{"id":898,"date":"2012-09-21T14:55:32","date_gmt":"2012-09-21T14:55:32","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=898"},"modified":"2024-03-29T12:52:04","modified_gmt":"2024-03-29T12:52:04","slug":"quem-falou-em-pirataria-por-uma-economia-da-contribuicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/09\/21\/quem-falou-em-pirataria-por-uma-economia-da-contribuicao\/","title":{"rendered":"QUEM FALOU EM PIRATARIA? POR UMA ECONOMIA DA CONTRIBUI\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align:justify\"><\/h4>\n<p><strong><em>Artigo publicado no livro \u201cReencontros em Comunica\u00e7\u00e3o (2013)\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p>GENARO, E. . &#8220;Quem falou em pirataria? Por uma economia da contribui\u00e7\u00e3o&#8221;. In: SALGADO, J. &amp; MAIA, A. &amp; OLIVEIRA, T.. (Org.). Reencontros em Comunica\u00e7\u00e3o. 1ed.Rio de Janeiro: Morula, 2013, v. , p. 1-27.<\/p>\n<p>Download (*.pdf):\u00a0<a href=\"https:\/\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/artigo-genaro-quem-falou-em-pirataria-por-uma-economia-contribuic3a7c3a3o.pdf\">Artigo &#8211; &#8216;Quem falou em pirataria &#8211; por uma economia contribui\u00e7\u00e3o&#8217;<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/image001.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"899\" data-permalink=\"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2012\/09\/21\/quem-falou-em-pirataria-por-uma-economia-da-contribuicao\/image001-27\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/image001.jpg?fit=268%2C210&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"268,210\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"economia colaborativa\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/image001.jpg?fit=268%2C210&amp;ssl=1\" class=\"size-full wp-image-899 aligncenter\" title=\"economia colaborativa\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/image001.jpg?resize=268%2C210\" alt=\"\" width=\"268\" height=\"210\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:left\" align=\"center\"><b>QUEM FALOU EM PIRATARIA?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\" align=\"center\"><b>POR UMA ECONOMIA DA CONTRIBUI\u00c7\u00c3O<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn1\"><b>[1]<\/b><\/a><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align:right\" align=\"right\">\n<p style=\"text-align:right\" align=\"right\"><i>&#8220;A verdadeira riqueza \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o e saber como utiliz\u00e1-la&#8221;.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:right\" align=\"right\"><i>Buckminster Fuller<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b>Ednei de Genaro<b><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn2\">[2]<\/a><\/b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Os desejos rec\u00f4nditos dos grandes modeladores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No in\u00edcio de 2012, com as novas investidas do ACTA<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn3\">[3]<\/a>, tivemos mais um cap\u00edtulo emblem\u00e1tico em torno da discuss\u00e3o \u2018<i>copyright<\/i> e internet\u2019. Isto deixou mais uma vez expl\u00edcito o jogo pol\u00edtico que os grandes modeladores do capitalismo, isto \u00e9, os governos de pa\u00edses desenvolvidos e as corpora\u00e7\u00f5es, v\u00e3o proporcionar em tempos vindouros. Um jogo que nos faz pressupor um retrocesso; que roda a engrenagem do tempo de volta ao s\u00e9culo XX, a fim de estancar a atual situa\u00e7\u00e3o \u201cporosa\u201d em que os variados agentes sociais (institucionais ou n\u00e3o) se encontram no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">H\u00e1 uma constata\u00e7\u00e3o importante hoje: as esferas da pol\u00edtica e da economia est\u00e3o se modificando. Com as metamorfoses tecno-capitalistas, o estado, a empresa e a sociedade civil modificaram seus pap\u00e9is e assim nos proporcionaram um novo car\u00e1ter da explora\u00e7\u00e3o capitalista na era <i>conexionista<\/i><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a>, lugar em que o indiv\u00edduo <i>ego\u00edsta<\/i> e submetido ao marketing; figura central que movimenta o mundo (BOLTANSKY e CHIAPELLO, 2009; STIEGLER, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Na ubiquidade crescente das redes digitais, as inst\u00e2ncias do privado e do p\u00fablico n\u00e3o s\u00e3o facilmente separadas e definidas como antes. Poder\u00edamos pensar que diante deste horizonte, as popula\u00e7\u00f5es apenas caminham para um saldo futuro que s\u00f3 poderia ser negativo: elas tenderiam a um universo crescente de diminui\u00e7\u00e3o da <i>res-publica<\/i>, ostentado por formas de vida superficiais, privatistas e consumistas. No entanto, apesar de uma cr\u00edtica procedente, ela \u00e9 muitas vezes colocada de uma forma demasiada reducionista, isto \u00e9, sem matizar os diferentes fen\u00f4menos novos \u2013 e porventura, esperan\u00e7osos \u2013 que surgem no contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Neste ensaio esperamos colocar alguns pontos para alimentar discuss\u00f5es mais aprofundadas a respeito da economia e da pol\u00edtica. Para isso, tomaremos como ponto a quest\u00e3o da pirataria e alguns de seus desdobramentos, que nos levar\u00e1 a pensar a economia da contribui\u00e7\u00e3o (STIEGLER, 2010b).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Podemos nos perguntar: mas por que exatamente os grandes modeladores est\u00e3o t\u00e3o preocupados e reativos com os rumos das formas de propriedade das obras cient\u00edficas e art\u00edsticas? Obviamente, tal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 causada pela simples raz\u00e3o de inseguran\u00e7a e queda do poder e lucros diante do \u201cdescontrole\u201d que eles pr\u00f3prios, com suas inova\u00e7\u00f5es tecno-capitalistas, foram mentores. No contexto geral das a\u00e7\u00f5es contra-pirataria, diversos pa\u00edses \u2013 a come\u00e7ar pelos da Europa e o EUA \u2013 est\u00e3o promovendo interven\u00e7\u00f5es que cessem as <i>porosidades<\/i> que deram um pouco de liberdade para os que at\u00e9 ent\u00e3o eram \u201cpassivos\u201d consumidores. Desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, com o aparecimento da Internet, instituiu-se uma ambi\u00e7\u00e3o por parte dos grandes modeladores: a defesa incondicional da forma tradicional de <i>copyright<\/i> e o estabelecimento, por meio de dispositivos de controle, de uma censura <i>hiper<\/i>cibern\u00e9tica global e unilateral. A reativa proposta asseguraria assim os velhos valores que dividem os <i>produtores<\/i> e os <i>consumidores<\/i>, perpetuando o modelo de direito de propriedade cultural e cient\u00edfico estruturado no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">S\u00e3o v\u00e1rios os projetos, v\u00e1rias as siglas, que passaram ou tramitam em parlamentos e congressos no mundo todo. N\u00e3o \u00e9 o caso deste texto entrar em detalhes. Limito-me a indicar os sites que d\u00e3o acesso ao conte\u00fado destes projetos. Aqueles que se evidenciaram como os mais importantes foram: o HADOPI<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn5\">[5]<\/a> franc\u00eas, o SOPA<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn6\">[6]<\/a> e o PIPA<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn7\">[7]<\/a> americanos e, por \u00faltimo, o ACTA, que pretende abranger normatizar a propriedade cient\u00edfica e art\u00edstica em uma esfera pol\u00edtica e econ\u00f4mica global. Sem exce\u00e7\u00f5es, todos carregam a express\u00e3o reativa de um ordenamento de mundo por via do padr\u00e3o de <i>biopoder<\/i> contempor\u00e2neo \u2013 no qual visa \u201calargar\u201d as liberdades no mesmo instante em que preserva o <i>controle<\/i> dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Em defesa da cultura? <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Da parte dos grandes modeladores claramente se evidencia um desagrado com as mudan\u00e7as atuais da economia pol\u00edtica. Tome-se, por exemplo, uma das declara\u00e7\u00f5es de N. Sarkozy, no in\u00edcio de 2012, em sua campanha de reelei\u00e7\u00e3o presidencial: \u201cA cultura n\u00e3o ir\u00e1 sofrer com a desregulamenta\u00e7\u00e3o do mundo novo (&#8230;). N\u00e3o queremos por falta total de coragem deixar de aplicar o mesmo modelo do mundo financeiro para a cultura. (&#8230;). A diferen\u00e7a entre Mozart e o criador contempor\u00e2neo, \u00e9 o direito autoral. Hoje, os milhares de cliques dos piratas poderiam substituir os caprichos dos princ\u00edpes\u201d<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn8\">[8]<\/a>. As palavras proferidas por quem se qualifica como um \u201cdefensor da cultura\u201d s\u00e3o as mesmas que tratam as novas <i>transindividua\u00e7\u00f5es<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn9\"><b>[9]<\/b><\/a><\/i> digitais como cheias de libertinos sem criatividade e dispostos a pirataria. O saldo dos discursos de Sarkozy n\u00e3o \u00e9 diferente de outros governantes nos pa\u00edses centrais: tratar a cultura contempor\u00e2nea como semelhante \u00e0 m\u00e1fia do mundo financeiro (tentando controlar a primeira a qualquer pre\u00e7o, at\u00e9 porque n\u00e3o tiveram sucesso ou interesse para com a \u00faltima).