de um est\u00e1gio hist\u00f3rico para al\u00e9m do capitalismo. Praticamente todo mundo voltou a cham\u00e1-lo de capitalismo. Contudo, no final do s\u00e9culo XX, este j\u00e1 n\u00e3o parecia o capitalismo b\u00e1sico e inalterado do passado, de tal modo que novas variantes adjetivadas tiveram de ser conjuradas para explicar suas estranhas apar\u00eancias. Era ent\u00e3o o capitalismo tardio, o neocapitalismo, o capitalismo neoliberal, o capitalismo p\u00f3s-fordista, o capitalismo p\u00f3s-moderno, o capitalismo biopol\u00edtico, o semiocapitalismo, o capitalismo cognitivo e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"8\">A op\u00e7\u00e3o de narrativa hist\u00f3rica menos vezes ensaiada seria a de indagar se esta sociedade continua sendo de explora\u00e7\u00e3o e dividida em classes \u2014 apenas n\u00e3o mais exatamente ou inteiramente de tipo capitalista[3]. Talvez uma boa parte dela possa ser razoavelmente descrita como capitalista, mas talvez haja alguma forma nova \u2014 se n\u00e3o menos exploradora \u2014 acumulando-se por cima da anterior. Afinal, fica claro nos escritos pol\u00edticos de Marx que ele pensava as forma\u00e7\u00f5es sociais como constitu\u00eddas por m\u00faltiplos modos de produ\u00e7\u00e3o, dos quais apenas um poderia ser denominado capitalista. Os outros, pensava ele, eram residuais, como os resqu\u00edcios do feudalismo, ou marginais, como a produ\u00e7\u00e3o simples de mercadorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"9\">Algumas variantes da teoria do capitalismo adjetivado sustentam que houve um momento decisivo no qual o capitalismo n\u00e3o mais governou de maneira formal esses outros modos de produ\u00e7\u00e3o, mas, na verdade, subsumiu-os em rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas propriamente ditas. Por\u00e9m, eles tendem a reter o pensamento hist\u00f3rico nesse ponto: tudo o que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar \u2014 exceto o capitalismo, que continua para sempre e como sempre o mesmo. Dura para sempre porque, em tais teorias hist\u00f3ricas, somente o proletariado pode negar o capitalismo. A hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser imaginada mudando de fase de nenhuma outra maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"10\">O proletariado como agente negador assumiu diferentes formas em diferentes \u00e9pocas. P\u00f4de ser o trabalhador industrial, o trabalhador de massa, a multid\u00e3o da f\u00e1brica social, as massas do mundo colonial e assim por diante. \u00c0s vezes, \u00e9 uma quest\u00e3o de alian\u00e7as: dos oper\u00e1rios e camponeses ou, mais tarde, dos oper\u00e1rios e estudantes. \u00c0s vezes, \u00e9 uma quest\u00e3o de agentes da esfera da reprodu\u00e7\u00e3o, em vez da produ\u00e7\u00e3o, tal como a ag\u00eancia anticapitalista feminista e <i data-path-to-node=\"10\" data-index-in-node=\"455\">queer<\/i>. \u00c0s vezes, o agente da nega\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamentado mais na domina\u00e7\u00e3o racial do que na explora\u00e7\u00e3o de classe[4]. De qualquer modo, o que tais teorias t\u00eam em comum \u00e9 a ideia fixa de que o capitalismo s\u00f3 chega ao fim quando \u00e9 negado pela for\u00e7a de uma ag\u00eancia vinda de baixo.<\/p>\n<p id=\"p-rc_2b6ca9d60b10ed3b-442\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\"><span data-path-to-node=\"3,0\">Para pensar isso, \u00e9 preciso tomar como certo algo que para Marx era apenas uma tend\u00eancia, e talvez uma tend\u00eancia n\u00e3o realizada: a polariza\u00e7\u00e3o de toda a forma\u00e7\u00e3o social em somente duas classes antag\u00f4nicas<\/span><span data-path-to-node=\"3,2\">. \u00c9 um problema bem estudado que, no lado perdedor dessa equa\u00e7\u00e3o, a identidade de classe de forma alguma se torna esclarecida<\/span><span data-path-to-node=\"3,4\">. As diferen\u00e7as entre os trabalhadores n\u00e3o se tornam menos agudas<\/span><span data-path-to-node=\"3,6\">. &#8220;Estratos m\u00e9dios&#8221; problem\u00e1ticos obscurecem o contraste do quadro de classes<\/span><span data-path-to-node=\"3,8\">. Tampouco as diferen\u00e7as de ra\u00e7a e g\u00eanero podem ser ignoradas com um aceno de m\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"3,10\">. O nacionalismo e a identidade religiosa persistem obstinadamente em reivindicar a lealdade dos oprimidos[5]<\/span><span data-path-to-node=\"3,12\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_2b6ca9d60b10ed3b-443\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\"><span data-path-to-node=\"4,0\">Mesmo entre aqueles que prestaram muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as entre os oprimidos, e que se esfor\u00e7aram para mapear como as mudan\u00e7as no modo de produ\u00e7\u00e3o alteram os tipos de trabalhadores que laboram nele, h\u00e1 pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e0s complexidades e mudan\u00e7as entre as <em>classes dominantes<\/em><\/span><span data-path-to-node=\"4,2\">. Isso \u00e9 geralmente designado apenas como capital e, na melhor das hip\u00f3teses, com dois ou tr\u00eas subgrupos brutos<\/span><span data-path-to-node=\"4,4\">. Sim, h\u00e1 o capital industrial e h\u00e1 o capital financeiro, mas \u00e9 basicamente isso<\/span><span data-path-to-node=\"4,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_2b6ca9d60b10ed3b-444\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\"><span data-path-to-node=\"5,0\">Assim, para resumir nossas propostas her\u00e9ticas para a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, elas s\u00e3o tr\u00eas: talvez pensar a mudan\u00e7a hist\u00f3rica seja uma quest\u00e3o de m\u00faltiplas classes e conflitos de classes; talvez outras classes al\u00e9m do capital e do trabalho possam ser pensadas como agentes motores da mudan\u00e7a hist\u00f3rica; e talvez, mesmo dentro do capitalismo, possa surgir um novo tipo de conflito de classe baseado em um novo modo de produ\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"5,2\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_2b6ca9d60b10ed3b-445\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\"><span data-path-to-node=\"6,0\">Isso pode parecer her\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao <i data-path-to-node=\"6,0\" data-index-in-node=\"41\">Capital<\/i> de Marx, que trata de forma simplificada apenas do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e suas classes bin\u00e1rias de capital e trabalho<\/span><span data-path-to-node=\"6,2\">. Mas pode n\u00e3o ser uma maneira t\u00e3o original de pensar adiante a partir dos escritos pol\u00edticos de Marx, por exemplo, sobre a sequ\u00eancia de revolu\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a<\/span><span data-path-to-node=\"6,4\">. Aqueles foram epis\u00f3dios multiclasses, nos quais uma classe burguesa ascendente mobilizava camponeses e artes\u00e3os para realizar os interesses burgueses como se fossem o interesse geral<\/span><span data-path-to-node=\"6,6\">. O surgimento do movimento oper\u00e1rio foi um longo aprendizado na revolu\u00e7\u00e3o sob a tutela de outra classe, antes de ser capaz de articular seus pr\u00f3prios interesses e m\u00e9todos \u2014 por mais breve que tenha sido no momento da Comuna de Paris<\/span><span data-path-to-node=\"6,8\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_2b6ca9d60b10ed3b-446\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\"><span data-path-to-node=\"7,0\">A ideia de divis\u00f5es entre as classes dominantes tampouco \u00e9 assim t\u00e3o nova<\/span><span data-path-to-node=\"7,2\">. Olhando para tr\u00e1s, pode ser \u00fatil diferenciar uma classe capitalista de sua contraparte rural, uma classe de propriet\u00e1rios de terras [latifundi\u00e1rios]<\/span><span data-path-to-node=\"7,4\">. A transforma\u00e7\u00e3o dos antigos feudos, com seus camponeses pagando o d\u00edzimo em esp\u00e9cie, em v\u00e1rias formas de arrendamento nas quais os agricultores pagavam o aluguel em dinheiro \u00e9, em certos aspectos, um momento hist\u00f3rico bastante distinto do surgimento da ind\u00fastria e da forma\u00e7\u00e3o de classes capitalistas e trabalhadoras baseadas na rela\u00e7\u00e3o salarial<\/span><span data-path-to-node=\"7,6\">.