{"id":927,"date":"2013-04-02T17:41:56","date_gmt":"2013-04-02T17:41:56","guid":{"rendered":"http:\/\/maelstromlife.com\/?p=927"},"modified":"2025-09-07T01:51:38","modified_gmt":"2025-09-07T01:51:38","slug":"4-redes-sociais-e-as-mudancas-cognitiva-e-semantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maelstromlife.com\/en\/2013\/04\/02\/4-redes-sociais-e-as-mudancas-cognitiva-e-semantica\/","title":{"rendered":"REDES SOCIAIS E MUDAN\u00c7AS COGNITIVAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>REDES SOCIAIS E MUDAN\u00c7AS COGNITIVAS<\/strong><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/developmentofcognitioncartoon.png\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"i-929\" class=\"wp-image aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/maelstromlife.com\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/developmentofcognitioncartoon.png?resize=341%2C245\" alt=\"Image\" width=\"341\" height=\"245\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A quest\u00e3o acerca dos modos de ver, saber e fazer na internet \u2013 e, em particular, nas redes sociais \u2013 desdobra-se tamb\u00e9m em um significativo debate sobre as altera\u00e7\u00f5es cognitivas que dela decorrem. Como sabemos, a midiatiza\u00e7\u00e3o por meio de blogs, microblogs, chats, posts, links etc. nos proporciona novos impulsos para a produ\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e pensamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fundamentalmente, as novas formas de produ\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e saber, caracterizadas pela instantaneidade, imprevisibilidade, efemeridade, velocidade, traceabilidade etc., criaram novas subjetividades nos corpos. Alteraram-se as formas de desempenho e as atividades essenciais dos humanos: seus trabalhos de mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio. Ora, o virtual produziu outras formas de compreender a consist\u00eancia do humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O esclarecimento sobre isso come\u00e7ou nos horizontes da fenomenologia e do p\u00f3s-estruturalismo (vide Husserl, Heidegger; Deleuze, Derrida). Terminantemente, quanto mais a materialidade ultrapassou os \u201climites do vis\u00edvel\u201d, ou quanto mais a performatividade da vida passou a ser agenciada por atribui\u00e7\u00f5es maqu\u00ednicas, mais se tornou significativa, para o pensamento filos\u00f3fico e pol\u00edtico, a tese de que os objetos t\u00e9cnicos s\u00e3o, essencialmente, uma quest\u00e3o de \u201cexterioriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d humana. Nota-se uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre t\u00e9cnica e homem \u2013 exposta pelo fascinante conceito de <em>hypomnesis<\/em> e <em>anamnese<\/em> entre os gregos \u2013, que hoje, como dissemos no post anterior, evidencia a relev\u00e2ncia do pensar organol\u00f3gico, de \u201ccomposi\u00e7\u00e3o\u201d. Isso altera, enfim, profundamente, proposi\u00e7\u00f5es fundantes da sociologia moderna, colocando novas no\u00e7\u00f5es e temas (sobre isso, ver, por exemplo, o livro <em>Technique et Temps<\/em>, vol.1, de Stiegler; <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/arsindustrialis.org\/glossary\" target=\"_new\" rel=\"noopener\">http:\/\/arsindustrialis.org\/glossary<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De tal forma, a problem\u00e1tica das mudan\u00e7as sem\u00e2nticas e cognitivas vem sendo colocada assim: os seres humanos (e as m\u00e1quinas) se expressam por meio de linguagens. Assim, as constru\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas e cognitivas est\u00e3o intimamente ligadas, uma vez que o processamento das informa\u00e7\u00f5es passa pela cogni\u00e7\u00e3o humana. Propriamente, a categoriza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es ou da realidade (as ordena\u00e7\u00f5es e discretiza\u00e7\u00f5es espa\u00e7o-temporais dos objetos e fen\u00f4menos, a formula\u00e7\u00e3o