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Do modo mesmo, no momento de ascens\u00e3o da cultura do compartilhamento, Richard Parsons, o executivo da <i>Time Warner<\/i> (EUA), fez uma declara\u00e7\u00e3o c\u00e9lebre:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Este \u00e9 um momento muito profundo historicamente. Isto n\u00e3o \u00e9 somente um monte de crian\u00e7as roubando m\u00fasica. Isto \u00e9 um assalto a tudo o que constitui a express\u00e3o cultural de nossa sociedade. Se n\u00f3s falharmos em proteger o nosso sistema de prote\u00e7\u00e3o intelectual, a cultura vai atrofiar. E as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o as \u00fanicas a serem feridas. Artistas n\u00e3o ter\u00e3o incentivos para criar. No pior dos cen\u00e1rios, o pa\u00eds vai terminar em um tipo de cultura da Idade das Trevas<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">O mais lament\u00e1vel destes discursos \u00e9, enfim, a extrema redu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o, justificando uma repreens\u00e3o en\u00e9rgica aos muitos jovens da internet \u2018que est\u00e3o fora dos bons costumes\u2019 (como um pai que d\u00e1 r\u00e9deas a seus filhos), para assim poder combater a m\u00e1fia milion\u00e1ria da pirataria, que se aproveita deste mundo \u201cdesregulado\u201d<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os constantes assaltos do <i>biopoder <\/i>atingem as culturas e transformam as popula\u00e7\u00f5es. O vigoroso legado de Foucault nos acomete fortemente no atual cen\u00e1rio, j\u00e1 que o pensador deixou claro o quanto defender a cultura era, antes de tudo, uma defesa da sociedade \u2013 isto \u00e9, da promo\u00e7\u00e3o de formas aut\u00eanticas de subjetividade, no momento em que a pol\u00edtica parece ser reduzida exatamente a uma \u201ccontinua\u00e7\u00e3o da guerra\u201d pelo controle do \u201cbem-estar\u201d e gestos dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o dos compartilhamentos na internet, um apontamento hist\u00f3rico parece ser interessante. Qualquer um pode facilmente ir ao Wikipedia faz uma busca sobre o passado para compreender um pouco sobre a g\u00eanese deste objeto que hoje chamamos Internet \u2013 que criou uma fermenta\u00e7\u00e3o geral na cultura como um todo<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn12\">[12]<\/a>. Ora, o mundo eletro-eletr\u00f4nico, do qual Mcluhan teve tanta disposi\u00e7\u00e3o em pensar, resultou realmente em uma agrega\u00e7\u00e3o em forma de \u201caldeia global\u201d, mesmo que isso infelizmente n\u00e3o tenha representado automaticamente em liberta\u00e7\u00e3o. Na paran\u00f3ia apocal\u00edptica da Guerra Fria, surgiu o que podemos chamar de pr\u00e9-internet, a ARPAnet<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn13\">[13]<\/a> &#8211; desenvolvido em universidades norte-americanas, mas sob o comando rigoroso do departamento de defesa norte-americano. O fato seguinte \u00e9 bastante conhecido, quando os pa\u00edses centrais e, fundamentalmente, os EUA passaram pela onda da economia de <i>acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel<\/i> (p\u00f3s-fordismo), as empresas de computa\u00e7\u00e3o, sa\u00eddas da fermenta\u00e7\u00e3o pelas \u201cbordas\u201d deste empreendimento estatal come\u00e7aram a deter primazia na reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva da economia. A hist\u00f3ria das empresas Microsoft e Apple conta muito da hist\u00f3ria da informatiza\u00e7\u00e3o da sociedade a partir de ent\u00e3o&#8230; De l\u00e1 pra c\u00e1, com o computador pessoal e o desenvolvimento da Internet, os acontecimentos foram intensos. Faz menos de uma d\u00e9cada que a empresa de Tim O&#8217;Reilly (em 2004) compreendeu qual era a crista da pr\u00f3xima onda de acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e criou o termo Web 2.0 para fomentar a transforma\u00e7\u00e3o da Internet em uma plataforma de redes descentralizadas que facilitam o compartilhamento, cria\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o. Com esta nova arquitetura s\u00f3cio-t\u00e9cnica, os indiv\u00edduos foram crescentemente entrando nos espa\u00e7os onde somente as empresas e estados tinham acessos. A entrada foi pelas \u201cnovas m\u00eddias\u201d. Uma infinidade de blogs, sites, redes sociais e de compartilhamento de arquivos apareceram explosivamente \u2013 um universo regrado a plataformas de intera\u00e7\u00f5es estabeleceu uma participa\u00e7\u00e3o ativa e massiva das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Produ\u00e7\u00e3o de mundos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ora, \u00e9 neste alargamento das margens de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o que o mundo <i>poroso<\/i> pode ser explicado<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn14\">[14]<\/a>. Assim, a quest\u00e3o do \u201calargamento das margens\u201d vem colocando pontos de interroga\u00e7\u00e3o \u00e0queles que viam a Internet como apenas um plano mirabolante dos grandes modeladores. A descentraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem servindo apenas para o capitalismo fragmentar estrat\u00e9gicas e fazer os indiv\u00edduos exporem intimidades e serem capturados pelos seus \u201ctempos dispon\u00edveis do cer\u00e9bro\u201d; ora, ela vem servindo tamb\u00e9m para contribuir na derrubada de ditaduras; construir novas subjetividades fora do <i>broadcasting<\/i> vigente; realizar ocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de tipos in\u00e9ditos; causar at\u00e9 mesmo rebelias instant\u00e2neas em metr\u00f3poles globais. Uma dupla-articula\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7os r\u00e9gios e n\u00f4mades, entre estratificados e desestratificados \u2013 como explicaram DELEUZE e GUATTARI (1997) \u2013 que est\u00e3o constantemente em jogo nos ambientes digitais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se Sarkozy tem o desejo rec\u00f4ndito de garantir que os dispositivos de controle tenham valor igual ao de confinamento, prescrevendo assim o <i>valor <\/i>da cultura na sociedade civil, n\u00f3s j\u00e1 podemos compreender bastante a import\u00e2ncia de pensar seriamente este \u201csintoma da pirataria\u201d, sem reduzi-la a uma ideia de economia e pol\u00edtica de cunho anacr\u00f4nico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os grandes modeladores est\u00e3o obviamente seguindo seus interesses particularistas, que reduz a cultura a um economicismo; por\u00e9m, \u00e9 bem o contr\u00e1rio que a produ\u00e7\u00e3o de mundos perfaz: \u00e9 a tecno-cultura de agenciamentos s\u00f3cio-t\u00e9cnicos que satisfaz a economia<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn15\">[15]<\/a>. A quest\u00e3o dos direitos autorais, das patentes etc. em um mundo em rede est\u00e1 muito longe de deixar a quest\u00e3o restrita ao car\u00e1ter monet\u00e1rio. O que est\u00e1 em jogo, como iremos argumentar, \u00e9 o pr\u00f3prio futuro do mundo capitalista: a forma\u00e7\u00e3o de uma <i>economia da contribui\u00e7\u00e3o<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A tarefa produtiva, antes de tudo, \u00e9 pensar os novos contextos e no\u00e7\u00f5es que podem nos levar aos melhores esclarecimentos e politiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A cultura \u00e9 cada vez mais uma tecno-cultura, isto \u00e9, cheia de cogni\u00e7\u00f5es e agenciamentos envolvendo humanos e m\u00e1quinas.