VIDA NO MAELSTRÖM (2010-2026)

Arqueologia¬EDUCAÇÃO¬TECNOLOGIA¬Episteme

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SOBRE O MAELSTRÖM

Na língua neerlandesa, o substantivo maelström deriva de malen (moer) e stroom (corrente), designando a formação de grandes turbilhões marítimos recorrentes no Atlântico Norte, especialmente nas zonas limítrofes entre o Atlântico e o Ártico. Em 1841, Edgar Allan Poe publica A Descida no Maelström, onde o fenômeno assume a forma de uma parábola.

Três irmãos marinheiros pescam regularmente nas imediações de um maelström na costa da Noruega, atraídos pela abundância de peixes em torno do vórtice. Durante uma tempestade, são surpreendidos pela formação súbita de um gigantesco redemoinho marítimo. O irmão mais novo desaparece no caos inicial, enquanto os outros dois são capturados pela força do fenômeno. Diante do espetáculo aterrador do maelström, o irmão mais velho sucumbe progressivamente ao pânico e à desorientação, sendo arrastado em direção ao centro do abismo.

O irmão do meio – narrador da história – atravessa inicialmente o mesmo terror, mas, em vez de permanecer paralisado, passa a observar atentamente o comportamento do vórtice. Em meio ao caos, percebe que corpos cilíndricos resistem por mais tempo à sucção do redemoinho. A partir dessa observação, abandona os destroços da embarcação e se prende a um barril que flutuava nas proximidades.

A sobrevivência não resulta da força física nem do acaso, mas da capacidade de interpretar o próprio movimento do caos. Quando o maelström finalmente perde intensidade, o narrador retorna à terra firme transformado pela experiência – como alguém que atravessou uma disrupção extrema e dela extraiu uma forma de conhecimento.

MAELSTRÖM COMO FIGURA DO CONTEMPORÂNEO

Marshall McLuhan lê o maelström como imagem das mutações técnicas e perceptivas da cultura. Em The Gutenberg Galaxy (1962), formula a questão: “Não seria nossa tarefa na nova era eletrônica estudar a ação do novo vórtice no corpo das culturas mais antigas?”. Marcelo Gleiser, em “Descida a um ‘Maelström’ cósmico” (2001), desloca a imagem para a astrofísica, aproximando o turbilhão dos buracos negros, onde o espaço se curva sob intensidades gravitacionais extremas. Norbert Elias, em Envolvimento e alienação (1987), reinscreve o maelström no horizonte da Guerra Fria e da ameaça nuclear como regime de turbulência civilizatória. Bruno Latour, em Descendo à Terra (2018), reconfigura-o como figura do “novo regime climático”, no qual a Terra deixa de operar como fundo estável da ação humana.

APROPRIAÇÃO METODOLÓGICA

De minha parte, a “descida no maelström”, em Poe, tornou-se, desde 2011, uma forma de atenção e leitura operativa do contemporâneo. Algo semelhante ocorre, de modo mais explícito, nos projetos artísticos de longa duração de Aurélien Gamboni e Sandrine Teixido, nos quais o próprio maelström é trabalhado como operador conceitual e dispositivo estético: A Tale as a Tool.

Nesse sentido, o maelström não funciona como metáfora ilustrativa, mas como dispositivo de percepção – um modo de investigação dos meios técnicos contemporâneos marcados por aceleração, crise e reorganização contínua dos regimes de experiência. Foi a partir dessa perspectiva que, em 2010, nomeei este site Maelström Life, concebido como espaço de elaboração de um horizonte filosófico orientador de meus projetos acadêmicos, especialmente uma arqueologia das epistemes educacionais.

DESDOBRAMENTOS INTELECTUAIS

Nesse percurso, dois autores tornam-se centrais como operadores conceituais. Harun Farocki, diante das “imagens do mundo” e a partir da mesa de montagem, fez emergir uma dimensão transindividual da imagem. Sua obra permite pensar uma arqueologia crítica dos dispositivos de visibilidade, educação e trabalho, convocando atenção contínua às formas pelas quais o mundo é produzido e inscrito pelo “olho da história”.

Bernard Stiegler desenvolveu uma “caixa de ferramentas” farmacológica voltada à reconstrução dos cuidados de si e dos outros como núcleo ético-pedagógico da educação. Suas análises das acelerações tecnocapitalistas evidenciam processos de proletarização e desindividuação operados por dispositivos de captura da atenção e reorganização da vida psíquica coletiva.

PROJETO INTELECTUAL

Nesse itinerário, consolida-se meu projeto mais longevo: Arqueologia das Epistemes Educacionais. Nele investigo como as technê tou biou e suas askêsis articulam-se às diversas hypomnemata ao longo da história ocidental. O objetivo é compreender tanto os saberes que estruturaram o passado quanto aqueles capazes de fundamentar novas políticas do cuidado no presente. Procura-se recolher, na cultura material, elementos críticos para repensar educação e vida coletiva diante das dinâmicas contemporâneas de aceleração e instabilidade.

NAVEGAÇÃO

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DOCÊNCIA
PESQUISAS

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Imagem do alto da página: adaptação e tratamento digital da ilustração ao ensaio de Júlio Verne "Edgard Poë et ses oeuvres" (Edgar Poe e suas obras, 1862), desenhada por Frederic Theodore Lix (ou por Yan' Dargent).

Imagem abaixo: Richard Lindner, Boy with Machine (Menino com máquina, 1954) - detalhe.