{"id":876,"date":"2012-03-22T03:13:10","date_gmt":"2012-03-22T03:13:10","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=876"},"modified":"2025-09-10T13:45:42","modified_gmt":"2025-09-10T13:45:42","slug":"devir-e-hypomnemata-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/03\/22\/devir-e-hypomnemata-digital\/","title":{"rendered":"DEVIR E HYPOMNEMATA DIGITAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>DEVIR E\u00a0HYPOMNEMATA DIGITAL\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/download.jpeg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"6432\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/03\/22\/devir-e-hypomnemata-digital\/download-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/download.jpeg?fit=225%2C225&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"225,225\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"download\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/download.jpeg?fit=225%2C225&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-6432\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/download.jpeg?resize=225%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"225\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right\" align=\"right\"><em>\u00ab\u00a0Il n\u2019y a pas de pens\u00e9e hors de ses supports\u00a0\u00bb,\u00a0<\/em>Bernard Stiegler<\/p>\n<div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify\">Sumariamente, para Stiegler, a rela\u00e7\u00e3o entre homem e t\u00e9cnica exige uma (re)formula\u00e7\u00e3o que revele a constitui\u00e7\u00e3o do humano e, derradeiramente, demarque a condi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e social deste no mundo. Ora, a quest\u00e3o da mem\u00f3ria t\u00e9cnica estaria implicada na constitui\u00e7\u00e3o e na demarca\u00e7\u00e3o do devir humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A t\u00e9cnica, escreveu Foucault em <em>A escrita de si<\/em> [1], \u00e9 melhor compreendida pelo sentido grego da palavra <em>hypomnemata<\/em>, isto \u00e9, como dispositivos ou suportes da mem\u00f3ria e modalidade de constitui\u00e7\u00e3o de si (STIEGLER, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 interioridade que preceda a exterioridade\u201d (STIEGLER, 2009). Essa senten\u00e7a, originalmente cunhada pelo antrop\u00f3logo Leroi-Gourhan, evidencia um discurso no qual os movimentos de cria\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria das t\u00e9cnicas s\u00e3o simult\u00e2neos aos de cria\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria do homem. Ambos sustentam a posi\u00e7\u00e3o de sujeito e objeto na constitui\u00e7\u00e3o do humano e na demarca\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e social do mundo (STIEGLER, 1998). Na formula\u00e7\u00e3o stiegleriana, \u201ca rela\u00e7\u00e3o que vincula o \u2018quem\u2019 [t\u00e9cnica] e o \u2018o qu\u00ea\u2019 [homem] \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o\u201d (idem, p. 134).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para o fil\u00f3sofo, a qualidade da \u201cmem\u00f3ria viva\u201d (<em>anamn\u00e8se<\/em>) consiste na capacidade de projetar-se para fora de si mesma (<em>hypomn\u00e8se<\/em>). A \u201cmem\u00f3ria viva\u201d humana constitui-se pela mem\u00f3ria gen\u00e9tica (celular) e pela epigen\u00e9tica (som\u00e1tica e nervosa): ambas s\u00e3o finitas e desaparecem com a morte do ser. No entanto, a mem\u00f3ria epifilogen\u00e9tica (t\u00e9cnica) \u00e9 capaz de atuar sobre a finitude das duas primeiras, ao transpass\u00e1-las, aliment\u00e1-las e gerar novos atributos epocais da vida humana. Em uma formula\u00e7\u00e3o lapidar: a t\u00e9cnica seria aquilo que prolonga a vida por outros meios que n\u00e3o a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O suporte da mem\u00f3ria \u2014 seja ele escrito, digital ou oral \u2014 \u00e9 a \u201creten\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria\u201d, que