{"id":64,"date":"2010-09-26T01:45:41","date_gmt":"2010-09-26T01:45:41","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=64"},"modified":"2018-11-23T22:42:50","modified_gmt":"2018-11-23T22:42:50","slug":"memoria-ou-esquecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/memoria-ou-esquecimento\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria ou esquecimento?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Mem\u00f3ria ou esquecimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Ednei de Genaro<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Mestrando pela UFSC (2008)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/image0011.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"65\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2010\/09\/26\/memoria-ou-esquecimento\/image001-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/image0011.jpg?fit=181%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"181,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"image001\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/image0011.jpg?fit=181%2C300&amp;ssl=1\" class=\"alignleft size-full wp-image-65\" title=\"image001\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/image0011.jpg?resize=181%2C300\" alt=\"\" width=\"181\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201c\u2013 \u2018Como fazer no bicho-homem uma mem\u00f3ria? Como gravar algo indel\u00e9vel nessa intelig\u00eancia voltada para o instante, meio obtusa, meio leviana, nessa encarna\u00e7\u00e3o do esquecimento?\u2019\u2026 Esse antiqu\u00edssimo problema, pode-se imaginar\u00b4\u00b4 n\u00e3o foi resolvido exatamente com meios e respostas suaves; talvez nada exista de mais terr\u00edvel e inquietante na pr\u00e9-hist\u00f3ria do homem do que a sua mnemot\u00e9cnica\u201d (Nietzsche, em \u201cGenealogia da moral: uma pol\u00eamica\u201d; II, \u00a7 3).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Introduzimos aqui um breve coment\u00e1rio para um interessante e riqu\u00edssimo ensaio do psicanalista Adam Phillips, \u201cA mem\u00f3ria for\u00e7ada\u201d, publicado no jornal Folha de S. Paulo, 20 de novembro de 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O psicanalista afirma a problem\u00e1tica<strong>\u00a0<\/strong>motivadora do seu ensaio: a cren\u00e7a, o senso comum de que aquilo os erros do passado n\u00e3o devem ser esquecidos, devendo lembrar incessantemente, pois, caso contr\u00e1rio, fatalmente repetiremos os mesmos erros. Temos, pois, medo e temor do\u00a0<em>esquecimento<\/em>\u00a0e, por isso, persuadimos a relembrar constantemente os acontecimentos hist\u00f3ricos. Acreditamos, com isso, no mito\u00a0<em>redentor da mem\u00f3ria<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para escapar desse mito, necessitamos (re)pensar algumas ideias e entendimentos sobre mem\u00f3ria e esquecimento no homem moderno, recorrendo aos significados ps\u00edquicos de algumas no\u00e7\u00f5es centrais, tais como: experi\u00eancia, desejo, obsess\u00e3o, trauma etc.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pelo mito redentor da mem\u00f3ria criamos o pensamento de que aqueles que recordam as experi\u00eancias traum\u00e1ticas o fazem acreditando dever \u201cmanter em mente\u201d, relembrando o fato terr\u00edvel, o trauma, para supostamente mitigar ou impedir sua repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na verdade, nos diz o psicanalista, criar uma obsess\u00e3o pela mem\u00f3ria torna-se problem\u00e1tico e expressa simplesmente o teor negativo de uma doutrina, logo que o ato de lembrar vem a ser pr\u00e1ticas recorrentes de institui\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em primeiro lugar, a pergunta do psicanalista \u00e9 a seguinte: o que se deseja persuadir? Ou, o que exatamente se deseja manipular \u2013 deliberada ou acidentalmente, com suas investiga\u00e7\u00f5es e nega\u00e7\u00f5es? Enfim, que objetivo temos ao lembrar-se de certo fato? Tais perguntas s\u00e3o fundamentais, j\u00e1 que, ele escreve, \u201cvolunt\u00e1ria ou involuntariamente (\u2026) as mem\u00f3rias t\u00eam sempre um futuro na mente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cren\u00e7a nos diz tamb\u00e9m que se lembrar de coisas certas e de maneiras corretas \u00e9 comportamento de bem-estar e virtude. Mas, dentro dessa cren\u00e7a, reside uma grande d\u00favida sobre a capacidade de nossa mente\u00a0<em>memorizar<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>ser manipulada<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O car\u00e1ter negativo da mem\u00f3ria expressa com for\u00e7a a nossa sociedade contempor\u00e2nea. A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais virtuosa do que a manipula\u00e7\u00e3o. As constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, seja de qualquer car\u00e1ter ideol\u00f3gico, alimentam as perspectivas de obsess\u00e3o pela mem\u00f3ria, cegando-nos para \u201cseus abusos que ela pode sofrer e para os usos do esquecimento\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o a tal uso car\u00e1ter negativo, Phillip Adams vem exemplificar exatamente as in\u00fameras comemora\u00e7\u00f5es para lembrar o Holocausto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir da\u00ed, a pergunta subsequente passa a ser, ao inv\u00e9s de \u201co que significa enfim lembrar?