de problemas e suas resolu\u00e7\u00f5es) constitui-se por mecanismos cognitivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No contexto contempor\u00e2neo, as revolu\u00e7\u00f5es nas formas de produ\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es evidenciaram a crise da cultura do livro. A experi\u00eancia tecnol\u00f3gica da leitura de um livro \u2013 isto \u00e9, sentar-se e folhear linearmente as p\u00e1ginas de um objeto retangular segmentado e numerado em pap\u00e9is \u2013 selecionava um tipo especial de cogni\u00e7\u00e3o (de h\u00e1bito mental ou aten\u00e7\u00e3o). Essa pr\u00e1tica sujeitava o indiv\u00edduo a um tipo de concentra\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o (pense-se nas reflex\u00f5es de Marcel Proust a respeito; talvez a ocasi\u00e3o mais elevada, pois inserida em um elogio melanc\u00f3lico, vislumbrando a crise).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A leitura pela estrutura tecnol\u00f3gica do livro: eis um dos h\u00e1bitos mais valorizados do Ocidente, do humanismo ocidental\u2026 Na experi\u00eancia da leitura, a produ\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio coincidia com uma singularidade ou subjetividade forte (a interioridade do \u201ceu\u201d). Costuma-se dizer que a subjetividade, nos termos da \u201ccultura do livro\u201d, conforma um indiv\u00edduo com decis\u00f5es \u201carquitet\u00f4nicas\u201d, projetos de vida e criatividades voltadas para a constru\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d ou para a realiza\u00e7\u00e3o dos problemas \u201cpor si mesmo\u201d. Certamente h\u00e1 tanto grandes elogios quanto grandes cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o a essa consist\u00eancia humana. Quanto aos elogios, permita-me uma observa\u00e7\u00e3o: parece ser cada vez mais raro encontrar pensadores com a carga liter\u00e1ria, pol\u00edtica e filos\u00f3fica que t\u00ednhamos at\u00e9 o s\u00e9culo XX. Como dizia Deleuze, um grande pensador \u00e9, antes de tudo, um grande escritor \u2013 e isso talvez explique a raridade. O que perdemos com isso? N\u00e3o sei. Contudo, no plano pol\u00edtico e na realidade hist\u00f3rica, sabemos que esse tipo de vida acabou sendo elitista, reservado a muito poucos, n\u00e3o evitando as consequ\u00eancias dr\u00e1sticas e at\u00e9 apocal\u00edpticas, se avaliarmos o s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa discuss\u00e3o, de pondera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, \u00e9, por\u00e9m, de extrema pertin\u00eancia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as cognitivas e sem\u00e2nticas provocadas pelas redes sociais, ela tem se mostrado um divisor de \u00e1guas. Nicholas Carr \u00e9 um autor que enfrentou tal discuss\u00e3o, apresentando apontamentos cr\u00edticos a respeito. Exp\u00f5e as \u201cang\u00fastias\u201d vividas pelas novas consist\u00eancias humanas em ambientes hiperconectados. Para ele, nesses ambientes, a regra geral \u00e9 que as pessoas fiquem presas a um universo de fragmenta\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, ou seja, contr\u00e1rias a uma constru\u00e7\u00e3o \u201carquitet\u00f4nica\u201d. Os indiv\u00edduos afogados nas informa\u00e7\u00f5es e nos zappings digitais permanecem na \u201cinconst\u00e2ncia de projetos\u201d, ficando expostos a uma sobrecarga cognitiva e \u00e0 perda da capacidade de aten\u00e7\u00e3o \u201cprofunda\u201d, que levaria a melhores capacidades de reflex\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o. A intelig\u00eancia cognitiva, nesses termos, estaria mais pr\u00f3xima de uma produtividade ligada aos estados de \u201calerta\u201d e \u201cvigil\u00e2ncia\u201d. Aqui, \u00e9 not\u00e1vel a rea\u00e7\u00e3o de Carr a essas produtividades \u201csuperficiais\u201d: \u201ca leitura profunda, que se efetivava naturalmente, tornou-se um combate\u201d (no livro <em>The Shallows<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Do mesmo modo que