<\/span><\/p>\n<p><strong>Segunda Natureza<\/strong><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-517\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\"><span data-path-to-node=\"3,0\">Na obra de David Ricardo, o principal conflito de classes \u00e9, de fato, um conflito intra-classe dominante [intra-ruling-class] entre propriet\u00e1rio de terras e capitalista[6]<\/span><span data-path-to-node=\"3,2\">. Quanto mais os propriet\u00e1rios de terras capturam do excedente na forma de renda, menos resta para os capitalistas capturarem na forma de lucro<\/span><span data-path-to-node=\"3,4\">. Estando a terra em oferta fixa, a economia da renda se comporta de maneira bem diferente da economia do lucro<\/span><span data-path-to-node=\"3,6\">. O aumento da demanda eleva as rendas, e nenhuma nova oferta de terra pode entrar no mercado para traz\u00ea-los de volta para baixo<\/span><span data-path-to-node=\"3,8\">. O aumento da demanda eleva os lucros, mas o lucro \u00e9 derivado da ind\u00fastria, que n\u00e3o tem oferta fixa<\/span><span data-path-to-node=\"3,10\">. O aumento dos lucros atrai concorrentes para o mercado, o que empurra os lucros de volta para as normas hist\u00f3ricas<\/span><span data-path-to-node=\"3,12\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-518\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\"><span data-path-to-node=\"4,0\">A ind\u00fastria \u00e9, em certo sentido, <em>mais abstrata<\/em> que a terra<\/span><span data-path-to-node=\"4,2\">. Um peda\u00e7o de terra \u00e9 o que \u00e9 e est\u00e1 onde est\u00e1 \u2014 um <i data-path-to-node=\"4,2\" data-index-in-node=\"53\">topos<\/i><\/span><span data-path-to-node=\"4,4\">. Uma instala\u00e7\u00e3o industrial \u00e9 consideravelmente mais fung\u00edvel e m\u00f3vel<\/span><span data-path-to-node=\"4,6\">. Particularmente ap\u00f3s a ascens\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis como fonte de energia, a ind\u00fastria passa a ocorrer em um espa\u00e7o topogr\u00e1fico bastante mais abstrato, necessitando apenas estar no ponto de cruzamento dos fluxos de energia, trabalho e mat\u00e9rias-primas<\/span><span data-path-to-node=\"4,8\">. \u00c9 neste sentido que se pode dizer que a ind\u00fastria cria uma segunda natureza: um ambiente constru\u00eddo que n\u00e3o mais segue e molda os contornos e o <i data-path-to-node=\"4,8\" data-index-in-node=\"146\">topos<\/i> da terra, mas sim os transforma em um plano topogr\u00e1fico abstrato<\/span><span data-path-to-node=\"4,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-519\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\"><span data-path-to-node=\"5,0\">Assim, poder-se-ia contar uma narrativa hist\u00f3rica sobre o passado que envolvesse n\u00e3o apenas m\u00faltiplas classes, e n\u00e3o apenas o conflito entre classes dominantes e subordinadas, mas tamb\u00e9m o conflito entre as pr\u00f3prias classes dominantes<\/span><span data-path-to-node=\"5,2\">. E talvez haja mais<\/span><span data-path-to-node=\"5,4\">. E se a tend\u00eancia hist\u00f3rica em dire\u00e7\u00e3o a um terreno cada vez mais abstrato de produ\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o social n\u00e3o parasse na ind\u00fastria?<\/span><span data-path-to-node=\"5,6\"> Sob quais condi\u00e7\u00f5es se poderia dizer que existe um novo tipo de classe dominante?<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-520\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\"><span data-path-to-node=\"6,0\">Aqui pode ajudar pensar de que modo a produ\u00e7\u00e3o industrial de mercadorias difere da produ\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria de mercadorias<\/span><span data-path-to-node=\"6,2\">. Esta \u00faltima j\u00e1 \u00e9 uma esp\u00e9cie de abstra\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"6,4\">. Ela separa o campesinato de seus antigos direitos e obriga\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a uma propriedade espec\u00edfica<\/span><span data-path-to-node=\"6,6\">. Torna equivalentes e intercambi\u00e1veis n\u00e3o apenas os camponeses, mas tamb\u00e9m suas terras<\/span><span data-path-to-node=\"6,8\">. Eventualmente, desfaz o t\u00edtulo heredit\u00e1rio do senhor sobre a terra<\/span><span data-path-to-node=\"6,10\">. Pertencer \u00e0 classe dominante j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um direito heredit\u00e1rio<\/span><span data-path-to-node=\"6,12\">. As particularidades do lugar, bem como direitos, deveres e costumes, s\u00e3o varridos<\/span><span data-path-to-node=\"6,14\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-521\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\"><span data-path-to-node=\"7,0\">Mas ainda h\u00e1 uma certa fixidez na produ\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria de mercadorias<\/span><span data-path-to-node=\"7,2\">. A terra \u00e9 a terra<\/span><span data-path-to-node=\"7,4\">. Um lugar \u00e9 um lugar<\/span><span data-path-to-node=\"7,6\">. Um <i data-path-to-node=\"7,6\" data-index-in-node=\"5\">topos<\/i> \u00e9 um <i data-path-to-node=\"7,6\" data-index-in-node=\"16\">topos<\/i><\/span><span data-path-to-node=\"7,8\">. Permanece uma paisagem de contornos fixos que o agricultor <em>molda<\/em>, mas n\u00e3o chega a <em>transformar<\/em> realmente<\/span><span data-path-to-node=\"7,10\">. Fluxos de produtos agr\u00edcolas emanam dela, mas a partir de um campo bastante est\u00e1vel<\/span><span data-path-to-node=\"7,12\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-522\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"8\"><span data-path-to-node=\"8,0\">A ind\u00fastria \u00e9 diferente<\/span><span data-path-to-node=\"8,2\">. Especialmente quando passam a existir fluxos de carv\u00e3o, gr\u00e3os e m\u00e3o de obra, e os meios de ferro para transport\u00e1-los, uma topografia muito mais abstrata e male\u00e1vel vem a ser<\/span><span data-path-to-node=\"8,4\">. Ela projeta um novo diagrama sobre o antigo terreno<\/span><span data-path-to-node=\"8,6\">. As cidades se expandem para absorver a m\u00e3o de obra agora excedente do campo<\/span><span data-path-to-node=\"8,8\">. Essa m\u00e3o de obra \u00e9 posta a trabalhar nas novas f\u00e1bricas, abastecidas por ferrovias e canais com mat\u00e9rias-primas e alimentos vindos das col\u00f4nias<\/span><span data-path-to-node=\"8,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-523\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"9\"><span data-path-to-node=\"9,0\">Esta \u00e9 a era em que a cidade arrebata o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do campo, utilizando os primeiros frutos rudimentares de uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o que logo se tornaria sistem\u00e1tica da pr\u00f3pria natureza \u2014 uma tecnologia industrial<\/span><span data-path-to-node=\"9,2\">. Capital e trabalho transformam o outrora s\u00f3lido mundo da vida rural no mundo l\u00edquido da segunda natureza industrial<\/span><span data-path-to-node=\"9,4\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-524\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"10\"><span data-path-to-node=\"10,0\">A transi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o feudal para a de mercadorias na agricultura pode ser principalmente uma mudan\u00e7a nas formas de propriedade, mas a cria\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias na ind\u00fastria exigiu um pouco mais do que isso<\/span><span data-path-to-node=\"10,2\">. Foi uma transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas das rela\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m das