\u00a0 Quando Sarkozy pensa a cultura, ele associa diretamente \u00e0 ideia de <i>administra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/i>; esta \u00e9 uma forma de pensar muito habitual e miser\u00e1vel de nossos pol\u00edticos contempor\u00e2neos. Aqui se apaga sobretudo a ideia de que o capitalismo, mesmo sendo hegem\u00f4nico, \u00e9 apenas uma forma entre outras de organiza\u00e7\u00e3o dos mercados. F. Braudel e M. Mauss, no s\u00e9culo XX, j\u00e1 tinham evidenciado bem isso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LATOUR &amp; CALLON (2011), mostram-nos contemporaneamente o quanto o c\u00e1lculo utilitarista n\u00e3o se aplica exatamente as formas de mobiliza\u00e7\u00e3o de bens e pessoas. Ora, os mercados s\u00e3o sempre inacabados e formados por interconex\u00f5es, agremia\u00e7\u00f5es e coordena\u00e7\u00f5es de diversas redes. H\u00e1 agentes e fen\u00f4menos que constituem <i>externalidades<\/i> que s\u00e3o de suma import\u00e2ncia para a defini\u00e7\u00e3o das <i>internalidades <\/i>do c\u00e1lculo utilitarista que tanto prezam os economistas e pol\u00edticos. O essencial a entender \u00e9 que o capitalismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente um <i>modo de produ\u00e7\u00e3o<\/i>, mas uma <i>produ\u00e7\u00e3o de mundos<\/i> (LAZZARATO, 2006). N\u00e3o por menos, o que viemos a chamar de <i>marketing<\/i> tornou-se a principal ferramenta para administrar a explora\u00e7\u00e3o na era conexionista. O marketing quer, de alguma forma, sublimar a energia libidinal. Ele assenta continuamente a fabrica\u00e7\u00e3o, afeta\u00e7\u00e3o e captura dos indiv\u00edduos em um <i>mundo <\/i>que arregimenta os espa\u00e7os e tempos do consumo, informa\u00e7\u00e3o, trabalho, lazer. A <i>explora\u00e7\u00e3o <\/i>\u00e9 <i>a posteriori<\/i> a essa arregimenta\u00e7\u00e3o. O prolet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9, portanto, mais algo que se define por quest\u00e3o de \u201cclasse social\u201d, mas pela incapacidade do indiv\u00edduo sair da <i>captura<\/i> que o leva \u00e0 passividade nas constru\u00e7\u00f5es e socializa\u00e7\u00f5es dos <i>desejos<\/i> e, t\u00e3o logo, de sua <i>des-individualiza\u00e7\u00e3o<\/i> (SAFATLE, 2008; STIEGLER, 2010a).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Qual \u00e9 mesmo a quest\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Inunda-se hoje de discurso que formulam a quest\u00e3o: \u00e9 \u201ccrime\u201d \u2013 ou \u201cpecado\u201d \u2013 compartilhar arquivos com <i>copyright<\/i> na internet? \u00c9 f\u00e1cil descobrir que esta pergunta fica aqu\u00e9m de tudo o que verdadeiramente dever\u00edamos discutir. Ela esconde o real problema. Em primeiro lugar, falar em \u201cpirataria\u201d n\u00e3o \u00e9 falar de algo policial, mas sim social.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se \u00e9 uma quest\u00e3o social; do mesmo modo, \u00e9 evidentemente uma quest\u00e3o pol\u00edtica. A cena midi\u00e1tica no in\u00edcio de 2012 entre o governo americano e a empresa de compartilhamento de arquivos <i>Megaupload <\/i>dizia respeito apenas a uma disputa \u201cinterna\u201d dos grandes modeladores. Contudo, assim que a <i>Megaupload<\/i> saiu do ar, por ordem da justi\u00e7a americana, foram divulgadas as estat\u00edsticas sobre os seus frequentadores. Observou-se que a Fran\u00e7a e o Brasil eram seus dois maiores utilizadores<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn16\">[16]<\/a>; isto \u00e9, o pa\u00eds rico conhecido como de maior valoriza\u00e7\u00e3o da cultura letrada do mundo e o pa\u00eds pobre, ou \u201cemergente\u201d, que vem sendo notado como aquele que possui a mais movimentada \u201cvida virtual\u201d do mundo. Ora, o interessante do dado era que o quesito \u201cecon\u00f4mico\u201d n\u00e3o poderia explicar facilmente a quest\u00e3o por parte dos <i>usu\u00e1rios<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A quest\u00e3o sem d\u00favida est\u00e1 na preocupa\u00e7\u00e3o com os preju\u00edzos das corpora\u00e7\u00f5es que controlam as ind\u00fastrias culturais. Pouco interessa aos grandes modeladores pensar no novo problema de como os artistas podem ter tamb\u00e9m seus rendimentos sem necessitar das formas antigas do direito autoral e das corpora\u00e7\u00f5es. Ora, a hist\u00f3ria da humanidade sempre foi ingrata com os que fazem arte. Desde o fim do s\u00e9culo XIX, quando ocorreu a institui\u00e7\u00e3o do <i>copyright<\/i>, as corpora\u00e7\u00f5es e os impostos dos governos, t\u00e3o logo, notoriamente abocanharam o maior fil\u00e3o dos lucros<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A discuss\u00e3o sobre a \u201cpirataria\u201d tem, por um lado, um saldo bastante positivo. Ela est\u00e1 sendo prop\u00edcia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de novas formula\u00e7\u00f5es sobre as muta\u00e7\u00f5es no capitalismo contempor\u00e2neo devido \u00e0s novas tecnologias. Jacques Attali, pensador e economista franc\u00eas, entende por exemplo que a economia se abriria a um novo horizonte com a permiss\u00e3o indiscriminada do download e a implanta\u00e7\u00e3o de uma forma de pagamento que ele chama de \u201clicen\u00e7a global\u201d<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn18\">[18]<\/a>. Este autor faz parte daqueles que veem a quest\u00e3o da pirataria para al\u00e9m de uma simples assertiva negativa ao pr\u00f3prio capitalismo. Ao contr\u00e1rio, quando se levanta os dados sobre a movimenta\u00e7\u00e3o \u201cpeer-to-peer\u201d, conclui-se muitas vezes como um impacto positivo<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Cabe aqui, enfim, mais uma considera\u00e7\u00e3o contra a simples criminaliza\u00e7\u00e3o da pirataria. Cineastas \u2013 que pela pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o de sua arte, experimentam, desde sempre, uma cultura do compartilhamento \u2013 s\u00e3o, por conseguinte, mais reflexivos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es que envolvem o mundo contempor\u00e2neo. Um exemplo disto, no Brasil, est\u00e1 na 14\u00b0 Mostra de Cinema de Tiradentes (2011). A \u201cCarta de Tiradentes\u201d, que resultou da reuni\u00e3o pol\u00edtica com realizadores, produtores e pesquisadores do cinema neste encontro, manifestava:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 chegada a hora de questionar privil\u00e9gios cristalizados e de se criar mecanismos de inclus\u00e3o para que a novidade, a inven\u00e7\u00e3o, novos agentes e novas paisagens possam emergir no cen\u00e1rio audiovisual nacional. \u00c9 hora de pensar a cadeia da produ\u00e7\u00e3o e consumo cinematogr\u00e1ficos em seu conjunto, de entender a rede de rela\u00e7\u00f5es e a interdepend\u00eancia entre os diversos formatos audiovisuais. N\u00e3o h\u00e1 como pensar o mercado cinematogr\u00e1fico apostando na falsa contradi\u00e7\u00e3o entre um cinema dito comercial e outro de voca\u00e7\u00e3o autoral. Parte das reconhecidas dificuldades enfrentadas atualmente pela ind\u00fastria audiovisual brasileira t\u00eam sua origem em dicotomias artificiais como essa<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">A discuss\u00e3o sobre o tipo de <i>acesso <\/i>e <i>interdepend\u00eancias <\/i>(e n\u00e3o da propriedade) parece ser crucial nesta \u00e9poca de hiperindustrializa\u00e7\u00e3o digital<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn21\"><sup><sup>[21]<\/sup><\/sup><\/a>. O impedimento da mudan\u00e7a e flexibiliza\u00e7\u00e3o do <i>copyright<\/i> \u00e9 uma resolu\u00e7\u00e3o do jogo pol\u00edtico comandado por corpora\u00e7\u00f5es que desqualifica uma cultura livre e de novas formas de remunera\u00e7\u00e3o. Culturas livres, conforme conceitua e critica LESSIG (2004), \u201cs\u00e3o aquelas que deixam uma grande abertura para que outros criem a partir do que h\u00e1 dispon\u00edvel. Culturas sem liberdade, ou de permiss\u00e3o, deixam muito menos. A nossa cultura foi uma cultura livre. Ela est\u00e1 se tornando cada vez menos livre\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Gramatiza\u00e7\u00e3o digital <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Sobretudo, seria preciso pensar os problemas reportados a partir da no\u00e7\u00e3o de <i>gramatiza\u00e7\u00e3o digital<\/i>. Se h\u00e1 hoje uma muta\u00e7\u00e3o nas formas de organiza\u00e7\u00e3o da economia, isto se deve a uma altera\u00e7\u00e3o na gramatiza\u00e7\u00e3o da vida como um todo. A condi\u00e7\u00e3o da individua\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida por via de reten\u00e7\u00f5es pro-t\u00e9ticas (dos <i>gramm\u00e9<\/i>, <i>rastros<\/i> ou <i>tra\u00e7os<\/i> da mem\u00f3ria), em outras palavras, de reten\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. S\u00e3o estas reten\u00e7\u00f5es que formam nosso mundo simb\u00f3lico. O entendimento da gramatiza\u00e7\u00e3o<i> <\/i>\u00e9 assim essencial para a cr\u00edtica pol\u00edtica do controle ou libera\u00e7\u00e3o dos <i>acessos<\/i> e <i>interdepend\u00eancia<\/i> no mundo digital.