\u201d, \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201co que significa esquecer?\u201d Qual a melhor maneira de esquecer? Para Adams, a natureza humana tende a esquecer as coisas que s\u00e3o fortes, que causam excesso de prazer ou sofrimento, como um trauma. O quadro geral \u00e9 de sempre estar considerando \u201caquilo que \u00e9 pass\u00edvel de esquecimento como trivial ou insuport\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ocorre que o insuport\u00e1vel ou traum\u00e1tico, em algum lugar, ocupam nossa mem\u00f3ria e \u00e9 capaz de retorno. Assim, cada pessoa realiza a separa\u00e7\u00e3o entre aquilo que \u00e9 <em>obsess\u00e3o <\/em><em>ou descarte<\/em>. No entanto, este poder de decis\u00e3o nem sempre est\u00e1 em poder da pessoa. \u201c\u00c9 esse fator, assevera Phillips, \u201ctalvez acima de todos os outros, que faz com que obrigar as pessoas a lembrarem \u2013 assim como for\u00e7\u00e1-las a comer \u2013 seja ao mesmo tempo t\u00e3o implaus\u00edvel e t\u00e3o problem\u00e1tico moralmente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Chegamos ao ponto de conclus\u00e3o cr\u00edtica do autor: a imposi\u00e7\u00e3o nas atitudes de recordar \u00e9 a forma mais cabal de calcular respostas, dar solu\u00e7\u00f5es artificiais e consumar uma \u00fanica vers\u00e3o poss\u00edvel para um trauma hist\u00f3rico. Essa \u201cmem\u00f3ria for\u00e7ada\u201d \u00e9 o valor emocional que damos ao passado, valor de medo da hist\u00f3ria, que \u00e9 pretenso \u00e0 censura de m\u00faltiplas e vari\u00e1veis interpreta\u00e7\u00f5es de nossas mentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A maneira de recordar, nos diz Phillips, n\u00e3o se deve assemelhar a um ato intimidador demais e irrealista em excesso. Ao pensar sobre a nossa recorda\u00e7\u00e3o do Holocausto, exemplo contumaz desse diagn\u00f3stico negativo, Phillips pronuncia sobre como os alem\u00e3es s\u00e3o moralmente instru\u00eddos pelos \u201cn\u00e3o-alem\u00e3es\u201d a terem uma pedagogia constante de recordar. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o altru\u00edsmo perante aos traum\u00e1ticos conflitos e as diversas experi\u00eancias pessoais vividas. Uma obedi\u00eancia que doutrina a mem\u00f3ria e reduz, enfim, a complexidade da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A mem\u00f3ria \u201cfor\u00e7ada\u201d \u00e9, de tal modo, o pr\u00f3prio retrato de nosso medo da mem\u00f3ria (ou daquilo que pode surgir dela). E \u00e9 somente o esquecimento sendo \u00fatil e verdadeiro que a mem\u00f3ria poder\u00e1 funcionar como tal. Esquecer se torna, portanto, o natural e o necess\u00e1rio metabolismo que se produz com o tempo. \u201cEsquecer \u2013 pensa o autor \u2013 precisa ser permitido, se queremos dar uma chance \u00e0 mem\u00f3ria \u2013 mem\u00f3ria n\u00e3o-manipulada, mem\u00f3ria desregrada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Conclui-se que a \u201cmem\u00f3ria for\u00e7ada\u201d tem seu fim \u00faltimo na mesma situa\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica do personagem \u201cFunes, o memorioso\u201d, do conto de Jorge Luis Borges. Funes tem sua exist\u00eancia disposta infinitamente para a precis\u00e3o do lembrar, tanto que transcende a qualquer realidade que dizemos ser \u2018constru\u00edda\u2019. Sua lembran\u00e7a seria a pr\u00f3pria \u201cverdade\u201d, independente de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o. Sua psique, o registro dos pr\u00f3prios fatos. Seu mart\u00edrio, no entanto, era a situa\u00e7\u00e3o paradoxal de, por n\u00e3o poder esquecer, n\u00e3o fazer hist\u00f3ria alguma, pois a hist\u00f3ria \u00e9 sempre uma interpreta\u00e7\u00e3o do presente. Seu mundo era, pois, incapaz de reflex\u00e3o, t\u00e3o logo que era incapaz de esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche, ao descrever a rela\u00e7\u00e3o entre a genealogia do castigo e da mem\u00f3ria, oferecia a seguinte reflex\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Grava-se algo a fogo, para que fique na mem\u00f3ria: apenas o que n\u00e3o cessa de causar dor fica na mem\u00f3ria\u201d \u2013 eis um axioma da mais antiga (e infelizmente mais duradoura) psicologia da terra. (\u2026) Jamais deixou de haver sangue, mart\u00edrio e sacrif\u00edcio, quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma mem\u00f3ria; os mais horrendos sacrif\u00edcios e penhores (entre eles o sacrif\u00edcio dos primog\u00eanitos), as mais repugnantes mutila\u00e7\u00f5es (as castra\u00e7\u00f5es, por exemplo), os mais cru\u00e9is rituais de todos os cultos religiosos (todas as religi\u00f5es s\u00e3o, no seu n\u00edvel mais profundo, sistemas de crueldades) \u2013 tudo isso tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da mnem\u00f4nica(Nietzsche, em \u201cGenealogia da moral: uma pol\u00eamica\u201d; II, \u00a7 3).\u2019<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria ou esquecimento? Ednei de Genaro Mestrando pela UFSC (2008) \u201c\u2013 \u2018Como fazer no bicho-homem uma mem\u00f3ria? 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