for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"10,4\">. Vale a pena notar aqui o papel que a escassez desempenhou<\/span><span data-path-to-node=\"10,6\">. Com as minas operando cada vez mais fundo e as florestas tombando sob o machado, foi necess\u00e1ria uma aplica\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel de engenho t\u00e9cnico para manter a produ\u00e7\u00e3o funcionando<\/span><span data-path-to-node=\"10,8\">. O complexo carv\u00e3o-vapor-ferro surgiu da escassez de recursos naturais, mas, ao mesmo tempo, produziu uma natureza totalmente diferente[7]<\/span><span data-path-to-node=\"10,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-525\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"11\"><span data-path-to-node=\"11,0\">Essa segunda natureza, embora em alguns aspectos constitua um terreno mais abstrato, possu\u00eda, contudo, certas vulnerabilidades que podiam ser revertidas em vantagem por uma classe trabalhadora em ascens\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"11,2\">. O que tornava a greve uma arma eficaz era o fato de a ind\u00fastria depender do fluxo constante de recursos \u2014 de carv\u00e3o, de mat\u00e9rias-primas e de produtos acabados que corriam para o mercado<\/span><span data-path-to-node=\"11,4\">. Esses fluxos podiam ser interrompidos em pontos de estrangulamento [choke points] cruciais<\/span><span data-path-to-node=\"11,6\">. A segunda natureza era uma rede delgada \u2014 portos e ferrovias \u2014 de coisas grandes \u2014 minas e f\u00e1bricas \u2014 e podia ser paralisada em seu elo mais fraco<\/span><span data-path-to-node=\"11,8\">. O trabalho organizado alcan\u00e7ou suas vit\u00f3rias \u2014 a jornada de oito horas, o direito de sindicaliza\u00e7\u00e3o, o sufr\u00e1gio universal, o Estado de bem-estar social, inclusive a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro \u2014 n\u00e3o tanto por meio de alguma ideologia ou forma organizacional, mas pelo uso real ou potencial desse poder de paralisar a infraestrutura da segunda natureza[8]<\/span><span data-path-to-node=\"11,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-526\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"12\"><span data-path-to-node=\"12,0\">Se a tecnologia a partir da qual a segunda natureza foi edificada foi primeiramente industrial e depois militar, no caso da terceira natureza ocorreu o inverso<\/span><span data-path-to-node=\"12,2\">. A Segunda Guerra Mundial foi a grande incubadora da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, que posteriormente desempenhou um papel significativo tamb\u00e9m na Guerra Fria<\/span><span data-path-to-node=\"12,4\">. Do projeto de produtos complexos ao controle de estoques e \u00e0 log\u00edstica de distribui\u00e7\u00e3o, a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o inicialmente viabilizou formas industriais de organiza\u00e7\u00e3o em escala ampliada<\/span><span data-path-to-node=\"12,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_f609ac1d699e31c0-527\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"13\"><span data-path-to-node=\"13,0\">Mas quando o sistema fordista de produ\u00e7\u00e3o e consumo em massa encalhou no final do s\u00e9culo XX, essa mesma tecnologia da informa\u00e7\u00e3o forneceu os meios para contornar suas limita\u00e7\u00f5es<\/span><span data-path-to-node=\"13,2\">. Em particular, reduziu drasticamente o poder do trabalho<\/span><span data-path-to-node=\"13,4\">. O poder do trabalho consistia em interromper os fluxos \u2014 da linha de montagem, das mat\u00e9rias-primas, da fonte de energia<\/span><span data-path-to-node=\"13,6\">. A tecnologia da informa\u00e7\u00e3o p\u00f4de substituir o trabalho na produ\u00e7\u00e3o e fornecer uma rede mais flex\u00edvel e redundante, que permitiria ao capital industrial deslocar seus locais de produ\u00e7\u00e3o para longe da milit\u00e2ncia sindical, ou desviar os fluxos de materiais de potenciais bloqueios<\/span><span data-path-to-node=\"13,8\">. Esta \u00e9 a era da automa\u00e7\u00e3o, da desqualifica\u00e7\u00e3o [deskilling] e da f\u00e1brica fugitiva [runaway factory] [10]<\/span><span data-path-to-node=\"13,10\">. Esse foi o lado avesso das f\u00e1bulas hist\u00f3ricas da sociedade da informa\u00e7\u00e3o como o fim da luta de classes<\/span><span data-path-to-node=\"13,12\">.<\/span><\/p>\n<p><strong>A Classe Vetorialista<\/strong><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-608\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\"><span data-path-to-node=\"3,0\">A derrota do trabalho teve um pre\u00e7o para a classe capitalista<\/span><span data-path-to-node=\"3,2\">. Significava ceder parte de seu poder a um novo tipo de classe dominante \u2014 uma classe que n\u00e3o dependia mais da terra ou da ind\u00fastria como fonte de riqueza<\/span><span data-path-to-node=\"3,4\">. Seu ativo de classe era a pr\u00f3pria informa\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"3,6\">. Se a separa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 terra produziu o terreno abstrato da segunda natureza, a separa\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria produziu um terreno ainda mais abstrato: a terceira natureza<\/span><span data-path-to-node=\"3,8\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-609\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\"><span data-path-to-node=\"4,0\">O capital derrotou o trabalho<\/span><span data-path-to-node=\"4,2\">. Costuma-se chamar essa \u00e9poca de \u201cneoliberalismo\u201d, mas tal termo obscurece mais do que explica<\/span><span data-path-to-node=\"4,4\">. Ideias n\u00e3o fazem a hist\u00f3ria, e certamente n\u00e3o ressuscitam ou estendem velhas ideias por si mesmas<\/span><span data-path-to-node=\"4,6\">. Como foi poss\u00edvel contornar materialmente a for\u00e7a do trabalho?<\/span><span data-path-to-node=\"4,8\"> Isso tem a ver com os poderes de um novo tipo de terreno, operando sobre um novo tipo de infraestrutura<\/span><span data-path-to-node=\"4,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-610\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\"><span data-path-to-node=\"5,0\">A segunda natureza ainda \u00e9 bastante topogr\u00e1fica, pois a localiza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria ainda permanece vinculada a caracter\u00edsticas da paisagem, como portos naturais ou dep\u00f3sitos de carv\u00e3o e ferro<\/span><span data-path-to-node=\"5,2\">. A terceira natureza \u00e9 consideravelmente mais <em>topol\u00f3gica<\/em>, na medida em que a densa rede de informa\u00e7\u00f5es que recobre o territ\u00f3rio permite que a paisagem seja esticada, comprimida, dobrada e torcida em novas formas \u2014 ao menos para fins de atividade econ\u00f4mica<\/span><span data-path-to-node=\"5,4\">. Ela se transforma em uma densa rede de coisas muito mais tempor\u00e1rias<\/span><span data-path-to-node=\"5,6\">. O mundo l\u00edquido da segunda natureza, com seus fluxos canalizados de capital, trabalho, energia, recursos e mercadorias, efetivamente se vaporiza em um novo estado, um tanto mais gasoso<\/span><span data-path-to-node=\"5,8\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-611\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\"><span data-path-to-node=\"6,0\">A terceira natureza torna-se um envelope de fluxos de informa\u00e7\u00e3o que duplica n\u00e3o apenas a paisagem natural, mas tamb\u00e9m a segunda natureza<\/span><span data-path-to-node=\"6,2\">. Ela ainda possui alguns la\u00e7os com a topografia, \u00e9 claro<\/span><span data-path-to-node=\"6,4\">. As velhas cidades da segunda natureza tornam-se centros de informa\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"6,6\">. Os vastos <i data-path-to-node=\"6,6\" data-index-in-node=\"12\">data centers<\/i> que continuariam a crescer rapidamente no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI ainda exigem grandes quantidades de energia e acesso a \u00e1gua para