K. Hayles, autora do artigo \u201cHyper and Deep Attentions\u201d, Carr tende a estabelecer uma cis\u00e3o profunda entre dois modos de cogni\u00e7\u00e3o: a \u201cprofunda\u201d e a \u201chiperestimulada\u201d. Encaminhando uma cr\u00edtica da cultura contempor\u00e2nea a partir de uma dicotomia inconcili\u00e1vel, pode-se ficar diante de uma decis\u00e3o dif\u00edcil e anacr\u00f4nica: resistir \u00e0 vida hiperconectada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Acredito que n\u00e3o vale a pena basear-se em pesquisas neurocient\u00edficas e psicol\u00f3gicas de cunho fortemente determinista. Se o c\u00e9rebro \u00e9 dotado de plasticidade, h\u00e1, sem d\u00favida, capacidade para conviver com os dois modos de trabalho cognitivo. N\u00e3o estou convencido de que um elimina o outro. O cotidiano \u00e9 cheio de trabalhos cognitivos diferentes. As serendipidades e flutua\u00e7\u00f5es dos momentos de hiperconectividade n\u00e3o podem coexistir com momentos de \u201cdepura\u00e7\u00e3o meditativa\u201d em torno de um \u00fanico fen\u00f4meno ou objeto? Afinal, levando o argumento a outros campos, quem pratica esportes como t\u00eanis de mesa ou joga videogames \u2013 ou seja, quem exerce atividades de alta estimula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e multitarefas \u2013 ficar\u00e1 impedido de ler um texto de Heidegger? Penso que sempre existam espa\u00e7os para diferentes tipos de trabalho cognitivo, que podem ser complementares. Contudo, a quest\u00e3o maior parece residir tanto na educa\u00e7\u00e3o que se deve oferecer quanto nas estruturas das redes sociais que estamos construindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esses dois \u00faltimos pontos \u2013 educa\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o das redes \u2013 s\u00e3o preciosos e de grande valor para o debate. O momento de crise da \u201ccultura do livro\u201d \u00e9, evidentemente, tamb\u00e9m o da \u201ccrise da escola\u201d. Como evitar um ambiente baseado em atividades intensamente perform\u00e1ticas? \u00c9 preciso refletir e atribuir caminhos para essas quest\u00f5es; caso contr\u00e1rio, corre-se o risco de apenas louvar inocentemente o modo hiperconectado, sem perceber o quanto ele satisfaz, simultaneamente, o controle das subjetividades na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cabe lembrar que Michel Serres, em seu \u00faltimo livro, <em>Petite Poucette<\/em>, elogia a nova gera\u00e7\u00e3o que surgiu com a conectividade. Seu livro \u00e9 instigante, e salta aos olhos que um homem da idade de Serres fale com tanta naturalidade sobre um assunto t\u00e3o contempor\u00e2neo. Contudo, seu declarado otimismo amortiza um discurso no qual se evidencia que este mesmo momento de \u201clibera\u00e7\u00e3o\u201d vem acompanhado de cerceamentos, e que a crise vivida pela institui\u00e7\u00e3o escolar deve ser pensada exatamente nesses termos (para uma cr\u00edtica desse ponto em Serres, ver: <a class=\"decorated-link\" href=\"http:\/\/skhole.fr\/petite-poucette-la-douteuse-fable-de-michel-serres\" target=\"_new\" rel=\"noopener\">http:\/\/skhole.fr\/petite-poucette-la-douteuse-fable-de-michel-serres<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O contempor\u00e2neo aponta para um horizonte no qual o futuro poss\u00edvel da internet \u00e9 uma luta pol\u00edtica que passa por formas mais plurais de constru\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o das estruturas algor\u00edtmicas e, consequentemente, de viv\u00eancias cognitivas diversas, menos compulsivas. Vivemos a tens\u00e3o deste momento hist\u00f3rico.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>REDES SOCIAIS E MUDAN\u00c7AS COGNITIVAS A quest\u00e3o acerca dos modos de ver, saber e fazer na internet \u2013 e, em particular, nas redes sociais \u2013 desdobra-se tamb\u00e9m em um significativo debate sobre as altera\u00e7\u00f5es cognitivas que dela decorrem. 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