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Conforme apura STIEGLER (2010b), para entender o car\u00e1ter da economia pol\u00edtica no contempor\u00e2neo, dever\u00edamos compreender os processos de gramatiza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o gerados, em cada \u00e9poca, a partir dos objetos t\u00e9cnicos \u2013 que s\u00e3o, porventura, objetos temporais, uma vez que participam dos processos de caracteriza\u00e7\u00e3o e discretiza\u00e7\u00e3o dos comportamentos (gestos e palavras) humanos, no espa\u00e7o e tempo. De tal modo, a gramatiza\u00e7\u00e3o comp\u00f5em os processos amplos de transindividua\u00e7\u00e3o humana. Sob os ambientes de gramatiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma organologia geral \u2013 formada por \u00f3rg\u00e3os corporais (c\u00e9rebro, m\u00e3o, olho etc.), \u00f3rg\u00e3os artificiais (ferramentas, m\u00e1quinas, sistemas) e \u00f3rg\u00e3os sociais (insitui\u00e7\u00f5es, \u00e9tnias, fam\u00edlias) \u2013 que colocam os humanos em um estado de trocas de informa\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, de diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ora, falar de individua\u00e7\u00e3o humana \u00e9 falar tamb\u00e9m de individua\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. A t\u00e9cnica \u00e9, antes de tudo, uma forma de exterioriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, isto \u00e9, uma mnemot\u00e9cnica (STIEGLER, 1994). Tal pensamento resgata Plat\u00e3o, que reconstituiu as ideias de S\u00f3crates sobre a escrita. A escrita \u00e9, em resumo, uma <i>hypomnemata<\/i>, um suporte da mem\u00f3ria. Ela representa a \u201cmem\u00f3ria morta\u201d no qual autoriza uma extra\u00e7\u00e3o da \u201cmem\u00f3ria viva\u201d (<i>anamnese<\/i>, a \u201clembran\u00e7a\u201d ou \u201creminisc\u00eancia\u201d):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">(&#8230;) o que S\u00f3crates descreve em <i>Fedro<\/i>, qual seja, que a exterioriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria \u00e9 uma perda de mem\u00f3ria e de saber, \u00e9 o que experimentamos hoje, no cotidiano, em todos os aspectos de nossa exist\u00eancia e cada vez mais no sentimento de impot\u00eancia, sen\u00e3o de incapacidade \u2013 no momento mesmo em que a extraordin\u00e1ria <i>pot\u00eancia<\/i> <i>mn\u00e9sica <\/i>das redes digitais nos torna igualmente sens\u00edveis \u00e0 imensid\u00e3o da mem\u00f3ria humana, que parece ter se tornado reativ\u00e1vel e acess\u00edvel, infinitamente (STIEGLER, 2009, p.26).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">A t\u00e9cnica \u00e9, em ess\u00eancia, um <i>pharmakon<\/i> \u2013 sua dimens\u00e3o no mundo pode instituir tanto uma neguentropia (que modifica positivamente a individua\u00e7\u00e3o humana) como uma entropia (que \u201cparalisa\u201d ou \u201cdesordena\u201d a individua\u00e7\u00e3o humana); sendo enfim tanto um rem\u00e9dio como um veneno. Com a ascens\u00e3o das diversas e complexas tecnologias digitais de virtualiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, tornou-se latente o papel da mem\u00f3ria como o elemento fundamental ao desenvolvimento industrial e tecnol\u00f3gico. A pol\u00edtica, a economia e a est\u00e9tica n\u00e3o podem ser pensados sem o entendimento desses processos mnemotecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Economia da contribui\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9 entender fundamentalmente que nossas cogni\u00e7\u00f5es e gestos n\u00e3o est\u00e3o fora da materialidade que nos cerca. Marx, no s\u00e9culo XIX, n\u00e3o havia percebido que a mem\u00f3ria viva e a mem\u00f3ria morta n\u00e3o est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o, mas em processo de <i>composi\u00e7\u00e3o<\/i> (ou seja, de transindividua\u00e7\u00f5es). Revisando esta dimens\u00e3o oposicional de Marx a partir do pensamento simondiano, Stiegler dir\u00e1 que \u201ca individua\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, uma opera\u00e7\u00e3o de <i>memoriza\u00e7\u00e3o <\/i>ps\u00edquica <i>e <\/i>coletiva onde a transindividua\u00e7\u00e3o \u00e9 a metaestabiliza\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es. E, nisto, a transindividua\u00e7\u00e3o \u00e9 o que, atrav\u00e9s dos indiv\u00edduos ps\u00edquicos, individua coletivamente horizontes pr\u00e9-individuais, eles mesmos constitu\u00eddos e sustentados pelas formas hipomn\u00e9sicas\u201d (STIEGLER, 2011, p.32-3). A <i>informa\u00e7\u00e3o<\/i>, no sentido dado por Simondon, tem papel central nas trocas de energia, modula\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es entre as formas ps\u00edquicas, t\u00e9cnicas e sociais de individua\u00e7\u00f5es. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a nossa capacidade de trato com as informa\u00e7\u00f5es, que levar\u00e1 \u00e0s composi\u00e7\u00f5es mais positivas ou negativas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As considera\u00e7\u00f5es acima nos aproxima a pensar a economia pol\u00edtica em meio a um entendimento da gramatiza\u00e7\u00e3o digital. As tecnologias contempor\u00e2neas, como hypomnematas, disp\u00f5em um <i>modo de praticar<\/i> e <i>modular informa\u00e7\u00f5es<\/i> \u2013 que constituem o escrever, pesquisar, observar, pintar, filmar; assim como, constituem diretamente pr\u00e1ticas econ\u00f4micas, trocar, comprar, compartilhar etc.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O mundo descentralizado das redes sociais \u2013 que levantou a quest\u00e3o da pirataria \u2013 \u00e9 ve\u00edculo de processos pol\u00edtico-econ\u00f4micos in\u00e9ditos. Os movimentos n\u00e3o s\u00e3o apenas de perda da centralidade da produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es pelos Estados e corpora\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m da gesta\u00e7\u00e3o de uma nova forma de <i>res-publica<\/i> \u2013 de publiciza\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica \u2013 a partir da intelig\u00eancia coletiva. Para Stiegler, o conjunto de externalidades positivas, que tornou poss\u00edvel a \u201cpoliniza\u00e7\u00e3o\u201d de informa\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00e3o em saberes, veio a instituir uma din\u00e2mica de \u201cecologia industrial do esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Acima de tudo, identifica-se que a quest\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica importante frente \u00e0s mnemot\u00e9cnias contempor\u00e2neas \u00e9 entender que a <i>proletariza\u00e7\u00e3o<\/i> n\u00e3o se qualifica mais essencialmente por uma explora\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o criada no ch\u00e3o da f\u00e1brica, entre \u201cpatr\u00e3o\u201d e \u201cassalariado\u201d, nem por organiza\u00e7\u00e3o infraestrutural que organiza as classes dominantes e dominadas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Examinar a quest\u00e3o da mem\u00f3ria t\u00e9cnica hoje significa reabrir a quest\u00e3o da hypomnese n\u00e3o somente como quest\u00e3o do prolet\u00e1rio, mas tamb\u00e9m como processo de gramatiza\u00e7\u00e3o, no qual o consumidor que agora \u00e9 lesionado de sua mem\u00f3ria e seus saberes pelas ind\u00fastrias de servi\u00e7os e seus aparatos. N\u00f3s devemos observar como se produz um curto-circuito nos processos de individua\u00e7\u00e3o. Examinar a quest\u00e3o da mem\u00f3ria t\u00e9cnica hoje significa investigar o est\u00e1gio de proletariza\u00e7\u00e3o generalizada induzida pela generaliza\u00e7\u00e3o de tecnologias hypomn\u00e9sicas (STIEGLER, 2010b, p.35).