resfriamento<\/span><span data-path-to-node=\"6,8\">. Mas toda essa nova infraestrutura tamb\u00e9m produz um espa\u00e7o topol\u00f3gico no qual a informa\u00e7\u00e3o passa a controlar a movimenta\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o dos recursos industriais, que por sua vez comandam a extra\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais<\/span><span data-path-to-node=\"6,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-612\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\"><span data-path-to-node=\"7,0\">Tudo o que era s\u00f3lido e depois l\u00edquido finalmente se desmancha no ar<\/span><span data-path-to-node=\"7,2\">. O espa\u00e7o torna-se uma topologia na qual qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro<\/span><span data-path-to-node=\"7,4\">. Uma linha de atividade econ\u00f4mica converte-se em um vetor, no sentido de que pode, em princ\u00edpio, ser direcionada para qualquer lugar<\/span><span data-path-to-node=\"7,6\">. Conecte um fornecedor de materiais a um local de processamento por meio de um <em>vetor<\/em><\/span><span data-path-to-node=\"7,8\">. Se o fornecimento se tornar err\u00e1tico, mova o vetor para se conectar com um fornecedor diferente<\/span><span data-path-to-node=\"7,10\">. Se a m\u00e3o de obra no local de processamento se tornar dif\u00edcil, mova o vetor novamente, conectando o novo fornecedor a um novo local de processamento<\/span><span data-path-to-node=\"7,12\">. Se a empresa capitalista que realiza o processamento exigir lucros excessivos, mude para outra[11]<\/span><span data-path-to-node=\"7,14\">. Manuel Castells descreve essa transi\u00e7\u00e3o como a passagem de um espa\u00e7o de lugares para um espa\u00e7o de fluxos, ou aquilo que chamo de terceira natureza<\/span><span data-path-to-node=\"7,16\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-613\" data-path-to-node=\"8\"><span data-path-to-node=\"8,0\">N\u00e3o \u00e9 apenas o trabalho que perde seu poder no terreno da terceira natureza; o mesmo acontece com a classe capitalista<\/span><span data-path-to-node=\"8,2\">. Aqui, o capital deve ser entendido no sentido espec\u00edfico da classe propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"8,4\">. Em muitos casos, este j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o <i data-path-to-node=\"8,4\" data-index-in-node=\"35\">locus<\/i> do poder<\/span><span data-path-to-node=\"8,6\">. O vetor pode contornar n\u00e3o apenas o trabalho, mas tamb\u00e9m o capital<\/span><span data-path-to-node=\"8,8\">. A classe que ascende ao poder sobre o trabalho e o capital \u00e9 a classe vetorialista <\/span><span data-path-to-node=\"8,10\">. Ela n\u00e3o controla mais a terra ou a ind\u00fastria, controla apenas a informa\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"8,12\">. Ela n\u00e3o reivindica sua parcela do excedente sob a forma de renda ou lucro, mas sim como<em> juros<\/em> [12]<\/span><span data-path-to-node=\"8,14\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-614\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"9\"><span data-path-to-node=\"9,0\">A forma mais antiga da classe vetorialista s\u00e3o as finan\u00e7as, mas no passado seu poder sempre foi relativo<\/span><span data-path-to-node=\"9,2\">. A segunda natureza n\u00e3o oferecia suporte para o uso da informa\u00e7\u00e3o como meio de controle absoluto<\/span><span data-path-to-node=\"9,4\">. \u00c9 somente com a produ\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura na qual a informa\u00e7\u00e3o se descolou de seus estratos materiais \u2014 podendo ser canalizada com efici\u00eancia para qualquer lugar do planeta, armazenada a um custo insignificante e processada facilmente em padr\u00f5es complexos \u2014 que a classe vetorialista assume o primeiro plano<\/span><span data-path-to-node=\"9,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-615\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"10\"><span data-path-to-node=\"10,0\">As finan\u00e7as encontram-se agora unidas a outros tipos de controle baseados na informa\u00e7\u00e3o: desde o controle de patentes, direitos autorais e marcas registradas at\u00e9 o controle de cadeias de suprimentos por meio da log\u00edstica, o controle da distribui\u00e7\u00e3o espacial de recursos atrav\u00e9s de SIG (Sistemas de Informa\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica) ou, mais recentemente, o controle do acesso a informa\u00e7\u00f5es sobre o cen\u00e1rio mut\u00e1vel de pessoas e coisas, tornando todos eles endere\u00e7\u00e1veis<\/span><span data-path-to-node=\"10,2\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-616\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"11\"><span data-path-to-node=\"11,0\">O poder da classe vetorialista reside na acumula\u00e7\u00e3o de juros, o que neste contexto significa n\u00e3o apenas o retorno financeiro do investimento em informa\u00e7\u00e3o, mas a captura de qualquer informa\u00e7\u00e3o excedente obtida por meio de trocas desiguais de informa\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"11,2\">. Seu poder \u00e9 agora global<\/span><span data-path-to-node=\"11,4\">. Baseada principalmente no mundo superdesenvolvido da Europa e dos Estados Unidos, a classe vetorial prospera extraindo informa\u00e7\u00e3o excedente em escala global, raramente detendo a propriedade direta dos meios de produ\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"11,6\">. A fabrica\u00e7\u00e3o real das coisas pode ser inteiramente terceirizada<\/span><span data-path-to-node=\"11,8\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_3c4e488dbd2d9ac1-617\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"12\"><span data-path-to-node=\"12,0\">\u00c9 claro que os produtores capitalistas contestam o poder vetorial, mas fazem-no principalmente tentando obter eles pr\u00f3prios o acesso ao controle da informa\u00e7\u00e3o \u2014 escapando, assim, da ind\u00fastria capitalista e transformando-se tamb\u00e9m em vetorialistas<\/span><span data-path-to-node=\"12,2\">. Primeiro no Jap\u00e3o, depois na Coreia e mais tarde na China, as empresas manufatureiras tentaram adquirir o poder simb\u00f3lico das marcas, as patentes de processos tecnol\u00f3gicos sofisticados e a efici\u00eancia de cadeias de suprimentos e do trabalho controlados por dados, a fim de se desvencilharem do fardo de possuir os meios de produ\u00e7\u00e3o mais rotineiros<\/span><span data-path-to-node=\"12,4\">.<\/span><\/p>\n<p><strong>A Classe Hacker<\/strong><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-684\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\"><span data-path-to-node=\"3,0\">A classe vetorial permitiu que a classe capitalista derrotasse o trabalho, mas a classe vetorialista tem seus pr\u00f3prios problemas com uma classe subordinada<\/span><span data-path-to-node=\"3,2\">. Seu problema n\u00e3o \u00e9 dominar a classe que <em>forma<\/em>\u00a0a natureza, ou que <em>transforma<\/em> a segunda natureza, mas a que <em>informa<\/em> a terceira natureza<\/span><span data-path-to-node=\"3,4\">. Vamos cham\u00e1-los de classe <em>hacker<\/em><\/span><span data-path-to-node=\"3,6\">. A extra\u00e7\u00e3o de juros das trocas desiguais de informa\u00e7\u00e3o requer a produ\u00e7\u00e3o constante de nova informa\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"3,8\">. A produ\u00e7\u00e3o de nova informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a tarefa da classe hacker<\/span><span data-path-to-node=\"3,10\">. O fato de essa produ\u00e7\u00e3o ocorrer dentro de uma rela\u00e7\u00e3o de classe decorre da conten\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de nova informa\u00e7\u00e3o em vers\u00f5es rec\u00e9m-elaboradas da forma da propriedade privada<\/span><span data-path-to-node=\"3,12\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-685\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\"><span data-path-to-node=\"4,0\">Ao longo