retoma o discurso fenomenol\u00f3gico husserliano acerca das reten\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia. Para Stiegler, se quisermos entender o processo de gramatiza\u00e7\u00e3o \u2014 o \u201calfabeto\u201d que regula a descri\u00e7\u00e3o, formula\u00e7\u00e3o e discri\u00e7\u00e3o do gesto e da voz humanos \u2014, \u00e9 fundamental apreendermos os ajustamentos e conflitos entre o meio exterior artificial das reten\u00e7\u00f5es terci\u00e1rias e o meio interior da vida ps\u00edquica e coletiva (idem, p. 57). Tal perspectiva admite, concomitantemente, uma preocupa\u00e7\u00e3o com as individua\u00e7\u00f5es t\u00e9cnica, ps\u00edquica e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As conclus\u00f5es de Stiegler t\u00eam aqui grande relev\u00e2ncia, uma vez que o suporte t\u00e9cnico \u2014 entendido como \u201cexterioriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d \u2014 permite estudar a espacializa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e captar os processos cognitivos e as pr\u00e1ticas sociais recorrentes com a mem\u00f3ria digital. Como afirma Stiegler (1998, p. 13):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cHoje, isto \u00e9, no momento da industrializa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, que chamamos de m\u00eddia (ao mesmo tempo anal\u00f3gica e digital), o meio associado informacional torna-se o espa\u00e7o p\u00fablico mundial, por meio dos fen\u00f4menos da velocidade de capta\u00e7\u00e3o, de transmiss\u00e3o, de c\u00e1lculo e de processamento (de sinais anal\u00f3gicos ou num\u00e9ricos); e afeta de maneira radical a capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o humana em si mesma\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa \u201ccapacidade de antecipa\u00e7\u00e3o\u201d refere-se \u00e0 compet\u00eancia pr\u00f3pria do indiv\u00edduo para realizar a constitui\u00e7\u00e3o de si e de sua \u201cmaioridade\u201d, como consci\u00eancia reflexiva e cr\u00edtica. Na vis\u00e3o de Stiegler (2004), a modernidade at\u00e9 o s\u00e9culo XIX \u2014 marcada pela <em>Bildung<\/em> alem\u00e3 \u2014 construiu toda uma rede de dispositivos que institu\u00edram um modo pr\u00f3prio de gramatiza\u00e7\u00e3o da vida ps\u00edquica e coletiva. No s\u00e9culo XX, contudo, houve uma transforma\u00e7\u00e3o aguda do modelo de gramatiza\u00e7\u00e3o, sobretudo pelo pleno desenvolvimento dos objetos temporais industriais (fon\u00f3grafo, cinemat\u00f3grafo, fotograma, videograma etc.) (STIEGLER, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana \u00e9 indissoci\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o entre a temporalidade humana e a temporalidade t\u00e9cnica [2]. Para Stiegler, o sentido geral da palavra <em>cinema<\/em> \u2014 como \u201cmontagem do tempo\u201d \u2014 constitui uma forma de compreender o funcionamento da consci\u00eancia. Desde o s\u00e9culo XX, com o desenvolvimento dos objetos temporais de massa \u2014 televis\u00e3o, r\u00e1dio, cinema etc. \u2014, emergiu uma fenomenologia de \u201csincroniza\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias\u201d. Para o autor, o s\u00e9culo XX teria sido o momento de estabelecimento da \u201cbaisse de la valeur esprit\u201d (P. Val\u00e9ry). Essa <em>\u00e9poch\u00e8<\/em> tecnol\u00f3gica em curso alterou, fragmentou e dissociou as vidas ps\u00edquicas e coletivas. As individua\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, em vertiginosa velocidade de inova\u00e7\u00f5es e modas, investiram e transformaram as individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas. O resultado seria, hoje, a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cpol\u00edtica industrial das tecnologias do esp\u00edrito\u201d (STIEGLER, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os fen\u00f4menos da inform\u00e1tica hiperindustrial, desde o final do s\u00e9culo XX e neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, instauraram uma nova vig\u00eancia paradigm\u00e1tica. Assim, sobressai uma constata\u00e7\u00e3o: com a mem\u00f3ria digital, o paradigma anterior da mem\u00f3ria escrita entra em decl\u00ednio e, desse modo, os dispositivos digitais no capitalismo contempor\u00e2neo \u2014 formados simultaneamente por redes corporativas, colaborativas, lineares e m\u00faltiplas \u2014 podem, ao mesmo tempo, produzir efeitos positivos e negativos na individua\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa ambival\u00eancia \u00e9 pr\u00f3pria dos dispositivos contempor\u00e2neos. Para Stiegler, as formas de <em>hypomnemata<\/em> anal\u00f3gicas e digitais n\u00e3o deixam de renovar, no contexto capitalista, antigas quest\u00f5es da filosofia pol\u00edtica. H\u00e1, enfim, uma nova dimens\u00e3o (hiper)industrial e um estado pr\u00f3prio de gramatiza\u00e7\u00e3o (STIEGLER, 2009, p. 39). Para compreender essa ambival\u00eancia, o fil\u00f3sofo resgata o sentido plat\u00f4nico da palavra <em>pharmakon<\/em>, que designa tanto rem\u00e9dio quanto veneno [3]. Stiegler explica que toda tecnologia deve ser sempre analisada em chave farmacol\u00f3gica, isto \u00e9, dentro de uma ambival\u00eancia origin\u00e1ria (STIEGLER, 2007). Ambival\u00eancia que tamb\u00e9m se faz presente nas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, as quais v\u00eam modificando a estrutura de nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para o fil\u00f3sofo franc\u00eas, enfim, a \u201cquest\u00e3o da t\u00e9cnica\u201d, em sua primeira significa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 propriamente \u201ccomo dever\u00edamos agir?\u201d (quest\u00e3o central para H. Arendt) ou \u201ccomo devemos viver?\u201d (M. Heidegger), mas antes indagar o devir: \u201co que estamos a nos tornar?\u201d \u2014 e, por conseguinte, remeter ao bem agir e viver [5].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ora, uma quest\u00e3o final poderia ser formulada: o que a gramatiza\u00e7\u00e3o atual, da mem\u00f3ria digital, nos for\u00e7a a ser?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Cf. FOUCAULT, Michel. <em>A escrita de si<\/em>. In: <em>O que \u00e9 um autor?<\/em> Lisboa: Passagens, 1992.<\/p>\n<p>[2] Cf. GENARO, Ednei. <em>O tempo da t\u00e9cnica<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Sociologia Pol\u00edtica) \u2014 UFSC, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">[3] Cf. DERRIDA, Jacques. <em>A farm\u00e1cia de Plat\u00e3o<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2005. Obra de influ\u00eancia fundamental, nesse aspecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">[4] <em>Nootechniques: <\/em><em>nous<\/em> (em grego), \u201cintelecto\u201d ou \u201cpensamento\u201d. Para Stiegler, o meio noo\u00e9tico \u00e9 capaz de abrir o indiv\u00edduo ao espa\u00e7o p\u00fablico e, assim, possibilitar um meio simb\u00f3lico associado em favor da coletividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">[5] A rica articula\u00e7\u00e3o conceitual de Stiegler mostra-se bastante motivadora para o estudo emp\u00edrico e cr\u00edtico da tecnicidade contempor\u00e2nea. Se o tema fosse abordado a partir dos avan\u00e7os propostos por autores como P. L\u00e9vy ou Paul Virilio, as quest\u00f5es aqui tratadas talvez se mostrassem menos politizadas ou, possivelmente, mais perempt\u00f3rias.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DEVIR E\u00a0HYPOMNEMATA DIGITAL\u00a0 \u00ab\u00a0Il n\u2019y a pas de pens\u00e9e hors de ses supports\u00a0\u00bb,\u00a0Bernard Stiegler Sumariamente, para Stiegler, a rela\u00e7\u00e3o entre homem e t\u00e9cnica exige uma (re)formula\u00e7\u00e3o que revele a constitui\u00e7\u00e3o do humano e, derradeiramente, demarque a condi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e social deste no mundo. 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