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00a0De tal maneira, <i>explorar<\/i> significa hoje capturar e mecanizar os indiv\u00edduos \u2013 no sentido de pr\u00e9-demarca\u00e7\u00e3o dos desejos e, t\u00e3o logo, das a\u00e7\u00f5es dos agentes em redes<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn22\">[22]<\/a>. Para Stiegler, por meio da prescri\u00e7\u00e3o de dispositivos neuro, bio e s\u00f3cio-pol\u00edticos, o capitalismo perfaz uma estrat\u00e9gia organizada para o marketing das corpora\u00e7\u00f5es. Os controles das formas de movimento emocional e inconsciente determinam uma economia libidinal de des-individua\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria simb\u00f3lica. Tais controles querem minar hoje as esperan\u00e7as originadas pelas descentraliza\u00e7\u00f5es com as tecnologias digitais, onde o <i>devir<\/i> para um <i>otium <\/i>(de liberdades e \u201ccuidado de si\u201d) poderia ser cultivado.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 necess\u00e1rio compreender que n\u00f3s estamos em um contexto de luta, e mesmo de guerra, uma guerra est\u00e9tica, uma guerra pela conquista e controle dos processos de simboliza\u00e7\u00e3o. Esta guerra \u00e9 contra as tecnologias de controle, da sociedade de controle. Mas n\u00e3o visa se opor, mas compor; n\u00e3o visa negar o advers\u00e1rio, nem desenh\u00e1-lo como o Mal, nem absoluto, nem radical ou relativo, mas como uma tend\u00eancia (STIEGLER, 2006, p.89).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Contra a nostalgia da centralidade<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Quando as tentativas de controle das formas de acesso s\u00e3o empreendidas, temos dentro disso uma guerra simb\u00f3lica pela centraliza\u00e7\u00e3o do controle das individua\u00e7\u00f5es, tal como ocorria no mundo das ind\u00fastrias culturais no s\u00e9culo XX. \u00c9 uma guerra que tem sem d\u00favida uma significa\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica, no qual levanta bandeiras de censuras, hipercentralidades e controles dos indiv\u00edduos nos ambientes s\u00f3cio-t\u00e9cnicos. Tal quest\u00e3o parece ser de grande valor. A reg\u00eancia de variados discursos contempor\u00e2neos que apontam para este anacronismo v\u00eam gerando em meios intelectuais e pol\u00edticos uma \u201cnostalgia da centralidade\u201d, que tem uma consequente dimens\u00e3o de esvaziamento do aparecimento da pol\u00edtica no mundo contempor\u00e2neo (MIGLIORIN &amp; GENARO, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LESSIG (2004, p.268), em rela\u00e7\u00e3o ao copyright, concluia que \u201cse h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o que podemos tirar da hist\u00f3ria de reconstru\u00e7\u00e3o do bom senso, \u00e9 a de que \u00e9 preciso reconstituir o modo como muitas pessoas o pensam\u201d. Conforme ressaltou RANCI\u00c9RE (2010, p.118), uma importante mudan\u00e7a no pensar estaria na ordem do dia:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00f3s n\u00e3o precisamos transformar espectadores em atores. N\u00f3s precisamos \u00e9 reconhecer que cada espectador j\u00e1 \u00e9 um ator em sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e que cada ator \u00e9, por sua vez, espectador do mesmo tipo de hist\u00f3ria. N\u00e3o precisamos transformar o ignorante em instru\u00eddo ou, por mera vontade de subverter coisas, fazer do aluno ou da pessoa ignorante o mestre dos seus mestres.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Para n\u00f3s, neste ponto, a quest\u00e3o parece ser reconhecer e lutar contra o aniquilamento da hypomnematas digitais das popula\u00e7\u00f5es. A mudan\u00e7a da discuss\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o da pirataria para a economia da contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das batalhas significativas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os indiv\u00edduos s\u00e3o hoje detentores de uma <i>pot\u00eancia<\/i> para serem amadores, no sentido de autoconstrutores e admiradores do saber, arte, vida; em outras palavras, n\u00e3o restringindo a simples consumidores. Empreendimentos interessantes nos ambiente digitais v\u00eam contribuindo neste aspecto. Podemos lembrar aqui algumas iniciativas atuais, no campo das artes e da computa\u00e7\u00e3o: o site <i>Code Year.com<\/i>, iniciado em 2011, que busca fazer com que os usu\u00e1rios da Internet tornem-se tamb\u00e9m programadores, por meio de li\u00e7\u00f5es semanais gratuitas recebidas por email; os softwares do artista mineiro Paulo Barcelos, que constitui meios para fazer com que o pr\u00f3prio p\u00fablico construa artes digitais e intera\u00e7\u00f5es inventivas; o software livre <i>Lignes de Temps<\/i>, do grupo de Bernard Stiegler, no Centre Pompidou, na Fran\u00e7a, que busca ajuda as pessoas a criar e compartilhar suas pr\u00f3prias cr\u00edticas cinematogr\u00e1ficas, a partir de um discritizador temporal do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os exemplos acima v\u00eam possibilitando transformar o usu\u00e1rio em experimentador e produtor. Contudo, mais interessante ainda vem sendo as iniciativas para a sociedade civil. S\u00e3o v\u00e1rios empreendimentos interessantes: o site brasileiro <i>Catarse.me<\/i>, que abre oportunidade para as pessoas apresentarem projetos e anguriar fundos coletivamente (em sistema <i>crowndfundind<\/i>); o coletivo <i>Fora do Eixo<\/i>, que por meio das redes digitais vem modificando a forma de produ\u00e7\u00e3o cultural e aumentando as sinergias de grupos dos artistas para fora do sistema centralizado tradicional; o cearense <i>Tucum.org<\/i>, que disponibiliza plataforma para os pr\u00f3prios moradores de \u00e1reas tur\u00edsticas a desenvolverem e divulgarem um \u201cturismo sustent\u00e1vel e comunit\u00e1rio\u201d; ou ainda o site ga\u00facho <i>Portaalegre.cc<\/i>, para citar um \u00faltimo, que pioneiramente cria um plataforma para os porto alegrenses a \u2018conhecer, debater, inspirar e transformar a pr\u00f3pria cidade\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Hoje vem sendo interessante observar como a interdisciplinaridade e as colabora\u00e7\u00f5es organizam crescentemente os agenciamentos s\u00f3cio-t\u00e9cnicos. O que est\u00e1 se espalhando para todos os grupos sociais \u00e9, para o mundo art\u00edstico, cada vez mais a ordem do dia. O artista portugu\u00eas Carlos Caires, trabalhando com arte digital, d\u00e1-nos uma declara\u00e7\u00e3o pertinente ao que vem se instituindo como colaborativo. Reproduzo integralmente sua resposta \u00e0 pergunta sobre como ele procede para moldar suas \u201ctraquitanas\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">No in\u00edcio, quando comecei h\u00e1 cinco ou seis anos atr\u00e1s, eu desenvolvia tudo sozinho. Tive que aprender a programar, entender os softwares de programa\u00e7\u00e3o e depois tentei com ajuda do meu orientador, Boussier, encontrar uma tecnologia que fosse poss\u00edvel adaptar aos objetos e que tamb\u00e9m fosse uma tecnologia model\u00e1vel no computador. Encontrei um dispositivo usado nas ilhas de edi\u00e7\u00e3o lineares, que permite fazer esta liga\u00e7\u00e3o. \u00c9 um objeto redondo que permite avan\u00e7ar e recuar no v\u00eddeo mais rapidamente e se usa em edi\u00e7\u00e3o. Como j\u00e1 trabalhava com isso adaptei para os meus objetos. Hoje em dia j\u00e1 formei uma equipe, trabalho com um colega da UCP [Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa], que \u00e9 engenheiro e programador, assim quando preciso de coisas mais complexas recorro a ele, que tamb\u00e9m gosta desta \u00e1rea. Assim formamos uma equipe multidisciplinar para a qual demos o nome de VOID &#8211; em programa\u00e7\u00e3o a palavra significa um vazio, mas \u00e9 uma palavra que se utiliza muito em <i>open fireworks<\/i>, em <i>processing<\/i> e tamb\u00e9m \u00e9 uma sigla que quer dizer <i>Video Objects Interative Devices<\/i>, que tem a ver com aquilo que fazemos. Eu penso sempre a quest\u00e3o mais conceitual, mais criativa e depois vejo com o Jorge qual \u00e9 a melhor forma de trabalhar a programa\u00e7\u00e3o para fazer a interatividade sem interferir em demasiado nos objetos (MARTINS, 2012).