do final do s\u00e9culo XX, a chamada propriedade intelectual emergiu dos tradicionais direitos autorais e patentes e gradualmente tornou-se, essencialmente, um conjunto de direitos de propriedade totalmente privados<\/span><span data-path-to-node=\"4,2\">. A produ\u00e7\u00e3o de nova informa\u00e7\u00e3o enquanto informa\u00e7\u00e3o baseia-se em uma separa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do fluxo de informa\u00e7\u00e3o de seu substrato material, de modo que, embora a informa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o possua exist\u00eancia fora de um substrato material, sua rela\u00e7\u00e3o com esse substrato torna-se abstrata<\/span><span data-path-to-node=\"4,4\">. O potencial desse desenvolvimento \u00e9 ent\u00e3o restringido e canalizado por meio de desdobramentos da forma da propriedade privada<\/span><span data-path-to-node=\"4,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-686\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\"><span data-path-to-node=\"5,0\">Mas a produ\u00e7\u00e3o de propriedade intelectual, como a produ\u00e7\u00e3o de qualquer coisa, requer coopera\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o<\/span><span data-path-to-node=\"5,2\">. A fonte de toda a produ\u00e7\u00e3o passa pelo que \u00e9 comum [commons]<\/span><span data-path-to-node=\"5,4\">. Assim como o propriet\u00e1rio de terras em rela\u00e7\u00e3o ao agricultor, e o capitalista em rela\u00e7\u00e3o ao trabalhador, a classe vetorialista tem que separar a classe hacker daquilo que seus esfor\u00e7os compartilhados realizam<\/span><span data-path-to-node=\"5,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-687\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\"><span data-path-to-node=\"6,0\">Mais uma vez, o bem comum [commons] \u00e9 cercado [enclosed] ou retido como uma esfera subordinada da qual a mercantiliza\u00e7\u00e3o extrai suas reservas<\/span><span data-path-to-node=\"6,2\">. A diferen\u00e7a desta vez \u00e9 que o bem comum \u00e9 potencialmente compartilh\u00e1vel ao infinito<\/span><span data-path-to-node=\"6,4\">. A terra ou os bens materiais podem ser escassos, mas a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas artificialmente escassa em uma era de custos de c\u00f3pia e arquivamento em queda livre<\/span><span data-path-to-node=\"6,6\">. Da\u00ed que um dos grandes movimentos sociais do final do s\u00e9culo XX em diante se dedique a tornar a informa\u00e7\u00e3o comum<\/span><span data-path-to-node=\"6,8\">. A informa\u00e7\u00e3o quer ser livre, mas est\u00e1 por toda parte acorrentada<\/span><span data-path-to-node=\"6,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-688\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\"><span data-path-to-node=\"7,0\">A liberdade com e da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a utopia da classe hacker<\/span><span data-path-to-node=\"7,2\">. Vale a pena mencionar quatro estrat\u00e9gias para controlar a classe hacker<\/span><span data-path-to-node=\"7,4\">. Em primeiro lugar, a aristocracia hacker: um pequeno quadro \u00e9 encorajado a se ver n\u00e3o como parte de uma classe, mas como membro de uma elite<\/span><span data-path-to-node=\"7,6\">. Eles s\u00e3o generosamente recompensados e, \u00e0s vezes, compartilham uma participa\u00e7\u00e3o na empresa vetorialista por meio de op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es ou b\u00f4nus<\/span><span data-path-to-node=\"7,8\">. Em segundo lugar, a rotiniza\u00e7\u00e3o: a pr\u00f3pria infraestrutura vetorial \u00e9 projetada para separar algumas posi\u00e7\u00f5es especializadas de controle do trabalho de rotina, por sua vez fragmentado em partes discretas<\/span><span data-path-to-node=\"7,10\">. A programa\u00e7\u00e3o orientada a objetos, por exemplo, \u00e9 projetada dessa maneira<\/span><span data-path-to-node=\"7,12\">. Em terceiro lugar, o <i data-path-to-node=\"7,12\" data-index-in-node=\"23\">in-sourcing<\/i> [internaliza\u00e7\u00e3o de trabalho gratuito]<\/span><span data-path-to-node=\"7,14\">. Se o <i data-path-to-node=\"7,14\" data-index-in-node=\"7\">outsourcing<\/i> [terceiriza\u00e7\u00e3o] transfere o emprego de um trabalhador para o exterior, para outro trabalhador, o <i data-path-to-node=\"7,14\" data-index-in-node=\"116\">in-sourcing<\/i> atribui a tarefa do hacker a qualquer pessoa que a realize de gra\u00e7a<\/span><span data-path-to-node=\"7,16\">. Assim, o esfor\u00e7o cooperativo e o bem comum da informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratados, eles pr\u00f3prios, como um recurso do qual se extrai juros<\/span><span data-path-to-node=\"7,18\">. Por fim, se tudo o mais falhar, o hacker pode ser criminalizado, preso ou for\u00e7ado ao ex\u00edlio<\/span><span data-path-to-node=\"7,20\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-689\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"8\"><span data-path-to-node=\"8,0\">A domina\u00e7\u00e3o do hacker pelo vetorialista est\u00e1 inscrita no pr\u00f3prio design da infraestrutura dentro da qual a classe hacker opera<\/span><span data-path-to-node=\"8,2\">. Essa domina\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m da domina\u00e7\u00e3o superestrutural pela ideologia do capitalista sobre o trabalhador, ou da domina\u00e7\u00e3o pela religi\u00e3o do propriet\u00e1rio de terras sobre o agricultor<\/span><span data-path-to-node=\"8,4\">. De fato, todas as classes concorrentes t\u00eam que operar dentro de uma infraestrutura cada vez mais projetada segundo as especifica\u00e7\u00f5es da classe vetorial, que n\u00e3o apenas subordina a classe hacker a ela, mas tamb\u00e9m todas as outras classes<\/span><span data-path-to-node=\"8,6\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-690\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"9\"><span data-path-to-node=\"9,0\">Em suma, ent\u00e3o, a hist\u00f3ria dos modos de produ\u00e7\u00e3o mercantilizados pode ser pensada como passando por tr\u00eas est\u00e1gios sobrepostos, cada um dos quais acarreta uma bifurca\u00e7\u00e3o em duas classes que polarizam o campo social<\/span><span data-path-to-node=\"9,2\">. Em cada est\u00e1gio, esse campo tem uma certa qualidade<\/span><span data-path-to-node=\"9,4\">. A ascens\u00e3o da ind\u00fastria e a luta entre trabalhador e capitalista produzem uma topografia mais abstrata, uma segunda natureza<\/span><span data-path-to-node=\"9,6\">. A ascens\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e a luta entre hacker e vetorialista produzem uma topologia ainda mais abstrata, uma terceira natureza<\/span><span data-path-to-node=\"9,8\">. Esse espa\u00e7o torna-se uma topologia global em que quase qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro, mobilizando recursos em escala planet\u00e1ria<\/span><span data-path-to-node=\"9,10\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-691\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"10\"><span data-path-to-node=\"10,0\">Em cada est\u00e1gio, o campo do conflito de classes pode ter uma certa polaridade entre classes dominantes e dominadas, mas todas as classes das tr\u00eas \u201cnaturezas\u201d interagem, como se estivessem em um jogo de xadrez tridimensional<\/span><span data-path-to-node=\"10,2\">. Em muitos casos, o principal conflito de classe pode ocorrer entre diferentes classes dominantes<\/span><span data-path-to-node=\"10,4\">. A unidade das tr\u00eas classes dominadas tamb\u00e9m nunca pode ser garantida<\/span><span data-path-to-node=\"10,6\">. Elas n\u00e3o s\u00e3o uma multid\u00e3o, mas classes distintas com diferentes fun\u00e7\u00f5es no processo produtivo<\/span><span data-path-to-node=\"10,8\">.<\/span><\/p>\n<p id=\"p-rc_347298bef43663d1-692\" style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"11\"><span data-path-to-node=\"11,0\">Com esse entendimento em m\u00e3os, \u00e9 poss\u00edvel reformular um debate um tanto confuso sobre se devemos imaginar a mudan\u00e7a hist\u00f3rica em termos de uma for\u00e7a que negaria o impulso implac\u00e1vel da mercantiliza\u00e7\u00e3o, ou melhor, que o <em>aceleraria<\/em> em dire\u00e7\u00e3o ao seu fim<\/span><span data-path-to-node=\"11,2\">. Nenhum dos dois caminhos, como veremos, oferece muito em nossos tempos para renovar a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/span><span data-path-to-node=\"11,4\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"3\">Particularmente na tradi\u00e7\u00e3o marxista ocidental ou hegeliana, o proletariado \u00e9 concebido como uma for\u00e7a que supostamente nega o capital[13]. O proletariado irromperia de dentro da forma-mercadoria que o aprisiona enquanto um &#8220;outro&#8221; e, assim, realizaria sua plena subjetividade e humanidade universal. O ato particular de bloqueio que constitui a greve seria, portanto, um precursor ou um modelo liminar para se pensar o bloqueio total como um ato de vontade do proletariado enquanto sujeito revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria, erguendo-se e recusando sua pr\u00f3pria objetifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"4\">Com o fracasso das revolu\u00e7\u00f5es do final dos anos 1960, Deleuze, Guattari, Lyotard e Negri come\u00e7aram a pensar mais em termos de uma acelera\u00e7\u00e3o do capitalismo rumo ao seu fim[14]. Isso foi, na verdade, uma franca admiss\u00e3o da fraqueza do trabalho e da perda de seu poder de bloquear e paralisar \u2014 quanto mais de negar totalmente \u2014 os fluxos da vida mercantilizada. A ideia consistia, ao contr\u00e1rio, em levar o desenvolvimento do capitalismo ao seu limite absoluto, o que de fato parecia estar ocorrendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"5\">Para seus detratores, o aceleracionismo\u00a0cheira excessivamente ao muito ridicularizado (embora nunca claramente explicado) outro mal de nossa \u00e9poca: o neoliberalismo. Soa demasiado pr\u00f3ximo \u00e0 ideologia que, em nossos termos, pertence a uma fra\u00e7\u00e3o da classe vetorialista \u2014 aquela que afirma girar em torno do <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"324\">\u201ctech\u201d<\/i> e que deseja articular, romper e, de modo geral, destruir criativamente o mundo por pura divers\u00e3o e lucro. No entanto, pode-se apontar que, sob diferentes roupagens, essa ideologia tamb\u00e9m trata da nega\u00e7\u00e3o. Ocorre que a ascend\u00eancia da classe vetorialista visa a destruir os \u00faltimos vest\u00edgios de poder <em>tanto<\/em> do capital <em>quanto<\/em> do trabalho, subordinando ambos ao controle por meio da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"6\">O problema \u00e9 que tanto a nega\u00e7\u00e3o quanto a acelera\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas limitadas de imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A nega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma figura que pressup\u00f5e a exist\u00eancia de apenas uma segunda natureza: haveria apenas o capital e sua nega\u00e7\u00e3o pelo proletariado. A acelera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma figura que pressup\u00f5e existir apenas uma terceira natureza: haveria apenas a abstra\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da segunda natureza. N\u00e3o se trata de uma forma de imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que tenha compreendido o desenvolvimento de novas rela\u00e7\u00f5es de classe neste terreno espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"7\">Tanto a nega\u00e7\u00e3o quanto a acelera\u00e7\u00e3o negligenciam o problema dos limites impostos \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da natureza pela segunda e pela terceira natureza. A imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da nega\u00e7\u00e3o fetichiza o social, como se este n\u00e3o estivesse incorporado tanto na natureza quanto na t\u00e9cnica. A imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da acelera\u00e7\u00e3o, em suas vers\u00f5es pioneiras, fetichiza o desejo e, em suas itera\u00e7\u00f5es posteriores, uma racionalidade t\u00e9cnica. O desejo nunca \u00e9 pensado em conjunto com a necessidade; a racionalidade nunca \u00e9 pensada atrav\u00e9s da forma de propriedade e, portanto, atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es de classe em que ela se manifesta na terceira natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"8\">Nenhuma das duas vertentes tinha muito a dizer sobre as vastas <em>fendas metab\u00f3licas<\/em> [metabolic rifts] que se abrem pela opera\u00e7\u00e3o da segunda e da terceira natureza em seu substrato natural[15]. A mais conhecida delas refere-se aos fluxos moleculares de di\u00f3xido de carbono e metano na atmosfera, causados por combust\u00edveis f\u00f3sseis e pela pecu\u00e1ria. O desenvolvimento intensivo da segunda natureza, seguido pelo dom\u00ednio de todos e quaisquer recursos do mundo que a terceira natureza viabiliza, provoca uma retroalimenta\u00e7\u00e3o entr\u00f3pica em todo o processo global de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o[16]. De fato, a classe vetorialista agora se alimenta da pr\u00f3pria desordem entr\u00f3pica que produz. Por conseguinte, a hist\u00f3ria humana, social e t\u00e9cnica j\u00e1 n\u00e3o pode ser imaginada de forma independente da hist\u00f3ria natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"9\">Somente uma alian\u00e7a de todas as classes subordinadas poderia aspirar a enfrentar esse desenvolvimento potencialmente catastr\u00f3fico da terceira natureza sob o dom\u00ednio da classe vetorialista. Tal alian\u00e7a precisaria identificar com clareza novas vulnerabilidades, j\u00e1 que poucos dos antigos pontos de estrangulamento da f\u00e1brica (ou mesmo da \u201cf\u00e1brica social\u201d da cidade) s\u00e3o capazes de \u201cdescarrilar\u201d um poder que n\u00e3o depende de trilhos, mas da topologia muito mais flex\u00edvel do vetor de informa\u00e7\u00e3o. Pode ter sido simb\u00f3lica e poeticamente \u00fatil dizer \u201cOcupe Wall Street\u201d \u2014 mas isso \u00e9 consideravelmente mais dif\u00edcil de realizar na pr\u00e1tica. Como se ocupa uma abstra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"10\">Pensar a hist\u00f3ria em termos de nega\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o deixa demasiadas coisas fora do quadro. S\u00e3o vis\u00f5es que n\u00e3o apenas negligenciam certas caracter\u00edsticas-chave da terceira natureza, mas tamb\u00e9m perdem o que h\u00e1 de crucial em nossos tempos sobre a pr\u00f3pria natureza. A era da terceira natureza \u00e9 aquela que comanda n\u00e3o apenas toda a segunda natureza como um recurso, mas tamb\u00e9m toda a natureza propriamente dita. Al\u00e9m disso, a natureza inteira torna-se o escape, o dissipador de calor, a lixeira para todos os res\u00edduos entr\u00f3picos de uma escala agora planet\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o social abstrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"11\">E se a hist\u00f3ria n\u00e3o puder ser nem negada nem acelerada? Talvez a segunda e a terceira natureza tenham sido edificadas de forma t\u00e3o ampla e profunda que n\u00e3o haja como contornar essa infraestrutura. Assim, enquanto a economia mercantil continua a avan\u00e7ar em seu pr\u00f3prio ritmo implac\u00e1vel, ela molda agentes de qualquer classe \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem e os obriga a trabalhar nas formas por ela determinadas. E se at\u00e9 mesmo a classe vetorialista tivesse escasso poder sobre sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"12\">Isso equivaleria a pensar, ent\u00e3o, na <em>in\u00e9rcia<\/em> da hist\u00f3ria. Jean-Paul Sartre oferece um relato brilhante disso em sua linguagem distinta, aqui transposta para o vocabul\u00e1rio deste texto[17]. O esfor\u00e7o social coletivo \u2014 primeiro na agricultura, depois na ind\u00fastria e, em seguida, na informa\u00e7\u00e3o \u2014 ergueu uma infraestrutura acima e contra si mesmo, enquadrando tais esfor\u00e7os cont\u00ednuos em suas formas calcificadas. Tudo o que \u00e9 s\u00f3lido pode se dissolver no ar, mas precipita-se do estado gasoso para o estado s\u00f3lido novamente como &#8220;mais do mesmo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"13\">A forma-mercadoria compele o trabalho a criar n\u00e3o apenas o produto do momento, mas uma infraestrutura duradoura que traz a forma-mercadoria embutida em si mesma. Assim, ela molda a a\u00e7\u00e3o por dentro e atrav\u00e9s dela, em sua pr\u00f3pria forma, despojando o esfor\u00e7o coletivo de seu car\u00e1ter social e roubando-lhe a capacidade de transform\u00e1-la. A a\u00e7\u00e3o torna-se, mesmo enquanto a\u00e7\u00e3o, uma forma de <em>passividade<\/em> na qual cada ato aparece separado de todos os outros, como mera a\u00e7\u00e3o individual para a qual s\u00f3 pode haver recompensas individuais.