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>\u201cSer m\u00eddia\u201d como os grandes modeladores<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Jello Biafra havia criado um <i>spoken word<\/i> bastante significativo politicamente: \u201c<i>Don\u2019t hate the media, become the media<\/i>\u201d. A proposta para uma economia contributiva caminha precisamente nesta dire\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de \u201cser m\u00eddia\u201d, no momento em que a gramatiza\u00e7\u00e3o digital inaugura esta pot\u00eancia ao p\u00fablico. Ora, o des-proletarizar \u00e9, antes de tudo e decisivamente, poder <i>trabalhar verdadeiramente seus pr\u00f3prios instrumentos<\/i>. Como analisa conjunturamente STIEGLER (2010, p.67), \u201cse o capitalismo \u00e9 um sistema de produ\u00e7\u00e3o de protens\u00e3o, no qual o termo da performatividade \u00e9 muito caracter\u00edstico \u2013 ent\u00e3o quando algu\u00e9m diz que a bolsa perdeu tantos bilh\u00f5es de d\u00f3lares no curso tal e qual crise, isto significa que um poder prot\u00e9tico ativo, um poder de a\u00e7\u00e3o de protens\u00f5es (de anticipa\u00e7\u00f5es), foi perdido pelo sistema de cr\u00e9ditos \u2013 a economia de contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 assim um novo agenciamento econ\u00f4mico (libidinal e pol\u00edtico), entre reten\u00e7\u00f5es gramatizadas e investimentos de proten\u00e7\u00f5es\u201d (STIEGLER, 2010b, p.67).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, todavia, uma a\u00e7\u00e3o pela \u201cdestrui\u00e7\u00e3o\u201d da economia, mas por um verdadeiro pertencimento e edifica\u00e7\u00e3o dela pelas popula\u00e7\u00f5es. A proposi\u00e7\u00e3o de descentraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta contra o conservadorismos que pregam a garantia de filtros culturais e policiais para a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Todavia, parece-nos \u00f3bvio que as novas armas abertas pela gramatiza\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o satisfazem uma conjuntura oposicional e exclusiva da economia da contribui\u00e7\u00e3o. Ora, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a quest\u00e3o da descentraliza\u00e7\u00e3o em redes digitais pode ser aproveitada tamb\u00e9m como uma nova arma a favor dos grandes modeladores \u2013 no momento em que, na verdade, podem dispor de art\u00edficios para transformar a descentraliza\u00e7\u00e3o em outro n\u00edvel de centraliza\u00e7\u00e3o, por meio de controles, marketings e filtros de informa\u00e7\u00f5es sens\u00edveis para acumula\u00e7\u00e3o de capital<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn23\">[23]<\/a>. DANTAS (2012, p.302), faz considera\u00e7\u00f5es importantes a este respeito:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Com a internet, o capital sequer precisa delimitar contratualmente, recortar, segmentar, a <i>fra\u00e7\u00e3o <\/i>do trabalho social que cada unidade (ou firma) p\u00f5e diretamente sob seu comando. A rede est\u00e1 permitindo a qualquer empresa contratar qualquer trabalho individualizado que lhe possa ser \u00fatil, n\u00e3o importa onde, n\u00e3o interessa quem. Interessa t\u00e3o somente o resultado, o material s\u00edgnico obtido e lhe comunicado. Assim como o consumo pode ser <i>atomizado<\/i>, a produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. <i>E, rigorosamente, esta produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 colaborativa<\/i>. (&#8230;). \u00c9 um contra todos (&#8230;) A Goldcorp, empresa de minera\u00e7\u00e3o, colocou na rede, num ato sem d\u00favida inusitado, os seus mapas geol\u00f3gicos. E pagou USD 500 mil ao ge\u00f3logo que, tendo estudado os mapas, indicou-lhe a localiza\u00e7\u00e3o de uma jazida onde, estudos posteriores, revelaram uma reserva no valor de USD 3,4 bilh\u00f5es. E o valor de mercado da Goldcorp saltou de USD 90 milh\u00f5es para USD 10 bilh\u00f5es.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Dantas observa ainda outra problem\u00e1tica pertinente. Apesar de o capitalismo cognitivo contempor\u00e2neo ter colocado primazia ao <i>conhecimento<\/i> e <i>mobilidade<\/i> como principal fun\u00e7\u00e3o da mais-valia, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de destacar a inescap\u00e1vel import\u00e2ncia da <i>produ\u00e7\u00e3o<\/i> de mercadorias como definidor do poder das corpora\u00e7\u00f5es mundiais. Isto desarticula qualquer discurso que venha exagerar na avalia\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo<a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftn24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Acreditamos que a principal dificuldade hoje \u00e9 propor novas formas de individua\u00e7\u00e3o diante da crise sistem\u00e1tica do modelo industrial consumista (do \u201c<i>American way of life<\/i>\u201d) na conjuntura do capitalismo mundial. N\u00e3o obstante as novas investidas por parte dos grandes modeladores, tal modelo n\u00e3o mais consegue sobreviver diante do atual capitalismo reticular. As esperan\u00e7as v\u00eam sendo depositadas na economia da contribui\u00e7\u00e3o, que poderia dar chance \u00e0s popula\u00e7\u00f5es criticar e fazer frente \u00e0 atual sociedade de controle, (in)sustentada por uma \u201cm\u00e1fia financeira\u201d e por bandeiras anacr\u00f4nicas de censura, hipercentraliza\u00e7\u00e3o e controle dos indiv\u00edduos, tal como a quest\u00e3o da pirataria vem mostrando.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><b>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">ABR\u00c3O, E. Y., <b>Direitos do autor e direitos conexos<\/b>. S\u00e3o Paulo: editora do Brasil, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">BOLTANSKY, L. e CHIAPELLO, E., <b>O novo esp\u00edrito do capitalismo<\/b>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">BRANCO, J., <b>R\u00e9ponses a Hadopi: suivi d\u2019un entretien avec Jean-Luc Godard<\/b>. Paris\u00a0: Caprici Editions, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">BURKER, P. e BRIGGS, A., <b>Uma hist\u00f3ria social da m\u00eddia: de Gutemberg \u00e0 Internet<\/b>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">DANTAS, M., \u201cEconomia pol\u00edtica da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o em tempos de internet\u201d. In: <b>Liinc em Revista<\/b>, v.8, n.1, mar\u00e7o, 2012, Rio de Janeiro, p 283-307.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">DELEUZE e GUATTARI, <b>Mil Plat\u00f4s. Capitalismo e esquizofrenia<\/b>. Vol. 5. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LATOUR, B. e CALLON, M., \u201c\u00a1No calcular\u00e1s! O c\u00f3mo simetrizar el don y el capital\u201d. <b>Revista Athenea Digital<\/b>, vol. 11 (1), mar, 2011, p.171-192.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LAZZARATO, M., <b>As revolu\u00e7\u00f5es no capitalismo<\/b>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">LESSIG, L. <b>Free culture<\/b>. New York, The Penguin Press, 2004. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.free-culture.cc\/freeculture.pdf\">http:\/\/www.free-culture.cc\/freeculture.pdf<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">MARTINS, I. M., \u201cMitos e verdades sobre cinema interativo: o trabalho l\u00fadico de Carlos Caires\u201d. In: <b>Revista Ciberlegenda (Esta\u00e7\u00e3o Transm\u00eddia)<\/b>. n\u00b025, 1\u00b0s, 2012. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.proppi.uff.br\/ciberlegenda\/mitos-e-verdades-sobre-cinema-interativo\">http:\/\/www.proppi.uff.br\/ciberlegenda\/mitos-e-verdades-sobre-cinema-interativo<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">MIGLIORIN, C. e GENARO, E., \u201cA nostalgia da centralidade ou do esvaziamento da pol\u00edtica\u201d. In: <b>Revista Alceu<\/b>, vol.12, n\u00b024, jan-jun, Rio de Janeiro, 2012, p.151-164.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">MIGLIORIN, C.. \u201cPor um cinema p\u00f3s-industrial. Notas para um debate\u201d. In: Revista <b>Cin\u00e9tica<\/b>, fevereiro, 2011. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.revistacinetica.com.br\/cinemaposindustrial.htm\">http:\/\/www.revistacinetica.com.br\/cinemaposindustrial.htm<\/a>. Acesso: 10\/08\/2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">RANCI\u00c8RE, J., \u201cO espectador emancipado\u201d. In: <b>Urdimento &#8211; Revista de Estudos em Artes C\u00eanicas<\/b>. Vol 1, n.15, Udesc, Florian\u00f3polis, out, 2010, p.107-123.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">RIFKIN, J., <b>A era do acesso<\/b>. S\u00e3o Paulo: MakronBooks, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., \u201cAnamn\u00e9sia e hipomn\u00e9sia: Plat\u00e3o, primeiro pensador do proletariado\u201d. In: <b>Revista ARS<\/b>, vol.7, n\u00b013, S\u00e3o Paulo Jan.\/Jun, 2009, p.23-41.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., \u201c<i>Die Aufkl\u00e4rung<\/i> in the Age of Philosophical Engineering\u201d. <b>Confer\u00eancia apresentada no evento WWW2012, 16-20 de abril<\/b>. Artigo dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.iri.centrepompidou.fr\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Stiegler-The-Aufkl%C3%A4rung-x.pdf\">http:\/\/www.iri.centrepompidou.fr\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Stiegler-The-Aufkl%C3%A4rung-x.pdf<\/a>, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., \u00abDe l\u2019\u00e9conomie libidinal \u00e0 l\u2019\u00e9cologie de l\u2019esprit. Entretien avec Fr\u00e9d\u00e9ric Neyrat\u00a0\u00bb. In\u00a0: <b>Revista Multitudes<\/b>, n\u00b024(1), 2006, p.85-95.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., <b>Ce qui fait que la vie vaut la peine d&#8217;\u00eatre v\u00e9cue\u00a0: de la pharmacologie<\/b>. Paris, Flammarion, 2010a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., <b>For a new critique of political economy<\/b>. Cambridge: Polity Press, 2010b.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">STIEGLER, B., <b>La Technique et le temps. Tome 1 : La Faute d\u2019\u00c9pim\u00e9th\u00e9e<\/b>, Paris\u00a0: Galil\u00e9e, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">SAFATLE, V. P., \u201cPor uma cr\u00edtica da economia libidinal\u201d. In: <b>Ide<\/b> (S\u00e3o Paulo), v. 46, p. 27-37, 2008.<\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Agrade\u00e7o ao prof. Cezar Migliorin e a Alex Ribeiro pelas indica\u00e7\u00f5es e leituras cr\u00edticas de meu texto.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> Doutorando em Comunica\u00e7\u00e3o (UFF).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> O \u201cAcordo Comercial Anticontrafa\u00e7\u00e3o\u201d (ACTA, em ingl\u00eas, <i>Anti-Counterfeiting Trade Agreement<\/i>). Ver em: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anti-Counterfeiting_Trade_Agreement\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anti-Counterfeiting_Trade_Agreement<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> Os autores BOLTANSKY e CHIAPELLO (2009, p.326) realizaram um grande e indispens\u00e1vel estudo para compreender a muta\u00e7\u00e3o da forma de explora\u00e7\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo. Uma nova hip\u00f3tese foi avaliada a partir da \u201ca ideia de que a no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o<b> <\/b>\u00e9 pertinente sobretudo em refer\u00eancia a <i>uma forma de explora\u00e7\u00e3o que<\/i> <i>se desenvolve num mundo conexionista, <\/i>ou seja, num mundo no qual a realiza\u00e7\u00e3o<b> <\/b>do lucro passa por atividades em rede\u201d. Para eles, a \u2018imobilidade de uns \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 mobilidade de outros\u2019, uma vez que isto representa o diferencial em um <i>mundo <\/i>no qual o maior valor est\u00e1 em assegurar \u2013 o melhor poss\u00edvel \u2013 a capta\u00e7\u00e3o, uso e controle das <i>informa\u00e7\u00f5es<\/i> produzidas no tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0 <a href=\"http:\/\/hadopi.fr\/\">http:\/\/hadopi.fr\/<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0 <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Stop_Online_Piracy_Act\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Stop_Online_Piracy_Act<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0 <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/PROTECT_IP_Act\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/PROTECT_IP_Act<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref8\">[8]<\/a> <a href=\"http:\/\/elysee.blog.lemonde.fr\/2012\/01\/24\/hadopi-sarkozy-accuse-la-gauche-de-vouloir-reserver-a-la-culture-le-meme-modele-que-la-finance\/\">http:\/\/elysee.blog.lemonde.fr\/2012\/01\/24\/hadopi-sarkozy-accuse-la-gauche-de-vouloir-reserver-a-la-culture-le-meme-modele-que-la-finance\/<\/a>. Em not\u00edcia do mesmo dia 24\/01\/2012, o primeiro-ministro da Pol\u00f4nia, Donald Dusk, realizava tamb\u00e9m um pronunciamento com o mesmo teor: \u201cN\u00e3o haver\u00e1 concess\u00e3o \u00e0 chantagem brutal [dos manifestantes contra o acordo antipirataria]\u201d (ver em: <a href=\"http:\/\/tecnologia.terra.com.br\/noticias\/0,,OI5575829-EI12884,00-ACTA+poloneses+vao+as+ruas+protesta+contra+acordo+antipirataria.html\">http:\/\/tecnologia.terra.com.br\/noticias\/0,,OI5575829-EI12884,00-ACTA+poloneses+vao+as+ruas+protesta+contra+acordo+antipirataria.html<\/a>).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref9\">[9]<\/a> A partir de Simondon, o fil\u00f3sofo Bernard STIEGLER (2009) explica que o conceito remete \u00e0s constru\u00e7\u00f5es e passagens do \u201ceu\u201d para o \u201cn\u00f3s\u201d, isto \u00e9, remete \u00e0s individua\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e coletivas. Elas se encontram sempre em meta-estabilidades e inescapavelmente se realizam por meio dos <i>millieu<\/i> tecnol\u00f3gicos de cada \u00e9poca.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref10\">[10]<\/a> <a href=\"http:\/\/machines.pomona.edu\/190-2006\/node\/542\/index.html\">http:\/\/machines.pomona.edu\/190-2006\/node\/542\/index.html<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref11\">[11]<\/a> Sarkozy, na mesma declara\u00e7\u00e3o citada, acusava aqueles que t\u00eam medo de \u201ccontrariar os jovens\u201d e reduzia a quest\u00e3o do compartilhamento digital grupos de mafiosos e oportunistas.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref12\">[12]<\/a> Contemos um pouco de paleo-hist\u00f3ria. A <i>individua\u00e7\u00e3o <\/i>e <i>concretiza\u00e7\u00e3o<\/i> deste objeto t\u00e9cnico tiveram uma das hist\u00f3rias mais fascinantes, em seus prim\u00f3rdios. Ele teve origem a partir do aparecimento dos teares de Jacquard &#8211; tecnologia do cart\u00e3o perfurado \u2013, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial na Inglaterra; avan\u00e7ou tempos depois para o car\u00e1ter de uma <i>m\u00e1quina \u2013<\/i> tecnologia de v\u00e1lvulas e transitores &#8211; que se chamou Eniac (e outros nomes que competiam), durante a fase de descoberta da cibern\u00e9tica e em meio a sua fun\u00e7\u00e3o militar de c\u00e1lculo das bombas que caiam na Segunda Guerra Mundial. Durante a Guerra Fria, transforma-se em um ve\u00edculo que coaduna constantemente os espa\u00e7os urbano e militar. A especificidade do digital e a infinidade de artefatos gerados a partir de ent\u00e3o vieram a transformar para sempre o modo como constru\u00edmos e lidamos com o conhecimento e informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref13\">[13]<\/a> <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/ARPANET\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/ARPANET<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref14\">[14]<\/a> \u00c9 uma fra\u00e7\u00e3o enorme, na ordem de 2,2 bilh\u00f5es, a partir de 2013 (segundo pesquisa da Forrester <i>Research<\/i> &#8211; <a href=\"http:\/\/news.cnet.com\/8301-1023_3-10291796-93.html\">http:\/\/news.cnet.com\/8301-1023_3-10291796-93.html<\/a>) &#8211; e que atinge, de uma maneira direta ou indireta, a outra fra\u00e7\u00e3o enorme dos n\u00e3o-conectados.