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"14\">Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nega\u00e7\u00e3o, pois a infraestrutura em si n\u00e3o oferece margem para uma a\u00e7\u00e3o que possa enfrent\u00e1-la mediante uma ruptura qualitativa em sua forma. E, por isso, n\u00e3o h\u00e1 acelera\u00e7\u00e3o, uma vez que as infraestruturas de segunda e terceira natureza determinam o ritmo em que a mudan\u00e7a deve acontecer e, al\u00e9m disso, moldam essa mudan\u00e7a como simplesmente mais do mesmo. A acelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais capaz de produzir uma ruptura qualitativa do que a nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"15\">Tal par\u00e1frase de Sartre \u00e9 t\u00e3o sombria quanto o original, ainda que n\u00e3o se valha exatamente de sua mesma e rica linguagem. Sartre alimentava alguma esperan\u00e7a em um tipo de a\u00e7\u00e3o que fundiria as vontades individuais e as arrancaria da separa\u00e7\u00e3o solipsista e desconexa em que se encontram. Para Sartre, trata-se do grupo em fus\u00e3o [groupe en fusion] \u2014 uma ideia que reaparece de forma modificada como o momento subjetivo em Guattari ou o evento gerador de sujeito em Badiou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"16\">Seja como for, essa linha de pensamento sobre a a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ainda aposta fortemente em uma ag\u00eancia humana coletiva, ou mesmo em uma racionalidade p\u00f3s-humana, operando por dentro e contra uma infraestrutura cuja pr\u00f3pria forma absorve e torna inerte tal atividade. O paradoxo da terceira natureza reside, portanto, no fato de que ela efetivamente acelera e prolifera transa\u00e7\u00f5es de tipo mercantilizado, mas sempre do mesmo tipo. A flexibilidade e a precariedade que ela gera na superf\u00edcie s\u00e3o efeitos de uma profunda e abrangente imobilidade infraestrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"17\">\u00c9 aqui que a capacidade disruptiva do esfor\u00e7o coletivo \u2014 seja a revolta dos agricultores, a greve dos trabalhadores ou o <i data-path-to-node=\"17\" data-index-in-node=\"121\">exploit<\/i> do hacker \u2014 deve ser reconhecida como uma vis\u00e3o limitada e unilateral da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica[18]. O que nos conduz a um quarto termo, impl\u00edcito como uma lacuna deixada na matriz dos outros tr\u00eas. Se a tentativa de negar ou acelerar a hist\u00f3ria esbarra na in\u00e9rcia da infraestrutura sobre a qual ela opera, ent\u00e3o talvez n\u00e3o se trate de frear ou acelerar essa infraestrutura, mas de <em>projetar outra diferente<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"18\">As infraestruturas de segunda e terceira natureza assumiram a forma da troca de mercadorias e a incorporaram a todos os aspectos da vida cotidiana. O design de algo diferente precisa buscar outro ponto de partida. Talvez a hist\u00f3ria natural das formas possa aqui socorrer a hist\u00f3ria social das formas, agora que estas se tornaram clones infind\u00e1veis e servidores de uma \u00fanica forma \u2014 a de uma natureza cada vez mais abstrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"19\">Este \u00e9 um caminho perigoso, pois \u00e9 quase imposs\u00edvel evitar projetar de volta sobre as formas naturais os h\u00e1bitos de pensamento da segunda natureza e, agora, da terceira natureza. Na era industrial, o capitalismo liberal e a m\u00e1quina a vapor moldaram a imagem da natureza como um livre mercado darwiniano. Em nosso tempo, o vetorialismo neoliberal e o computador moldam uma imagem diferente da natureza, mas nem por isso menos ideol\u00f3gica: n\u00e3o se trata de substituir as imagens do mundo da produ\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria natureza vista como uma disputa pequeno-burguesa de \u201cgenes ego\u00edstas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"20\">O que significaria, pois, compreender a natureza do ponto de vista n\u00e3o das classes dominantes, mas dos dominados? Pensar a natureza como o agricultor, o trabalhador ou o hacker a pensam, ou seja, como pr\u00e1ticas simbi\u00f3ticas de transforma\u00e7\u00e3o, respectivamente, de mat\u00e9ria, energia e informa\u00e7\u00e3o? Seria poss\u00edvel utilizar as lutas coletivas dos tr\u00eas est\u00e1gios da economia mercantil para criticar as vis\u00f5es de mundo dominantes que surgiram sobre a natureza, mas indo al\u00e9m delas? A tarefa da imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 seguir em frente, procurando <em>extrapolar<\/em> a partir daquilo que se pode saber sobre as formas naturais e as poss\u00edveis morfologias para o desenho de uma nova infraestrutura[19].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"21\">Assim, as m\u00e1s not\u00edcias: o rolo compressor que \u00e9 a terceira natureza n\u00e3o pode ser negado, pois sua pr\u00f3pria forma \u00e9 dedicada a contornar quaisquer pontos espec\u00edficos nos quais a a\u00e7\u00e3o pudesse ser eficaz. Tampouco pode ser acelerado. N\u00e3o h\u00e1 classe subordinada em posi\u00e7\u00e3o de pression\u00e1-lo a ir mais longe ou mais r\u00e1pido do que ele j\u00e1 vai por conta pr\u00f3pria. Pensar a hist\u00f3ria do ponto de vista do produto, e n\u00e3o dos produtores, inverte o quadro e mostra que o peso cumulativo que o esfor\u00e7o coletivo edificou \u00e9 a pedra no caminho para a sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-path-to-node=\"22\">O que nos deixa unicamente com a op\u00e7\u00e3o de reconfigur\u00e1-lo em tempo real. Isso exigiria uma a\u00e7\u00e3o colaborativa entre as classes subordinadas. As diferen\u00e7as entre essas classes n\u00e3o podem ser eliminadas sob o r\u00f3tulo gen\u00e9rico de multid\u00e3o, nem pela imposi\u00e7\u00e3o por decreto de algum tipo de universalismo filos\u00f3fico. Significa uma abordagem voltada para a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es que diz respeito mais a agentes econ\u00f4micos do que meramente pol\u00edticos, ao contr\u00e1rio do que ocorre na maioria das vers\u00f5es da democracia radical[20]. \u00c9 hora de construir uma nova infraestrutura por entre as ru\u00ednas da antiga.<\/p>\n<p><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"3\">[1] Karl Marx e Friedrich Engels, \u201cManifesto of the Communist Party,\u201d em Karl Marx, <i data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"84\">The Revolutions of 1848<\/i> (London: Verso, 2010), p. 70. Ver tamb\u00e9m: Marshall Berman, <i data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"167\">All That Is Solid Melts Into Air: The Experience of Modernity<\/i> (New York: Penguin, 1988) [Tudo o que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar: a aventura da modernidade].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"4\">[2] Richard Barbrook, <i data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"22\">Imaginary Futures: From Thinking Machines to the Global Village<\/i> (London: Pluto Press, 2007).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">[3] Embora esse tenha sido o caminho percorrido em meu <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"55\">A Hacker Manifesto<\/i> (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004) [Um Manifesto Hacker]. Ver tamb\u00e9m: Richard Barbrook, <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"175\">The Class of the New<\/i> (London: Mute, 2006), sobre as v\u00e1rias tentativas anteriores de reimaginar a classe.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">[4] Ver, por exemplo: Dennis Altman, <i data-path-to-node=\"6\" data-index-in-node=\"37\">Oppression and Liberation<\/i> (Brisbane: University of Queensland Press, 2012); Shulamith Firestone, <i data-path-to-node=\"6\" data-index-in-node=\"134\">The Dialectic of Sex<\/i> (London: Verso, 2015) [A dial\u00e9tica do sexo]; Cedric Robinson, <i data-path-to-node=\"6\" data-index-in-node=\"217\">Black Marxism<\/i> (Chapel Hill, NC: University of North Carolina Press, 2000) [Marxismo negro].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">[5] Erik Olin Wright, <i data-path-to-node=\"7\" data-index-in-node=\"22\">Classes<\/i> (London: Verso, 1998).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"8\">[6] David Ricardo, <i data-path-to-node=\"8\" data-index-in-node=\"19\">On the Principles of Political Economy and Taxation<\/i> (Cambridge: Cambridge University Press, 1962) [Princ\u00edpios de economia pol\u00edtica e tributa\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"9\">[7] J. D. Bernal, <i data-path-to-node=\"9\" data-index-in-node=\"18\">Science in History<\/i>, Vol. 2 (Cambridge, MA: MIT Press, 1978).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"10\">[8] Timothy Mitchell, <i data-path-to-node=\"10\" data-index-in-node=\"22\">Carbon Democracy<\/i> (Brooklyn: Verso, 2013) [Democracia do carbono].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">[9] Para as economias pol\u00edticas de segunda e terceira natureza, ver respectivamente: Michel Aglietta, <i data-path-to-node=\"11\" data-index-in-node=\"102\">A Theory of Capitalist Regulation<\/i> (London: Verso, 2001); Yann Moulier Boutang, <i data-path-to-node=\"11\" data-index-in-node=\"181\">Cognitive Capitalism<\/i> (Cambridge: Polity Press, 2012) [Capitalismo cognitivo].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"12\">[10] Ver David Noble, <i data-path-to-node=\"12\" data-index-in-node=\"22\">America By Design: Science, Technology and the Rise of Corporate Capitalism<\/i> (New York: Oxford University Press, 1979).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"13\">[11] Ver Manuel Castells, <i data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"26\">Communication Power<\/i> (Oxford: Oxford University Press, 2013) [O poder da comunica\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"14\">[12] Dan Schiller, <i data-path-to-node=\"14\" data-index-in-node=\"19\">How To Think About Information<\/i> (Champaign-Urbana, IL: University of Illinois Press, 2010). O livro apresenta um excelente relato da luta para p\u00f4r fim ao monop\u00f3lio da telefonia nos Estados Unidos no final do s\u00e9culo XX, que interpreto aqui como uma tentativa fracassada de reduzir o poder de uma classe vetorialista em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">[13] Ver, por exemplo: Georg Luk\u00e1cs, <i data-path-to-node=\"15\" data-index-in-node=\"37\">History and Class Consciousness<\/i> (Cambridge, MA: MIT Press, 1972) [Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe] e Guy Debord, <i data-path-to-node=\"15\" data-index-in-node=\"151\">The Society of the Spectacle<\/i>, trad. Donald Nicholson-Smith (New York: Zone Books, 1994) [A sociedade do espet\u00e1culo]. Curiosamente, este \u00faltimo livro constitui apenas em parte uma teoria da hist\u00f3ria como nega\u00e7\u00e3o; seu cap\u00edtulo final, sobre o <i data-path-to-node=\"15\" data-index-in-node=\"391\">d\u00e9tournement<\/i> [desvio], aponta para outras dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">[14] Benjamin Noys, <i data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"20\">Malign Velocities<\/i> (Winchester: Zero Books, 2014); <i data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"70\">#Accelerate: The Accelerationist Reader<\/i>, eds. Robin Mackay e Armen Avanessian (Falmouth: Urbanomics, 2014).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\">[15] Sobre a fenda metab\u00f3lica, ver: John Bellamy Foster, <i data-path-to-node=\"17\" data-index-in-node=\"57\">Marx&#8217;s Ecology: Materialism and Nature<\/i> (New York: Monthly Review Press, 2000) [A ecologia de Marx: materialismo e natureza]; John Bellamy Foster et al., <i data-path-to-node=\"17\" data-index-in-node=\"210\">The Ecological Rift<\/i> (New York: Monthly Review Press, 2010).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\">[16] Ver Robert Biel, <i data-path-to-node=\"18\" data-index-in-node=\"22\">The Entropy of Capitalism<\/i> (Chicago: Haymarket Books, 2013).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"19\">[17] Jean-Paul Sartre, <i data-path-to-node=\"19\" data-index-in-node=\"23\">Critique of Dialectical Reason<\/i>, Vol. 1 (London: Verso, 2004) [Cr\u00edtica da raz\u00e3o dial\u00e9tica].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"20\">[18] Sobre as formas pr\u00e9-capitalistas de revolta, ver Eric Hobsbawm, <i data-path-to-node=\"20\" data-index-in-node=\"69\">Primitive Rebels<\/i> (Londres: Norton, 1965) [Rebeldes primitivos]. Sobre as formas de revolta da classe hacker, ver Alex Galloway e Eugene Thacker, <i data-path-to-node=\"20\" data-index-in-node=\"214\">The Exploit<\/i> (Minneapolis: Minnesota University Press, 2007) e Gabriella Coleman, <i data-path-to-node=\"20\" data-index-in-node=\"295\">Hacker, Hoaxer, Whistleblower, Spy<\/i> (Brooklyn: Verso, 2014) [Hacker, hoaxer, whistleblower, spy: os muitos rostos do Anonymous].<\/p>\n<p data-path-to-node=\"21\">[19] Tomo de empr\u00e9stimo o conceito de extrapola\u00e7\u00e3o de Joseph Needham, <i data-path-to-node=\"21\" data-index-in-node=\"70\">Time: The Refreshing River<\/i> (London: Allen &amp; Unwin, 1948).<\/p>\n<p data-path-to-node=\"22\">[20] Para um balan\u00e7o cl\u00e1ssico sobre a democracia radical, ver Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, <i data-path-to-node=\"22\" data-index-in-node=\"95\">Hegemony and Socialist Strategy<\/i> (London: Verso, 2014) [Hegemonia e estrat\u00e9gia socialista].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar &#8211; Sum\u00e1rio A CLASSE VETORIALISTA McKENZIE WARK *** Originalmente publicado, em duas partes, em: E-flux Journal, issue 65, May-August, p. 1-8, 2015 [1\u00b0parte]; E-flux Journal, issue 70, February, p. 1-6, 2016 [2\u00b0 parte]. Tradu\u00e7\u00e3o: Ednei de Genaro *** * * * \u201cTudo o que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_seo_schema_type":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[895419,168910787,85629,763449538,761294095,470801684,763449550,758717047,763449601,38098436,376665,20384,6031297,763449555,874082,30250554,763449557,35919,1328577,615540,762656686],"class_list":["post-5409","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia","tag-aceleracao","tag-aceleracionismo","tag-capitalismo","tag-capitalismo-esta-morto","tag-classe-hacker","tag-classe-industrial","tag-classe-latundiaria","tag-classe-vetorialista","tag-classes-antagonista","tag-disrupcao","tag-genero","tag-informacao","tag-mckenzie-wark","tag-primeira-natureza","tag-raca","tag-segunda-natureza","tag-terceira-natureza","tag-topologia","tag-topos","tag-vetor","tag-vetorialist-class"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-1pf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5409"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7429,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5409\/revisions\/7429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}