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref15\">[15]<\/a> Que n\u00e3o se confunda hoje estas rela\u00e7\u00f5es entre homens e tecnologia com as ideias de determinismo tecnol\u00f3gico, de \u201cdominantes\u201d e \u201cdominados\u201d, correntes no s\u00e9culo XX. Veremos mais a frente com escapar de tal entendimento.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref16\">[16]<\/a> <a href=\"http:\/\/idgnow.uol.com.br\/internet\/2012\/01\/24\/brasil-e-o-segundo-pais-que-mais-acessa-o-megaupload\/\">http:\/\/idgnow.uol.com.br\/internet\/2012\/01\/24\/brasil-e-o-segundo-pais-que-mais-acessa-o-megaupload\/<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref17\">[17]<\/a> Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, com a emerg\u00eancia de um mercado de consumo e de tecnologias de impress\u00e3o, houve um est\u00edmulo para que se definisse a propriedade intelectual na figura de um indiv\u00edduo, proibindo a aberta cultura do pl\u00e1gio e das impress\u00f5es n\u00e3o oficializadas. Nesta regulamenta\u00e7\u00e3o, o privil\u00e9gio e os lucros econ\u00f4micos do controle das obras foram assegurados para os livreiros e n\u00e3o aos autores. A dimens\u00e3o pol\u00edtica, que relacionou o Estado e os livreiros, garantia tamb\u00e9m um ganho por parte dos Estados, por meio de royalties, impostos etc. (ABR\u00c3O, 2002; BURKER e BRIGGS, 2002).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref18\">[18]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.slate.fr\/story\/4411\/hadopi-attali-internet-parlement-gouvernement-dix-propositions\">http:\/\/www.slate.fr\/story\/4411\/hadopi-attali-internet-parlement-gouvernement-dix-propositions<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref19\">[19]<\/a> <a href=\"http:\/\/fr.readwriteweb.com\/2009\/01\/20\/a-la-une\/rapport-gouvernement-hollandais-conclu-impact-positif-p2p-economie\/\">http:\/\/fr.readwriteweb.com\/2009\/01\/20\/a-la-une\/rapport-gouvernement-hollandais-conclu-impact-positif-p2p-economie\/<\/a><span style=\"text-decoration:underline\">.<\/span> Ainda, dois autores franc\u00f3fonos merecem neste sentido men\u00e7\u00f5es aqui: Juan BRANCO, em \u201cR\u00e9ponses a Hadopi: suivi d\u2019um entretien avec Jean-Luc Godard\u201d (2011) e outro de Jean-Louis SAGOT-DUVAUROUX, \u201cDe la gratuit\u00e9\u201d (2006). Godard, por sinal, j\u00e1 havia corajosamente afirmado sua posi\u00e7\u00e3o, em entrevista de 2010: \u201cEu sou contra a Hadopi, \u00e9 claro. N\u00e3o existe propriedade intelectual. Sou contra a heran\u00e7a (das obras), por exemplo. Os filhos de um artista deveriam se beneficiar dos trabalhos do pai at\u00e9, digamos, que atinjam a maioridade. Depois disso n\u00e3o \u00e9 claro para mim porque os filhos de Ravel devem receber qualquer renda pelo Bolero\u201d (<a href=\"http:\/\/www.noticiasriobrasil.com.br\/?p=8049\">http:\/\/www.noticiasriobrasil.com.br\/?p=8049<\/a>).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref20\">[20]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.mobilizacultura.org\/2011\/05\/13\/107\/\">http:\/\/www.mobilizacultura.org\/2011\/05\/13\/107\/<\/a>. MIGLIORIN (2011), pensando o \u201ccinema p\u00f3-industrial\u201d, nota a pertin\u00eancia do problema: \u201cO que acontece hoje \u00e9 que essa multid\u00e3o que \u00e9 consumidora e produtora, dispersa e incontrol\u00e1vel, n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ter a ind\u00fastria como norte. Ou seja, o que ela produz e consome ganha valor na circula\u00e7\u00e3o e no acesso abundante em um ambiente em que os meios t\u00e9cnicos, criativos e de acesso est\u00e3o dispon\u00edveis. Sem uma pol\u00edtica de estado, ela pode diminuir, mas n\u00e3o \u00e9 destrut\u00edvel, como o cinema foi um dia. Sem uma pol\u00edtica de estado, alguns ser\u00e3o levados \u00e0 ind\u00fastria e funcionalizados, como se uma outra presen\u00e7a social do cinema n\u00e3o fosse poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref21\">[21]<\/a> Ver o livro de Jeremy Rifkin, \u201cA era do acesso\u201d (S\u00e3o Paulo: MakronBooks, 2001).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref22\">[22]<\/a> De certa forma, \u00e9 um processo que demarca uma <i>dessublima\u00e7\u00e3o repressiva<\/i> (tal como classicamente havia conceituado Herbert Marcuse, mas agora a partir da gramatiza\u00e7\u00e3o digital). A \u2018libera\u00e7\u00e3o\u2019 que a individua\u00e7\u00e3o ps\u00edquica recebe permanece acoplada aos controles neuropol\u00edticos dos desejos e necessidades, que ajustam a consci\u00eancia dos indiv\u00edduos em um plano de n\u00e3o-autonomia.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref23\">[23]<\/a> A todo o momento o capitalismo sem\u00e2ntico do site Google est\u00e1 re-organizando seu banco de dados por meio de programas algor\u00edtmicos. Os clics e digita\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios s\u00e3o logo transformados em \u201couro\u201d, na medida de em que seus programas revertem para modular os <i>page ranks<\/i>, <i>trademarks<\/i> e at\u00e9 da explora\u00e7\u00e3o indut\u00f3ria do <i>autocomplete<\/i> (<a href=\"http:\/\/fkaplan.wordpress.com\/2011\/09\/07\/google-et-le-capitalisme-linguistique\/\">http:\/\/fkaplan.wordpress.com\/2011\/09\/07\/google-et-le-capitalisme-linguistique\/<\/a>).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify\"><a title=\"\" href=\"\/Documents%20and%20Settings\/Edineipc\/Desktop\/BLOG_Artigo_Genaro,%20Ednei_Coneco%20-%202012.docx#_ftnref24\">[24]<\/a> \u201cAssim como n\u00e3o pode haver um disco para ser prensado, se n\u00e3o houver o trabalho art\u00edstico do cantor, tamb\u00e9m n\u00e3o pode haver autom\u00f3vel para ser montado, se n\u00e3o houver o trabalho de projeto, desenho, inclusive marketing, trabalho material s\u00edgnico por excel\u00eancia, das inst\u00e2ncias de cria\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria automobil\u00edstica. E assim como, nas condi\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria cultural conforme ela se constituiu ao longo do s\u00e9culo XX, n\u00e3o haver\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o do valor econ\u00f4mico, acumula\u00e7\u00e3o, do trabalho do cantor, se n\u00e3o houver uma ind\u00fastria fonogr\u00e1fica para reproduzir e distribuir milhares de c\u00f3pias registradas da sua voz, atingindo um grande p\u00fablico em um amplo espa\u00e7o, no menor tempo; tamb\u00e9m de nada adiantaria um belo projeto e desenho de autom\u00f3vel, se n\u00e3o existisse uma grande f\u00e1brica com seus oper\u00e1rios, al\u00e9m de todo um sistema de revendas e mais assist\u00eancia t\u00e9cnica e abastecimento, para fabric\u00e1-lo e lev\u00e1-lo at\u00e9 o universo consumidor\u201d (&#8230;) (DANTAS, 2012, p.293).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado no livro \u201cReencontros em Comunica\u00e7\u00e3o (2013)\u201d Refer\u00eancia: GENARO, E. . &#8220;Quem falou em pirataria? Por uma economia da contribui\u00e7\u00e3o&#8221;. In: SALGADO, J. &amp; MAIA, A. &amp; OLIVEIRA, T.. (Org.). Reencontros em Comunica\u00e7\u00e3o. 1ed.Rio de Janeiro: Morula, 2013, v. , p. 1-27. Download (*.pdf):\u00a0Artigo &#8211; &#8216;Quem falou em pirataria &#8211; por uma economia contribui\u00e7\u00e3o&#8217; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16556679,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_seo_schema_type":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[69883530,685081593],"tags":[],"class_list":["post-898","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-2-ensaios-temas-gerais-estudos-esteticos-politicos","category-materialismo-contemporaneo-arqueologia-democracia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p14Xsm-eu","jetpack-related-posts":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16556679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=898"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5710,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898\/revisions\/5710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}